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Crítica | The Flash – 6X12: A Girl Named Sue

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

The Flash segue consistente em sua fase renovada, provando novamente a precisão das mudanças que o time de produção atual tem feito em relação ao modelo da série, especialmente desgastado ao longo das temporadas anteriores. Nosso episódio da vez, A Girl Named Sue, mostra que a nova ordem na casa é capaz até mesmo de entregar a apresentação de uma subtrama há muito tempo anunciada de forma justa, envolvente e — sempre bom — surpreendente!

O leitor que acompanha nossa cobertura da série já deve saber que Ralph Dibny (Hartley Sawyer) é um dos meus personagens favoritos de todo o extenso elenco da série, a versão da CW surpreendentemente tendo conseguido fazer jus ao Homem Elástico dos quadrinhos, mesmo levando em conta as ocasionais derrapadas. Assim, não tem como não admitir que a introdução de Sue Dearbon (Natalie Dreyfuss) não trazia uma carga de expectativa e de justificada apreensão da minha parte, em especial com a recente jogada para escanteio que o personagem de Ralph recebeu ultimamente.

Felizmente, o episódio não desperdiça a ocasião e prova que a estratégia de colocar o núcleo no banco de reservas é sempre válida quando significa explorar de forma legitimamente interessante as narrativas potenciais dos personagens, quando sua vez chegar. Muito mais vale um episódio bom desses do que meia dúzia de aparições reduzindo o Homem Elástico a alívio cômico e/ou contraponto em uma nova DR no Team Flash, não é?

Em termos de roteiro, não consigo pensar em forma mais eficiente de introduzir Sue do que a que tivemos aqui. Ao mesmo tempo em que se presta homenagem às origens da personagem e da relação com Dibny nos quadrinhos originais, temos também uma série de ajustes que a colocam em boa sintonia com essa versão do personagem, resultando em uma química interessante e instantânea. Enquanto, assim como no original, temos o Homem Elástico perseguindo a moça em um comportamento levemente stalker, no twist final  descobrimos que a persecutoriedade não apenas era recíproca e, pior ainda, resultou em uma traição fria e calculista! Esse encaminhamento tornou a personagem instantaneamente mais interessante, introduzindo conflito na subtrama romântica de uma forma que cai perfeitamente bem com o personagem. A dinâmica de Lupin III e Fujiko Mine cai perfeitamente bem para a dupla, e espero que possa ser trabalhada com o ritmo que merece. Não temos pressa em ver o casal “feliz para sempre”, eu quero ver é drama e desgraça (desculpa, Ralph)!

Fora isso, a dinâmica pessoal da dupla também funciona muito bem desde o inicio, valendo-se de diálogos bem escritos, boa atuação e a benção de algo que costumeiramente falta para a série: sutileza. Não é difícil imaginar (e ainda pode muito bem acontecer) uma versão desse episódio recheada de diálogos toscos em que Ralph explica ao espectador o paralelo e as semelhanças entre ele e Sue, roubando a coisa toda de qualquer organicidade. Mesmo o momento breve em que Cecile (Danielle Nicolet) dá as caras para fazer um pouco dessas honras, a coisa funciona bem pois serve de base para um momento comédico bem atuado que entrega o mesmo ponto (a compatibilidade e identificação de Ralph e Sue, mesmo que já suspeitemos dela nesse momento) sem precisar soletrar para nós de forma maçante.

A aventura lupinesca do (ainda não) casal — não bastassem as máscaras, temos até o macacão de couro a la Fujiko da Sue! — acaba em um combate muito bacana contra Ultraviolet (Alexa Barajas), onde ambos conseguem brilhar e, no final das contas, segue até uma pontinha para nosso Velocista Escarlate salvar o dia na hora H. Gostei de absolutamente tudo nessa subtrama, que de quebra conseguiu se encaixar perfeitamente com o restante do arco maior da temporada, que tem conseguido deixar de lado a afobação e o teasing característicos em favor de uma narrativa que, no melhor dos sentidos, parece uma excelente série em quadrinhos se desenvolvendo.

Não dá um belo fôlego renovado acompanhar as ocorrências metahumanas em Central City sem fazer com que tudo gire em torno de alguma ameaça futura pré-determinada com ligações profundas com o passado/futuro de Barry, a Força de Aceleração e os ensinamentos que seus pais deixaram para ele? Com um elenco tão extenso e forte de personagens, é uma injustiça que a série faça menos do que isso, e felizmente estamos tendo um ótimo aproveitamento de personagens que antes acabavam totalmente esmagados pela ladainha narrativa de sempre.

A subtrama de Iris (Candice Patton) e sua duplicata espelhada (podemos combinar de chamar ela de Siri?) continua forte, aproveitando o espaço de tempo alocado para o plot-B para algo muito mais interessante do que o habitual. Construindo uma potencial nova versão do Mestre dos Espelhos, a náufraga especular Eva McCulloch (Efrat Dor), esse núcleo evoca muito bem a aparição anterior do vilão, tomando o tempo para mostrar o truque anterior de se resfriar o espelho não funcionando aqui — provavelmente devido aos poderes que McCulloch adquiriu sem saber. Mais uma vez: não dá pra imaginar a mesma coisa sendo tratada na base do esculacho, com Cisco apenas comentando algo como: “Putz, não dá para congelar o espelho dessa vez porque as leituras de matéria escura ultrapassaram o eixo negativo!”? O quão mais interessante é trazer a continuidade passada de forma orgânica e tomar o tempo para mostrar nossos personagens tentando se virar com o que sabem, ao invés de rechear o caminho do “ponto A” ao “ponto B” da história com um tratado de diálogo expositivo?

A Girl Named Sue é tudo que eu espero de um bom episódio de The Flash: elenco bem explorado de personagens, diálogo afiado, momentos cômicos, sequências de ação, suspense, ausência de plots repetidos de forma canalha e dramalhões desnecessários. Sei que temos que tomar cuidado ao animar com essa série, mas estou cada vez mais caindo nesse novo truque da CW! Sério mesmo, o que poderia acontecer de errado, agora?

Peraí, semana que vem vai ter o quê!? Ah não…

The Flash – 6×12: A Girl Named Sue — EUA, 18 de fevereiro de 2020
Direção: Chris Peppe
Roteiro: Thomas Pound, Lauren Certo
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Hartley Sawyer, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Natalie Dreyfuss, Alexa Barajas
Duração: 43 min.

