Home

Crítica | Better Call Saul – 5X07: JMM

Hello darkness, my old friend.
– Simon & Garfunkel

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Um dos maiores pontos de interrogação dessa temporada de Better Call Saul era a razão para a presença intermitente de Howard, primeiro oferecendo emprego em seu escritório para Jimmy e, depois, sendo alvo de bolas de boliche arremessadas e prostitutas enviadas por Saul, em uma espécie de vingança mesquinha. O que Vince Gilligan e Peter Gould queriam com isso, afinal de contas, já que, apesar da comicidade das sequências, elas não estavam de forma alguma se encaixando no todo. Mas a resposta veio agora, em JMM, como mais uma prova que essa dupla criativa não costuma errar.

Howard, ao que tudo indica, foi usado como a proverbial gota d’água, como o vetor para a explosão de Saul que terminou de dissipar o que ainda havia de Jimmy nele. Chega a dar pena do advogado almofadinha que ainda tenta, mais uma vez, oferecer o emprego a Jimmy como uma forma de expiar seus próprios pecados e de “salvar” o irmão de Chuck. Essa última oferta, ali nos corredores do tribunal, com Jimmy olhando para as consequências dos atos do cartel que agora passou a defender, era, quase que literalmente, sua última chance, sua última forma de escapar de seu futuro sombrio de defensor de criminosos que não mostram um pingo de arrependimento pelo que fizeram.

Não é que Howard seja um inocente útil em toda essa equação, pois ele tem sua parcela de culpa em tudo o que aconteceu antes – ainda que infinitamente menor do que a parcela de culpa de Chuck e do próprio Jimmy -, mas sim que sua tentativa de se redimir ao tentar redimir Jimmy mostrou-se genuína ao ponto de ele entender os ataques que sofrera, ataques esses que foram válvulas de escape para um Jimmy furioso consigo mesmo. E, novamente, quando, ainda furioso, esse Jimmy perde as estribeiras com Howard, gritando nos corredores de seu local de trabalho, é como se ele estivesse deixando, ali, suas últimas palavras como Jimmy e abrindo de vez as portas para Saul, o advogado de bandido ou, como diria Jesse para Walter, o advogado bandido.

Sei que me adiantei nos comentários, começando pelo final, mas é que ver o descontrole de Jimmy foi chocante, um momento realmente forte e que, em retrospectos, podemos ver que estava em banho maria já há muito tempo, quase passando do ponto. Se rebobinarmos para os momentos anteriores do próprio episódio, com Lalo e depois Mike exigindo que Jimmy soltasse o bandido com pagamento de caução, por mais improvável que isso fosse sob o ponto de vista jurídico, com a transformação da sigla JMM de James Morgan McGill (que nunca foi) para Justice Matters Most (“Justiça é o Que Mais Importa”) para, finalmente, Just Make Money (“Apenas Fazer Dinheiro”) e os olhares de Jimmy para a família da vítima de Lalo, entendo a magnitude do que estava fazendo, entenderemos o dilema e a certa facilidade com que Jimmy varre o que ainda tinha de moralidade para debaixo do tapete e encara o trabalho que o tornaria famoso de braços abertos, sem, aparentemente, mais reservas.

E isso porque a abrupta proposta de casamento de Kim à Jimmy ao final de Wexler v. Goodman tinha, no final das contas, um raciocínio frio e prático por trás: minimizar as mentiras entre eles e impedir que um testemunhe contra o outro se um dia eles chegarem a esse ponto. Tive a impressão que havia sido algo fruto do desespero de Kim em ver sua relação com Jimmy desmoronar; mas não, ela tinha um plano sólido por trás daquele discurso que colocou seu parceiro contra a parede. Mas, na execução do plano, no casamento em cartório dos dois com Huell como testemunha (e hilariamente achando que tudo é um golpe – o que, de certa forma, não deixa de ser), vemos pela primeira vez em todas essas temporadas os dois realmente juntos e… felizes. A maneira distante como eles sempre se trataram é dissipada aqui, com sorrisos, brincadeiras e um momento raro de desejo e intimidade na cama em que Kim recebe a notícia de que Jimmy havia sido contratado pelo cartel de drogas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Muitos podem ver isso tudo como algo que coloca Kim e Jimmy mais próximos ainda do abismo, mas, sinceramente, tenho uma visão especulativa diferente e creio que o caminho que a relação dos dois tomará será no mínimo peculiar.

Um episódio perfeito talvez merecesse mais comentários, mas acho que o uso do adjetivo “perfeito” deixa já muito claro minha opinião sobre ele. Eu poderia falar da curta, mas excelente sequência de Mike finalmente voltando a contactar Jimmy e, depois, revelando-se como “curado” diante de sua nora e neta, como se o trabalho para Gus fosse sua própria válvula de escape; de Gus e Nacho explodindo a loja dos Los Pollos Hermanos para manter a farsa em relação aos Salamancas e a Don Eladio, com o ódio fluindo do olhar destruidor de Gus; do estabelecimento ainda mais forte da conexão de Gus com a Madrigal, empresa dona de sua cadeia de lojas de frango frito e que, como fica claro, banca o super-laboratório subterrâneo na futura lavanderia, mas isso seria chover no molhado, pois é quase inacreditável que tantas peças móveis conectadas na base dos “seis graus de Kevin Bacon” funcione tão bem narrativamente, com transições fluidas e lógicas que mantém a temática de expiação e de mergulho no lado mais sombrio da personalidade em cada momento.

JMM parece ser o enterro de Jimmy e o começo de Saul como o vemos no episódio 2X08 (Better Call Saul) e seguintes da 2ª temporada de Breaking Bad. Mas ainda há um grande espaço temporal para ser coberto, mesmo que, eventualmente, as duas séries não se alcancem completamente e, tenho certeza que, no processo, Gilligan e Gould têm ainda diversas bolas curvas para arremessar.

Better Call Saul – 5X07: JMM (EUA, 30 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Melissa Bernstein
Roteiro: Alison Tatlock
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 48 min.

Crítica | Homeland – 8X08: Threnody(s)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Uma trenodia é uma ode, poema ou composição triste e/ou fúnebre e o 8º episódio da última temporada de Homeland entrega justamente o que promete no título, inclusive com a pluralização da palavra. Chegam ao fim, aqui, não só Haissam Haqqani e, junto com ele, a esperança de paz Oriente Médio, como também o silencioso, tímido, mas corajoso Max Piotrowski, especialista em escuta eletrônica que era o último personagem clássico da série fora Carry e Saul.

O roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, dupla imbatível na escrita da série, novamente entrega um texto afiado, repleto de tensão e angústia que, se não chega a nos dar exatamente esperança especialmente sobre o fim de Max, certamente valoriza muito os acontecimentos, pintando um quadro sombrio para o futuro tanto da protagonista, como da série como um todo. Tornando as mortes interdependentes, os roteiristas deixam claro de início que nada acabará bem e o pior acontece na reunião da sede de sangue e de vingança de G’ulom com a covardia e a falta de personalidade de Hayes, em demonstrações do que de pior o ser humano é capaz.

