Harry Treadaway

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

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Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Mr. Mercedes – 2ª Temporada

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Após uma excelente 1ª Temporada, que adaptou com elegância o primeiro romance da Trilogia Bill Hodges, Mr. Mercedes opta em seu 2ª ano por ignorar o segundo livro e usar como base para a trama o livro Fim de Turno, o final da trilogia. Embora estranha à primeira vista, a decisão faz sentido, já que a série pode dar continuidade ao duelo entre Bill Hodges (Brendan Gleeson) e o psicopata Brady Hartsfield (Harry Treadaway), enquanto na literatura, Stephen King optou por colocar esse duelo em espera no segundo livro, ao por Hodges em uma aventura desvinculada do assassino. Mas se o show mantém o público confortável ao manter o seu principal vilão, por outro lado, gera estranheza ao incluir elementos de ficção científica e paranormalidade inexistentes na série até então.

Na trama da temporada um ano se passou desde que Bill, com a ajuda de Holly Gibney (Justine Lupe) impediu que Brady cometesse um novo massacre. Enquanto Hodges e Holly abriram uma agência de investigação particular, Hartsfield continua em estado vegetativo (após ser violentamente atingido na cabeça por Holly no final da temporada anterior), recebendo apenas as visitas de Bill, que mantém o assassino sob constante vigilância. Mas quando o neurocirurgião Felix Babineau (Jack Huston), influenciado pela esposa Cora (Tessa Ferrer), uma implacável chefe de marketing de uma empresa farmacêutica, resolve testar drogas experimentais em Brady para tirá-lo de seu estado catatônico, a consciência do maníaco desperta — ainda que externamente ele mantenha o estado vegetativo. Agora, vivendo em um cenário psíquico e desenvolvendo a habilidade de controlar as mentes mais fracas que se aproximam de seu corpo, Brady dá início a uma nova onda de mortes.

Nesta nova temporada, a série adota mais fortemente os signos do terror, vide as gráficas cirurgias cerebrais a que Babimeaus submete Brady, e os pesadelos que Bill passa a ter com o assassino. Mas o programa continua a ter como fio condutor a rivalidade co-dependente entre Hodges e Brady, ainda que essa dinâmica comece a ser problematizada pelo detetive. Parte da jornada de Hodges nesta temporada é a busca por uma vida que não seja definida por seu conflito com o Mr. Mercedes, já que por mais que Brady esteja aparentemente fora de combate, Bill não consegue dar o caso por encerrado, o que gera preocupações em seus amigos, Holly e Ida (Holland Taylor) em especial. Brady, por sua vez, ressurge mais cruel, pois ao não precisar mais ocultar a sua natureza psicótica, pode abraçar sem restrições a maldade e o sadismo que lhe são característicos. Desse modo, torna-se interessante que a trama carregue elementos fantásticos ao retratar o assassino mais como um monstro do que como um ser humano, ainda que continue a trabalhar as vulnerabilidades do personagem através das aparições de projeções de suas vítimas mais próximas, como sua mãe e irmão, que surgem dentro de sua mente.

A direção da série serve-se bem das possibilidades que os poderes telepáticas do vilão proporcionam para criar sequências de tensão e terror em diferentes níveis, enquanto a direção de arte é inventiva na criação do cenário mental que Brady ocupa, que surge como uma versão surreal do porão de sua casa visto na 1ª Temporada, com direito ao famigerado Mercedes ensanguentado. A edição também ganha maior destaque nesta temporada, especialmente pelas sequências que intercalam as ações de Brady em seu mundo mental com as consequências no mundo externo, com o momento em que Bill é atacado em sua casa pelo gigantesco Al (Mike Starr) no sétimo episódio sendo o grande destaque. E claro, a trilha sonora do programa continua um show à parte, com uma seleção musical que contando com Blues, Jazz e Rock, ilustram com perfeição os conflitos de seus personagens, o que pode ser percebido desde a nova sequência de abertura.

