Giancarlo Esposito

Crítica | Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman

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O título do episódio diz tudo: esse parece ser o momento de ruptura que tanto esperamos. Por outro lado, a última fala de Kim – “ou nós nos casamos” – parece ter o condão de nos dar uma rasteira dramática, que deixa todas as portas abertas para o futuro, ou a inexistência de futuro, para o casal Wexler-McGill.

Aliás, escrevi McGill acima mais por uma licença poética, pois Goodman e McGill parecem ser “personagens” cada vez mais indistinguíveis, com o primeiro mantendo-se preponderante por muito mais tempo, como uma segunda personalidade que toma controle de alguém sofrendo de transtorno dissociativo de identidade. São como as formigas comendo o sorvete nas belíssimas sequências de abertura e encerramento de The Guy for This. Isso fica evidente aqui, com toda a lógica por trás do golpe que Goodman aplica não apenas contra o banco Mesa Verde, mas sim contra ninguém menos do que sua companheira Kim Wexler que, antes, resolvera voltar atrás e fechar um acordo financeiro para a saída do último proprietário no terreno destinado ao call center.

O raciocínio faz mesmo muito sentido. Um dos objetivos era apagar qualquer dúvida sobre a idoneidade e ética de Kim e pegá-la de surpresa, com uma reação genuína de raiva e desapontamento, parece, na superfície, uma solução perfeita, talvez a única possível. Mas Jimmy/Saul simplesmente não enxerga que, com isso, ele terminou de quebrar a confiança que Kim tinha nele. Aliás, ao ser confrontado, ele nem mesmo consegue prometer que isso não acontecerá novamente, tamanha é a importância desses golpes para ele. Porque sim, Saul fez o que fez muito mais porque seu plano era bom demais para desperdiçar com a mudança de ideia de Kim do que por qualquer outro sentimento dele em relação a ela. Os hilários anúncios – aquele pessoal que ele sempre contrata ainda está na faculdade??? – que ele produz, assim como a acusação de violação de direitos autorais (essa uma ideia de Kim), realmente pareciam apetitosos demais para Saul deixar de lado e foi absolutamente impagável ver Kevin gradativamente enfurecendo-se como um personagem do Looney Tunes cuja cabeça começa a sair fumaça para depois explodir, algo com que Saul simplesmente contava que aconteceria.

Portanto, nem passa pela cabeça de Saul que Kim tornou-se alvo de seu golpe ou, se passa, ele não consegue entender o que exatamente isso significa para ela. Ah, mas Kim também sente prazer em pequenos golpes e foi ela que começou a arquitetar o ataque ao seu próprio cliente. Sim, sei muito bem disso. Não é segredo algum que ela tem esse conflito interno inconciliável desde o começo da série, mas a questão, aqui, é de confiança mútua com alguém com quem ela vive. Isso fica ainda mais evidente a partir do flashback de abertura para sua adolescência, em que vemos sua mãe, embrigada, chegar tarde para pegá-la em sua escola em Red Cloud, Omaha (lembrando: o mesmo estado onde Gene tem seu Cinnabon…). Confiança é a chave para qualquer relacionamento e não há futuro para Kim e Jimmy sem esse pilar.

Mas e o pedido em casamento? – alguns podem perguntar. Sabem quando estamos tão conectados com alguém ou até mesmo alguma coisa e, na iminência de perder essa pessoa ou coisa acabamos fazendo de tudo para manter o status quo? Pois bem, é assim que eu vejo essa alternativa que Kim dá a Saul (ou seria Jimmy?) no último segundo do episódio. Em poucas palavras, trata-se de desespero, um momento impensado em que uma parte da personagem acha que uma união formal resolverá tudo magicamente. Sabemos que não é assim que a banda toca, especialmente em uma situação em que sequer entendemos exatamente se Kim tem consciência sobre para quem ela fez a proposta, Jimmy ou Saul ou, como já disse, a amálgama indistinguível dos dois. É como se um casamento resolvesse tudo magicamente, algo que ela não acha de verdade, pois ela é adulta e inteligente, mas que, no calor do momento, talvez signifique algo para a Kim esperançosa.

