Home

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X07: Romeo V. Juliet: Dawn of Justness

plano crítico legend os tomorrow Romeo V. Juliet_ Dawn of Justness

  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Eu simplesmente me recuso a acreditar que uma nave como a Waverider só tenha UM banheiro! Como é possível uma coisa dessas, minha gente? Bom, pelo menos no quesito cômico esse tipo de absurdo gerou duas sequências divertidas, embora forçadas diante da tal questão ‘inacreditável’. A primeira dessas cenas — que abre este episódio maravilhosamente intitulado Romeo V. Juliet: Dawn of Justness — estabelece que estamos realmente diante da partida de Ray Palmer, o Eléktron. O fechamento de mais uma antiga porta para as Lendas.

E que ótima oportunidade para uma saída, fazendo-a como uma “última missão” dramática, hilária e ao mesmo tempo essencial para Ray, não? A presença de Shakespeare aqui traz alguns momentos vergonhosos de caracterização no início, mas isso é tão rápido e tão pequeno diante do restante do episódio que se torna até um pequeno charme. Na primeira parte do episódio o time se divide em duas partes: Charlie e os meminos vão até a taverna onde está o Bardo e Sara e as meninas estão em uma reunião do Book Club na nave, dando as boas-vindas à novata Zari. Pois digam o que disserem, mas a festa do Book Club estava pelo menos umas 156 vezes melhor que a festinha na taverna.

E o mais legal é que a direção de Alexandra La Roche também acompanha essa mudança de espaço e atmosfera, colocando bons momentos de ação em cada uma das “saidinhas”, mas em sequências diferentes, de modo que a montagem mostra sequências sérias e de pura diversão contrastadas com o que acontece no núcleo vizinho. E encaixado no meio dessa duplicidade narrativa — que não trata de assuntos diferentes: é que apenas uma parte da equipe sai para campo na primeira metade do episódio, já que a missão parecia ser inicialmente fácil demais e não havia necessidade de todos fora da nave —  temos Astra novamente em um dilema, o que talvez a faça mudar de ideia em relação à parceria que fechou com Constantine… embora ainda não saibamos quais serão as consequências após ela saber o que é que o mago está procurando.

O que me deixa imensamente feliz em um episódio como esse é como a simplicidade do enredo se junta a algo necessário e importante para a série (realizar logo a saída de alguém que já tinha confirmado a saída) e ao mesmo tempo criar uma partida emocionante e criativa com isso, seguindo a história da temporada. A briga entre Nate e Ray me pareceu um estranho exagero em meio a tudo isso (afinal, estamos falando de dois amigos adultos, um deles recém-casado!), mas ao mesmo tempo compreendi o uso desse exagero pelo roteiro, porque de certa forma combina com a postura bem criançona dos dois melhores amigos aqui.

A primeira peça do ‘Loom of Fate’ foi então encontrada (disfarçada em anel), o adeus de Ray foi oficializado e mais um passo foi dado no misterioso drama entre Constantine e Astra. Quando a coisa é escrita com qualidade, não precisa ser nada complexa e nem épica, não é mesmo? Basta ser um bom drama e que nos traga diversão, como essa lindeza aqui (mista de melancolia) nos trouxe.

Legends of Tomorrow – 5X07: Romeo V. Juliet: Dawn of Justness (EUA, 17 de março de 2020)
Direção: Alexandra La Roche
Roteiro: Ray Utarnachitt, Matthew Maala
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Maisie Richardson-Sellers, Tala Ashe, Jes Macallan, Courtney Ford, Olivia Swann, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Ramona Young, Shayan Sobhian, Sarah Strange, Rowan Schlosberg, Art Kitching, Liam Howe, Riley Orr, Jesse Inocalla, Brett Harris
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X15: The Exorcism of Nash Wells

  •  SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora não desenvolva os ganchos preparados pelo episódio anterior no sentido específico que eu mais esperava (leia-se: com Barry Allen tomando as rédeas da situação pós-morte da Força de Aceleração), The Exorcism of Nash Wells consegue manter a boa qualidade dessa sequência de episódios e exemplificar do que a série é capaz, desde que a produção se esforce minimamente para desenvolver seus potenciais.

O que é legal é que esse episódio mostra aquilo que eu sempre defendo em relação a essas séries da CW: não é nem preciso dispensar o foco dramalhão-motivacional que pauta as produções do canal (voltadas a um público adolescente, imagino — faz tanto tempo que nem sei mais dessas coisas) para tornar a coisa mais palatável para um público mais amplo incluindo, é claro, o nerdão que no fundo preferiria estar assistindo a um bom episódio de desenho ou lendo um gibi do personagem. O capítulo traz, afinal de contas, uma enxurrada de cenas focadas na rememoração de sofrimentos passados e filosofadas profundas dos personagens sobre seu estado emocional. Mas, pelo menos para mim, a coisa funciona por dois motivos: 1. as cenas emergem de maneira orgânica e tem ressonância temática com o foco do episódio (a perda que Nash (Tom Cavanagh) sofreu no passado) e 2. elas não entram no roteiro em detrimento do desenvolvimento das outras subtramas.

Por falar nelas, quantas! Só não digo que a série chega a ter coisa demais acontecendo ao mesmo tempo porque o ritmo do episódio consegue sustentar cada um dos núcleos muito bem, sendo que cada um deles explora terrenos já conhecidos para o público que se mantém firme e forte no seriado até hoje. Fazendo um bom uso tanto da personagem de Cecile (Danielle Nicolet) quanto de várias tecnobugigangas já estabelecidas no passado da série, o resgate psíquico de Nash consegue ter tempo para explorar dramaticamente o seu passado que, embora não tenha me surpreendido, conseguiu me ganhar pela execução bem acabada das reações emocionais dos personagens. As sequências do passado de Nash, além de fazerem crescer o personagem, mostram um pouco do que é perdido em parte com o fim do multiverso — a total liberdade de explorar cenários totalmente distantes da usual Central City.

Na frente de casa, a subtrama envolvendo a Mestra dos Espelhos e sua disputa com o clã de meta-assassinos com poderes de luz (a descrição faz parecer mais maneiro do que de fato é!) trouxe excelentes sequências de ação, com destaque para os efeitos visuais dos poderes de Sunshine (Natalie Sharp). A dinâmica do Team Flash central — Barry, Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker), claro! — consegue sustentar muito bem ambas as histórias da semana, e o Velocista Escarlate consegue bancar duas resoluções heroicas muito bacanas em tempo recorde. Sério, acho que já tivemos sequências de dez episódios que não tiveram um momento sequer para Barry quanto ele teve nos vinte minutos finais desse capítulo.

E isso foi uma virada e tanto, já que no comecinho do episódio eu comecei a perder fé de que continuariam com a boa fase para Barry. Não curti muito a primeira cena de discussão sobre a criação de uma nova Força de Aceleração: aquele é o Barry que pra mim já deu, com um chororô do tipo “Mas a gente precisa fazer isso, gente, não interessa que vocês não saibam, vocês não sabem o que eu to passando! E eu vou usar drogas de aceleração sim, por que, alguma coisa de mal da veio disso?”. Me poupe, vá, seu Allen!