Apesar destas qualidades, esta 2ª Temporada possui falhas que acabam tornando-a um pouco irregular, começando pela presença de subtramas absolutamente dispensáveis, como a envolvendo Jerome (Jharrel Jerome) e seus problemas com Harvard, que não levam a lugar algum e pouco contribuem com o desenvolvimento do personagem. Outros arcos, como a relação entre o casal Babineau e o jogo de interesses em que seu casamento se transforma quando os experimentos com Brady saem do controle não só falham em captar o interesse do público, como são abandonados nos episódios finais, sem ganhar um desfecho apropriado.

A série faz uma opção interessante ao dedicar um tempo considerável para desenvolver as vítimas do controle mental de Brady: a enfermeira Sadie (Virginia Kull), e o auxiliar Al, já que ao testemunharmos como o vilão viola a vida dessas pessoas ao transformá-las em armas sem vontade, a ameaça em torno dele torna-se mais profunda e trágica. Entretanto, ao fazer isso, Mr. Mercedes acaba dando pouco espaço para personagens veteranos importantes. Holly, por exemplo, embora seja a grande parceira de Bill e surja mais madura do que na 1ª Temporada, acaba sendo não muito mais do que um suporte para o desenvolvimento de Bill, não tendo o seu próprio, apesar da ótima química de cena entre Gleeson e Lupe. Lou (Breeda Wool), por sua vez, já é melhor servida pela história, que vê a (antes confiante) personagem ser consumida pelo trauma de ser traída e quase morta a facadas por Brady (que ela acreditava ser o seu melhor amigo), em uma atuação intensa de Wool.

Tal como a temporada anterior, este 2º ano se desenvolve de forma relativamente lenta. Isso não é necessariamente um problema, bastando ver os ótimos episódios iniciais, que inserem os elementos fantásticos na série à medida em que Bill passa a desconfiar da atormentada enfermeira Sadie. Mas em seu segundo terço, a série parece se arrastar desnecessariamente, sem que nenhum personagem que não Hodges ganhe um desenvolvimento mais profundo para compensar o ritmo lento. Mas o maior pecado da temporada se encontra em seus episódios finais, quando a trama sofre uma virada radical, indo por um caminho que ignora tudo o que havia sido construído antes, resultando em um incômodo anticlímax. Ainda que o final conclua de forma adequada as histórias de Bill e Lou na temporada, o Plot apresentado nos dois episódios finais envolvendo o julgamento de um Brady desperto e supostamente curado de sua psicopatia soa deslocado.

A 2ª temporada de Mr. Mercedes merece créditos por ter a coragem de inserir elementos fantásticos totalmente estranhos ao Universo que havia sido construído até então, e ainda assim faze-los funcionar. A atmosfera soturna e intimista apresentada na 1ª Temporada continua presente e o elenco principal, liderado pelo brilhante Brendan Glesson, continua afiadíssimo. Entretanto, os novos personagens apresentados estão longe de ser tão carismáticos ou complexos quanto os vistos anteriormente, o ritmo da história torna-se cansativo em certo ponto e o desfecho, embora ousado, soa descolado do resto da trama. Apesar de nitidamente inferior ao ano de estreia, Mr. Mercedes ainda se mantém um drama policial instigante cujo acréscimo inusitado de elementos de terror paranormal apenas enriqueceram a rivalidade obsessiva entre Bill Hodges e o personagem título, rivalidade que continua a ser o coração da série.

Mr. Mercedes- 2ª Temporada. EUA, 22 de Agosto de 2018 a 24 de Outubro de 2018
Criadores: David E. Kelley e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Jack Bender, Peter Weller, Laura Innes.
Roteiro: Dennis Lehane, David E. Kelley, Mike Batistick, Samantha Stratton, Alexis Deane, Sophie Owens Bender, Brian Goluboff, Jonathan Shapiro.
Elenco: Brendan Gleeson, Harry Treadaway, Justine Lupe, Jharrel Jerome, Breeda Wool, Holland Taylor, Scott Lawrence, Jack Huston, Tessa Ferrer, Maximiliano Hernandez, Nancy Travis, Makayla Lysiak, Virginia Kull, Mike Starr.
Duração: 10 Episódios de aproximadamente 50 Minutos.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

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Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.