E como resultado desse sensacional conflito, ganhamos sequências memoráveis como a da produção dos anúncios, a da espalhafatosa e hilária apresentação de Saul para Kevin e seus advogados e, lógico, o do sensacional diálogo entre Kim e Jimmy ao final de tudo, que mais uma vez serve de palco para que Rhea Seehorn e Bob Odenkirk deem um show de atuação. Tudo funciona muito bem e, apesar da variedade de assuntos sendo tratados, a montagem mantém o fluxo narrativo tinindo, com a fotografia mais uma vez despontando com o cuidado com cada tomada.

Na “outra história” do episódio, vemos o início do plano de Mike para eliminar Lalo da jogada. Mas, antes disso, deixe-me rebobinar e abordar algo que me incomodou. Tudo bem que Dedicado a Max foi um episódio milimetricamente preparado para reunir Mike a Gus novamente. Mais do que entendo – e na verdade, acho essencial para a unicidade narrativa da temporada – que isso precisa acontecer, mas a “queda de Mike”, por assim dizer, não me pareceu profunda o suficiente ou trabalhada adequadamente para justificar de maneira inequívoca seu retorno para debaixo das asas de Gus. Parece que os traumas de Mike foram varridos para debaixo do tapete muito rapidamente, algo pouquíssimo característico em Better Call Saul, como se os showrunners tivessem decididos, de uma hora para a outra, que a separação já deu o que tinha que dar.

Mas, se aceitarmos esse retorno (e eu tirei meia estrela justamente por causa disso, já que, como disse, não gostei), o que resulta daí é mais um bom trabalho da produção em reinserir Mike significativamente na história, com um plano cheio de partes móveis e que retorna à Winner, o episódio 4X10 da série, para resgatar o assassinato do atendente da agência de transferência de dinheiro e o subsequente incêndio criminoso do local por Lalo em um arroubo de raiva incontida. Toda a forma lenta e enviesada que as maquinações de Mike vão tomando forma é um deleite, com o personagem assumindo sua usual identidade de Dave Clark e usando de muita cara-de-pau e poder de persuasão para levar Lalo à cadeia, retirando-o do jogo das drogas da região. Resta saber se ele agora é mesmo carta fora do baralho e o que isso significa para Nacho, em tese o herdeiro natural das operações dos Salamancas.

Wexler v. Goodman pode ser um episódio de virada na série, mas é muito difícil apostar em alguma coisa quando temos Vince Gilligan e Peter Gould como os marionetistas de uma série. Se Kim não pode nem de longe confiar em Jimmy, nós certamente podemos confiar de olhos fechados na capacidade de contar histórias desses espetaculares showrunners.

Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman (EUA, 23 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Michael Morris
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 51 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

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E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | The Mandalorian – Chapter 8: Redemption

plano critico the mandalorian star wars

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Eis que o imparável Taika Waititi foi escalado para dirigir o episódio final desta temporada de The Mandalorian, e eu não poderia estar mais feliz com isso, especialmente porque o resultado obtido foi sensacional. Pegando exatamente de onde a gente parou em The Reckoning, o Finale se desenvolveu a partir de um princípio de real perigo para os personagens, mantendo a morte de Kuiil e encomendando diversas outras — além, é claro, de deixar a gente roendo unhas por conta do Baby Yoda agora nas mãos dos Scout Troopers.

Por conhecer muito bem o estilo em que Waititi trabalha e consegue fazer muita coisa boa como diretor, Jon Favreau escreveu um roteiro muitíssimo bem equilibrado entre a comédia, a fofura e as ações de batalha do Baby Yoda e dos personagens principais e ainda situações com boas consequências, com a trama em si mesma servindo de fonte para novas informações sobre os personagens, um jeito interessante de aprofundar-se em temas da série sem usar o jeito simplesmente didático para isso. É por este motivo que o discurso de Moff Gideon (Giancarlo Esposito) se encaixa de maneira muito fluída na cena em que Mando (que descobrimos se chamar Din Djarin e que, para surpresa de todos, tem o seu rosto revelado… tudo sem showzinho ou melodrama: é um take rápido, funcional, mas de significado enorme), Cara (ou Carasynthia Dune, que é natural de Alderaan!) e Greef Karga (que certamente retornará na próxima temporada) estão encurralados. Não se trata apenas da ameaça, do problema crescendo e das opções diminuindo para os mocinhos. Trata-se de um bom uso de uma situação crítica para acrescentar novidades à série.