Toda o nervosismo que o episódio cultiva vem das desesperadas tentativas de David Wellington de ganhar a queda de braço contra John Zabel (Hugh Dancy, marido de Claire Danes) sobre quem tem mais o ouvido do influenciável presidente americano, com o segundo, extremamente belicista, daqueles que acham que tudo se resolve com bomba, tiro e porrada, levando os EUA à proximidade de mais uma guerra, desta vez tendo o Paquistão como alvo. Particularmente, a entrada de Zabel na série, que aconteceu ao final de F**ker Shot Me, e sua alçada a personagem-chave quase que instantaneamente aqui em Threnody(s) incomodou-me muito, por ele ser personagem novo, sem contexto, que deveria ter sido apresentado bem mais cedo na temporada de forma que ele funcionasse melhor aqui. Entendo perfeitamente a necessidade de um personagem assim, para contrabalançar o bom-mocismo de David que realmente parece querer fazer o melhor diante das circunstâncias, mas é justamente por ser evidente essa necessidade que essa peça deveria ter sido usada antes, mesmo que de maneira tangencial.

A grande verdade, porém, é que a história sobrevive a esse “intruso” graças à qualidade do trabalho da dupla de roteiristas e também de Michael Klick na direção que orquestra uma montagem paralela extremamente eficiente que contrapõe os dramas de Haqqani, sempre em planos americanos ou close-ups, e de Max, sempre visto à distância, em planos gerais. Sabemos que não há saída para nenhum dos dois, ganhamos momentos de respiro quando a prisão de Max segura a execução de Haqqani por um tempo, somente para tudo desmoronar em seguida. E, como se isso não bastasse, a reunião dos talibãs sob as mentiras engendradas por Jalal Haqqani é como sal da ferida, tornando toda a situação próxima de uma bomba prestes a explodir.

Mas toda essa desgraça funciona, na verdade, como degraus de uma escada para os torturantes momentos finais de Carrie, que espera o resgate do corpo de Max chorando sobre ele e expiando seus pecados para Yevgeny. A presença de Saul é um bálsamo, pois, com ele ali, tudo correrá bem, ainda que mesmo ali saibamos que as coisas não são tão simples assim. As dúvidas sobre a idoneidade de Carrie depois de seus sete meses presa na Rússia e de seus recentes contatos com Yevgeny precisavam cair sobre ela como uma guilhotina e é exatamente isso que aqueles segundos próximos ao helicóptero em que os soldados querem algemá-la significam. Mesmo que Saul não tivesse mesmo ideia do que estava prestes a acontecer, o mundo de Carrie termina de desabar ali, sem nenhum amigo seu vivo e o único que ela considerava aliado mostrando-se no mínimo impotente. Para o manipulador Yevgeny ser a última esperança de achar a caixa preta do helicóptero dos presidentes, quer dizer que, possivelmente, a agora novamente ex-agente da CIA chegou a seu outro fundo do poço.

A essa altura do campeonato, mesmo com a súplica de Haqqani para que Saul continue o caminho da paz, já não consigo vislumbrar qualquer final próximo do feliz. Não que eu esperasse isso, claro, mas, antes, eu conseguia ver raios de luz no meio da escuridão total e, agora, não mais. Um presidente fraco sendo manipulado por um conselheiro abertamente pró-guerra; a morte de um líder sendo utilizada como mecanismo para recrudescer sentimentos de vingança; uma quase declaração de guerra e uma agente da CIA desertando seu posto e bandeando-se para o lado de alguém cujas intenções estão longe de ser claras. O mundo de Homeland – talvez assim como o nosso – está em frangalhos e reconstruí-lo é um sonho longínquo. Melhor mesmo já irmos nos preparando para mais trenodias…

Homeland – 8X08: Threnody(s) (EUA, 29 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Klick
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 48 min.

Crítica | The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers

plano crítico The Walking Dead – 10X14 Look at the Flowers

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Ou um tolo disposto a acreditar em futuros amigos.

Aproximando-se do final da 10ª Temporada fica mais claro o alarme falso dos sussurradores, prometidos como a maior ameaça da série até então, mas na prática nunca funcionando dessa forma (tal como o Negan), extremamente bem introduzidos, mas com um arco enrolado tão à exaustão que foi diminuindo o tamanho deles conforme o tempo. A Alfa MORREU no episódio passado e parece que toda a sua trupe evaporou junto a ela, porque ninguém fica sabendo disso ao longo desse episódio além de Beta e outros cinco capangas. Inclusive, aquele final vinha com a conexão forçada de Carol como a precursora do plano ao liberar Negan para matá-la, uma jogada deviadamente irresponsável, no limbo, mas que parecia na fala “You take long enough”, transparecia uma lucidez de que ela sabia que era certa, para o discurso mudar justamente na cena seguinte, em que ela já começa reclamando ao Negan que demorou demais e começa a transtornar de novo, dizendo que quer ficar sozinha e partindo sem rumo, para lugar nenhum.

Já defendi a personagem antes, poucos episódios atrás (especificamente em Squeeze), mesmo sendo uma dramaticidade de atitudes irracionais que ela já havia tomado antes na série, havia coerência e verdade segundo a tendenciosa crescente do arco até aquele momento. Contudo, com o fim de Alfa, com a confiança daquela fala e dado o “planejamento” que o roteiro assumiu, escancaradamente explicado na primeira cena forçando a conexão, não faz sentido ela, nesse episódio, continuar maluca da cabeça alucinando fantasminha (de novo) para lembrar da sua fragilidade que já está clara há muito tempo. O que isso significa? De novo, aquela famosa enrolação marota que The Walking Dead adora fazer em episódios de numerações parecidas. Ao menos em determinado tempo, a série fazia uma questão de esconder, agora pouco importa, Negan nem a questiona ao não cumprir a parte do trato de levá-lo para Alexandria como álibi de testemunha, porque eventualmente ele não está nem um pouco preocupado, no território inimigo, em ser pego, porque já parece que sabe o que vai acontecer nas cenas seguintes.

Ok. Admito que mesmo assim foi de enorme satisfação a cena em que três dos sussurradores encurralam Negan e Daryl, que encontra o personagem na cabana de Lydia (sumida, de novo), e todo o contexto leva a crer que ambos estavam encrencados, mas inesperadamente os capangas mascarados se ajoelham perante Negan como se fosse o novo Alfa. Aproveitando a situação, principalmente diante da grande desconfiança de Daryl, Negan articula um teatrinho para satisfazer o ego, e consequentemente, pela indomável performance de Jeffrey Dean Morgan, por alguns segundos consegue levar o público a achar que realmente a série poderia mudar totalmente o rumo e colocá-lo como vilão de novo (e seria sensacional se acontecesse, diga-se de passagem). Mas lógico, na hierarquia dos “sussu”, quem estava devoto a isso era Beta, que assim como Carol passa o episódio tendo devaneios inúteis com a Alfa zumbi, a diferença é que ele não quase morre gratuitamente com isso e que não era um fantasminha, mas a cabeça da mulher falando com ele e o guiando a tomar alguma atitude. 