Crítica | Homeland – 8X02: Catch and Release

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Homeland é uma obra de ficção, claro, mas a série sempre primou pelo realismo, especialmente no que se refere à intrincada geopolítica que procura abordar. E a derradeira temporada, talvez a primeira a mergulhar de cabeça na desejada paz no Oriente Médio, vem para primeiro discutir exatamente que paz é essa que todos dizem que almejam, usando isso como pano de fundo para momentos de tensão que explodem precisamente logo nesse segundo episódio e que efetivamente arma o que está por vir.

Sempre abracei um conceito que meu pai me ensinou, de que o Homem é, fundamentalmente, um ser beligerante. Somos formados e moldados por conflitos tanto em escala global quanto em escala pessoal e a paz é algo que mais se parece com utopia, com algo que precisamos dizer que queremos sob pena de enlouquecermos, mas que, lá no fundo, sabemos ser impossível. Uma visão pessimista, sem dúvidas, mas olhando apenas para o presente e ao nosso redor, diria que é uma visão realista, especialmente no que se refere ao Oriente Médio. E Catch and Release deixa isso dolorosamente evidente quando afirma que mesmo os americanos só querem a paz como veículo para a retirada estratégica de suas tropas e não como algo verdadeiramente duradouro. Talvez Saul Berenson mantenha acesa a chama da esperança e Mandy Patinkin está incrível em passar esse sentimento quando ouve a gravação da conversa telefônica de Haqqani com seu filho que Max obteve, mas tudo ao redor dele conspira contra, desde seu próprio governo, passando pelos afegãos, pelos paquistaneses, pelos russos e, claro, pelos próprios talibãs.

A teia que esse episódio joga nesse panorama impossível é muito bem trabalhada, com cada elemento sendo uma decorrência lógica do que vimos em Deception Indicated e do que efetivamente vemos no mundo real. Carrie precisa recorrer à chantagem para fazer com que o vice-presidente afegão volte atrás em sua declaração de que não soltará os prisioneiros talibãs, condição fundamental para as conversas de paz continuarem, a filha do presidente afegão conspira para derrubar de vez as tratativas com um atentado à Haqqani que coloca Saul em maus lençóis e, por trás disso tudo, os russos, representados pelo ardiloso Yevgeny Gromov, manipula tudo por trás, inclusive – e especialmente – a própria Carrie. É um labirinto complexo que, muito propriamente, nos impede de ver qualquer saída minimamente razoável, já apontando para um final que não consigo imaginar que seja sequer próximo do feliz.

E é disso que Homeland é feito, essencialmente: cenários impossíveis que até ganham resoluções “cinematográficas” para agradar seu público, mas que nunca são fáceis ou mesmo agradáveis. O maior exemplo disso é o final da temporada anterior que forçou Carrie a abrir mão de sua filha e a entregar-se ao cativeiro russo, retornando completamente destruída psicologicamente, com efeitos que, felizmente, foram carregados para a última temporada como parte de seus pilares. Duvidar do que a agente enregou ou não aos russo é um brilhante retorno à Trilogia Brody, mas ter Yevgeny de volta como personagem ativo é esfregar sal da ferida, algo que fica ainda mais terrível quando as imagens e sons do passado que até agora nos deixaram ver parecem indicar que o russo e Carrie tiveram uma relação mais próximo ainda do que só carrasco e prisioneira, mas como resultado da privação de Carrie de seus medicamentos, não como algo genuíno.

Saindo do eixo central de personagens da série, devo dizer que tenho gostado muito da forma como a agente Jenna (Andrea Deck) vem sendo usada na temporada. Apresentada como alguém ainda verde, o que automaticamente manteve Carry distante, aqui ela tem seu papel expandido e percebemos que ela realmente ainda tem muito a aprender, logo estragando a entrevista falsa com Samira Noori (Sitara Attaie), nome tão gentilmente cedido por Yevgny. Tomara que Jenna (e possivelmente até Samira) ganhe crescente destaque na temporada. No lado paquistanês, a traiçoeira Tasneem (Nimrat Kaur), personagem que foi apresentada na série lá na 4ª temporada e que fez gigantescos estragos, continua com um papel pequeno, mas essencial que também espero ver expandido em razão de seus laços com Haqqani e com o talibã.

Mesmo que eu mantenha minha posição inicial de que eu gostaria de ter visto mais de Carrie Matheson no hospital militar antes de ir para campo, é inegável que não teríamos um episódio dessa categoria para armar a temporada sem a agente bipolar em Cabul. E o melhor é que, aqui, tivemos Saul também em ação, resultando em seu sequestro (de novo!) por Haqqani e uma simpática coronhada de AR-15. Se é verdade que, se queremos paz, devemos nos preparar para a guerra, Catch and Release fez isso muito bem!

Homeland – 8X02: Catch and Release (EUA, 16 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie
Duração: 42 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | The Flash – 6X11: Love is a Battlefield

The Flash Love Is A Battlefield

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

O episódio desta semana de The Flash continua a corajosa (e nada invejável) missão, iniciada pelo capítulo anterior, de consertar Iris (Candice Patton). Antes um dos centros dramáticos mais importantes da produção, a personagem foi sendo arrastada por um lamaçal de narrativas desinteressantes, clichês preguiçosos e forçações de barra que acabaram a tornando, para muitos, um verdadeiro fardo para a série. O que surpreende é que o negócio funciona muito bem! O espanto não é devido a uma falta de fé na produção, “haterismo” barato ou algo do tipo: é que não é a primeira vez que tentam fazer isso e, normalmente, a emenda saiu pior que o soneto…

Love is a Battlefield abraça a ideia de reexaminar a personagem de tal forma que consegue abordar uma auto-crítica desses fatores sem apelar para a comédia. Uma coisa é a série brincando consigo mesma a respeito da dependência preocupante do Team Flash em relação aos discursos motivacionais. É divertidinho, é engraçado, mas ao final das risadas nada muda e continuamos atropelados pelos mesmos vícios narrativos de sempre. A opção aqui é mais arriscada, já que aborda a situação por uma veia dramática: a crise do relacionamento entre Barry (Grant Gustin) e Iris reflete, de certa forma, a própria “crise” entre o público e a personagem, não? Com o recém encontrado protagonismo da personagem, as dúvidas encaradas por Barry têm muito em comum com aquilo que podemos perguntar sobre a Sra. West-Allen. Quando foi que tudo mudou? Desde quando as coisa estão assim? Qual é, afinal de contas, o melhor papel dela na dinâmica do Team Flash?