Por sorte, essa sombra do passado não deu mais as caras ao longo do episódio, e a atuação heróica dele nas duas frentes compensou a escorregada mostrando um pouco do Barry ideal: reagindo rápido com soluções inusitadas e, de preferência, sem falar com a voz embargada de choro. Ironicamente, tivemos até uma boa dose de choro no confronto com Thawne — mas, veja bem, choro mesmo, justificado e sustentado de forma orgânica pelo roteiro (e, na medida do possível, pela atuação), e não o chororô daquele momento inicial. Mais do que espantar a assombração acelerativa-negativa de Eobard Thawne, o capítulo consegue dar mais um passo no verdadeiro exorcismo que a série necessita: da caracterização torta que o personagem principal teve que sofrer ao longo dos anos.

The Exorcism of Nash Wells trouxe boas doses de ação, comédia (Cecile se preparando para o exorcismo / nocauteando Wells com um tabuleiro de Ouija!) e — claro — altas doses de personagem. Embora essa mistura tenha dado as caras de forma constante em toda a história da série até hoje, a fase atual tem conseguido fazer a mistura funcionar de forma mais empolgante e intensa, servindo aos personagens e ao enredo com desenvolvimentos orgânicos cujo payoff acontece no tempo de exibição mesmo. Uma história onde o Team Flash derrota Thawne mais uma vez é mil vezes mais interessante do que “teaser nº 16 do retorno do vilão no final de temporada”, e felizmente é o que tivemos aqui.

The Flash – 6×15: The Exorcism of Nash Wells — EUA, 17 de março de 2020
Direção: Eric Dean Seaton
Roteiro: Lauren Barnett, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Victoria Park, Kayla Compton, Patrick Sabongui, Natalie Sharp
Duração: 43 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | The Walking Dead – 10X12: Walk With Us

10x12-Walk-With-Us-Mary-the-walking-dead plano crítico TV

Não aguento mais isso.

A grande dificuldade de analisar séries como um todo é a possibilidade de tudo ser posto a perder em uma temporada (como pra mim foi o caso da última de Game of Thrones), por isso costuma-se analisá-las dentro do recorte da temporada, que mesmo bem encaminhada, também pode ser terrivelmente prejudicada por apenas um episódio, principalmente quando esse marca um momento decisivo das ações. Infelizmente, Walk With Us se enquadra nessa definição, um episódio “grande” que arrega em escala e toma escolhas no mínimo questionáveis dentro do panorama final do arco dos sussurradores, consequentemente, afeta diretamente vários bons elementos quase consolidados na temporada e não faz valer a sua construção até aqui, principalmente por parte dos três últimos singelos episódios.

O principal problema começa nas vias orçamentárias. Fica difícil decifrar o motivo, mas desde meados da 7ª Temporada, a queda de investimento por episódio era gritante e a série se tornava cada vez mais “feia” do ponto de vista técnico, mesmo sendo naquele período, ainda com a queda de audiência, uma das séries mais lucrativas do momento. Parecia uma falta de culhões não arriscar na série em meio ao decrescente público, contudo com Angela Kang assumindo como showrunner, na prática a produção passou a correr mais riscos no roteiro, experimentando diversos métodos diferenciados para tentar conquistar novamente o telespectador, com o agravante de perda e desvio de elenco constantes para se resolver.

Então, se desde a 9ª Temporada esses riscos vêm sendo tomados, a única justificativa plausível para essa baixa grana investida seria a maior extração de lucros possível para compensar a queda de público, o que acaba sendo um tiro no pé, porque quando se pode entregar momentos de grande escala, que fizeram os picos de audiência no passado, não há investimento e eles precisam ser desviados de forma artificial e sem peso na narrativa, perdendo o pouco de público casual que ainda acompanha.

Pois bem, todo esse desabafo válido para esse período mencionado foi para começar a demonstrar a minha indignação de “A Batalha de Hilltop” não ter nem acontecido. O gancho cirúrgico de Morning Star foi absolutamente inútil, porque o episódio o engole em elipse e mostra os personagens basicamente prontos para fuga e Hilltop caída em míseros 5 minutos de uma batalha (mostrada na íntegra em promo da semana) fechada em planos, e ao mesmo tempo, contemplativa em câmera lenta com fins previamente estabelecidos. Além de esvair todo o senso de temor colocado pelo episódio anterior, abusando da suspensão de descrença (como eles conseguiram sair daquela situação? Pouco importa? Não é assim, TWD…), as decisões tomadas durante o episódio orquestram arcos de forma tão protocolar que desvincula qualquer importância que eles poderiam ter.

Por exemplo, separar os personagens “pós-batalha” é algo que já foi feito na 4ª Temporada, depois da guerra com o governador, só que dentro de um período bem mais longínquo, o que elaborava um panorama tranquilo para desenvolver os personagens e extrair o máximo do desespero por eles estarem tão distantes uns dos outros. Mesmo que o recorte aqui seja mais curto e com um destino certo, geograficamente não há qualquer sentido porque a horda gigante de zumbis que destruiu Hilltop não sumiu do nada (ou melhor, sumiu porque o roteiro “precisava”), e se houvesse o investimento necessário, ela continuaria perseguindo cada personagem ali mostrado para dar continuidade minimamente à urgência que deveria ser aquela situação. 

Tudo bem, não “houve” orçamento para fazer isso, aí sim, seria uma ótima hora de implementar uma elipse, colocando os personagens bem mais à frente e em território já próximo a Alexandria, justificando não haver zumbis por perto. Contudo, a outra forma como o roteiro tenta contornar a falta de tensão de perigo próximo, que seria a procura das crianças que em teoria fugiram com Ezequiel, quebra esse raciocínio, já que ele não se encontrava no ponto combinado com Daryl e ainda estava preso em Hilltop, onde rapidamente Daryl o encontra embaixo dos escombros e mais rapidamente ainda volta quando as crianças são encontradas.

Podem ter ocorrido várias elipses temporais e geográficas aí? Sim, mas a montagem é tão desorganizada que não elabora esses saltos com coerência e os move inteiramente por conveniência. Confirmando o sumiço protocolar das linhas de força zumbi, Negan e Alfa passeiam sozinhos pelo campo de mortos pós-batalha, abrindo-se um com o outro de forma inescrupulosa, desenhando expositivamente o grande acontecimento de antemão esperado entre os dois graças às HQs. Sendo precoce como o roteiro, afirmo que a morte dela e de Gama como fato isolado é deveras impactante, principalmente pensando em não ser episódios de meio ou final de temporada, contudo, na prática, na construção da temporada elas não fazem tanto sentido pelas amarras preguiçosas. Indo por partes, Gama e Alden na disputa com o sobrinho não foi algo bem elaborado no episódio anterior para ser nesse, só para a morte de Gama ter o pensamento “Poxa, ela finalmente conseguiu fazer as pazes com ele, iria poder curtir a sobrinha, mas acaba morrendo”, sério? 

Parando para pensar, essa intriga inicial é incoerente com o próprio Alden, visto que ele era o Salvador e foi perdoado, pelo histórico, ele deveria ter demonstrado compaixão logo de cara, mas não, fez frescura que acabou matando a mulher nas mãos de Beta, que também ficou de frescura ao se expor em terreno aberto somente para ter o prazer de humilhar Gama esperando que ela virasse zumbi para levá-la a Alfa e mostrar o quanto ele é obediente. Sorte dele que Alden é tão desprovido de inteligência que ao invés de acertar uma flechada nele, preferiu acertar em Gama para ela ter uma morte “digna”, mas convenhamos senhor Alden, dava para você ter feito os dois, não? E as conveniências nas mortes não valem só para os sussurradores, pois Earl também foi morto neste episódio possivelmente pelo mesmo zumbi fracote que mordeu o Carl, porque pense numa mordida fraca que parecia mais uma humana normal, cadê os maquiadores para arrancar um toco de braço daquele rapaz?