Ora, qual seria esse grande plano do subconsciente de Beta, digo, que a cabeça de Alfa tinha para guiá-lo? Pegar um vinil, aparentemente dele mesmo pelo que deu a entender, chamado Half Moon, começa tocar e juntar zumbis na área para que ele possa guiá-los de lá, Rob Zombie ficaria orgulhoso. Mas, cadê o resto dos zumbis da caverna? Ou do ataque a Hilltop? Não eram controlados por eles? Como dito, parece que eles evaporaram junto de Alfa, tanto que na cena em que Beta pega a cabeça de Alfa, só dois o acompanham ao invés uma manada considerável, um deles é comido pela cabeça e o outro foge e fica por isso mesmo, a ameaça final parece ser apenas Beta e o restante dos zumbis que irão à vingança, com desvantagem. A promessa de que “nunca vimos uma horda tão grande como aquela do penhasco” possivelmente ficará na falácia, afinal só faltam mais dois episódios para o fim, e o próximo, que até tinha tempo para organizar isso, não vai porque irá provavelmente ocupar o que esse deveria ter sido, que é a jornada de Eugene em conhecer a tal nova comunidade de Stephanie no rádio.

Infelizmente até nisso eles enrolaram, embora a preocupação geográfica mais uma vez tenha ido para o espaço. Como depois de tanto tempo eles se deparam com uma cidade nova aparentemente tão próxima dali, porque Atlanta certeza que não era vista a demora imensurável que foi chegar em Alexandria originalmente, então fica o questionamento. Chega a ser tão grotesco que vai além dos erros de montagem, também presentes no capítulo, que em uma cena Negan e Daryl trocam palavras, e na outra, Daryl já está em Alexandria recebendo Carol que quase morreu na cena anterior, sozinha, cadê a cena de ligação entre os fatos? Ou melhor, Negan entrou lá de boa mesmo por causa do Daryl? Aliás, o combinado de Eugene e Stephanie era só que ambos se encontrassem, mas Ezequiel e Yumiko decidem ir também só para haver três ceninhas de enrolação, uma com Yumiko e Magna falando se é uma boa ideia ela acompanhar e abandonar de novo o grupinho delas, já separado, e as outras duas com Ezequiel possivelmente se despedindo de Jerry porque deve morrer logo em breve, e outra que ele questiona se deve continuar ou não pela limitação física.

A Stephanie mesmo só vai dar as caras por meio segundo nos minutos finais do episódio, obviamente, como dito, deixando o gancho de como se desdobrará essa nova comunidade para o próximo. Espremendo tudo ao final, não houve nada, a história não avançou, personagens não foram desenvolvidos, situações que já não estavam previstas para ele foram criadas, foi um travamento completo e inútil de dezenas de situações pendentes que ficaram para ser resolvidas somente no último episódio, que nem tem data mais para estrear, visto a baderna que está a produção da série, não houve tempo nem de concluir um episódio já gravado de longa data na pós-produção, porque nem os produtores devem saber como ele deve acontecer para ligar o universo compartilhado e finalizar de forma minimamente recompensadora essa decepcionante temporada.

The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers — EUA, 29 de fevereiro de 2020
Direção: Daisy Mayer
Roteiro: Channing Powell
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Pelo menos um leitor matou a grande surpresa reservada para o final da 1ª temporada de Star Trek: Picard, prevendo o uso do golem inacabado visto brevemente no laboratório de Altan Inigo Soong, filho do criador de Data, como o novo corpo de Jean-Luc Picard. Em outras palavras, um twist perfeitamente circular não só para a temática da temporada em si, como para toda a trajetória do protagonista desde que seu coração foi substituído por uma versão mecânica em A Nova Geração e suas assimilações pelos Borg aconteceram como elementos formativos de sua personalidade tanto na clássica série quanto no melhor filme da franquia, Primeiro Contato.

Portanto, por mais que alguns possam virar o nariz para a solução encontrada, tenho para mim que ela foi o encaixe necessário para a temporada inaugural das aventuras de Picard já bem avançado em idade acabar com um saldo positivo, mas ainda ficando aquém de seu verdadeiro potencial. Afinal, se eu aplaudo a escolha dos showrunners em transformar o protagonista em um androide, a jornada até lá foi repleta de altos e baixos, desvios narrativos, fan services deslocados, enfim, uma sucessão de problemas que, por melhor que tenha sido o episódio duplo de encerramento, não foi suficiente para que eles tenham sido curados.

O próprio tratamento que os roteiros deram para a doença terminal de Picard é algo que me incomodou profundamente. Não só o assunto foi introduzido em um breve e críptico diálogo entre o ex-almirante e seu médico, como ele não ganhou qualquer tipo de contexto e, pior ainda, desenvolvimento ao longo da temporada. Ao contrário, ele foi soterrado debaixo de uma extensa minutagem dedicada à bobagens para agradar fãs, como Riker fazendo pizza de coelho-unicórnio (WTF!) ou Sete de Nove surgindo não uma, mas duas vezes como borg ex machina. Com isso, fomos relembrados desse “detalhe” somente na primeira parte de Et in Arcadia Ego que culmina aqui com a providencial morte de Picard justamente no minuto seguinte que ele consegue resolver todo o problema entre sintéticos, Federação e Romulanos. Coincidência é um eufemismo brabo, diria.

Aliás, um de meu receios sobre a resolução do conflito era justamente que tudo acontecesse rapidamente demais e foi exatamente o que aconteceu. Rápido, mas não ilógico, que fique bem claro. Ok, há ilogicidades, mas estas ficam confinadas a coisas como “como é que Narissa estava lá no Cubo sem ser detectada pelos xBs” que podem ser respondidas com algo na linha de “para Sete poder chutar a bunda da moça, arremessando-a em um abismo”, o que pode ser incômodo, mas que sem dúvida é catártico, mesmo que tenhamos que ouvir choramingos arrependidos de Sete para Ríos.

A velocidade dos eventos demonstra muito claramente, mais uma vez, que a temporada foi desequilibrada em termos de ação, com praticamente tudo o que é mais relevante acontecendo de maneira apertada e econômica em meros 40 minutos do episódio final, aí incluindo a já citada luta de Sete contra Narissa, a união providencial de Narek com Ríos, Raffi e o inútil do Elnor, a revelação de que Jurati estava do lado dos humanos depois de sua “traição”, a traição de Soong, a chegada da frota romulana (estranho que o Zhat Vash seja uma organização super-secreta, mas que tem uma frota desse tamanho…), a chegada da frota da Federação (o comando temporário de Riker, aí sim, é um exemplo de ótimo fan service) e, claro, o plano suicida de Picard. Sobre o plano, aliás, ele é a cara de Picard e, nesse quesito, a temporada foi perfeitamente justa com o legado do personagem. Não há nada que signifique mais a essência do adorado ex-capitão do que um sacrifício altruísta dessa natureza, mesmo que ele tenha que ser atrapalhado por diálogos mal escritos e extremamente expositivos do tipo “o exemplo vem de cima” e tal.

