Marti Matulis

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

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Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

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Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.