Enfim, mesmo sendo absolutamente terciário, o melhor momento do episódio o envolve junto a Judith, forçada a matá-lo para proteger o restante das crianças figurantes que estavam ali, um dos poucos momentos delicados da direção de Greg Nicotero, que com o auxílio da ótima atriz mirim Cailey Fleming, acertou ao menos em um micro desenvolvimento do episódio. Comentando os outros, Magna retorna sozinha após o evento na caverna, no meio da manada da batalha de Hilltop, sem mostrar como ela chegou até ali, apenas contando verbalmente, e a gente que acredite nela, sem qualquer sentimento de desespero para incentivar o pessoal a ligeiramente começar a procura pela amiga, ou remorso de Carol, apesar do que ela fez. Carol que era a mulher personagem possível (só que não) para dar o passe livre para Eugene ir em busca do amor de sua vida, na conversa mais sentimentalmente brega da temporada. 

Pior que isso só a revelação final de que na verdade ela estava orquestrando o plano com Negan desde o princípio, um twist bacana do ponto de vista fandom, mas extremamente incoerente diante do seu arco dramático na temporada. Quer dizer então que todas aquelas decisões irracionais eram teatrinho? E que no fundo ela sabia o que estava fazendo e era só para enrolar e dar tempo de Negan matar Alfa? Puxando os outros episódios, com muita suspensão de descrença dá para dizer que sim, já que ela iria levar Lydia para Alfa e de alguma forma tentar matá-la lá com o Negan, mas para que isso fizesse sentido, era necessário mais tempo, até para Negan ter a confiança de Alfa para fazer o serviço. Ou seja, essa amarra, além de completamente jogada, faz com que todos os meus elogios ao retorno do emocional desamparado da personagem – que retomou uma das melhores características da série que era os desafios narrativos consequenciais da frágil mente humana em situações de risco – sejam invalidados. Não que Carol por tudo que passou não seja capaz de tal feito, mas o jogo criado em cima disso foi no mínimo trapaceiro, no pior sentido.

E era algo completamente desnecessário, visto que a cena de manipulação do Negan em si, desconsiderando as conveniências já mencionadas ou aquela cena avulsa com o Aaron, foi bem construída. O desconforto do personagem matando “sem querer” os zumbis na cabeça e não no coração, ele não agrupando a horda, sequestrando Lydia como isca e se abrindo com a Alfa para atraí-la a uma armadilha, tudo foi bastante plausível porque houve uma prévia consolidada anteriormente. Contudo, colocar isso na conta da Carol foi o último tiro no pé de um episódio que já estava problemático e ficou ainda mais covarde. Dava para tudo isso que aconteceu ter ocorrido de outra maneira, se a série evocasse os culhões passados em algo definitivo, cada subtrama dessa seria orquestrada dentro da batalha principal não mostrada, e o resultado tinha enorme potencial de ser um dos grandes episódios da série. Infelizmente, não foi o caso e a temporada perde muito o fôlego na reta final, mesmo que ainda tenha quatro capítulos para se ajeitar, o recado está reforçado, mesmo no geral, ainda subestimada, não dá mais para confiar em regularidade com The Walking Dead.

The Walking Dead – 10X12: Walk With Us — EUA, 15 de março de 2020
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Nicole Mirante-Matthews, Eli Jorne
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | Homeland – 8X06: Two Minutes

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Não sei quantas vezes, em apenas seis episódios, Carrie engrupiu Jenna de todas as formas possíveis a ponto de eu não saber exatamente se eu fico com pena ou com raiva da agente mais incompetente da CIA. Bastou dar uma missão para a sujeita que é garantia que ela não será cumprida.

Por outro lado, Two Minutes, episódio que marca a metade da temporada final de Homeland, cumpre sua missão de fazer a transição entre a complexa armação de tabuleiro que culminou com a morte do presidente Warner e a captura de Max que, por sua vez, carrega a caixa preta do helicóptero e o que está por vir. É muito interessante ver a amplificação da conexão de Carrie com Yevgeny Gromov, até porque eu tinha receio que a jogo de sombras em cima da lealdade da agente bipolar, tema principal da temporada que retorna à base da Trilogia Brody, fosse abafado. Muito ao contrário, o episódio recrudesce esse aspecto, mais uma vez colocando Carrie na mira de Mike e Jenna e, pior ainda, do próprio Saul Berenson, que se sente traído.

A tensa sequência que batiza o episódio é simples, mas muito bem construída, ao mesmo tempo mantendo-nos no escuro sobre as intenções de Yevgeny e sobre a possível manipulação de Carrie por ele, culminando na mais do que esperada segunda fuga dela que, obviamente, não tinha a menor chance de entrar no avião (vai ser muito divertido quando Jenna descobrir que mais uma vez foi ludibriada…). Gosto muito também da forma como Costa Ronin e Claire Danes conseguem formar uma dupla hesitante que esbanja química e conexão em tela, ele com aquele jeito cínico, mas estranhamente sincero que marca Yevgeny e ela com a fúria cheia de hesitação que marca Carrie.

Do outro lado do oceano, o facilmente manipulável presidente Benjamin Hayes – algo que já havia ficado bem claro na relação dele com David Wellington logo depois da morte de Warner – tem um momento daqueles que realmente deu vontade enfiar a cabeça em algum buraco de tanta vergonha alheia quando ele cai no papinho do espertíssimo presidente afegão Abdul Qadir G’ulom (pouco falei de Mohammad Bakri, mas ele está sensacionalmente vilanesco aqui – poderia ser fácil um baita inimigo de James Bond!) para desespero completo de seu chefe de gabinete e de Saul Berenson. Tudo está armado para que a tão almejada paz termine de ruir com uma provável maior presença militar americana no Afeganistão, tudo que G’ulom sempre quis.

Meu único receio, porém, é que a segunda metade da temporada cozinhe essa escalação da guerra em fogo baixo de forma que muito lentamente os episódios sejam ocupados com tudo o que for necessário para que o resgate de Max e a busca pela caixa preta aconteçam, com uma revelação canhestra de que, como Carrie desconfia, o helicóptero do presidente Warner não foi derrubado e sim caiu em razão de um problema mecânico, absolvendo o talibã e colocando a opinião pública contra G’ulom e Hayes ainda a tempo de um final, digamos, mais esperançoso. Mas isso é só algo que me passou pela cabeça enquanto os créditos finais do episódio rolavam, já que, mesmo quando Homeland erra – ou seja, na 4ª temporada – a não série não deixa de ser desafiadora e jamais subestima o espectador. Howard Gordon e Alex Gansa, aliás, tiveram um bom tempo para imaginar um fim digno a esses oito anos de aventuras de Carrie para eles seguirem esse caminho tão pouco imaginativo.

Portanto, ainda que a busca pela caixa preta certamente tenha sua importância, as maquinações políticas americanas, afegãs, paquistanesas e do talibã precisam estar competindo pela atenção do espectador, ali muito perto do já mencionado tema central – e bem pessoal – da temporada. Com Carrie agindo completamente fora da lei e, ainda por cima, em conluio com um espião russo, Homeland tem tudo para ter seis explosivos episódios pela frente, com ótimas chances de Jenna ser enganada mais uma meia dúzia de vezes para tornar tudo ainda melhor.

