Maja Vrvilo

Crítica | Star Trek: Picard – 1X08: Broken Pieces

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Broken Pieces é um episódio que me deixou na dúvida sobre como analisá-lo. Por um lado, ele desnuda exatamente o que há de muito errado nessa temporada inaugural de Star Trek: Picard, mas, de outro, ele consegue, se visto independentemente, cumprir seu objetivo, que é parar, revelar, recapitular e preparar o espectador para o episódio duplo final Et in Arcadia Ego, que irá ao ar uma parte por semana.

Vamos, então, começar pelo que há de negativo ou, melhor dizendo, o que ele representa de negativo para tudo o que veio antes. Sabem os clássicos livros de Agatha Christie, em que ela desenvolve sua história de maneira a levar Hercule Poirot a colocar todos os suspeitos em uma sala para, então, revelar o assassino? Pois bem, Broken Pieces é exatamente o capítulo que aborda a famosa sala. Mas, com todo respeito, os showrunners da série não lambem as botas da sensacional autora britânica e transformaram quase todos os capítulos anteriores, que deveriam levar organicamente à “cena da sala”, em um festival de nostalgia e saudosismo que foi muito além de trazer Jean-Luc Picard de volta de sua aposentadoria.

Como disse mais assertivamente na crítica de Nepenthe, esse olhar para trás é simpático e bem-vindo, mas somente quando ele mantem-se saudavelmente nas beiradas, jamais interferindo pesadamente na narrativa. No entanto, o que vimos em Star Trek: Picard, até agora, foi um desfile incessante de situações forçadas para que velhos personagens voltassem para as telinhas por alguns momentos de forma a matar a saudade de fãs da velha guarda como eu, por exemplo. Mas a grande verdade é que esse vício acabou tomando conta da temporada, corrompendo a história original que começou muito bem e jogando-a para o banco de reserva.

Portanto, esses “pedaços quebrados” do título não formam um todo que se encaixa natural e facilmente, pois eles perderam espaço para pontas de Sete de Nove, de Deanna Troi, de William Riker, de Hugh e assim por diante sem que muito fosse oferecido em termos de efetivo desenvolvimento. E é por isso que o episódio sob comento revela a nudez do rei ao literalmente fazer a tripulação de Picard sentar ao redor de uma mesa para que, então, o quebra-cabeças pudesse ser montado com textos expositivos atrás de textos expositivos. A diferença para as histórias de Agatha Christie é que, em seus livros, o artifício da reunião reveladora é parte orgânica da narrativa na maioria dos casos e, aqui, ao contrário, a explicação do que aconteceu até aqui parece literalmente “cenas dos capítulos anteriores” ou, pior ainda, um momento que subestima a inteligência do espectador e diz algo como “senta aqui para eu te explicar exatamente o que aconteceu até agora, seu burrinho”.

Dito isso – e aí vem o lado bom da coisa toda -, tenho que confessar que Broken Pieces consegue quebrar o arco descendente que acometeu a temporada desde The Impossible Box. E esse resultado é obtido não só pelo retorno de Sete, como também por intermédio da simpática investigação que Raffi empreende na La Sirena depois que o Capitão Rios reconhece Soji e entra em modo de auto-destruição. Sei o que muitos vão dizer: haja conveniência! E é verdade, pois os dois artifícios narrativos que citei dependem que suspendamos nossa descrença e aceitemos o providencial “botão de pânico” que invoca Sete e a mais completa e absurda coincidência que é Rios já ter se deparado com uma “irmã” da androide.

Mas, se entubarmos esses dois atos roteirísticos divinos, a forma como eles são desenvolvidos sacode o episódio, retirando a série do marasmo nostálgico em que ela se encontrava. No Cubo Borg, por exemplo, é simplesmente um deleite ver Sete reativar a parafernália de seus algozes e criar uma “mini-colméia” para enfrentar Narissa, com direito a excelentes efeitos especiais que vão da regeneração do Cubo até a dolorosa defenestração dos XBs em estase. Na La Sirena, a diversão fica por conta dos hologramas de Rios tentando lembrar de onde o capitão lembra de Soji, sob o comando da “inspetora” Raffi. Santiago Cabrera teve poucos momentos para brilhar na temporada, mas, aqui, multiplicado por seis – e cada um com seu jeito e sotaque – o ator encontra um sensacional palco para realmente soltar-se e entregar excelentes e hilárias performances.

Talvez eu tenha que falar um pouco do prólogo que mostra a cerimônia de criação do Zhat Vash, mas prometo ser breve. Esse pequeno “pedaço de informação” cumpre a função muito mais de estabelecer uma ponte que justifique a existência de Ramdha na temporada do que efetivamente trazer algo que não sabíamos. Tudo bem que é interessante que essa visão não é de futuro, mas sim de um passado remoto, há 200 ou 300 mil anos em que uma raça foi aniquilada por suas próprias criações, mas convenhamos que essa historinha sempre eficiente à la Skynet não precisava de algo muito elaborado para funcionar. O que me deixa particularmente cabreiro é que I.A. destruindo o universo foi o mote da segunda temporada de Star Trek: Discovery e se houver conexão com a série-irmã, ela provavelmente cairá de para-quedas, o que é ruim, e, se não houver, a constatação de que há uma crise de originalidade nas equipes responsáveis por Star Trek lá na CBS é uma tristeza.