Paralelamente vemos os Scout Troopers esperarem a confirmação para se aproximar com o bebê, e se eu já queria a morte dos infelizes, o sentimento cresceu ainda mais quando eles esmurraram a pequeno verdinho. No entanto, a conversa entre os dois ali é ótima, genuinamente engraçada e fica ainda melhor quando tentam acertar um alvo a poucos metros de distância e não conseguem de jeito nenhum — parece até uma sequência-paródia de Star Wars, mas está bem colocada e ainda faz o papel de humanizar o vilão, dando a esses personagens uma função diferente além de só ser uma bucha de canhão malvada. Isso pelo menos até a chegada triunfal de IG-11, para dar o que eles realmente mereciam. Esse droide foi fascinante desde o momento em que apareceu lá em Chapter 1 e tem um fim aplaudível no presente episódio. Confesso que eu adoraria vê-lo na próxima temporada, mas se é para ir embora, que vá com um baita propósito e dentro de um bom contexto, como foi no caso (e o de Kuiil também!).

A cena em que IG-11 vai salvar o mandaloriano e amigos é muito bem dirigida, com direito até um primeiro plano no rosto sapeca do Baby Yoda que claramente gosta de aventuras perigosas. Junto à cena impagável da armeira mandaloriana badass que luta contra os Stormtroopers, esta cena figura entre as minhas cenas favoritas da temporada. E vale dizer que aqui, uma parte das reclamações que Ritter (e eu, nos comentários) vinha fazendo sobre alguns roteiros é definitivamente dissipada, já que nos é possível ver um propósito a curto prazo (o compromisso de Doutrina que Djarin tem com o bebê… não apenas para ficar vagando à toa com ele) e as possibilidades de expansão disso para outros cantos do Universo Star Wars, tirando o ar bairrista que alguns enredos deixaram transparecer. E a prova de que conexões e expansões interessantes serão feitas está na aparição do darksaber nas mãos de Moff Gideon, na cena final do episódio.

Ancestralmente ligado aos mandalorianos — por ter sido criado por Tarre Vizsla, o primeiro desse grupo a entrar para a Ordem Jedi, mais de mil anos antes de Yavin — e tendo aparecido sem exatamente muita coisa de sua história pregressa nas Guerras Clônicas e em Rebels (quem não surtou com Trials of the Darksaber, hum?), a indicação que temos aqui é que o título da série será levado realmente a sério pelos produtores a partir de agora, fortalecendo canonicamente e em live-action a trajetória dos mandalorianos, ou seja, coisa boa e muitas novidades nos aguardam no futuro. Exceto por alguns diálogos de Cara que achei meio bobos e pela estrutura de montagem um pouco antes de o bicho pegar fogo (literalmente), o episódio foi um verdadeiro evento para mim, e certamente se tornou o melhor da temporada. The Mandalorian encerra o ano de maneira sólida e com um olhar extremamente promissor para o futuro. Muito obrigado por isso, Jon Favreau!

The Mandalorian – Chapter 8:  (EUA, 27 de dezembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Pedro Pascal, Gina Carano, Carl Weathers, Rio Hackford, Giancarlo Esposito
Duração: 40 min.

Crítica | The Mandalorian – Chapter 7: The Reckoning

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The Mandalorian finalmente retorna para a história principal em um episódio que, ao começar lentamente, bem mais do que o ritmo normalmente acelerado da temporada, deixa logo evidente que ele é a primeira parte de um encerramento duplo. E não há nada de errado nisso, pois, novamente sob a batuta de Deborah Chow, responsável por The Sin, a narrativa ganha compasso e ritmo para Mando reunir os amigos que fez pela galáxia.

Recebendo uma proposta holográfica de Greef Karga com toda cara de armadilha para eliminar o misterioso cliente que originalmente contratara os serviços do caçador de recompensas e que envolve usar o bebê Yoda como isca, Mando parte para recrutar a ajuda de Cara Dune e, percebendo que precisa de uma babá, também Kuiil que, por sua vez, insiste não só em levar consigo três blurrgs, como também ninguém menos do que IG-11, agora um dócil serviçal depois de ser resgatado pelo engenhoso ugnaught. Com isso, os quatro partem para Nevarro para encerrar o assunto de uma vez por todas.