Homeland – 8X06: Two Minutes (EUA, 15 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Tucker Gates
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 55 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X08: Broken Pieces

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Broken Pieces é um episódio que me deixou na dúvida sobre como analisá-lo. Por um lado, ele desnuda exatamente o que há de muito errado nessa temporada inaugural de Star Trek: Picard, mas, de outro, ele consegue, se visto independentemente, cumprir seu objetivo, que é parar, revelar, recapitular e preparar o espectador para o episódio duplo final Et in Arcadia Ego, que irá ao ar uma parte por semana.

Vamos, então, começar pelo que há de negativo ou, melhor dizendo, o que ele representa de negativo para tudo o que veio antes. Sabem os clássicos livros de Agatha Christie, em que ela desenvolve sua história de maneira a levar Hercule Poirot a colocar todos os suspeitos em uma sala para, então, revelar o assassino? Pois bem, Broken Pieces é exatamente o capítulo que aborda a famosa sala. Mas, com todo respeito, os showrunners da série não lambem as botas da sensacional autora britânica e transformaram quase todos os capítulos anteriores, que deveriam levar organicamente à “cena da sala”, em um festival de nostalgia e saudosismo que foi muito além de trazer Jean-Luc Picard de volta de sua aposentadoria.

Como disse mais assertivamente na crítica de Nepenthe, esse olhar para trás é simpático e bem-vindo, mas somente quando ele mantem-se saudavelmente nas beiradas, jamais interferindo pesadamente na narrativa. No entanto, o que vimos em Star Trek: Picard, até agora, foi um desfile incessante de situações forçadas para que velhos personagens voltassem para as telinhas por alguns momentos de forma a matar a saudade de fãs da velha guarda como eu, por exemplo. Mas a grande verdade é que esse vício acabou tomando conta da temporada, corrompendo a história original que começou muito bem e jogando-a para o banco de reserva.

Portanto, esses “pedaços quebrados” do título não formam um todo que se encaixa natural e facilmente, pois eles perderam espaço para pontas de Sete de Nove, de Deanna Troi, de William Riker, de Hugh e assim por diante sem que muito fosse oferecido em termos de efetivo desenvolvimento. E é por isso que o episódio sob comento revela a nudez do rei ao literalmente fazer a tripulação de Picard sentar ao redor de uma mesa para que, então, o quebra-cabeças pudesse ser montado com textos expositivos atrás de textos expositivos. A diferença para as histórias de Agatha Christie é que, em seus livros, o artifício da reunião reveladora é parte orgânica da narrativa na maioria dos casos e, aqui, ao contrário, a explicação do que aconteceu até aqui parece literalmente “cenas dos capítulos anteriores” ou, pior ainda, um momento que subestima a inteligência do espectador e diz algo como “senta aqui para eu te explicar exatamente o que aconteceu até agora, seu burrinho”.

Dito isso – e aí vem o lado bom da coisa toda -, tenho que confessar que Broken Pieces consegue quebrar o arco descendente que acometeu a temporada desde The Impossible Box. E esse resultado é obtido não só pelo retorno de Sete, como também por intermédio da simpática investigação que Raffi empreende na La Sirena depois que o Capitão Rios reconhece Soji e entra em modo de auto-destruição. Sei o que muitos vão dizer: haja conveniência! E é verdade, pois os dois artifícios narrativos que citei dependem que suspendamos nossa descrença e aceitemos o providencial “botão de pânico” que invoca Sete e a mais completa e absurda coincidência que é Rios já ter se deparado com uma “irmã” da androide.

Mas, se entubarmos esses dois atos roteirísticos divinos, a forma como eles são desenvolvidos sacode o episódio, retirando a série do marasmo nostálgico em que ela se encontrava. No Cubo Borg, por exemplo, é simplesmente um deleite ver Sete reativar a parafernália de seus algozes e criar uma “mini-colméia” para enfrentar Narissa, com direito a excelentes efeitos especiais que vão da regeneração do Cubo até a dolorosa defenestração dos XBs em estase. Na La Sirena, a diversão fica por conta dos hologramas de Rios tentando lembrar de onde o capitão lembra de Soji, sob o comando da “inspetora” Raffi. Santiago Cabrera teve poucos momentos para brilhar na temporada, mas, aqui, multiplicado por seis – e cada um com seu jeito e sotaque – o ator encontra um sensacional palco para realmente soltar-se e entregar excelentes e hilárias performances.

Talvez eu tenha que falar um pouco do prólogo que mostra a cerimônia de criação do Zhat Vash, mas prometo ser breve. Esse pequeno “pedaço de informação” cumpre a função muito mais de estabelecer uma ponte que justifique a existência de Ramdha na temporada do que efetivamente trazer algo que não sabíamos. Tudo bem que é interessante que essa visão não é de futuro, mas sim de um passado remoto, há 200 ou 300 mil anos em que uma raça foi aniquilada por suas próprias criações, mas convenhamos que essa historinha sempre eficiente à la Skynet não precisava de algo muito elaborado para funcionar. O que me deixa particularmente cabreiro é que I.A. destruindo o universo foi o mote da segunda temporada de Star Trek: Discovery e se houver conexão com a série-irmã, ela provavelmente cairá de para-quedas, o que é ruim, e, se não houver, a constatação de que há uma crise de originalidade nas equipes responsáveis por Star Trek lá na CBS é uma tristeza.

Com a temporada caminhando para seu final, fica a torcida para a série realmente mostrar a que veio para além do mero saudosismo nerd. Há possibilidade ainda não de recuperação total, mas de uma demonstração definitiva de que Star Trek: Picard não precisa ficar no passado para mostrar que tem futuro.

Star Trek: Picard – 1X08: Broken Pieces (EUA, 12 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan
Duração: 56 min.

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X06: Mr. Parker’s Cul-De-Sac

Legends-of-Tomorrow-Mister-Parkers-Cul-de-Sac plano crítico TV série

  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Fazendo uma bela e hilária paródia de Mister Rogers’ Neighborhood, este episódio de Legends of Tomorrow é daqueles que conseguem muita coisa simplesmente porque não tem vergonha de adentrar ao território das deliciosas coisas ridículas que esta série vem trabalhado majoritariamente tão bem nas últimas temporadas.

Aqui em Mr. Parker’s Cul-De-Sac, Ray planeja uma noite romântica para ele e Nora, sendo ajudado por Nate e B no processo. Um pedido de casamento está para acontecer. Mas o roteiro de Keto Shimizu e James Eagan torna essa jornada um pouco mais difícil do que deveria (no bom sentido da afirmação), fazendo desse capítulo um bom ponto de divisão, pensamento e enfrentamento de situações difíceis para todo mundo, direta ou indiretamente. Claro que alguns arcos se saem melhor que outros (para ser sincero, o menos interessante é o de Mick bolado com as críticas negativas de alguém que, convenientemente, acaba sendo sua filha) mas todos são, no mínimo, solidamente bons.