Dada a inclinação da série para elementos românticos, não é de se surpreender que o Valentine’s Day sirva de pano de fundo para um episódio focado na vida cotidiana dos personagens e suas relações interpessoais. A oportunidade não é desperdiçada, pareando a crise pessoal de Barry com a DR supervilanesca entre Amunet Black (Katee Sackhoff) e Goldface (Damion Poitier), que traz um bem-vindo contraponto comédico ao dramalhão do núcleo principal. No campo de batalha do casal Flash, achei especialmente bacana a forma como Iris questiona os papéis que assumiu ao longo da série, contrastando com o seu recém-encontrado protagonismo à frente do “Team Citizen”.

Uma execução menos cuidadosa seria capaz de tornar a coisa toda mais um dos choramingos maçantes que ela estrelou ao longo desses seis anos. Felizmente, a construção da evolução da personagem tem tomado seu tempo para se dar da forma mais orgânica possível, resultando em algo totalmente diferente do que se costuma ver na série. São duas coisas muito diferentes:

  1. “Olha gente, não sei muito bem o que eu vim fazer aqui, mas não estou gostando de nada disso e, no fundo, eu sou o Flash tanto quanto meu marido, então vocês por favor me respeitem e vejam como eu sou uma personagem interessante, importante e essencial. Se eu não fosse, não estaria tendo que explicar isso pra vocês assim, mastigadinho, certo? Certo…?”
  2. “Barry, você literalmente viajou para a China para investigar uma manchinha de lama na máscara que ganhou de herança do Arqueiro, enquanto um grupo de assassinos perseguia a galera do meu jornal. Não tô falando que você não deveria ter ido, mas sim te mostrando que eu também mereço algum crédito e sei me cuidar melhor do que você pensa!”

Nem precisa dizer qual dos dois é mais interessante narrativamente, né? No primeiro caso, é o velho “falar ao invés de mostrar”, tentar convencer o público de que a personagem tem profundidade e conflito sendo que nada do que está sendo aludido na fala foi mostrado de forma convincente anteriormente na série. No segundo caso, um conflito orgânico entre dois pontos de vista plenamente justificáveis, discutindo eventos que nós acompanhamos acontecer na semana passada. Essa nova direção mostra que é possível, afinal de contas, nos fazer nos importar com a vida pessoal de nosso casal titular!

Deixando de lado a perspectiva externa do crítico chato para falar dos pormenores da história em si, a trama entre Amunet e Goldface, embora esteja longe de ser algo memorável, acerta bem na tonalidade comédica e com uma exploração juvenil do tema dos relacionamentos sem cair nos clichês de sempre. Apesar de gostar de Amunet, não era uma das personagens que eu tinha em mente para voltar tão cedo, enquanto Goldface estrelou um dos piores episódios da série, na minha opinião. Ou seja, que eu tenha me divertido com a dupla é um sinal de que foram elencados muito bem! Gostei bastante da subtrama envolvendo a flor especial, que deu um recheio metafórico bem bacana para o conflito entre os dois. A decisão de coroar tudo com uma cena ultra-galhofa funcionou bem, coroando com uma lição de moral jovial um filler leve, divertido e que, ainda assim, não deixa de servir bem à narrativa maior da temporada.

Parece que estou esquecendo de alguma coisa… Ah é! Um detalhezinho crucial nessa história toda, o qual pode acabar revelando ser essa apenas mais uma das tentativas frustradas de reabilitar a graça da Sra. West-Allen: o tempo todo estávamos lidando com a “Iris Espelhada” e não com a verdadeira! Embora essa revelação coloque em risco a legitimidade de todo o desenvolvimento de personagem feito aqui, a revelação do final não deixou de ser uma bela surpresa. Colocando sob perspectiva as ações dela ao longo de todo o episódio, o plot twist funciona justamente pela construção alongada e bem feita entre o episódio anterior e esse. É uma jogada simples de roteiro, mas que funciona bem justamente por isso. Veremos o que os próximos capítulos nos reservam!

Mas se tivermos que escolher entre a Iris antiga e essa nova versão, será que podemos ficar com a número 2?

The Flash – 6×11: Love is a Battlefield — EUA, 11 de fevereiro de 2020
Direção: Sudz Sutherland
Roteiro: Kelly Wheeler, Jeff Hersh
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Jesse L. Martin, Kayla Compton, Tom Cavanagh, Katee Sackhoff, Damion Poitier
Duração: 43 min.

Crítica | Homeland – 8X01: Deception Indicated

  • Há spoilersLeia, aqui, as críticas das demais temporadas.  

Depois de quase dois anos, Homeland volta às telinhas para sua oitava e derradeira temporada em uma jornada brilhante, ainda que não perfeita, desde sua estreia em 2011, com o começo do que chamo Trilogia Brody. E, mesmo tendo tido tanto tempo para pensar no que poderia ser o mote desse encerramento, fui pego de surpresa por uma escolha tão simples e óbvia, mas tão maravilhosamente lógica e circular, que Deception Indicated imediatamente capturou minha atenção: se a série começou com as suspeitas da agente bipolar da C.I.A. Carrie Matheson (Claire Danes) sobre a lealdade do soldado americano Nicholas Brody (Damian Lewis), que passou anos preso pelo talibã, então nada melhor do que ela acabar com suspeitas sobre a própria Carrie depois que ela passou 213 dias em um gulag russo, privada de seus medicamentos e sendo torturada.

Melhor do que isso é que o roteiro de Debora Cahn e do showrunner Alex Gansa não se contenta em deixar as suspeitas unicamente ao encargo de um agente carrancudo que a interroga em um sanatório militar na Alemanha quando o episódio começa, mas sim ao transformar a protagonista em uma narradora não confiável, ao não só fazer o espectador duvidar do que ela fala, como também semear dúvidas na própria Carrie, que passa a ter sua já perturbada mente assombrada pela terrível possibilidade de ela ter revelado os nomes de sua rede de espiões e infiltrados. O episódio é, portanto, angustiante e desesperador, voltando a usar a bipolaridade de Carrie como fio condutor da narrativa, algo que sempre tem enorme potencial quando é bem explorado como nas duas temporadas anteriores.