Tudo teria sido praticamente perfeito, portanto, se os roteiros tivessem trabalhado todos esses elementos de ação ao longo de mais alguns episódios, sem esquecer de tornar a doença de Picard algo mais presente e constante em sua vida e não uma nota de rodapé que, de repente, do nada, torna-se relevante e sem transformar Narek em não muito mais do que um mero extra glorificado, considerando toda a importância que ele teve antes. Da mesma forma, o belo epílogo em que ele se reencontra com seu amigo Data na Matrix… digo, na simulação virtual onde a consciência do comandante androide vive, poderia ter ganhado mais solenidade do que apenas um pedaço dos 20 minutos finais de projeção de forma que até a transferência da consciência de Picard para o golem pudesse ser explorada um pouquinho mais, sem que, mais uma vez, precisássemos que os personagens sentassem à mesa para explicar o óbvio ululante.

No entanto, apesar de todos os pesares e assim como a primeira parte desse final, a segunda conseguiu capturar a essência do que faz Star Trek ser Star Trek, algo que esteve infelizmente muito ausente na temporada, entregando um desfecho que funciona bem para a história como um todo e muito bem para quem realmente interessa, ou seja, Jean-Luc Picard. Tomara que os showrunners aprendam um pouco com a experiência e construam uma segunda temporada que dependa menos de afagos nostálgicos e mais de uma história realmente sólida e bem distribuída ao longo dos episódios, de preferência aprofundando os personagens que formam a atual tripulação e não se perdendo com novos ou antigos integrantes que não agreguem nada para a história que será contada.

Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2 (EUA, 26 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner, Jonathan Frakes
Duração: 57 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

O título do episódio diz tudo: esse parece ser o momento de ruptura que tanto esperamos. Por outro lado, a última fala de Kim – “ou nós nos casamos” – parece ter o condão de nos dar uma rasteira dramática, que deixa todas as portas abertas para o futuro, ou a inexistência de futuro, para o casal Wexler-McGill.

Aliás, escrevi McGill acima mais por uma licença poética, pois Goodman e McGill parecem ser “personagens” cada vez mais indistinguíveis, com o primeiro mantendo-se preponderante por muito mais tempo, como uma segunda personalidade que toma controle de alguém sofrendo de transtorno dissociativo de identidade. São como as formigas comendo o sorvete nas belíssimas sequências de abertura e encerramento de The Guy for This. Isso fica evidente aqui, com toda a lógica por trás do golpe que Goodman aplica não apenas contra o banco Mesa Verde, mas sim contra ninguém menos do que sua companheira Kim Wexler que, antes, resolvera voltar atrás e fechar um acordo financeiro para a saída do último proprietário no terreno destinado ao call center.

O raciocínio faz mesmo muito sentido. Um dos objetivos era apagar qualquer dúvida sobre a idoneidade e ética de Kim e pegá-la de surpresa, com uma reação genuína de raiva e desapontamento, parece, na superfície, uma solução perfeita, talvez a única possível. Mas Jimmy/Saul simplesmente não enxerga que, com isso, ele terminou de quebrar a confiança que Kim tinha nele. Aliás, ao ser confrontado, ele nem mesmo consegue prometer que isso não acontecerá novamente, tamanha é a importância desses golpes para ele. Porque sim, Saul fez o que fez muito mais porque seu plano era bom demais para desperdiçar com a mudança de ideia de Kim do que por qualquer outro sentimento dele em relação a ela. Os hilários anúncios – aquele pessoal que ele sempre contrata ainda está na faculdade??? – que ele produz, assim como a acusação de violação de direitos autorais (essa uma ideia de Kim), realmente pareciam apetitosos demais para Saul deixar de lado e foi absolutamente impagável ver Kevin gradativamente enfurecendo-se como um personagem do Looney Tunes cuja cabeça começa a sair fumaça para depois explodir, algo com que Saul simplesmente contava que aconteceria.

Portanto, nem passa pela cabeça de Saul que Kim tornou-se alvo de seu golpe ou, se passa, ele não consegue entender o que exatamente isso significa para ela. Ah, mas Kim também sente prazer em pequenos golpes e foi ela que começou a arquitetar o ataque ao seu próprio cliente. Sim, sei muito bem disso. Não é segredo algum que ela tem esse conflito interno inconciliável desde o começo da série, mas a questão, aqui, é de confiança mútua com alguém com quem ela vive. Isso fica ainda mais evidente a partir do flashback de abertura para sua adolescência, em que vemos sua mãe, embrigada, chegar tarde para pegá-la em sua escola em Red Cloud, Omaha (lembrando: o mesmo estado onde Gene tem seu Cinnabon…). Confiança é a chave para qualquer relacionamento e não há futuro para Kim e Jimmy sem esse pilar.

Mas e o pedido em casamento? – alguns podem perguntar. Sabem quando estamos tão conectados com alguém ou até mesmo alguma coisa e, na iminência de perder essa pessoa ou coisa acabamos fazendo de tudo para manter o status quo? Pois bem, é assim que eu vejo essa alternativa que Kim dá a Saul (ou seria Jimmy?) no último segundo do episódio. Em poucas palavras, trata-se de desespero, um momento impensado em que uma parte da personagem acha que uma união formal resolverá tudo magicamente. Sabemos que não é assim que a banda toca, especialmente em uma situação em que sequer entendemos exatamente se Kim tem consciência sobre para quem ela fez a proposta, Jimmy ou Saul ou, como já disse, a amálgama indistinguível dos dois. É como se um casamento resolvesse tudo magicamente, algo que ela não acha de verdade, pois ela é adulta e inteligente, mas que, no calor do momento, talvez signifique algo para a Kim esperançosa.

E como resultado desse sensacional conflito, ganhamos sequências memoráveis como a da produção dos anúncios, a da espalhafatosa e hilária apresentação de Saul para Kevin e seus advogados e, lógico, o do sensacional diálogo entre Kim e Jimmy ao final de tudo, que mais uma vez serve de palco para que Rhea Seehorn e Bob Odenkirk deem um show de atuação. Tudo funciona muito bem e, apesar da variedade de assuntos sendo tratados, a montagem mantém o fluxo narrativo tinindo, com a fotografia mais uma vez despontando com o cuidado com cada tomada.

Na “outra história” do episódio, vemos o início do plano de Mike para eliminar Lalo da jogada. Mas, antes disso, deixe-me rebobinar e abordar algo que me incomodou. Tudo bem que Dedicado a Max foi um episódio milimetricamente preparado para reunir Mike a Gus novamente. Mais do que entendo – e na verdade, acho essencial para a unicidade narrativa da temporada – que isso precisa acontecer, mas a “queda de Mike”, por assim dizer, não me pareceu profunda o suficiente ou trabalhada adequadamente para justificar de maneira inequívoca seu retorno para debaixo das asas de Gus. Parece que os traumas de Mike foram varridos para debaixo do tapete muito rapidamente, algo pouquíssimo característico em Better Call Saul, como se os showrunners tivessem decididos, de uma hora para a outra, que a separação já deu o que tinha que dar.