Estabelecido o primeiro passo de colocação dos personagens em cena (o drama de Gary desaparecendo ficou meio “sem resposta ou sentido” para vocês também?) e dos problemas que precisam resolver, os obstáculos vêm à tona e então temos mais um recém-saído do Inferno tratado e “finalizado” de modo diferente dos demais, o que dá, no processo, a oportunidade de maior desenvolvimento para as Lendas ao mesmo tempo que uma das linhas mais interessantes desse meio de temporada (quem diria, não é mesmo Charlie?) ganhe um novo capítulo, agora com Cloto aceitando ajudar Constantine a encontrar o fuso do fio da vida.

O entrelaçamento entre a trama do casamento de Ray e Nora, a volta de Damien, as bobagens com Gary, o dilema entre Sara e Ava e o arco de Zari e Mick… tudo parece perfeitamente bem mesclado, sem uma história atropelar a outra e tendo algo realmente importante para contar, não apenas aparecendo aqui para preencher tempo. O máximo de diferença que temos é a qualidade interna de cada bloco, mas não são tão díspares a ponto de tirar a tag de “excelente” da aventura desta semana.

Fazendo também uma referência a Thomas e seus Amigos (o Abominável Gary como trem — após quase ter sido esmagado por um trem, o que é hilário) e relembrando o insano Legends of To-Meow-Meow, este episódio também traz mais um elemento para o público pensar a respeito, que é a formação desse time das Lendas. Notem que Sara, Mick e Ray flertam ou se deparam com coisas que possivelmente podem levá-los a uma aposentaria (o emprego em outra cidade, a descoberta de uma filha, as obrigações de um casamento), e não é de agora que a série vem explorando essa possibilidade. Talvez pela ameaça de Damien, Ray possivelmente seja o primeiro a sair (o que é uma pena… deveria ser Mick, o primeiro). Seja como for, contanto que o show mantenha o nível de divertimento que tem hoje, por mim, podem renovar a equipe inteira… não, calma, menos Behrad. Não mexam no meu Behrad!

Legends of Tomorrow – 5X06: Mr. Parker’s Cul-De-Sac (EUA, 10 de março de 2020)
Direção: Ben Hernandez Bray
Roteiro: Keto Shimizu, James Eagan
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Maisie Richardson-Sellers, Tala Ashe, Jes Macallan, Courtney Ford, Olivia Swann, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Neal McDonough, Shayan Sobhian, Adam Tsekhman, Mina Sundwall, Madeline Hirvonen, Lisa Marie DiGiacinto, Erik Gow
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X14: Death of the Speed Force

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Depois de criar um núcleo interessante em torno de Iris (Candice Patton) e nos presentear com um bom episódio de Gorila Grodd, o mais novo feito da equipe produtiva de The Flash envolve ninguém menos que Kid Flash (Keiynan Lonsdale). O que poderia parecer mais uma “volta dos que não foram (que ninguém pediu que voltassem)” teve o benefício tanto de acontecer em meio à boa fase atual do programa, quanto da redenção que o personagem recebeu durante sua passagem por Legends of Tomorrow. Ainda assim, Wally pode ser considerado uma “ponta solta” do passado da série que dificilmente justificaria uma revistação interessante o bastante, né? Né…?

Bom, considerem-me positivamente surprendido! Se no passado a versão televisiva desse gigante dos quadrinhos deixou (bastante) a desejar, e ainda que sua ausência em momentos-chave recentes dificilmente possa ser justificada de forma convicente, eis que chamaram o cara de volta para dar um pontapé em um arco realmente interessante! Por si só, a cena inicial do resgate aéreo já me vendeu a ideia de que, afinal de contas, não tem nada de mais em trazer de volta um ou outro velocista extra. Felizmente, mais do que nos presentear com boas sequências de ação velocista, o capítulo também aponta para uma direção que há tempos eu desejo ver ser tomada para o Velocista Escarlate nessa série.

Antes de falar disso, vale marcar: fiquei cabreiro, de início, com a perspectiva de estarmos diante de um dramalhão envolvendo a emancipação do Wally, em sua nova fase bicho-grilo, em relação à sua posição como eterno “Kid” Flash. Naquela cena em que ele começa a moldar flores de lótus com relampaguinhos e metralhar reflexões profundas e não requisitadas tal qual um aposentado em grupo de WhatsApp, temi que a coisa toda fosse se tornar mais um jogo de ciumeira bobo entre os meio-irmãos/cunhados velocistas.

Felizmente, a rixa pessoal entre os dois acaba sendo explorada de um jeito bem mais interessante do que o padrãozão passado da série, contrastando não apenas suas personalidades, mas duas maneiras diferentes de se pensar na Força de Aceleração e, com isso, preparando o que tem potencial de ser um desenvolvimento decisivo para a estagnada versão “grantgustiniana” de Barry Allen. Se eu achava que a partida de Wally em uma jornada de auto-conhecimento espiritual não passava de mais uma das desculpinhas mequetrefes de sempre (alguém lembra do Julian?), o gancho acaba sendo bem aproveitado ao mostrar a busca ativa de Wally por contato e respostas em relação à Força de Aceleração. Com isso, temos o pano de fundo para encarar uma característica até então pouco explorada de Barry: sua postura passiva/reativa frente aos fenômenos “velocísticos” que o circundam.

Claro que, mediante uma ou outra Crise anunciada, o Team Flash se desdobrou e adotou posturas ativas frente às suas ameaças. Porém, de maneira geral, além da postura reativa generalizada da equipe(lembra da eterna “perseguição” ao Pensador?), o fato é que o próprio Barry acabou sempre deixado de lado em termos da criação de soluções e tecnologias para expandir sua atuação como Flash. Com as explicações pseudo-científicas ficando sempre a cargo de Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker) após a partida do tutorzão querido Wells, tivemos muito pouco espaço para explorar o lado cientista do próprio Barry — seu veio mais criativo e proativo que é uma das marcas do personagem nos quadrinhos. Barry é um cientista forense — só que Cisco e Caitlin são melhores como cientistas e Dibny é melhor como detetive do que ele. O que sobra para o cara fazer fora dos momentos de ação, senão ficar eternamente marinando suas questões motivacionais mais profundas?

A subtrama da morte da Força de Aceleração, embora traga na premissa algo que evoque momentos menos brilhantes da série no passado, acaba servindo como ponto de partida para resolver esse problema. Barry e Wally acabam entrando em rota de colisão por conta do erro de Barry, alimentado por sua postura sempre passiva em relação à Força. A piadinha que ele faz ao imitar Yoda é significativa: por mais que tenha vivenciado tudo que vivenciou, Barry ainda recusa encarar de frente seu papel como parte da Força de Aceleração, acomodando-se com as responsabilidades de sempre em Central City que, verdade seja dita, acabam sendo um fardo o suficiente para o cara carregar. Porém ele percebe, no fundo, que há algo de errado, mas usa-se de seu lado racional como defesa contra essa preocupação. Até que o desastre se torna inegável e, então, ele se força a finalmente dar um passo necessário em sua carreira heroica — ao invés de usar da razão para negar o “misticismo” correto de Wally, trata-se de encontrar uma solução para o desastre iminente: criar uma Força de Aceleração para fazer frente à criação sombria do Flash Reverso. Afinal de contas, o Barry que acompanhamos semanalmente muitas vezes está mais para Savitar do que para o cara que construiu Gideon, não é? É muito bom ver o personagem finalmente dar passos decisivos para se tornar o lendário Flash futurista, deixando de lado essa adolescência alongada pela qual tem passado desde a segunda temporada (!) da série.