Saul Berenson (Mandy Patinkin), agora o todo-poderoso conselheiro do presidente Warren (Beau Bridges, que ainda não apareceu, mas que foi introduzido na temporada anterior), está em meio a negociações de paz exatamente com o talibã de ninguém menos do que Haissam Haqqani (Numan Acar, que também ainda não apareceu), aquele mesmo personagem que fez um acordo sombrio com Dar Adal (F. Murray Abraham) ao final da cambaleante quarta temporada e cujo arco, até agora, permanecia aberto para frustração de muitos (minha inclusive!). Só isso já é outra notícia alvissareira para quem acompanha a série, já que, ao que tudo indica, teremos um desfecho para essa ponta que havia sido largada por completo (talvez propositalmente). Não demora, porém, e o vice-presidente do Afeganistão manifesta-se publicamente recusando a libertar prisioneiros talibãs em poder de seu governo, elemento fundamental de negociação, exigindo que Berenson tome medidas desesperadas e reincorpore Carrie para uma missão em Cabul.

Devo dizer que teria gostado mais do episódio se ele tivesse ido mais devagar com a louça. Carrie no hospital ainda tinha muito a oferecer e sua retirada de lá ainda na metade do capítulo foi um pouco frustrante, especialmente considerando a velocidade com que ela imediatamente entra em ação, algo que chega até a ser desnorteador. Sim, compreendi perfeitamente a proposta de revelar o assassinato de um de seus informante pelos talibãs como chave para a dúvida interna de Carrie sobre os 180 dias que ela não se lembra estando em poder dos russos, mas isso poderia ter vindo talvez de outra forma ou até mesmo no episódio seguinte, sem precisar movimentar a trama na velocidade da luz logo em seu início.

E a rapidez dos acontecimentos também acaba atrapalhando a fluidez da missão de Max Piotrowski (Maury Sterling), que volta não só à campo, mas no meio do fogo cruzado no Vale de Korangal, no Afeganistão, em uma missão de conserto de equipamento de espionagem em território hostil e tremendamente perigoso, cercado de um pelotão que logo se afeiçoa do calado personagem. Último personagem da “velha guarda” da série fora Carrie e Saul, a presença de Max, aqui, não só é abrupta como diferente de tudo que vimos antes em relação a ele, pelo que Deception Indicated teria lucrado mais se, no lugar de se preocupar em deslocar Carrie do hospital quase que instantaneamente, tivesse preparado melhor o terreno para o especialista em escutas eletrônicas. Ainda que a missão dele já seja claramente conectada aos acontecimentos ao redor de Saul, será interessante ver como isso evoluirá e se ele será mantido apartado do restante do elenco, talvez desenvolvendo seu pelotão.

Claire Danes está novamente impressionante em seu papel, com uma performance natural, que deixa sua personagem constante à beira do abismo, prestes a pular. Sua reações em momentos chave, como quando ela confronta seu interrogador no sanatório, recebe a notícia de Saul de que ela voltará à ativa ou quando ela descobre sobre o assassinato de seu informante são de se tirar o chapéu, com a atriz prometendo um tour de force final que tornará Carrie uma das mais memoráveis personagens da televisão moderna.

A correria do episódio, porém, tem um lado muito positivo, já que ele deixa, em relativamente poucos minutos, o circo perfeitamente armado para o que vem por aí, costurando as suspeitas sobre Carrie em um tecido que de maneira genial retorna à premissa original da série, devolvendo a personagem ao Oriente Médio,  e, finalmente, trazendo Haqqani e, claro, seu torturador russo Yevgeny Gromov (Costa Ronin) de volta. E assim, com o tabuleiro devidamente posto, os 11 episódios finais têm todas as peças necessárias para encerrar Homeland com toda a pompa e circunstância que a série merece.

Homeland – 8X01: Deception Indicated (EUA, 09 de fevereiro de 2018)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain
Duração: 55 min.

Crítica | Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me?

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  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Who, clique aqui.

Até o mais desgostoso dos espectadores deverá admitir que a premissa de Can You Hear Me? é fantástica e prometia um daqueles misteriosos episódios de terror bem legais que a gente já teve na série antes. O resultado, porém, não foi assim tão animador como esperávamos, mas teve seus bons momentos e conseguiu trabalhar de maneira aceitável o seu assunto principal, garantindo uma boa diversão, apesar das barrigas.

Dividida entre Aleppo, 1380; Sheffield, 2020 e a nave de Zellin, num futuro distante, a trama explora os medos mais intensos, e a partir dessa situação temos um convite para olhar para dentro de cada um, gerando oportunamente um final de episódio bastante reflexivo e que aparentemente acena para a partida dos companions da Doutora (pelo menos Ryan e Yaz), o que evidentemente me deixou pulando de felicidade — e mais uma vez deixo claro que não é por desgostar deles, é porque eu estou enjoado deles e penso que os roteiros, embora tenham melhorado muitíssimo a dinâmica de um time grande na TARDIS, ainda não está conseguindo explorar organicamente o trio + a Doutora. E a minha primeira reclamação sobre o episódio tem a ver com esse assunto, por sinal.

Eu tenho a maior curiosidade para saber como foi o processo de escrita de Chris Chibnall e Charlene James para este capítulo. De quem foi a ideia de colocar a garota síria (Tahira, interpretada por Aruhan Galieva) como adicional temporária na TARDIS e mais Tibo (Buom Tihngang), o amigo de Ryan? Gente é o que não falta nessa nave ou nessa temporada e está claro o quanto isso segura o roteiro pelo rabo, em duas medidas: na estranheza, porque a gente fica se perguntando: “cadê fulano?“, e na estupidez, porque não há tempo de criar falas ou dar funções minimamente interessantes para esses coadjuvantes de momento (e eu implicava com a coitada da Courtney Woods, interpretada por Ellis George, na era do 12º Doutor! Mal sabia eu que estava no Paraíso!), de modo que ficam todos com cara de bolacha falando amenidades que ninguém se importa, atravancando o uso dos companions (que já são muitos) e o escopo de ação da Doutora, que precisa abarcar todo mundo. Ai ai…

O que torna o texto interessante, no entanto, é a jornada em torno do medo ou do desequilíbrio metal e que traz, na figura do vilão Zellin a conexão com diversos momentos da Série Clássica, como os Eternals (Enlightenment), os Guardians of Time (The Ribos Operation) e o Celestial Toymaker, que tem uma citação especial, dado o jogo que Zellin monta para a Doutora. Aparentemente estamos diante de um episódio isolado, mas ele tem a sutil habilidade de aglutinar rapidamente pequenos elementos da temporada, como o Dregs de Orphan 55 e a Criança Atemporal, dando um senso maior de unidade, mesmo que não nos encha de respostas. Eu me diverti com a história em si, mas não pude deixar de me irritar com a já citada superpopulação do núcleo central e em mais dois momentos, que acho que realmente estragaram muita coisa.