Mas, se aceitarmos esse retorno (e eu tirei meia estrela justamente por causa disso, já que, como disse, não gostei), o que resulta daí é mais um bom trabalho da produção em reinserir Mike significativamente na história, com um plano cheio de partes móveis e que retorna à Winner, o episódio 4X10 da série, para resgatar o assassinato do atendente da agência de transferência de dinheiro e o subsequente incêndio criminoso do local por Lalo em um arroubo de raiva incontida. Toda a forma lenta e enviesada que as maquinações de Mike vão tomando forma é um deleite, com o personagem assumindo sua usual identidade de Dave Clark e usando de muita cara-de-pau e poder de persuasão para levar Lalo à cadeia, retirando-o do jogo das drogas da região. Resta saber se ele agora é mesmo carta fora do baralho e o que isso significa para Nacho, em tese o herdeiro natural das operações dos Salamancas.

Wexler v. Goodman pode ser um episódio de virada na série, mas é muito difícil apostar em alguma coisa quando temos Vince Gilligan e Peter Gould como os marionetistas de uma série. Se Kim não pode nem de longe confiar em Jimmy, nós certamente podemos confiar de olhos fechados na capacidade de contar histórias desses espetaculares showrunners.

Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman (EUA, 23 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Michael Morris
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 51 min.

Crítica | Homeland – 8X07: F**ker Shot Me

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Na crítica anterior, mencionei que fiquei preocupado que o restante da temporada seria uma busca ao Max e à caixa preta por Carrie, agora fugitiva. F**ker Shot Me é exatamente isso, mas nem de longe há indicação de que os próximos episódios ficarão girando em torno desse assunto. E, mais do que isso, devo dizer que, se o episódio sob análise é o sinal do tipo de abordagem para a caçada, então não tenho do que reclamar se todo o restante for nessa mesma direção.

O mais interessante de tudo até agora é o grau de mistério que os showrunners estão conseguindo imprimir na temporada. Não sabemos exatamente o que Carrie passou durante seu cativeiro na Rússia e se ela está sendo de alguma forma manipulada; não sabemos qual é a exata relação dela com Yevgeny ou mesmo as verdadeiras intenções do espião russo; não temos ideia mais concreta sobre o que aconteceu com o helicóptero dos presidentes e, se houve algum atentado, não há pistas de quem exatamente passou as informações (Carrie seria a escolha mais ousada, mas há outras opções, como até mesmo David Wellington, o assessor do presidente americano). Portanto, estamos já no sétimo episódio e Howard Gordon e Alex Gansa estão nos fazendo caminhar quase que completamente no escuro, mas, ao mesmo tempo, sem parecer que a temporada está emperrada por causa disso.

E isso resulta em tensão, ansiedade e, claro, uma excelente maneira de se contar uma história. Afinal, com F**ker Shot Me, basicamente lida com Carrie e Yevgeny correndo atrás de Max, com direito a um tour pela 4ª temporada da série quando a agente da CIA mandou bombardear um vilarejo com o objetivo de assassinar Haissam Haqqani. Coincidência ou um ato sacana de Yevgeny, nunca saberemos, mas tenho para mim que o russo não é flor que se cheire e mesmo parecendo sincero com Carrie, não consigo acreditar em uma palavra que sai da boca dele.

Claro que a localização de Max pareceu um pouco fácil  demais e isso eu reputo a uma conveniência proposital de roteiro, somente para conectar Carrie com ele de forma que ele passasse informações sobre o paradeiro da caixa preta, o que pode significar que o último personagem coadjuvante da série pode não ter lá um final feliz… Seja como for, a conexão dessa história com Jalal Haqqani, também razoavelmente conveniente, cria um bom movimento circular dentro da própria temporada e recoloca o filho do líder dos talibãs dentro da narrativa, talvez apontando – apenas especulação! – para sua participação na morte do presidente Warner.

Falando na presidência americana, a conexão do novo e inexperiente presidente Benjamin Hayes com o manipulador presidente G’ulom é mais um elemento que gera temor e ansiedade dentro da temporada, além de, claro, pois isso não fica apenas nas entrelinhas, a óbvia e devida conexão com o mundo real, com resultados que conhecemos. Ou seja, o lado político macro da temporada tem peso e vem ganhando cada vez mais relevo, levando Saul Berenson a maquinar de maneira independente para frustrar os planos da dupla de novos presidentes, ainda que, pelo menos até aqui, sem muito sucesso, só para usar um eufemismo.

Se a morte de Haqqani efetivamente acontecer agora, muito do que a série pode abordar – já que duvido que uma nova guerra no Afeganistão e/ou Paquistão está dentro do orçamento (e esse caminho potencialmente retiraria o foco da protagonista) – será esvaziado, pelo que espero que ele continue vivo por mais alguns episódios. Como isso acontecerá diante daquele julgamento “justíssimo” por que ele passou, não faço a menor ideia, mas essa é mais uma maneira que a série joga com a tensão, algo que os melhores roteiristas de Homeland e que estão presentes nesse episódio e, ainda bem, quase nesta última temporada inteira – Patrick Harbinson e Chip Johannessen – trabalham com absoluta maestria.

F**ker Shot Me pode até ser considerado como um pouco “magro” de história, mas o que ele coloca em tela é essencial para o futuro da temporada e mantém a narrativa bipartida – mas não desconectada – entre o aspecto micro envolvendo Carrie e o macro envolvendo a presidência americana. Jogando com suspense, tensão e mantendo o espectador completamente envolto em mistérios, a série entrega mais um grande exemplar da televisão moderno.

Homeland – 8X07: F**ker Shot Me (EUA, 22 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 55 min.

Crítica | The Walking Dead – 10X13: Walk With Us

The-Walking-Dead-10x13-Walk With Us plano crítico

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Mãe, ele está vivo?

Uma das maiores tristezas de quem ainda acompanha The Walking Dead é ter a cada temporada uma notícia prévia de abandono de alguém do elenco, consequentemente já criando uma expectativa para a sua despedida, que acaba tornando sem impacto o fato de que não iremos mais ver aquele personagem em ação. Foram várias as perdas desde a queda de audiência, a primeira e mais significativa foi Carl na 8ª Temporada, e felizmente, por mais questionável que fosse a decisão, foi a única que garantiu alguma surpresa por simplesmente ter acontecido sem o aviso prévio dessas notícias de bastidores, seguido de Maggie, Rick, Jesus e agora Michonne, todas com datas premeditadas para acontecer, sem aquele elemento surpresa que faria essas perdas serem sentidas com mais alvoroço. 

Nisso, esse episódio já começa problemático, pois sabemos exatamente que no final algo irá acontecer para distanciar a personagem do núcleo principal, uma vez que dentro do cenário apresentado, tempo e demais circunstâncias, a morte com certeza não viria. Ele até ameaça com essa possibilidade, mas de forma muito rápida. Quando Virgil tranca Michonne naquele alçapão, bate uma rápida sensação de que ele poderia ser algum louco psicótico que iria torturá-la até a morte, mas é lógico que em um episódio de despedida, a série não teria culhões para isso (talvez em um outro momento e se acontecesse seria sensacional). Ao contrário, a “tortura” alucinógena foi apenas uma desculpa preguiçosa para se instaurar um clima romântico nostálgico e revisionista dos bons momentos da série em uma perspectiva invertida. 