Numa tacada só, temos uma subtrama super interessante para nosso protagonista que ao mesmo tempo justifica o retorno de seu arqui-inimigo, preparando o cenário para um conflito que tem tudo para evoluir o Flash a um novo nível de relação com seus poderes. Embora eu continue um tanto cético em relação à série abraçar seu lado mais sci-fi, já que o drama pessoal dificilmente deixará de ser o foco principal da coisa, ao menos o roteiro tem mostrado uma preocupação bem realizada em amarrar o passado da série com os eventos atuais. A forma como o episódio equilibra suas subtramas continua a ser muito interessante, evitando as arrastações de sempre e explorando elementos dramáticos interessantes: Iris não podendo se encontrar com Wally na prisão do espelho, o retorno de Wells no corpo de Nash, o “sacode” que Wally leva de Joe — pequenos momentos de personagem que adicionam consistência à narrativa e ao mundo de The Flash, felizmente longe do “esquema Power Rangers” das temporadas passadas.

Combinando bem os elementos que têm dado certo, Death of the Speed Force é mais um bom capítulo na ótima fase atual da série, construindo subtramas de forma orgânica e resgatando potencial esquecido de diversos cantos do universo televisivo. Ah, se a gente pudesse ter uma “Crise das Infinitas Emissoras” que retroativamente transformasse certas temporadas anteriores em algo mais próximo disso!

The Flash – 6×14: Death of the Speed Force — EUA, 10 de março de 2020
Direção: Brent Crowell
Roteiro: Sam Chalsen, Emily Palizzi
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Efrat Dor, Victoria Park, Keiynan Lonsdale, Michelle Harrison, Tess Atkins,  Elizaveta Neretin
Duração: 43 min.

Crítica | Homeland – 8X05: Chalk Two Down

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Encerrando a “dobradinha” de episódios que lida com a visita do presidente americano à Cabul para anunciar a paz com o Talibã, Chalk Two Down não perde tem em revelar o pior: Warner não sobreviveu à queda da aeronave. Obviamente que, com isso, desmoronam as conversas e tudo aquilo que Saul Berenson construiu ao longo dos anos.

E o mais interessante é notar que não estamos nem mesmo na metade da temporada final de Homeland. Há muito ainda por vir e, por mais que muito já tenha ocorrido, fica aquela sensação boa de que tudo o que vimos até agora foi uma complexa armação de um tabuleiro para o mergulho efetivo na história. O que acontecerá, já não faço mais apostas. Tinha certeza de que Warner sobreviveria e que a procura pelo presidente ocuparia uma parte substancial da segunda metade da temporada, mas, com ele morto, o jogo muda completamente, com o inseguro vice-presidente Benjamin Hayes recebendo as chaves do reino e não sabendo o que fazer com elas.

Se o futuro parece ser imprevisível, o episódio em si foi, assim como Chalk One Up, um primor de tensão em três frentes. A mais direta é o batalhão de soldados americanos, aí incluindo Max, correndo para o local do acidente para determinar o destino do presidente. A ação é simples, mas muito eficiente na forma como a batalha contra os talibãs vai acontecendo, com uma progressão lenta que leva a uma guerra franca. Muita gente pode virar o nariz para o aparentemente mínimo contingente acompanhando o helicóptero do presidente, mas não só isso faz parte da história sendo contada – se ele fosse acompanhado de mais helicópteros haveria uma guerra completa ali e não era esse o objetivo – como pode ser explicado (ou aceito, ainda que com uma certa dificuldade), pela natureza inicialmente secreta da própria presença de Warner ali.

Além disso, no segundo fronte narrativo, no QG da CIA em Cabul em comunicação com a Casa Branca, vemos a completa confusão mental em que todos se encontram, talvez com exceção de David Wellington, que se mantém frio o tempo todo. Digo isso pois a decisão (ao meu ver acertada) de bombardear o local para evitar que o corpo do presidente fosse capturado pelos talibãs não só revela a insegurança do vice-presidente, como também deixa Saul incapaz de se mexer, de efetivamente raciocinar. Cabe à Carrie, mantendo a cabeça fria, pedir para que Max recupere a caixa preta do helicóptero para que as circunstâncias ao redor do acidente possam ser esclarecidas, o que leva, por sua vez, à amplificação da tensão nas sequências dos soldados tentando sair do local e deixando o especialista literalmente sozinho ao final.

O terceiro fronte é a própria Carrie em sua investigação corrida sobre o que aconteceu que a leva a desconfiar de um técnico militar que haveria trocado o helicóptero do presidente. Novamente, o roteiro joga de maneira inesperada, alimentando-nos com uma linha narrativa padrão – um traidor americano! – que logo revelar ser outra coisa completamente diferente que leva à conclusão, ainda não confirmada, de que a queda do helicóptero talvez tenha sido isso mesmo, apenas uma queda, um acidente comum. Seja qual for a verdade, a questão é que, agora, G’ulom, o vice-presidente afegão que se torna o presidente, manipula os acontecimentos para esquentar sua luta contra Haissam Haqqani, afastando ainda mais as chances de paz.

Tudo acontece muito rapidamente no episódio, que tem uma montagem extremamente eficiente, quase frenética, que mantém o espectador tão desnorteado quanto os personagens que vemos na telinha. Há até mesmo um uso mais presente de câmera na mão para amplificar essa sensação ruim de que ninguém sabe de verdade o que está fazendo e que nos coloca mais diretamente no meio da pancadaria seja como mais um soldado tendo que se defender dos talibãs ou mais um analista vendo boquiaberto os eventos se desenrolarem.

Depois de dois episódios que mudam o jogo completamente, os showrunners Howard Gordon e Alex Gansa têm a missão de rearrumar o tabuleiro narrativo no próximo episódio, que marca a metade da temporada, para que, então, a história possa progredir em uma direção que é difícil de prever dado os acontecimentos. O importante é que o papel de Carrie não se perca em meio as acontecimentos macro, voltando para a fascinante linha narrativa sobre seu cativeiro na Rússia que a transforma em uma nova versão de Brody.

Homeland – 8X05: Chalk Two Down (EUA, 08 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Alex Graves
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 47 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Seria bem mais honesto aos meus olhos se Star Trek: Picard se chamasse Star Trek: Epilogue. Afinal, a história das filhas de Data é até interessante e bem amarrada na mitologia do ex-Almirante Picard, mas a grande verdade é que, até agora, ela só tem sido mesmo uma espécie de desculpa para que os showrunners revisitem personagens clássicos para dar-lhes histórias que cobrissem as últimas duas décadas e uma espécie de fim, seja ele da natureza que for.

Não que seja terrível a ideia de uma série baseada quase que exclusivamente no saudosismo, mas o ponto é que essa escolha tem soterrado a narrativa que deveria, pelo menos em tese, ser a principal. Se espremermos, os sete episódios que foram ao ar até agora não têm material novo suficiente para preencher nem três de duração regulamentar de 45 minutos. Claro que é muito bacana ver Data, Sete de Nove, Hugh e, agora, Deanna Troi (Marina Sirtis) e William Riker (Jonathan Frakes) novamente depois de tanto tempo, mas o problema reside em que todo esse fan service tem tido um fim em si mesmo, não impulsionando a história efetivamente, talvez com exceção dos flashbacks/sonhos com Data.

