Efrat Dor

Crítica | The Flash – 6X15: The Exorcism of Nash Wells

  •  SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora não desenvolva os ganchos preparados pelo episódio anterior no sentido específico que eu mais esperava (leia-se: com Barry Allen tomando as rédeas da situação pós-morte da Força de Aceleração), The Exorcism of Nash Wells consegue manter a boa qualidade dessa sequência de episódios e exemplificar do que a série é capaz, desde que a produção se esforce minimamente para desenvolver seus potenciais.

O que é legal é que esse episódio mostra aquilo que eu sempre defendo em relação a essas séries da CW: não é nem preciso dispensar o foco dramalhão-motivacional que pauta as produções do canal (voltadas a um público adolescente, imagino — faz tanto tempo que nem sei mais dessas coisas) para tornar a coisa mais palatável para um público mais amplo incluindo, é claro, o nerdão que no fundo preferiria estar assistindo a um bom episódio de desenho ou lendo um gibi do personagem. O capítulo traz, afinal de contas, uma enxurrada de cenas focadas na rememoração de sofrimentos passados e filosofadas profundas dos personagens sobre seu estado emocional. Mas, pelo menos para mim, a coisa funciona por dois motivos: 1. as cenas emergem de maneira orgânica e tem ressonância temática com o foco do episódio (a perda que Nash (Tom Cavanagh) sofreu no passado) e 2. elas não entram no roteiro em detrimento do desenvolvimento das outras subtramas.

Por falar nelas, quantas! Só não digo que a série chega a ter coisa demais acontecendo ao mesmo tempo porque o ritmo do episódio consegue sustentar cada um dos núcleos muito bem, sendo que cada um deles explora terrenos já conhecidos para o público que se mantém firme e forte no seriado até hoje. Fazendo um bom uso tanto da personagem de Cecile (Danielle Nicolet) quanto de várias tecnobugigangas já estabelecidas no passado da série, o resgate psíquico de Nash consegue ter tempo para explorar dramaticamente o seu passado que, embora não tenha me surpreendido, conseguiu me ganhar pela execução bem acabada das reações emocionais dos personagens. As sequências do passado de Nash, além de fazerem crescer o personagem, mostram um pouco do que é perdido em parte com o fim do multiverso — a total liberdade de explorar cenários totalmente distantes da usual Central City.

Na frente de casa, a subtrama envolvendo a Mestra dos Espelhos e sua disputa com o clã de meta-assassinos com poderes de luz (a descrição faz parecer mais maneiro do que de fato é!) trouxe excelentes sequências de ação, com destaque para os efeitos visuais dos poderes de Sunshine (Natalie Sharp). A dinâmica do Team Flash central — Barry, Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker), claro! — consegue sustentar muito bem ambas as histórias da semana, e o Velocista Escarlate consegue bancar duas resoluções heroicas muito bacanas em tempo recorde. Sério, acho que já tivemos sequências de dez episódios que não tiveram um momento sequer para Barry quanto ele teve nos vinte minutos finais desse capítulo.

E isso foi uma virada e tanto, já que no comecinho do episódio eu comecei a perder fé de que continuariam com a boa fase para Barry. Não curti muito a primeira cena de discussão sobre a criação de uma nova Força de Aceleração: aquele é o Barry que pra mim já deu, com um chororô do tipo “Mas a gente precisa fazer isso, gente, não interessa que vocês não saibam, vocês não sabem o que eu to passando! E eu vou usar drogas de aceleração sim, por que, alguma coisa de mal da veio disso?”. Me poupe, vá, seu Allen!

Por sorte, essa sombra do passado não deu mais as caras ao longo do episódio, e a atuação heróica dele nas duas frentes compensou a escorregada mostrando um pouco do Barry ideal: reagindo rápido com soluções inusitadas e, de preferência, sem falar com a voz embargada de choro. Ironicamente, tivemos até uma boa dose de choro no confronto com Thawne — mas, veja bem, choro mesmo, justificado e sustentado de forma orgânica pelo roteiro (e, na medida do possível, pela atuação), e não o chororô daquele momento inicial. Mais do que espantar a assombração acelerativa-negativa de Eobard Thawne, o capítulo consegue dar mais um passo no verdadeiro exorcismo que a série necessita: da caracterização torta que o personagem principal teve que sofrer ao longo dos anos.

The Exorcism of Nash Wells trouxe boas doses de ação, comédia (Cecile se preparando para o exorcismo / nocauteando Wells com um tabuleiro de Ouija!) e — claro — altas doses de personagem. Embora essa mistura tenha dado as caras de forma constante em toda a história da série até hoje, a fase atual tem conseguido fazer a mistura funcionar de forma mais empolgante e intensa, servindo aos personagens e ao enredo com desenvolvimentos orgânicos cujo payoff acontece no tempo de exibição mesmo. Uma história onde o Team Flash derrota Thawne mais uma vez é mil vezes mais interessante do que “teaser nº 16 do retorno do vilão no final de temporada”, e felizmente é o que tivemos aqui.