O primeiro foi aquela TE – NE – BRO – SA escapada da Doutora. Eu juro pra vocês que eu pausei o episódio para tentar respirar e me acalmar com o que eu vi naquela cena. Aquilo foi horrível em tudo o que se possa imaginar: foi uma escapada feia e burra para os moldes e inteligência da Doutora; foi uma das resoluções mais mal editadas que eu já vi em toda a minha vida e, pior ainda, foi uma cena num ponto alto do episódio, já orbitando o clímax, e exigia que o roteiro desse a máxima atenção para fazer um bom crescendo até o ponto máximo. Só que em poucos segundos vem aquele Deus Ex Machina e pronto, a Doutora estava liberta…

Por outro lado, me agradou demais a atenção dada aos companions, cenas que deveriam aparecer na primeira metade da 11ª Temporada, mas tudo bem, pelo menos apareceram, certo? Esse é o tipo interessante de exploração de personalidade e vida pessoal dos personagens e que casa bem com a temática do capítulo, dando um pouco mais de pistas sobre as ações, o pensamento e os anseios de cada um. Mas aí, caindo na maldição dessa Era (que para cada coisa boa deve ter uma ruim) tem aquele monólogo bonito e doloroso do Graham com a Doutora e ela simplesmente escanteia o cara! Eu fiquei muito bravo com os roteiristas nesse ponto. A Doutora dar um puxão de orelha na Yaz e dizer que eles “fazem perguntas demais” é uma coisa que faz sentido esperar dela, mas tratar o Graham daquele jeito? A 13ª Doutora? Não faz nenhum sentido. Estragou um momento bonito a troco de nada, indo na contramão de tudo o que se construiu da Doutora até aqui e perdendo outra oportunidade de ouro para fazer com que ela se mostrasse mais.

Apesar dos pontos negativos do episódio, eu realmente gostei da história como um todo. O que me incomoda é que mesmo em episódios que eu tenho gostado da maior parte, a ponto de estarem solidamente acima da média, ainda vejo tropeços quase inacreditáveis para DW a essa altura do campeonato. Impossível não se irritar com Chris Chibnall por isso.

Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me? (Reino Unido, 9 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Chris Chibnall, Charlene James
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Clare-Hope Ashitey, Aruhan Galieva, Nasreen Hussain, Buom Tihngang, Bhavnisha Parmar, Ian Gelder
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

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Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X02: Miss Me, Kiss Me, Love Me

plano crítico legends of tomorrow Miss Me, Kiss Me, Love Me (2020)

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Dando um bom pulo de qualidade e diversão de Meet the Legends para cá, LoT parece ter encontrado um bom caminho na perigosa premissa de reaproveitar a dinâmica de “caça aos vilões” que marcou a 4ª Temporada. Miss Me, Kiss Me, Love Me (título que brinca com a famosa canção Poison, do Bell Biv DeVoe) é um indicativo verdadeiro de que essa temática pode funcionar, agora que trabalha com uma alma condenada numa atmosfera bem diferente daquela em que apareceu Raputin e, ainda assim, logrou um baita resultado final.

Existem referências nos diálogos a Chinatown (1974), Tubarão (1975) e Os Simpsons, enquanto a trama se passa em Los Angeles, no ano de 1947, e no futuro. O clima de máfia em cores flerta com o noir, mas segue a escola cômica (no texto e na fotografia) de O Escorpião de Jade, o que me deixou preocupado no início, porque a quebra dramática no começo do episódio não flui bem, o que poderia colocar tudo a perder, já que a maior parte do tempo seria nesse cenário da “Era de Ouro”. É então que o texto de Ray Utarnachitt revela a sua verdadeira intenção e abraça a comédia sem abandonar o perigo da vez ou ignorar os esforços das Lendas para dar cabo de mais um infame liberado por Astra.

A estratégia utilizada pelo autor é perfeita: a parte cômica serve como costura do enredo, assim, vemos uma boa dose de cenas hilárias dentro e fora da nave, com destaque para Ava achando que cantava maravilhosamente bem e para o aniversário do pai de Behrad (o meu bloco favorito do capítulo). É através dessas pequenas distrações que a grande problemática do episódio se passa. Depois de estabelecida a proposta, todo o capítulo flui deliciosamente bem, de modo que é até possível perdoar a má desenvolvida colocação de Ray na Polícia, linha que só funciona no final, mas que mesmo assim não é algo assustadoramente ruim, apenas mal introduzido.

Nós já tivemos situações familiares cômicas e complexas quando visitamos a família de Nate algumas vezes na Temporada passada, então esse tipo de trabalho na série já é conhecido, e a melhor coisa em relação a ele é que funciona bem: os visitantes têm algo a esconder e a família, sem saber, coloca-os em situações delicadas (e por isso, cômicas), exatamente o que temos em toda a sequência com Nate e B tentando esconder quem de fato são… e o que fazem.

Eu achei que iria odiar a volta de Zari (novamente reciclagem de outro elemento da série, feito antes com Charlie), mas eu curti muito esse retorno dela. A personagem agora é um influenciadora digital daquelas bem patéticas, e que desconfia do trabalho do irmão e do estranho “professor” que ele levou para casa. Era já o tempo de algo dar errado, como de fato deu. Mas deu errado para melhor, claro. Nessa linha, só temos boas coisas para esperar dessa temporada. Louvado Seja!