Chega a ser cansativo ver Kestra (a simpaticíssima Lulu Wilson), filha de Troi e Riker, agir como uma Trekker e nos contar – usando o diálogo canhestro com Soji como desculpa – toda a importância de Data e o porquê de ele se preocupar em ter uma filha com saliva e muco. É igualmente cansativo todo o gigantesco texto expositivo de vários minutos em momentos diferentes para revelar os detalhes da vida e morte de Thaddeus, filho mais velho da dupla, que tragicamente sonhava em ter um lar que não fosse uma nave espacial e que, certamente fazendo inveja a J.R.R. Tolkien, inventou nada menos do que 12 línguas para seu mundo imaginário, uma delas de uma espécie de borboleta que “fala” com o bater de asas (ohhhh, tão poético…).

Tudo isso fica parecendo material perfeito para uma HQ ou um livro que focasse o intervalo entre a aposentadoria e a volta de todos esses personagens, mas que, em um episódio que deveria ser “de fuga”, em um momento já adiantado de uma temporada de apenas 10 episódios, torna-se uma torneira que jorra informações completamente desnecessárias apenas para fazer os olhinhos dos fãs brilharem. Novamente, nada contra SE os roteiros não cismassem em pegar a história principal e colocar em segundo, por vezes terceiro plano para que todo personagem “de uso único” da temporada ganhasse seu momento para lembrar do passado.

Mas claro que Nepenthe lida também com a trama principal de duas maneiras. Uma sacrificando Hugh em mais uma demonstração de que os personagens coadjuvantes, nessa temporada, têm, de uma forma ou de outra, vida curta. Eles são utilizados apenas quando necessários – outras vezes nem isso, pois não dá para dizer que a presença de Sete foi exatamente necessária – e descartados logo em seguida, seja com uma singela despedida, seja com, no caso aqui, uma morte besta que poderia ter sido evitada pelo ninja romulano que, por sua vez, até ganha bons momentos de pancadaria, mas que ainda não mostrou a que veio para além desses breves arroubos de ação.

A outra maneira é na perseguição à La Sirena por Narek, o romulano que não toma banho, com direito a um flashback que finalmente revela o que aconteceu com a Dra. Jurati naquele fatídico encontro com a Comodoro Oh, chefe da segurança da Frota Estrelar. E que flashback… hummm… porcaria, não? Bastou a vulcana fazer a fusão mental com a doutora para ela “descobrir” que o universo será destruído se os sintéticos forem autorizados a existir e em momento algum agir como uma cientista e indagar sobre o que ela viu. Afinal, para que, não é mesmo? É muito melhor engolir uma pílula rastreadora logo de cara e concordar, assim como quem não quer nada, em matar o ex-namorado assim que o encontrar, além de sabotar a missão de um honrado ex-Almirante. Faz MUITO mais sentido do que parar para pensar um pouco, pesquisar e, por incrível que pareça, até mesmo conversar com as pessoas ao seu redor! Talvez Jurati seja uma crítica social, como a encarnação audiovisual das hordas de internautas que leem somente as manchetes de artigos de redes sociais e acreditam piamente no que está escrito sem qualquer bom senso ou verificação… Se for assim, pelo menos a personagem tem uma função nobre, caso contrário tomara que ela não saia de seu coma ou morra engasgada com bolo…

Se eu fosse unicamente pela nostalgia, minha avaliação do episódio seria muito mais alta, mas a grande verdade é que nostalgia só é boa em filmes e séries se ela não se torna o centro da história, invertendo completamente a lógica narrativa. Convenhamos que só pelo fato de a série chamar-se Star Trek: Picard, trazendo Patrick Stewart de volta, toda a dose necessária de saudosismo já estava devidamente preenchida e com folga. Mas não. Aparentemente isso não era o suficiente e, no lugar de contar uma história nova, olhando para a frente e apenas por vezes lembrando-se do passado, os showrunners resolveram olhar para trás o tempo todo, apenas de vez em quando olhando para a frente. Uma pena.

Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe (EUA, 05 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Doug Aarniokoski
Roteiro: Samantha Humphrey, Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jonathan Frakes, Marina Sirtis, Jonathan Del Arco, Tamlyn Tomita
Duração: 59 min.

Crítica | Homeland – 8X04: Chalk One Up

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Tenho a mais absoluta certeza de que muita gente desdenhará de Chalk One Up por ele ser completamente previsível. Afinal, era mais do que óbvio que, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa muita errada aconteceria com o processo de paz capitaneado por Saul Berenson e que a viagem do presidente Warner para o Afeganistão para anunciar a paz não em Cabul, não no QG da CIA, mas sim no posto avançado americano no meio do nada com coisa nenhuma era a oportunidade perfeita para que essa “alguma coisa” acontecesse. Não havia a mais remota possibilidade de o helicóptero de Warner não ser abatido, especialmente depois que Max, compadecendo-se pelos jovens soldados do batalhão que o adotou como amuleto da sorte, decide não embarcar na aeronave.

Mesmo que eu compreenda o desdém, aproveitarei a oportunidade que esse episódio me dá para reiterar algo que repito há anos aqui no site: previsibilidade, na grande maioria das vezes, não é algo negativo, como muitos tendem a concluir, mas sim positivo, pois significa que a lógica interna daquele filme ou série vem sendo obedecida. Acho absolutamente sem sentido obras que fazem das tripas coração para nos apresentar a reviravoltas tiradas magicamente da cartola e que estão tão divorciadas da trama que parece que elas foram criadas antes e a partir dela a história foi escrita e não o contrário. Um resultado previsível mostra que o roteiro – ou os roteiros, no caso de uma série – trouxe elementos suficientes para tornar aquele resultado o único ou pelo menos um dos únicos possíveis. E é exatamente esse o caso de Chalk One Up.

Pensem aqui comigo: alguém realmente acreditava que o processo de paz no Oriente Médio aconteceria em um estalar de dedos, isso se realmente fosse acontecer na série? Se você realmente achava isso, então é porque talvez ainda acredite em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa (desculpe se mandei spoilers agora…). Homeland nunca jogou da maneira mais segura e nunca subestimou o espectador e não havia razão para começar agora tratando justamente essa questão altamente complexa sob todos os pontos de vista como algo trivial. Seria o equivalente a descobrirem uma pílula mágica para curar a bipolaridade de Carrie Matheson de forma que tudo acabasse bem na série. Portanto, algo grande precisava acontecer e, quando a própria Carrie sugere a vinda do presidente para Cabul, sua morte/sequestro/desaparecimento era o que simplesmente tinha que acontecer.

Portanto, imprevisibilidade não deveria ser algo almejado, mas sim temido. O que é realmente importante detectar é se todos os caminhos realmente “levam a Roma” e se a execução da “manobra” foi eficiente e tenho para mim que Chalk One Up acertou nos dois quesitos. A convergência narrativa é mais do que clara pelos pontos que mencionei acima, pelo que resta abordar a forma como tudo acontece e que é a verdadeira cereja nesse bolo que foi o roteiro  de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, uma das duplas de roteiristas mais tradicionais na série. E a simplicidade foi a chave de tudo. com o capítulo inteiro girando em torno do discurso do presidente Warner perante o surpreso pelotão no meio do deserto, com direito a transmissão para o mundo todo. Com apenas esse artifício, os roteiristas foram capazes de criar um momento terno de agradecimento genuíno a Carrie por todo o seu sacrifício na Rússia, colocar os jogadores inimigos e amigos do Oriente Médio em uma mesma sala e, de quebra, tornar o conflito político entre Warner e seu vice-presidente ainda mais saliente.