The Flash – 6×15: The Exorcism of Nash Wells — EUA, 17 de março de 2020
Direção: Eric Dean Seaton
Roteiro: Lauren Barnett, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Victoria Park, Kayla Compton, Patrick Sabongui, Natalie Sharp
Duração: 43 min.

Crítica | The Flash – 6X14: Death of the Speed Force

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Depois de criar um núcleo interessante em torno de Iris (Candice Patton) e nos presentear com um bom episódio de Gorila Grodd, o mais novo feito da equipe produtiva de The Flash envolve ninguém menos que Kid Flash (Keiynan Lonsdale). O que poderia parecer mais uma “volta dos que não foram (que ninguém pediu que voltassem)” teve o benefício tanto de acontecer em meio à boa fase atual do programa, quanto da redenção que o personagem recebeu durante sua passagem por Legends of Tomorrow. Ainda assim, Wally pode ser considerado uma “ponta solta” do passado da série que dificilmente justificaria uma revistação interessante o bastante, né? Né…?

Bom, considerem-me positivamente surprendido! Se no passado a versão televisiva desse gigante dos quadrinhos deixou (bastante) a desejar, e ainda que sua ausência em momentos-chave recentes dificilmente possa ser justificada de forma convicente, eis que chamaram o cara de volta para dar um pontapé em um arco realmente interessante! Por si só, a cena inicial do resgate aéreo já me vendeu a ideia de que, afinal de contas, não tem nada de mais em trazer de volta um ou outro velocista extra. Felizmente, mais do que nos presentear com boas sequências de ação velocista, o capítulo também aponta para uma direção que há tempos eu desejo ver ser tomada para o Velocista Escarlate nessa série.

Antes de falar disso, vale marcar: fiquei cabreiro, de início, com a perspectiva de estarmos diante de um dramalhão envolvendo a emancipação do Wally, em sua nova fase bicho-grilo, em relação à sua posição como eterno “Kid” Flash. Naquela cena em que ele começa a moldar flores de lótus com relampaguinhos e metralhar reflexões profundas e não requisitadas tal qual um aposentado em grupo de WhatsApp, temi que a coisa toda fosse se tornar mais um jogo de ciumeira bobo entre os meio-irmãos/cunhados velocistas.

Felizmente, a rixa pessoal entre os dois acaba sendo explorada de um jeito bem mais interessante do que o padrãozão passado da série, contrastando não apenas suas personalidades, mas duas maneiras diferentes de se pensar na Força de Aceleração e, com isso, preparando o que tem potencial de ser um desenvolvimento decisivo para a estagnada versão “grantgustiniana” de Barry Allen. Se eu achava que a partida de Wally em uma jornada de auto-conhecimento espiritual não passava de mais uma das desculpinhas mequetrefes de sempre (alguém lembra do Julian?), o gancho acaba sendo bem aproveitado ao mostrar a busca ativa de Wally por contato e respostas em relação à Força de Aceleração. Com isso, temos o pano de fundo para encarar uma característica até então pouco explorada de Barry: sua postura passiva/reativa frente aos fenômenos “velocísticos” que o circundam.

Claro que, mediante uma ou outra Crise anunciada, o Team Flash se desdobrou e adotou posturas ativas frente às suas ameaças. Porém, de maneira geral, além da postura reativa generalizada da equipe(lembra da eterna “perseguição” ao Pensador?), o fato é que o próprio Barry acabou sempre deixado de lado em termos da criação de soluções e tecnologias para expandir sua atuação como Flash. Com as explicações pseudo-científicas ficando sempre a cargo de Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker) após a partida do tutorzão querido Wells, tivemos muito pouco espaço para explorar o lado cientista do próprio Barry — seu veio mais criativo e proativo que é uma das marcas do personagem nos quadrinhos. Barry é um cientista forense — só que Cisco e Caitlin são melhores como cientistas e Dibny é melhor como detetive do que ele. O que sobra para o cara fazer fora dos momentos de ação, senão ficar eternamente marinando suas questões motivacionais mais profundas?