Legends of Tomorrow – 5X02: Miss Me, Kiss Me, Love Me (EUA, 20 de maio de 2019)
Direção: David Geddes
Roteiro: Ray Utarnachitt
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Tala Ashe, Jes Macallan, Olivia Swann, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Shayan Sobhian, Haley Strode, Jonathan Sadowski, David Diaan
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X10: Marathon

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Embora eu não tenha checado mais de perto, tenho a impressão de que essas “premieres” de meio de temporada de The Flash normalmente falham em dar continuidade aos ganchos interessantes deixados pelo episódio anterior ao hiato. Foi assim no ano passado com The Flash and the Furious, que conseguiu desperdiçar, numa tacada só, os ganchos deixados pelo encarreiramento entre um episódio comemorativo e um crossover! Nesse sentido, Marathon consegue romper um pouco com a tradição, ao menos no que diz respeito ao formato e ritmo de desenvolvimento da temporada.

Não que o episódio seja em princípio muito diferente do que costuma rezar o manual: temos aqui uma típica “faxina pós-evento”, temperada por teasers ocasionais das subtramas que irão nos decepcionar divertir ao longo das próximas semanas. Porém, uma coisa que funciona melhor aqui se compararmos ao passado da série é justamente a estruturação da trama maior da temporada.

Continuando a boa pegada do novo time de showrunners, a história aqui tem mais cara de “começo de temporada” do que de “retorno do hiato” propriamente dito. E isso é muito bom, já que parece colocar em prática uma proposta de duas sub-temporadas mais curtas como alternativa à longuíssima “história sem fim” usual. Com a ameaça de Bloodwork/Hemoglobina devidamente contida (ao menos por hora) e poucas pontas soltas para adereçar, a produção consegue ter fôlego narrativo para se dar ao luxo de explorar o inconfundível terreno de filler sem soar tão prolixa e desorientada quanto costuma ser o caso.

Nossa faxina pós-Crise tem seus altos e baixos, e na verdade não faz muito mais do que nos informar a respeito das consequências da reestruturação geral do Multiverso da CW, agora concentrado em uma Terra-Primordial. Difícil escapar da impressão de que essa reintegração vai acabar se dando de forma um tanto desajeitada, em especial no que diz respeito a aproveitar a ocasião para efetivar uma renovação profunda na série — o que, no final das contas, imagino que se aproximaria mais de um reboot do que de qualquer outra coisa. Por outro lado, também não tenho como negar o charme dessa continuidade integrada entre as séries, que tem melhorado a cada ano e, especialmente nesse epílogo, lida de forma totalmente quadrinhesca com os efeitos da morte de Oliver Queen.

Temos aqui um Diggle (David Ramsey) em um momento intermediário entre o final da Crise e o finale de Arrow, trazendo para Barry (Grant Gustin) um presente especial deixado por Oliver, que coloca os dois em uma busca um tanto sem pé nem cabeça e que tem como propósito amarrar tematicamente a subtrama de nosso protagonista com a do episódio em si, ao mesmo tempo em que nos detemos um pouco mais sobre sua reação ao sacrifício do Arqueiro. Dada a relação dos dois e o papel do herói veterano em inspirar o heroísmo de Barry, a investida é mais do que justa e, exemplificando bem a temática do episódio, mostra os ganhos que uma desacelerada necessária pode conceder no momento certo.

Na prática, a simplicidade dessa linha narrativa faz do episódio um raro capítulo “Flash-lite” (ou seja, com pouca presença de nosso velocista titular), muito provavelmente devido à necessidade prática de se filmar tudo isso simultaneamente aos episódios da Crise. E tudo bem com isso! Muito mais vale ver pouco do nosso herói, em cenas mais alongadas que se servem de um drama concreto e sincero do que desgastar o personagem no típico gato e rato emocional sonífero de sempre, não? Ironicamente, quem sai melhor servida pela situação é ninguém menos que Iris West-Allen (Candice Patton), personagem praguejada por tanto tempo por subtramas preguiçosas e esculachadas e que finalmente tem tido a chance de se rehabilitar sob a batuta de Eric Wallace.

O grande feito do novo time produtivo foi realizar um bom episódio no qual o núcleo de Iris ocupa o protagonismo. Dado o estado em que a temporada passada nos entregou a personagem, é um feito e tanto. O núcleo do The Citizen continua cativante e aproveita a construção feita na primeira metade da temporada para mostrar que agora é capaz de sustentar suas próprias subtramas de forma legítima. Como bom fã das histórias focadas no Planeta Diário (e da clássica série Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman), eu acabo sempre sendo parcial a uma boa história de super-herói focada na investigação jornalística, e posso dizer que esse foi o melhor episódio para Iris desde… provavelmente sempre? A personagem consegue puxar seu núcleo narrativo sem cair nas fracas retratações usuais — o diálogo com Joe (Jesse L. Martin), em especial, mostra os personagens em uma boa forma que é rara de se ver em um bom tempo!

Paralelamente à revelação bem compassada da Black Hole e ao teaser do que parece ser uma nova iteração do Mestre dos Espelhos (num cliffhanger alongado sensacional), temos tempo ainda para um conflito tenso entre Nevasca (Danielle Panabaker) e uma nova Doutora Luz (Emmie Nagata) — com um traje ofensivamente ruim ao ponto de me lembrar dos Movellans de Doctor Who. Os armamentos alienígenas e a conspiração armadas pelo episódio são um passo na direção certa, no sentido de que eu penso que a série teria muito a ganhar em deixar de lado as tramas mais mirabolantes em favor de um super-heroismo básico, ao menos para explorar melhor nosso novo status quo.

Por falar nisso, Cisco (Carlos Valdes) confirma que Harry e Jessie aparentemente não conseguiram escapar do cataclisma da Terra-2, o que, se confirmado seria uma verdadeira lástima. Minha esperança é que o sumiço do (novamente ex-)Vibro esteja ligado a uma futura volta à forma, quem sabe encontrando o Conselho dos Wells em um algum “abrigo anti-Crise”? Eles não iam acabar com uma das melhores coisas da série, que é a tradição dos “infinitos Wells”, né? Né…?

No total, Marathon consegue explorar de forma interessante um formato que tradicionalmente não funcionou na série. Ironicamente, consegue isso ao fazer o mínimo e continuar se apoiando nos acertos dessa nova fase. O mérito pela temática de “a vida é uma maratona, não uma corrida” funcionar bem, por exemplo, aponta mais pelo fato de que é um “tema motivacional” que surge de forma orgânica, dados os eventos da primeira metade da temporada, ao invés de vir com a mão pesada de sempre para ocupar a cota de draminhas baratos, provando nossa teoria de que é tudo uma questão de jeito. Mas será possível que é preciso que o ator do Flash esteja ocupado gravando outra coisa para termos mais protagonismo por parte de Iris? Ou será que a produção finalmente pegou o jeito e fará jus à personagem? Veremos!