O propósito das sequências de Michonne viajando por destinos diferentes que ela poderia ter tido ao tomar diferentes atitudes, deixando Andrea para morrer, juntando-se aos Salvadores, não acrescentam em nada à própria jornada individual da personagem que na finalidade (se não era a morte) seria iniciar uma busca verdadeira por Rick, a que já estava previamente decidida por acreditar que ele estava vivo. Então, fica aquele velho fan service gratuito e inserido às coxas, uma vez que fora Laurie Holden, nenhuma das outras participações especiais antigas trouxeram os atores novamente, só fizeram uma colagem por cima de cenas que já aconteceram e “tá valendo”.

Aliás, Virgil se demonstrou um personagem meramente descartável, sem qualquer carisma e motivações pouco plausíveis pela mutabilidade rápida, além de genéricas. O cara mente, sequestra a Michonne e inventa uma desculpa de misericórdia aceita com muitíssima facilidade, visando reforçar um espírito benevolente mais forte na personagem que já estava bem estabelecido. Sua conexão em fornecer a motivação de Michonne para viajar é meramente uma coincidência, pelo menos é o que dá a entender, já que o episódio não busca estabelecer uma clareza maior de como aquele celular com a imagem de Carl e as botas do Rick foram parar ali. É um gancho final aleatório que poderia muito bem ter sido o mote inicial do capítulo, mas prefere-se enrolar todo o caminho até lá com uma subtrama de um personagem que no fim das contas nunca mais aparecerá na série.

E aí retomo a dívida orçamentária, pensando nesse mini arco como uma forma de tentar contornar o que o episódio planejadamente poderia ter sido em expansão de universo, mas não pode, graças a essa economia exacerbada de orçamento. Não é o ideal criticar algo pelo que deveria acontecer e não pelo que de fato ocorreu, mas diante de como surgiu esse arco, a idealização de uma nova comunidade buscando novamente armas para ajudar numa nova guerra, por mais repetitivo que fosse, teria fins diferentes. Supondo que realmente existisse essa comunidade, Michonne a conheceria e o tempo que levaria para tentar convencer uma aliança… Judith por ligação avisaria sobre o fim da guerra, ao mesmo tempo Michonne descobriria esse possível paradeiro de Rick, e junto a essa nova comunidade começaria uma nova busca que poderia já fazer link direto com os filmes ou World Beyond a depender da questão do planejamento dessa expansão do mundo zumbi.

Aí é que tá, creio eu que não existe esse planejamento, e que a série vem nas coxas, plantando possibilidades dentro da obrigação de se livrar do elenco, para no futuro resolver essas pendências de alguma forma que ela ainda não sabe. Entristece ver que a série chegou a esse ponto, porque no papel, acho que qualquer um é a favor dessa expansão, desde que haja engajamento para sua construção, algo que para a AMC parece ser uma eterna promessa, que dura faz um tempo. Esse engasgo da necessidade engole qualquer possibilidade de uma relação mais próxima com esses futuros possíveis, assim, a gloriosa cena da chamada de rádio só não é tão artificial porque existe uma entrega verdadeira de ambos os lados atuantes. Até que ponto aquilo não foi mais um remendo do que um destino plantado com convicção e ao menos um norte bem definido para onde ir? Convenhamos, se não tivesse a informação antes de que Danai Gurira iria sair, a cena não funcionaria emocionalmente e o destino dessa missão expansiva seria severamente mais questionado.

The Walking Dead – 10X13: What We Become — EUA, 22 de março de 2020
Direção: Sharat Raju
Roteiro: Vivian Tse
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X09: Et in Arcadia Ego, Part 1

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

A primeira parte do episódio duplo de encerramento da temporada inaugural de Star Trek: Picard é, juntamente com Stardust City Rag, o mais Star Trek até agora de uma série que poderia ser muito mais do que tem conseguido ser. Os ingredientes narrativos clássicos estão todos aqui, começando pelo planeta misterioso que abriga uma utopia robótica, passando pelo divertido exagero das orquídeas espaciais e culminando com bons momentos de ação típicos de uma história baseada em um presságio apocalíptico.

Et in Arcadia Ego não só é um título que diretamente referencia um paraíso bucólico (a região da Arcádia, no centro do Peloponeso, era reputado na Grécia Antiga como literalmente o paraíso na Terra), como também é o nome de duas pinturas semelhantes do pintor francês Nicolas Poussin, do século XVII, retratando a morte em meio a uma cena pastoral. Digo que a referência é à Poussin e não ao italiano Giovanni Francesco Barbieri, que pintou antes de Poussin obra de mesmo tema, com o mesmo título, pois o fato de haver duas obras por Poussin é uma rima temática com os dois quadros pintados por Data que é parte do mistério que Picard começa a desvendar já no primeiro episódio. É, sob todos os aspectos, uma bela forma de se criar um movimento circular para a narrativa.

Aliás, esse movimento circular acontece também pela introdução de Altan Inigo Soong, filho de Noonian Soong, criador de Data (e, claro, de Lore), e que é vivido também por Brent Spiner, desta vez sem a maquiagem e as lentes de sua contrapartida sintética. Trazer o próprio Data de volta seria uma trapaça feia e a escolha feita, aqui, é elegante e respeita o legado da Nova Geração, ao mesmo tempo, que funciona para trazer o querido ator de volta de maneira relevante.

Se a chegada a Coppelius é extremamente tumultuada, com um breve combate espacial interrompido pela chegada de Sete e do Cubo Borg, além das surreais aparições das tais “flores espaciais”, quando a tripulação de Picard está em terra, a história reduz seu ritmo e, mesmo diante da chegada de uma gigantesca frota romulana, tudo vai sendo abordado sem pressa, com Picard reencontrando Sete e Elnor e, depois, todos seguindo para o vilarejo dos sintéticos que é, claro, a Arcádia do título em latim. O equilíbrio entre ação e exposição consegue ser alcançado muito rapidamente, sempre com o objetivo de impulsionar a narrativa.

O retorno do tema da doença terminal de Picard, algo tocado antes tão brevemente que eu nem mais lembrava direito, é outra tentativa de resgatar a direção narrativa da temporada, que sofreu demais pela necessidade quase doentia de seus showrunners de marretar todas as referências e coadjuvantes famosos possíveis para agradar o fã nostálgico. Fica evidente a falta de desenvolvimento desse elemento ao ponto de o roteiro de Michael Chabon e Ayelet Waldman ter que voltar a ele mais de uma vez em parcos 45 minutos, quase que pedindo desculpas por terem enterrado o assunto por tanto tempo. Mesmo prevendo uma cura milagrosa no episódio final – a não ser que o plano seja mudar o nome da série – espero que haja uma função narrativa maior para a doença terminal do protagonista do que só atrair simpatia pelos seus atos heroicos.

Era bastante previsível que a revelação da visão cataclísmica para os sintéticos seria exatamente o catalisador da tragédia. Afinal, já cansamos de ver o Paradoxo da Predestinação sendo usado por aí e, com a revelação de que há sintéticos ainda mais evoluídos em algum lugar (ou tempo) do universo – será que esse pode ser o gancho para a conexão com Discovery? -, a inevitabilidade desse caminho fica patente.