Crítica | Mr. Mercedes- 1ª Temporada

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Quem conhece o trabalho de Stephen King, ou está familiarizado com as adaptações de sua obra; sabe o quanto a luta entre o bem e o mal é um tema recorrente dos escritos do autor. Mr. Mercedes, série baseada no romance homônimo de King, estreou em 2017 no canal Audience trazendo esse conflito dicotômico clássico inserido dentro de uma narrativa policial sem os típicos elementos sobrenaturais geralmente associados ao autor, mas com a interessante provocação sobre a co-dependência dos dois lados desta batalha. Mr. Mercedes tem como ponto de partida um crime brutal, onde um maníaco dirigindo um Mercedes roubado atropela um grupo de pessoas que esperava a abertura de uma feira de empregos, deixando dezesseis mortos e ferindo dezenas. Dois anos depois, o assassino batizado pela mídia como “Mr. Mercedes” nunca foi encontrado, e o detetive responsável pelo caso, Bill Hodges (Brendan Gleeson) está aposentado, assombrado pelo crime que não conseguiu resolver. Mas ao começar a receber emails provocadores do assassino, Bill sai da apatia em que mergulhou para levar o maníaco à justiça, custe o que custar.

Comandada por David E. Kelly, a série, ao longo dos dez episódios desta 1ª temporada, está mais preocupada em estabelecer os paralelos e diferenças entre Hodges e o vilão Brady Hartsfield (Harry Treadaway) do que no jogo de gato e rato que se estabelece entre eles. Quando a trama efetivamente começa, após o chocante prólogo que mostra o massacre da feira de empregos (filmado de forma crua por Jack Bender, que dirige a maioria dos episódios), encontramos Bill e Brady vivendo existências morosas e rotineiras que parece destruí-los. O ex-policial passa os dias bebendo e assistindo TV, enquanto Brady está preso em um trabalho frustrante em uma loja de eletrônicos — e em uma relação incestuosa com a mãe alcoólatra Deborah (Kelly Lynch) com quem mora. Os únicos momentos em que Brady se sente vivo é quando está em seu porão com seus computadores ou disfarçado de sorveteiro para espreitar os seus inimigos. É irônico, portanto, que ao tentar conduzir Hodges ao suicídio com as suas provocações virtuais, como havia feito com a dona do Mercedes, Olivia (Ann Cusack), Brady acaba justamente demovendo o detetive da ideia.

O conflito dá o sopro de vida que esses dois homens precisavam, mas a forma como interagem com aqueles à sua volta é o que define a real natureza dos dois protagonistas, já que ambos partem de arquétipos que são humanizados por seus coadjuvantes. Entre estes coadjuvantes estão Ida Silver (Holland Taylor), a sábia e charmosa vizinha de Bill, Jerome Robinson (Jharrel Jerome), um jovem hacker amador que corta a grama de Bill para completar a renda e que acaba envolvido na investigação e Janey Patterson (Mary-Louise Parker), irmã de Olivia, que contrata Hodges como detetive particular e acaba se envolvendo com ele. Destaco ainda as personagens que se tornaram as favoritas dos fãs (e grandes ladras de cena), Holly Gibney (Justine Lupe), uma jovem autista e sobrinha de Janey, que tem importância vital na caça ao Mr. Mercedes, e com quem o detetive desenvolve uma relação paternal, e Lou Linklater (Breeda Wool), a sarcástica colega de trabalho de Brady, que sofre constantes ataques homofóbicos e é a pessoa mais próxima que o psicopata tem de uma amiga.

