Hanelle M. Culpepper

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

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Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.