The Flash – 6×10: Marathon — EUA, 4 de fevereiro de 2020
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Sam Chalsen, Lauren Barnett
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Danielle Nicolet, Jesse L. Martin, David Ramsey, Victoria Park, Kayla Compton, Eric Nenninger, Emmie Nagata
Duração: 43 min.

Crítica | Doctor Who – 12X06: Praxeus

plano crítico praxeus doctor who

  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Who, clique aqui.

Como existe uma similaridade de proposta deste episódio com o pior da temporada até agora (Orphan 55), eu vou reservar um tempo para falar da estrutura desse 12º ano do do show antes de entrar no episódio propriamente dito. E isso se deve não apenas à já dita proximidade temática como também ao caráter humano que ele traz, envolvendo recorte étnico, de sexualidade e ambiental. Eu já imagino os Megazord do Ódio vazando óleo e usando o termo “politicamente correto” errado e fora de contexto. O primeiro ponto que eu quero levantar é sobre a questão ambiental. Já fiz um apanhado histórico em relação à série lá no texto de Orphan 55, e mantenho exatamente a mesma opinião aplicada a este aqui, de modo que não vou repetir a mesma coisa. Menos um assunto. Já o segundo ponto é sobre o que faz esse episódio ser problemático, e o que é mais triste: isso tem pouco a ver com o episódio em si.

Para não ser injusto, eu restringirei o meu escopo comparativo apenas à Nova Série, mas quero deixar claro que há um número gigantesco de exemplos na Série Clássica que dão suporte ao meu argumento. E para não perder tempo, vamos nos ater apenas a Doctor Who, certo? Vamos lá. É um padrão para a série, desde o seu revival em 2005, manter uma estrutura organizacional de temporadas que tenha mais ou menos essa dinâmica: “apresentação de problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com mínima ligação; episódio chocante ligado à problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com alguma ou nenhuma ligação; reta final com diferentes níveis de relação diante da problemática da temporada; Finale“. Ou seja, todos nós já estamos acostumados com os fillers elegantes ou charmosos de Doctor Who, embora existam exceções (óbvio!), como os fartamente lembrados Love & Monsters e Fear Her, embora não sejam os únicos. Com isso já tiramos um “problema que não é um problema” de cena: episódio filler ou relativamente solto na temporada nunca foi uma novidade na série. TODAS as temporadas do show são organizadas com “pausas para respirar” e dar a oportunidade de colocar o Doutor num cenário diferente, sem real compromisso com a temática maior. Este não é o problema. O problema aqui é…

… a absurda falta de sensibilidade de Chris Chibnall (e sim, isso é culpa dele porque uma das coisas que ele mesmo disse que tem é a opinião final em relação à organização dos episódios na temporada) em fazer com que uma trama tão destoada da temática central seguisse a um episódio do nível de Fugitive of the Judoon. Eu, como espectador, imaginava uma sequência imediata, mas se não isso, pelo menos uma ligação direta e dramaticamente relevante em torno daquela ideia! O que tivemos com Praxeus, que é um bom episódio, foi uma quebra total após um turbilhão de informações, interferindo de fato na qualidade da temporada e também na forma como a gente vê o episódio. E você pode argumentar que a passagem para este foi 100% mais elegante que a de Spyfall – Part Two para Orphan 55, e eu concordo. Agora vamos pensar um pouco sobre a maneira como a ligação foi feita: o que o roteiro estava tentando nos sugerir? Que os sinais colhidos em 3 continentes diferentes teriam alguma coisa a ver com o drama dos Judoon ou um assunto correlato, certo? Pois cá estamos, falando inteiramente de outra coisa. Que organização tenebrosa de grade da temporada, meu Santo Omega!

Já o episódio em si foi uma experiência divertidíssima para mim. Eu gosto muito da estrutura frenética de abordagem de Chibnall, que aqui escreve o roteiro ao lado de Pete McTighe, mesmo autor de Kerblam!. O que é melhor nisso é que o tratamento dado aos companions, ao menos em termos de uso deles em cena, está em constante melhora, o que é surpreendente. Mas tem coisa que é difícil aceitar. A Doutora deixar Yas ir sozinha para um lugar que acabaram de fugir de aliens? Ainda com outra viajante ocasional da TARDIS? Não comprei isso de jeito nenhum, mas ao mesmo tempo, gostei de ver as duas jovens em ação. Da mesma forma, achei estúpido Ryan entrar na ala de quarentena do hospital, mas gostei da ação solo dele no Peru. E vale aqui acrescentar que foi MUITO legal ver a série trazer pessoas de diferentes nacionalidades e visitar diferentes países. Todavia, lá no fundo da minha cabeça, continua algo martelando desde o terceiro episódio: quando é que a gente vai visitar outro planeta? Por favor, que tenha pelo menos UM episódio ambientado de fato em outro lugar, outra Galáxia! A gente gosta da nossa casa, mas vamos sair da Terra um pouco?

A disposição do problema do vírus foi outro ponto positivo aqui. Como o episódio se passa em diferentes lugares, foi interessante ver os esforços conjuntos para trazer alguma resolução à causa e nesse aspecto eu só tenho uma grande decepção: criaram um mistério insano diante dos aliens e quando a gente viu a cara deles… eram iguais a nós. Nem pra ter uma orelhinha maior, um olho de uma cor diferente, umas tatuagens, uma roupa diferente! De todo modo, foi uma boa participação desses indivíduos, assim como a do casal com problemas conjugais que acabam ganhando bastante destaque. Os tropeços em relação a eles ficam mais por conta do personagem de Warren Brown, que tem uma personalidade mais esquiva, fria, desapegada. Com tanta gente no episódio para dar atenção, faltou tempo para expandir e mostrar uma mudança mais orgânica para ele.

Sem didatismo no final (aleluia!), a temática ambiental funcionou perfeitamente bem e manteve a cara ágil da temporada, embora essa agilidade esteja ligada ao deslocamento de personagens + edição, não necessariamente de entendimento geral do problema na narrativa, que de fato acaba demorando um pouco mais para se mostrar de todo (o que para mim não é um problema, só estou apontando fatos). Eu certamente gostaria mais se este episódio estivesse no começo da temporada, não depois de uma porrada de novidades que tivemos uma semana antes. Por que, Chibnall? Por que?