Tenho minhas dúvidas, porém, se estamos diante de uma temporada que encerrará um arco nela mesma, ou se uma possível 2ª temporada continuará diretamente essa mesma história. Digo isso, pois parece haver muita coisa ainda a ser revelada e abordada, especialmente os tais sintéticos super-evoluídos, além de toda a política envolvendo romulanos, Frota Estelar e a proibição geral de sintéticos. Considerando o tempo que foi perdido em episódios que andaram de lado, o último episódio teria que ser tão repleto de encaixes e soluções, que temo o mais completo tumulto. Mas, claro, só saberemos na semana que vem.

Chega a ser curioso como o espírito de uma série clássica conseguiu ser capturado com muito mais perfeição aqui do que em episódios como Nepenthe, claramente criado com exatamente esse objetivo. Fica muito evidente que as famosas e tão cobiçadas e cavoucadas “referências”, hoje em dia, mais atrapalham do que beneficiam a arte de contar uma história. É torcer para que o encerramento da temporada mantenha essa linha e compense um pouco os problemas que a série teve.

Star Trek: Picard – 1X09: Et in Arcadia Ego, Part 1 (EUA, 19 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon, Ayelet Waldman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner
Duração: 45 min.

Crítica | Amazing Stories (2020) – 1X03: Dynoman and the Volt!!

O revival de Amazing Stories – ou Histórias Maravilhosas, como ficou conhecida por aqui – tem exatamente a mesma missão de sua predecessora: trazer histórias de fantasia simples e descompromissadas para um público que não quer mais do que uma dose semanal de algo na linha da boa e velha Sessão da Tarde. E, se lembrarmos de The Cellar e The Heat, os dois primeiros episódios da antologia, esse objetivo tem sido alcançado.

Dynoman and the Volt!! apenas reitera o bom caminho que a série vem seguindo, desta vez usando o clichê de uma história de super-heróis para abordar o clichê de uma história sobre envelhecimento e conexão entre gerações. E, quando uso o termo clichê, não o faço em seu sentido negativo que muitos conectam a ele. Clichê é, ao contrário, apenas um artifício narrativo muito repetido e o que determina se ele será bom ou não é o roteiro como um todo e não seu mero emprego. E, mesmo que as pretensões do episódio não sejam lá estratosféricas, os clichês que vemos em utilização ampla funcionam bem e resultam em uma simpatia de história que, como as demais, deixará o espectador com um sorriso no rosto ao seu final.

Nela, o rabugento e grosseirão Joe Harris (o saudoso Robert Forster em seu penúltimo papel), um homem de terceira idade que sofrera um acidente, muda-se para a casa de seu filho Michael (Kyle Bornheimer) e acaba estabelecendo contato mais estreito com seu neto mais novo Dylan (Tyler Crumley), fã de quadrinhos e que adora criar suas próprias fantasias para sair atrás de gostosuras no Halloween. Os laços entre avô e neto são estabelecidos ao redor de um anel de brinquedo do super-herói Dynoman que chega misteriosamente pelo correio para Joe 60 anos depois de ele o ter encomendado. Obviamente, o anel dá poderes ao ancião e a história parte daí para trabalhar três gerações da família Harris em um conto de aquecer corações.

O roteiro de Peter Ackerman é simples talvez até demais, já que telegrafa cada movimento futuro, além de explicar o que vemos por meio de diálogos que somente existem para serem redundantes. Com isso, a direção de Susanna Fogel não consegue fugir muito do básico e, como não há muita história para realmente ser desenvolvida, acaba valendo-se de elipses que por vezes mostram-se atabalhoadas e perdidas, quebrando um pouco a lógica narrativa. Isso é particularmente sensível na ação do clímax que não faz exatamente muito sentido e parece extremamente corrida, ainda que “bonitinha”.

O que realmente funciona no episódio é a sempre agradável presença de Forster e a imediata conexão do ator com o jovem Crumley, de maneira que os dois acabam formando uma dupla improvável, mas que funciona do começo ao fim. Mais do que isso, o episódio consegue evitar ser muito meloso, mas sem deixar de entregar belos momentos de ternura capitaneados pelos dois e, por vezes, também contando com o Harris “do meio” também bem interpretado pelo simpático Bornheimer.

Na seara dos efeitos especiais, apesar de uso muito esparso de CGI e alguns efeitos práticos, eles são bem empregados e não detraem do resultado final, lembrando que eles não têm um fim e sim mesmo e, portanto, não pesam na narrativa. O objetivo é fazer os efeitos ficarem em segundo, talvez até terceiro plano, só aparecendo quando realmente essenciais para justificar a premissa do episódio.

Dynoman and the Volt!! é um adorável conto de conflito de gerações que tem o pano de fundo “da moda” dos super-heróis, mas que realmente cativa pela marcante presença de Robert Forster em tela. Com mais um acerto, Amazing Stories vem se firmando com um porto seguro para escapismo televisivo de qualidade, o que pode parecer uma contradição em termos, mas que, lá no fundo, não é não.

Amazing Stories – 1X03: Dynoman and the Volt!! (EUA, 20 de março de 2020)
Direção: Susanna Fogel
Roteiro: Peter Ackerman
Elenco: Robert Forster, Tyler Crumley, Kyle Bornheimer, Alison Bell, Toby Nichols, Morgan Gao
Duração: 47 min.

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X07: Romeo V. Juliet: Dawn of Justness

plano crítico legend os tomorrow Romeo V. Juliet_ Dawn of Justness

  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Eu simplesmente me recuso a acreditar que uma nave como a Waverider só tenha UM banheiro! Como é possível uma coisa dessas, minha gente? Bom, pelo menos no quesito cômico esse tipo de absurdo gerou duas sequências divertidas, embora forçadas diante da tal questão ‘inacreditável’. A primeira dessas cenas — que abre este episódio maravilhosamente intitulado Romeo V. Juliet: Dawn of Justness — estabelece que estamos realmente diante da partida de Ray Palmer, o Eléktron. O fechamento de mais uma antiga porta para as Lendas.

E que ótima oportunidade para uma saída, fazendo-a como uma “última missão” dramática, hilária e ao mesmo tempo essencial para Ray, não? A presença de Shakespeare aqui traz alguns momentos vergonhosos de caracterização no início, mas isso é tão rápido e tão pequeno diante do restante do episódio que se torna até um pequeno charme. Na primeira parte do episódio o time se divide em duas partes: Charlie e os meminos vão até a taverna onde está o Bardo e Sara e as meninas estão em uma reunião do Book Club na nave, dando as boas-vindas à novata Zari. Pois digam o que disserem, mas a festa do Book Club estava pelo menos umas 156 vezes melhor que a festinha na taverna.

E o mais legal é que a direção de Alexandra La Roche também acompanha essa mudança de espaço e atmosfera, colocando bons momentos de ação em cada uma das “saidinhas”, mas em sequências diferentes, de modo que a montagem mostra sequências sérias e de pura diversão contrastadas com o que acontece no núcleo vizinho. E encaixado no meio dessa duplicidade narrativa — que não trata de assuntos diferentes: é que apenas uma parte da equipe sai para campo na primeira metade do episódio, já que a missão parecia ser inicialmente fácil demais e não havia necessidade de todos fora da nave —  temos Astra novamente em um dilema, o que talvez a faça mudar de ideia em relação à parceria que fechou com Constantine… embora ainda não saibamos quais serão as consequências após ela saber o que é que o mago está procurando.