Com a temporada caminhando para seu final, fica a torcida para a série realmente mostrar a que veio para além do mero saudosismo nerd. Há possibilidade ainda não de recuperação total, mas de uma demonstração definitiva de que Star Trek: Picard não precisa ficar no passado para mostrar que tem futuro.

Star Trek: Picard – 1X08: Broken Pieces (EUA, 12 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan
Duração: 56 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box

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Stardust City Rag foi, em sua essência, um filler cheio de galhofas que se valeu fortemente da nostalgia para reintroduzir Sete de Nove e dar um encerramento à querida personagem de Star Trek: Voyager. Nesse espírito, o episódio acabou funcionando para mim, pois de certa forma nos desviou do que estava dando errado em Star Trek: Picard, ou seja, roteiros que não sabem dosar ação com reflexão e uma estrutura cansativa de montagem de equipe que durou tempo demais. E The Impossible Box é mais uma prova de que falta ritmo à série que tirou Jean-Luc Picard de sua aposentadoria.

Se o episódio anterior não se levou a sério e, por isso, tornou possível aceitar as diversas conveniências que pontilharam a história, aqui acontece justamente o contrário. A narrativa é seríssima e é, para todos os efeitos, o desfecho da “fase um” da série, já que lida com o resgate de Soji por Picard lá no Cubo Borg, agora chamado de O Artefato. Por essa razão é que o roteiro repleto de saídas fáceis cansa demais, começando pela obtenção de uma credencial diplomática em 10 segundos por uma Raffi bêbada pedindo favor a uma agora ex-amiga, parte de um plano mal-ajambrado para justificar a presenta da La Sirena em espaço romulano, continuando com a “sala secreta” com “teletransportador secreto” que faria inveja ao deus ex machina mais conveniente e terminando com a presença heroica de Elnor no momento certo (e que agora pode matar sem sequer ser repreendido, pelo visto…), tudo é construído ao redor de “é assim porque eu quero que seja e que se dane”.

E isso porque eu nem mencionei o caso completamente deslocado – em termos de momento – entre Rios e a Dra. Jurati, com direito até à racionalização ridiculamente excessiva da situação e o fato de que Jean-Luc Picard, chegando abertamente ao Cubo Borg, não atrai a atenção imediata de TODOS os romulanos por ali, que no mínimo deveriam ter colocado seus espiões em peso seguindo o ex-almirante e o canino Hugh. Se espremermos, notaremos que a trajetória de Picard no Cubo é, basicamente, andar, ter lembranças dolorosas, andar, conversar com Hugh e… andar, pois tudo o que interessa acontece ao seu redor sem conexão alguma com ele. Tudo bem que eu mesmo advogo para que nenhum roteiro se engrace e coloque um ator octogenário em sequências de ação, pois isso seria ridículo, mas daí a transformar o que seria ação em um passeio no parque é um pouquinho demais.

Ah, mas alguns dirão que a ação, aqui, ficou por conta da relação de Zarek (só eu que acho esse personagem com constante cara de quem não toma banho há semanas?) com Soji, com o primeiro levando a segunda desavisada – e que convenientemente passa a descobrir em velocidade meteórica que ela não talvez não seja quem é – para um ritual romulano que, você adivinhou, não é nada mais do que “andar” por um caminho desenhado no chão falando sobre seus sonhos. É como um consultório psiquiátrico que troca o divã por mobilidade resultando em algo corrido e, novamente, extremamente conveniente, tudo para que os romulanos finalmente descubram o planeta natal da androide, provavelmente o assunto que ocupará os episódios finais da temporada.

Mas há pontos positivos, claro. Além da presença forte de Patrick Stewart em atuação prazerosa de se assistir, a interação de Picard com Hugh, se vista separadamente, é bem construída e bem estabelecida. Da mesma forma, a música-tema de Star Trek tocando na ponte da La Sirena depois que Raffi consegue as credenciais diplomáticas foi um toque bacana que precisa ser repetido mais vezes. E, finalmente, o ponto principal: esse foi o primeiro episódio da temporada que não usa a nostalgia – para além da presença de Picard, óbvio – como mola mestra.

Nostalgia é algo que, em doses homeopáticas, tende a funcionar muito bem, reunindo gerações diferentes de espectadores. Star Trek: Picard começou fortemente assim, como era de se esperar, mas o problema é que a temporada não havia ainda largado de verdade essa muleta narrativa. The Impossible Box, ao focar inteiramente na história do presente, deixa a nostalgia um pouco de lado e passa a se valer apenas das novas situações e novos personagens apresentados na série. Claro que os problemas que apontei não são magicamente apagados simplesmente porque o roteiro muda de tom nesse aspecto, mas é sem dúvida algo a ser aplaudido, ficando a torcida para que isso continue nos quatro episódios finais.

A 1ª temporada de Star Trek: Picard vai caminhando para seu fim sem ainda dizer a que realmente veio para além de ressuscitar um amado personagem clássico da franquia. Os showrunners parecem por um lado não saber como desvencilhar-se do passado e, por outro, como trabalhar o presente de maneira cadenciada, com roteiros realmente bem estruturados que fujam das soluções tiradas da cartola. Será uma pena se a temporada acabar sem que Jean-Luc Picard retome seu trono de ícone de Star Trek.

Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box (EUA, 27 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Nick Zayas
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List
Duração: 55 min.