Além disso, simultaneamente aos eventos envolvendo Warner, que estão na esfera macro, o roteiro também preocupou-se em paralelizar essa ação com a esfera micro, mais especificamente a quase-sequestro de Samira por seu cunhado, para levá-la de volta a seu vilarejo e forçá-la a casar com ele. A tensão das sequências – Warner fazendo seu discurso, tudo dando certo, enquanto Samira era cada vez mais soterrada pela insistência e violência da “tradição muçulmana” – criou um conjunto narrativo belíssimo, mantendo a ação propriamente dita em um nível bem discreto, com apenas um helicóptero sendo alvejado em câmera e Carrie apenas apontando uma arma para os sequestradores. De certa forma, é um recado a nós: a paz não só não vem, como os costumes religiosos arraigados não serão largados facilmente. Mudar até pode ser possível, mas o preço é terrível e pode ser que não se queira pagar o preço.

Particularmente não gostei do artifício do “desaparecimento” inicial do helicóptero do presidente, pois pareceu apenas um truque narrativo barato, mas sou forçado a concluir que a direção de Seith Mann triunfa no paralelismo das duas sequências principais e na forma lenta como ele as conduz, esticando ao máximo o tempo para, de um lado, nos dar uma nesga de esperança de que nada acontecerá a Warner e, de outro, para nos fazer concluir que Samira não tem salvação. Claro que o resultado é justamente o oposto – novamente previsível, mas com execução magistral – e é evidente que, agora, o jogo mudou completamente. Mas temos que lembrar que acabamos de acabar apenas o terço inicial da temporada final e há muito terreno ainda para ser coberto, com o pelotão de Max provavelmente sendo eleito para resgatar Warner (se ele vivo estiver, mas acho que está) e provavelmente tendo que enfrentar Jalal e seus seguidores enquanto Carrie e Saul quebram a cabeça para tentar entender o que exatamente aconteceu e como Yevgeny Gromov entra nessa equação, porque sim, não tenho dúvidas de que ele está envolvido no que aconteceu.

Se Chalk One Up é previsível? Com certeza! E que venham mais magníficas previsibilidades como essa!

Homeland – 8X04: Chalk One Up (EUA, 1º de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Seith Mann
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 47 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Stardust City Rag foi, em sua essência, um filler cheio de galhofas que se valeu fortemente da nostalgia para reintroduzir Sete de Nove e dar um encerramento à querida personagem de Star Trek: Voyager. Nesse espírito, o episódio acabou funcionando para mim, pois de certa forma nos desviou do que estava dando errado em Star Trek: Picard, ou seja, roteiros que não sabem dosar ação com reflexão e uma estrutura cansativa de montagem de equipe que durou tempo demais. E The Impossible Box é mais uma prova de que falta ritmo à série que tirou Jean-Luc Picard de sua aposentadoria.

Se o episódio anterior não se levou a sério e, por isso, tornou possível aceitar as diversas conveniências que pontilharam a história, aqui acontece justamente o contrário. A narrativa é seríssima e é, para todos os efeitos, o desfecho da “fase um” da série, já que lida com o resgate de Soji por Picard lá no Cubo Borg, agora chamado de O Artefato. Por essa razão é que o roteiro repleto de saídas fáceis cansa demais, começando pela obtenção de uma credencial diplomática em 10 segundos por uma Raffi bêbada pedindo favor a uma agora ex-amiga, parte de um plano mal-ajambrado para justificar a presenta da La Sirena em espaço romulano, continuando com a “sala secreta” com “teletransportador secreto” que faria inveja ao deus ex machina mais conveniente e terminando com a presença heroica de Elnor no momento certo (e que agora pode matar sem sequer ser repreendido, pelo visto…), tudo é construído ao redor de “é assim porque eu quero que seja e que se dane”.

E isso porque eu nem mencionei o caso completamente deslocado – em termos de momento – entre Rios e a Dra. Jurati, com direito até à racionalização ridiculamente excessiva da situação e o fato de que Jean-Luc Picard, chegando abertamente ao Cubo Borg, não atrai a atenção imediata de TODOS os romulanos por ali, que no mínimo deveriam ter colocado seus espiões em peso seguindo o ex-almirante e o canino Hugh. Se espremermos, notaremos que a trajetória de Picard no Cubo é, basicamente, andar, ter lembranças dolorosas, andar, conversar com Hugh e… andar, pois tudo o que interessa acontece ao seu redor sem conexão alguma com ele. Tudo bem que eu mesmo advogo para que nenhum roteiro se engrace e coloque um ator octogenário em sequências de ação, pois isso seria ridículo, mas daí a transformar o que seria ação em um passeio no parque é um pouquinho demais.

Ah, mas alguns dirão que a ação, aqui, ficou por conta da relação de Zarek (só eu que acho esse personagem com constante cara de quem não toma banho há semanas?) com Soji, com o primeiro levando a segunda desavisada – e que convenientemente passa a descobrir em velocidade meteórica que ela não talvez não seja quem é – para um ritual romulano que, você adivinhou, não é nada mais do que “andar” por um caminho desenhado no chão falando sobre seus sonhos. É como um consultório psiquiátrico que troca o divã por mobilidade resultando em algo corrido e, novamente, extremamente conveniente, tudo para que os romulanos finalmente descubram o planeta natal da androide, provavelmente o assunto que ocupará os episódios finais da temporada.

Mas há pontos positivos, claro. Além da presença forte de Patrick Stewart em atuação prazerosa de se assistir, a interação de Picard com Hugh, se vista separadamente, é bem construída e bem estabelecida. Da mesma forma, a música-tema de Star Trek tocando na ponte da La Sirena depois que Raffi consegue as credenciais diplomáticas foi um toque bacana que precisa ser repetido mais vezes. E, finalmente, o ponto principal: esse foi o primeiro episódio da temporada que não usa a nostalgia – para além da presença de Picard, óbvio – como mola mestra.

Nostalgia é algo que, em doses homeopáticas, tende a funcionar muito bem, reunindo gerações diferentes de espectadores. Star Trek: Picard começou fortemente assim, como era de se esperar, mas o problema é que a temporada não havia ainda largado de verdade essa muleta narrativa. The Impossible Box, ao focar inteiramente na história do presente, deixa a nostalgia um pouco de lado e passa a se valer apenas das novas situações e novos personagens apresentados na série. Claro que os problemas que apontei não são magicamente apagados simplesmente porque o roteiro muda de tom nesse aspecto, mas é sem dúvida algo a ser aplaudido, ficando a torcida para que isso continue nos quatro episódios finais.

A 1ª temporada de Star Trek: Picard vai caminhando para seu fim sem ainda dizer a que realmente veio para além de ressuscitar um amado personagem clássico da franquia. Os showrunners parecem por um lado não saber como desvencilhar-se do passado e, por outro, como trabalhar o presente de maneira cadenciada, com roteiros realmente bem estruturados que fujam das soluções tiradas da cartola. Será uma pena se a temporada acabar sem que Jean-Luc Picard retome seu trono de ícone de Star Trek.

Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box (EUA, 27 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Nick Zayas
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List
Duração: 55 min.