O que me deixa imensamente feliz em um episódio como esse é como a simplicidade do enredo se junta a algo necessário e importante para a série (realizar logo a saída de alguém que já tinha confirmado a saída) e ao mesmo tempo criar uma partida emocionante e criativa com isso, seguindo a história da temporada. A briga entre Nate e Ray me pareceu um estranho exagero em meio a tudo isso (afinal, estamos falando de dois amigos adultos, um deles recém-casado!), mas ao mesmo tempo compreendi o uso desse exagero pelo roteiro, porque de certa forma combina com a postura bem criançona dos dois melhores amigos aqui.

A primeira peça do ‘Loom of Fate’ foi então encontrada (disfarçada em anel), o adeus de Ray foi oficializado e mais um passo foi dado no misterioso drama entre Constantine e Astra. Quando a coisa é escrita com qualidade, não precisa ser nada complexa e nem épica, não é mesmo? Basta ser um bom drama e que nos traga diversão, como essa lindeza aqui (mista de melancolia) nos trouxe.

Legends of Tomorrow – 5X07: Romeo V. Juliet: Dawn of Justness (EUA, 17 de março de 2020)
Direção: Alexandra La Roche
Roteiro: Ray Utarnachitt, Matthew Maala
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Maisie Richardson-Sellers, Tala Ashe, Jes Macallan, Courtney Ford, Olivia Swann, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Ramona Young, Shayan Sobhian, Sarah Strange, Rowan Schlosberg, Art Kitching, Liam Howe, Riley Orr, Jesse Inocalla, Brett Harris
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X15: The Exorcism of Nash Wells

  •  SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora não desenvolva os ganchos preparados pelo episódio anterior no sentido específico que eu mais esperava (leia-se: com Barry Allen tomando as rédeas da situação pós-morte da Força de Aceleração), The Exorcism of Nash Wells consegue manter a boa qualidade dessa sequência de episódios e exemplificar do que a série é capaz, desde que a produção se esforce minimamente para desenvolver seus potenciais.

O que é legal é que esse episódio mostra aquilo que eu sempre defendo em relação a essas séries da CW: não é nem preciso dispensar o foco dramalhão-motivacional que pauta as produções do canal (voltadas a um público adolescente, imagino — faz tanto tempo que nem sei mais dessas coisas) para tornar a coisa mais palatável para um público mais amplo incluindo, é claro, o nerdão que no fundo preferiria estar assistindo a um bom episódio de desenho ou lendo um gibi do personagem. O capítulo traz, afinal de contas, uma enxurrada de cenas focadas na rememoração de sofrimentos passados e filosofadas profundas dos personagens sobre seu estado emocional. Mas, pelo menos para mim, a coisa funciona por dois motivos: 1. as cenas emergem de maneira orgânica e tem ressonância temática com o foco do episódio (a perda que Nash (Tom Cavanagh) sofreu no passado) e 2. elas não entram no roteiro em detrimento do desenvolvimento das outras subtramas.

Por falar nelas, quantas! Só não digo que a série chega a ter coisa demais acontecendo ao mesmo tempo porque o ritmo do episódio consegue sustentar cada um dos núcleos muito bem, sendo que cada um deles explora terrenos já conhecidos para o público que se mantém firme e forte no seriado até hoje. Fazendo um bom uso tanto da personagem de Cecile (Danielle Nicolet) quanto de várias tecnobugigangas já estabelecidas no passado da série, o resgate psíquico de Nash consegue ter tempo para explorar dramaticamente o seu passado que, embora não tenha me surpreendido, conseguiu me ganhar pela execução bem acabada das reações emocionais dos personagens. As sequências do passado de Nash, além de fazerem crescer o personagem, mostram um pouco do que é perdido em parte com o fim do multiverso — a total liberdade de explorar cenários totalmente distantes da usual Central City.

Na frente de casa, a subtrama envolvendo a Mestra dos Espelhos e sua disputa com o clã de meta-assassinos com poderes de luz (a descrição faz parecer mais maneiro do que de fato é!) trouxe excelentes sequências de ação, com destaque para os efeitos visuais dos poderes de Sunshine (Natalie Sharp). A dinâmica do Team Flash central — Barry, Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker), claro! — consegue sustentar muito bem ambas as histórias da semana, e o Velocista Escarlate consegue bancar duas resoluções heroicas muito bacanas em tempo recorde. Sério, acho que já tivemos sequências de dez episódios que não tiveram um momento sequer para Barry quanto ele teve nos vinte minutos finais desse capítulo.

E isso foi uma virada e tanto, já que no comecinho do episódio eu comecei a perder fé de que continuariam com a boa fase para Barry. Não curti muito a primeira cena de discussão sobre a criação de uma nova Força de Aceleração: aquele é o Barry que pra mim já deu, com um chororô do tipo “Mas a gente precisa fazer isso, gente, não interessa que vocês não saibam, vocês não sabem o que eu to passando! E eu vou usar drogas de aceleração sim, por que, alguma coisa de mal da veio disso?”. Me poupe, vá, seu Allen!

Por sorte, essa sombra do passado não deu mais as caras ao longo do episódio, e a atuação heróica dele nas duas frentes compensou a escorregada mostrando um pouco do Barry ideal: reagindo rápido com soluções inusitadas e, de preferência, sem falar com a voz embargada de choro. Ironicamente, tivemos até uma boa dose de choro no confronto com Thawne — mas, veja bem, choro mesmo, justificado e sustentado de forma orgânica pelo roteiro (e, na medida do possível, pela atuação), e não o chororô daquele momento inicial. Mais do que espantar a assombração acelerativa-negativa de Eobard Thawne, o capítulo consegue dar mais um passo no verdadeiro exorcismo que a série necessita: da caracterização torta que o personagem principal teve que sofrer ao longo dos anos.

The Exorcism of Nash Wells trouxe boas doses de ação, comédia (Cecile se preparando para o exorcismo / nocauteando Wells com um tabuleiro de Ouija!) e — claro — altas doses de personagem. Embora essa mistura tenha dado as caras de forma constante em toda a história da série até hoje, a fase atual tem conseguido fazer a mistura funcionar de forma mais empolgante e intensa, servindo aos personagens e ao enredo com desenvolvimentos orgânicos cujo payoff acontece no tempo de exibição mesmo. Uma história onde o Team Flash derrota Thawne mais uma vez é mil vezes mais interessante do que “teaser nº 16 do retorno do vilão no final de temporada”, e felizmente é o que tivemos aqui.

The Flash – 6×15: The Exorcism of Nash Wells — EUA, 17 de março de 2020
Direção: Eric Dean Seaton
Roteiro: Lauren Barnett, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Victoria Park, Kayla Compton, Patrick Sabongui, Natalie Sharp
Duração: 43 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.