Doctor Who – 12X06: Praxeus (Reino Unido, 2 de fevereiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Pete McTighe
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Warren Brown, Matthew McNulty, Molly Harris, Joana Borja, Thapelo Maropefela, Gabriela Toloi, Soo Drouet, Tristan de Beer
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

star-trek_picard Maps and Legends plano crítico episódio

  • SPOILERS! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.

Crítica | Arrow – 8X10: Fadeout

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

E, depois de oito anos, Arrow, que marcou o pontapé inicial do Arrowverse, hoje populado das mais variadas séries, chega a seu fim. Com uma temporada final reduzida, mas completamente escrava do crossover Crise nas Infinitas Terras e que, no episódio anterior, também serviu de pontapé inicial para o spin-off Green Arrow & the Canaries, Fadeout vem para mais uma vez homenagear Oliver Queen e para preparar o terreno para o que está por vir, agora que o herói morreu e tornou-se o Espectro, figura que, tenho certeza, aparecerá vez ou outra nas séries do canal.

O mote é o enterro de Oliver, que abre oportunidade para afirmar que, em sua segunda morte, que também recriou o multiverso, o herói ressuscitou sua mãe Moira Queen, seu melhor amigo Tommy Merlyn e seu mentor Quentin Lance, além de ter eliminado o crime em Star City. Tentar entender o porquê de ele não ter ressuscitado mais gente, especialmente a Laurel Lance original, mesmo que o episódio tente oferecer explicações mequetrefes, é um exercício em futilidade, até porque a conclusão de que ele foi egoísta ao não ter eliminado o crime no mínimo nas cidades de seus amigos super-heróis, é inafastável, pelo que é melhor nem pensar nisso. Voltando ao enterro, ele é o ponto focal e a razão pela qual boa parte do elenco da série retorna – inclusive o sumido Rory Regan (ou Retalho), a Mia Smoak do futuro e, claro, Felicity -, mas os showrunners da série e que também escreveram o episódio, acharam pouco e tiveram que inserir ação, pois seria impensável fazer algo mais contemplativo ou reflexivo.

Com isso, eles inventam o sequestro (de novo!) de William, filho de Oliver. Sua versão adulta acabara de ser sequestrada em 2040 e, pelo visto, o William garoto ficou com ciúmes e quis o mesmo, em uma construção completamente artificial com uma resolução mais artificial ainda que coloca Mia nos holofotes como a grande herdeira do legado do Arqueiro Verde (uau, que surpresa…). Mas nem tudo é ruim nessa tentativa de se marretar ação no episódio, já que os flashbacks para 2012, em um momento importante na vida de Oliver em que, influenciado por John Diggle, ele deixa de matar bandidos (foi o mesmo momento em que a coragem dos showrunners em fazer algo diferente foi para o ralo). E digo que nem tudo é ruim não por esse momento em seu passado em si, pois ele é tão artificial quanto o sequestro de seu filho no presente e, claro, a conexão entre as duas coisas, mas sim porque a execução das sequências de ação é muito boa, completamente fora da curva em relação ao que vinha sendo apresentado ao longo dessa temporada e também da temporada anterior.

James Banford, que foi o responsável pelo tenebroso Purgatory e pelo fraco Starling City, tem talvez seu melhor trabalho com diretor aqui, especificamente nos dois planos-sequências do Arqueiro, no passado, liquidando capangas de um vilão que trafica humanos. Não só a coreografia é muito boa, como o dinamismo das duas cenas é impressionante, algo que há muito não se via em qualquer série da DC da CW. Claro que não há nem de longe o finesse dos incríveis planos-sequência de Demolidor, por exemplo, mas a pancadaria que vemos aqui é exatamente o tipo de despedida digna que eu esperaria para o super-herói, por mais que ele nunca tenha sido mais do que mediano para mim. Além disso, o foco em John Diggle tanto no passado quanto no presente dignifica o sidekick de Oliver e efetivamente o coloca como o herdeiro do herói, já que, convenhamos, é duro de engolir a tal Mia Smoak como super-heroína.

Tudo bem que a confirmação de que John Diggle tornar-se-á o Lanterna Verde da Terra Prime (presumivelmente aparecendo primeiro na série Superman & Lois, já que ele se muda para Metrópolis e já que a série dos Lanternas Verdes se passará em outra Terra) é feita da maneira mais marretada e boba possível, um daqueles fan services escritos em papel higiênico pelo entregador de cafezinho do estagiário do secretário do assistente de roteirista da série, mas o mero fato de o personagem ter um fim nessa linha, colocando-o não como um coadjuvante largado, mas sim como alguém que carrega efetivamente o legado do Arqueiro Verde de alguma forma, é algo que merece aplausos. Mas não muito efusivos, claro, pois meteoro caindo no jardim de sua casa, ele metendo a mão na cratera logo em seguida e tirando uma “caixa de óculos” com provavelmente o anel da Tropa dos Lanternas foi de fazer as retinas sangrarem…

E, com isso, mesmo com todo o chororô que marca a despedida, mesmo com a reformação do casal vai-não-vai Thea Queen e Roy Harper (aquele braço mecânico paraguaio dele foi comprado no camelô, só pode…), mesmo com a ressuscitação de personagens que muito provavelmente deveriam ter permanecidos mortos, mesmo que tenhamos que ter aturado Felicity de novo e mesmo que Star City tenha sido magicamente libertada dos crimes, no final das contas o adeus para Oliver Queen até que conseguiu ficar acima da linha do meramente mediano. Por outro lado, é triste notar que isso é o máximo que a CW consegue fazer para o personagem fundador de seu multiverso.

Arrow – 8X10: Fadeout (EUA, 28 de janeiro de 2020)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: James Bamford
Roteiro: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Katie Cassidy, Katherine McNamara, Colin Donnell, Willa Holland, Susanna Thompson, Paul Blackthorne, Emily Bett Rickards, Colton Haynes, Echo Kellum, Rick Gonzalez, Juliana Harkavy, Sea Shimooka, David Nykl, Katrina Law, Caity Lotz, Joe Dinicol, Jack Moore
Duração: 42 min.