Natalie Dreyfuss

Crítica | The Flash – 6X12: A Girl Named Sue

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

The Flash segue consistente em sua fase renovada, provando novamente a precisão das mudanças que o time de produção atual tem feito em relação ao modelo da série, especialmente desgastado ao longo das temporadas anteriores. Nosso episódio da vez, A Girl Named Sue, mostra que a nova ordem na casa é capaz até mesmo de entregar a apresentação de uma subtrama há muito tempo anunciada de forma justa, envolvente e — sempre bom — surpreendente!

O leitor que acompanha nossa cobertura da série já deve saber que Ralph Dibny (Hartley Sawyer) é um dos meus personagens favoritos de todo o extenso elenco da série, a versão da CW surpreendentemente tendo conseguido fazer jus ao Homem Elástico dos quadrinhos, mesmo levando em conta as ocasionais derrapadas. Assim, não tem como não admitir que a introdução de Sue Dearbon (Natalie Dreyfuss) não trazia uma carga de expectativa e de justificada apreensão da minha parte, em especial com a recente jogada para escanteio que o personagem de Ralph recebeu ultimamente.

Felizmente, o episódio não desperdiça a ocasião e prova que a estratégia de colocar o núcleo no banco de reservas é sempre válida quando significa explorar de forma legitimamente interessante as narrativas potenciais dos personagens, quando sua vez chegar. Muito mais vale um episódio bom desses do que meia dúzia de aparições reduzindo o Homem Elástico a alívio cômico e/ou contraponto em uma nova DR no Team Flash, não é?

Em termos de roteiro, não consigo pensar em forma mais eficiente de introduzir Sue do que a que tivemos aqui. Ao mesmo tempo em que se presta homenagem às origens da personagem e da relação com Dibny nos quadrinhos originais, temos também uma série de ajustes que a colocam em boa sintonia com essa versão do personagem, resultando em uma química interessante e instantânea. Enquanto, assim como no original, temos o Homem Elástico perseguindo a moça em um comportamento levemente stalker, no twist final  descobrimos que a persecutoriedade não apenas era recíproca e, pior ainda, resultou em uma traição fria e calculista! Esse encaminhamento tornou a personagem instantaneamente mais interessante, introduzindo conflito na subtrama romântica de uma forma que cai perfeitamente bem com o personagem. A dinâmica de Lupin III e Fujiko Mine cai perfeitamente bem para a dupla, e espero que possa ser trabalhada com o ritmo que merece. Não temos pressa em ver o casal “feliz para sempre”, eu quero ver é drama e desgraça (desculpa, Ralph)!

Fora isso, a dinâmica pessoal da dupla também funciona muito bem desde o inicio, valendo-se de diálogos bem escritos, boa atuação e a benção de algo que costumeiramente falta para a série: sutileza. Não é difícil imaginar (e ainda pode muito bem acontecer) uma versão desse episódio recheada de diálogos toscos em que Ralph explica ao espectador o paralelo e as semelhanças entre ele e Sue, roubando a coisa toda de qualquer organicidade. Mesmo o momento breve em que Cecile (Danielle Nicolet) dá as caras para fazer um pouco dessas honras, a coisa funciona bem pois serve de base para um momento comédico bem atuado que entrega o mesmo ponto (a compatibilidade e identificação de Ralph e Sue, mesmo que já suspeitemos dela nesse momento) sem precisar soletrar para nós de forma maçante.

A aventura lupinesca do (ainda não) casal — não bastassem as máscaras, temos até o macacão de couro a la Fujiko da Sue! — acaba em um combate muito bacana contra Ultraviolet (Alexa Barajas), onde ambos conseguem brilhar e, no final das contas, segue até uma pontinha para nosso Velocista Escarlate salvar o dia na hora H. Gostei de absolutamente tudo nessa subtrama, que de quebra conseguiu se encaixar perfeitamente com o restante do arco maior da temporada, que tem conseguido deixar de lado a afobação e o teasing característicos em favor de uma narrativa que, no melhor dos sentidos, parece uma excelente série em quadrinhos se desenvolvendo.

Não dá um belo fôlego renovado acompanhar as ocorrências metahumanas em Central City sem fazer com que tudo gire em torno de alguma ameaça futura pré-determinada com ligações profundas com o passado/futuro de Barry, a Força de Aceleração e os ensinamentos que seus pais deixaram para ele? Com um elenco tão extenso e forte de personagens, é uma injustiça que a série faça menos do que isso, e felizmente estamos tendo um ótimo aproveitamento de personagens que antes acabavam totalmente esmagados pela ladainha narrativa de sempre.

A subtrama de Iris (Candice Patton) e sua duplicata espelhada (podemos combinar de chamar ela de Siri?) continua forte, aproveitando o espaço de tempo alocado para o plot-B para algo muito mais interessante do que o habitual. Construindo uma potencial nova versão do Mestre dos Espelhos, a náufraga especular Eva McCulloch (Efrat Dor), esse núcleo evoca muito bem a aparição anterior do vilão, tomando o tempo para mostrar o truque anterior de se resfriar o espelho não funcionando aqui — provavelmente devido aos poderes que McCulloch adquiriu sem saber. Mais uma vez: não dá pra imaginar a mesma coisa sendo tratada na base do esculacho, com Cisco apenas comentando algo como: “Putz, não dá para congelar o espelho dessa vez porque as leituras de matéria escura ultrapassaram o eixo negativo!”? O quão mais interessante é trazer a continuidade passada de forma orgânica e tomar o tempo para mostrar nossos personagens tentando se virar com o que sabem, ao invés de rechear o caminho do “ponto A” ao “ponto B” da história com um tratado de diálogo expositivo?

A Girl Named Sue é tudo que eu espero de um bom episódio de The Flash: elenco bem explorado de personagens, diálogo afiado, momentos cômicos, sequências de ação, suspense, ausência de plots repetidos de forma canalha e dramalhões desnecessários. Sei que temos que tomar cuidado ao animar com essa série, mas estou cada vez mais caindo nesse novo truque da CW! Sério mesmo, o que poderia acontecer de errado, agora?

Peraí, semana que vem vai ter o quê!? Ah não…

The Flash – 6×12: A Girl Named Sue — EUA, 18 de fevereiro de 2020
Direção: Chris Peppe
Roteiro: Thomas Pound, Lauren Certo
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Hartley Sawyer, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Natalie Dreyfuss, Alexa Barajas
Duração: 43 min.