O retorno dos personagens anteriormente apresentados já automaticamente traz estofo e qualidade ao episódio, algo que a direção de Chow, mesmo trabalhando com um roteiro padrão, que não procurar arriscar (a não ser na cena final, se ela for mantida), amplifica sensacionalmente ao trabalhar uma decupagem precisa, com sequências relevantes para o estabelecimento da conexão necessária entre os três heróis que embarcam na Razor Crest. Mesmo acusando lentidão no começo, como mencionado, a montagem prepara a ação na medida certa e constrói um bom suspense em relação às dúvidas de Mando sobre IG-11 e surpreende na sequência noturna em que mynocks de tamanho avantajado atacam o grupo acampamento nos arredores da cidade onde o confronto será realizado.

Pessoalmente, tenho problemas com os diálogos de Karga, que não passam de frases de efeitos costuradas juntas e faladas por um ator que tem dificuldade em mostrar qualquer tipo de habilidade dramática. Carl Weathers funciona bem como personagem de segundo ou terceiro plano, mas, ao ser colocado em primeiro plano, sua imponência torna-se quase cômica, o que não é lá um problema enorme, lógico, já que seu papel não é muito mais profundo do que um recorte de cartolina (como basicamente todos na série, diga-se de passagem), mas que poderia ter sido suavizado com um pouco mais de carinho no texto de Jon Favreau.

A composição cênica do vilarejo tomado de Stormtroopers e dois Scout Troopers com speeder bikes foi nostalgia de boa safra na veia, assim como a ação no quartel general do cliente e a imponente chegada dos Death Troopers (os únicos soldados imperiais que acertam o alvo, pelo visto!) e, claro, do esperado Moff Gideon, vivido por ninguém menos do que o próprio Gus Fring, Giancarlo Esposito, em seu belo Outland TIE fighter. No entanto, achei desnecessário que o Cliente fosse chacinado no tiroteio, considerando que o personagem de Werner Herzog tinha potencial para ser mais explorado, mas o que posso fazer a não ser torcer para que ele tenha sobrevivido, não é mesmo?

Logicamente que o destaque do episódio vai para angustiante sequência final em montagem paralela, com Cara e Mando cercados como nos melhores faroestes e Kuiil desesperado para chegar até a nave e à segurança. É aqui que Deborah Chow mostra toda sua categoria ao usar cortes precisos fazendo micro-elipses e quase nenhum diálogo para esconder os efetivos acontecimentos e só nos mostrar a tragédia, com o bebê Yoda, depois de novamente cair no chão (só fico me lembrando do Sloth, dos Goonies!), ser capturado pelos Scout Troopers e a câmera então se levantar, com pouca profundidade de campo, para lentamente mostrar Kuiil alvejado próximo à Razor Crest. Um momento solene e muito bem trabalhado que, ao contrário da cena do Cliente, que se aparecer vivo é lucro, pede que Kuiil permaneça morto para que todo o efeito dramático seja realizado com dividendos, provavelmente permitindo que IG-11 seja usado como um anjo robótico vingador.

Talvez tivesse sido melhor esperar o episódio final para julgar os dois conjuntamente, mas não há mal algum em abordá-los separadamente como faço aqui, mesmo sendo evidente que eles são uma coisa só. The Reckoning faz a temporada retornar ao mais alto nível de qualidade, preparando um encerramento de arco potencialmente digno, capaz de sedimentar The Mandalorian de vez no imaginário popular.

Obs (com spoilers do novo filme da saga Star Wars): O episódio teve seu lançamento antecipado para o dia anterior da estreia de A Ascensão Skywalker nos EUA e, curiosamente, há uma conexão entre as duas obras, ainda que indireta. O bebê Yoda, que já havia tentado tocar na ferida de Mando em The Child, efetivamente cura uma ferida grave em Greef Karga, exatamente como Rey e Ben Solo fazem no filme.

The Mandalorian – Chapter 7: The Reckoning (EUA, 18 de dezembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Deborah Chow
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Pedro Pascal, Carl Weathers, Gina Carano, Nick Nolte, Taika Waititi, Werner Herzog, Giancarlo Esposito, Adam Pally, Dave Reaves, Chris Bartlett, Drew Hale
Duração: 40 min.