Claro, de nada adiantaria ótimos coadjuvantes se não tivéssemos dois bons atores nos papéis principais, mas felizmente, Gleeson e Treadaway são perfeitos como Hodges e Brady. Gleeson dá á Bill Hodges a aspereza e mau humor típicos de um homem que sente que seu tempo passou, embora à medida em que a trama avança, ele revele um lado mais tenro e gentil do detetive, que começa a se abrir mais para as pessoas ao seu redor, mas ainda mantendo um certo ar ranzinza que é o grande charme do personagem. Treadaway, por sua vez (substituindo o falecido Anton Yelchin), consegue fazer com que o público veja Brady Hartsfield não apenas como um maníaco homicida raso, ao explorar as fragilidades e contradições da personalidade do vilão, especialmente no que diz respeito à sua dinâmica de domínio/dominação com a mãe. Percebemos em alguns momentos que Brady até tenta lutar contra a sua psicose, o que leva inclusive a algumas sequências de humor ácido hilárias, como aquela onde o rapaz imagina matar todos os presentes em um almoço de negócios. Mas embora humanize o seu vilão, os roteiros nunca permitem que esqueçamos a sua real natureza monstruosa e mesquinha, o que é apoiado pela atuação de Treadaway, que só retrata Brady realmente à vontade quando este dá vazão aos seus piores impulsos, que destroem e deformam qualquer sentimento positivo que possa ter..

A trilha sonora é um verdadeiro personagem dentro de Mr. Mercedes, com Punk Rock, Jazz e Blues. A seleção musical não só é excelente, como também ilustra de forma perfeita os vários momentos dramáticos vividos por seus personagens, como It’s Not Too Late, de T-Bone Burnett, que toca na abertura e conversa com os principais conflitos de Bill Hodges na temporada, ou Hi Ho Nobody’s Home de David Baerwald, que destaca um momento de grande transformação para o vilão. Por ser uma série conduzida muito mais por seus personagens do que pela própria trama, Mr. Mercedes não tem pressa de estabelecer os seus conflitos, construindo com calma os pontos de virada da narrativa (especialmente em seus 5 primeiros episódios), o que pode desagradar os mais impacientes. Ainda que a série compense a falta de ação com um bom desenvolvimento psicológico de seus personagens, não se pode negar a existência de uma pequena barriga em sua primeira etapa, já que personagens como Holly, por exemplo, poderia ter sido introduzidos um pouco mais cedo para dar um pouco mais de credibilidade à sua relação com Bill (que ainda assim, é muito bem construída). A metade final da temporada já é um pouco mais acelerada, ao intensificar o jogo de gato e rato entre Hodges e Brady e tornar este conflito mais pessoal à medida em que os corpos começam a se acumular, dando o tempo necessário para que os personagens possam reagir e absorver a morte de outros, montando o palco para o ato final.

Mr. Mercedes entrega uma 1ª Temporada sólida, que ao apresentar um protagonista bastante humano — conquistando a nossa torcida — e um vilão sinistro e carismático, aposta na dinâmica quase simbiótica entre os dois, que só conseguem ser a melhor (e pior) versão de si mesmos devido ao conflito que travam. Contando com bons roteiros, uma direção segura que trabalha com competência a tensão psicológica da narrativa e suas passagens muitas vezes macabras; uma trilha sonora brilhante, um elenco coadjuvante afiado e protagonistas com total domínio sobre os seus personagens, a estreia da série de David E. Kelly é uma das grandes adaptações de Stephen King. Sendo Mr. Mercedes o primeiro livro de uma trilogia, não foi surpresa que a temporada se encerre deixando ganchos potenciais para temporadas futuras, que com a boa recepção da série não só aconteceriam, como também permitiriam aos criadores tomarem maiores liberdades com o material original. Mas essa é outra história.

Mr. Mercedes- 1ª Temporada – EUA, 09 de Agosto de 2017 a 11 de Outubro de 2017.
Criadores: David E. Kelly e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelly
Direção: Jack Bender, John Coles, Laura Innes, Kevin Hooks
Roteiros: David E. Kelly, A.M Holmes, Dennis Lehane, Bryan Goluboff (Baseados em romance de Stephen King)
Elenco: Brendan Gleeson, Harry Treadaway, Kelly Lynch, Jharrel Jerome, Scott Lawrence, Robert Stanton, Breeda Wool, Justine Lupe, Mary Louise Parker, Holland Taylor, Ann Cusack, Katharine Houghton, Nancy Travis, Maddie Hasson
Duração: 10 episódios de aproximadamente 50 Min.