A subtrama da morte da Força de Aceleração, embora traga na premissa algo que evoque momentos menos brilhantes da série no passado, acaba servindo como ponto de partida para resolver esse problema. Barry e Wally acabam entrando em rota de colisão por conta do erro de Barry, alimentado por sua postura sempre passiva em relação à Força. A piadinha que ele faz ao imitar Yoda é significativa: por mais que tenha vivenciado tudo que vivenciou, Barry ainda recusa encarar de frente seu papel como parte da Força de Aceleração, acomodando-se com as responsabilidades de sempre em Central City que, verdade seja dita, acabam sendo um fardo o suficiente para o cara carregar. Porém ele percebe, no fundo, que há algo de errado, mas usa-se de seu lado racional como defesa contra essa preocupação. Até que o desastre se torna inegável e, então, ele se força a finalmente dar um passo necessário em sua carreira heroica — ao invés de usar da razão para negar o “misticismo” correto de Wally, trata-se de encontrar uma solução para o desastre iminente: criar uma Força de Aceleração para fazer frente à criação sombria do Flash Reverso. Afinal de contas, o Barry que acompanhamos semanalmente muitas vezes está mais para Savitar do que para o cara que construiu Gideon, não é? É muito bom ver o personagem finalmente dar passos decisivos para se tornar o lendário Flash futurista, deixando de lado essa adolescência alongada pela qual tem passado desde a segunda temporada (!) da série.

Numa tacada só, temos uma subtrama super interessante para nosso protagonista que ao mesmo tempo justifica o retorno de seu arqui-inimigo, preparando o cenário para um conflito que tem tudo para evoluir o Flash a um novo nível de relação com seus poderes. Embora eu continue um tanto cético em relação à série abraçar seu lado mais sci-fi, já que o drama pessoal dificilmente deixará de ser o foco principal da coisa, ao menos o roteiro tem mostrado uma preocupação bem realizada em amarrar o passado da série com os eventos atuais. A forma como o episódio equilibra suas subtramas continua a ser muito interessante, evitando as arrastações de sempre e explorando elementos dramáticos interessantes: Iris não podendo se encontrar com Wally na prisão do espelho, o retorno de Wells no corpo de Nash, o “sacode” que Wally leva de Joe — pequenos momentos de personagem que adicionam consistência à narrativa e ao mundo de The Flash, felizmente longe do “esquema Power Rangers” das temporadas passadas.

Combinando bem os elementos que têm dado certo, Death of the Speed Force é mais um bom capítulo na ótima fase atual da série, construindo subtramas de forma orgânica e resgatando potencial esquecido de diversos cantos do universo televisivo. Ah, se a gente pudesse ter uma “Crise das Infinitas Emissoras” que retroativamente transformasse certas temporadas anteriores em algo mais próximo disso!

The Flash – 6×14: Death of the Speed Force — EUA, 10 de março de 2020
Direção: Brent Crowell
Roteiro: Sam Chalsen, Emily Palizzi
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Efrat Dor, Victoria Park, Keiynan Lonsdale, Michelle Harrison, Tess Atkins,  Elizaveta Neretin
Duração: 43 min.

Crítica | The Flash – 6X13: Grodd Friended Me

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Difícil começar qualquer comentário sobre o episódio desta semana de The Flash sem aludir ao cliffhanger duplo que o encerra. Qualquer um dos ganchos deixados poderia tranquilamente servir como encerramento de respeito ao capítulo: tanto a revelação a respeito da ligação entre Eva McCulloch (Efrat Dor) e a versão refletida de Iris (Candice Patton) quanto aquela entre o arquivilão Flash Reverso e os fantasmas dos múltiplos Wells que assombram Nash (Tom Cavanagh) são momentos dramáticos marcantes pelos quais as temporadas anteriores teriam que sacrificar horas de chororô inútil para conquistar às duras penas. No entanto, estão empilhados aqui, um sobre o outro. Será que tem coisa demais acontecendo ao mesmo tempo?

Em outros carnavais, poderia dizer que sim. No entanto, para uma série que sofreu tanto com a insistência em um ritmo monotônico de desenvolvimento de tramas, acho que o estilo mais descentrado da narrativa atual tem servido como um remédio bem-vindo contra o marasmo de sempre. Ao invés de ficarmos nos arrastando por horas no jogo chatíssimo de construção do vilão de temporada da vez, as ameaças tem sido construídas de forma orgânica a partir de narrativas bem dosadas focadas em personagem. E isso é muito bom!

Nessa semana essa nova abordagem passou por uma prova de fogo significativa: fazê-la funcionar com nosso protagonista (que, ironicamente, tem mais dificuldade em protagonizar bons arcos de personagem do que o elenco de apoio) em nada menos que um episódio de Gorila Grodd, que historicamente não entregou as tramas mais shakespearianas de The Flash. E não é que funcionou!?

Gostei particularmente do ponto de partida da subtrama, com Barry (Grant Gustin) procurando uma maneira de se informar sobre todas as mudanças efetuadas pela Crise. Afinal de contas, além de um velocista heroico que peleja para dar conta tanto dos supervilões quanto de seus contratempos emocionais, Barry é um cientista! Esse aspecto é raramente explorado pelos roteiros, dada a concentração recorde de QI por metro quadrado do S.T.A.R. Labs, mas temos aqui um exemplo de como esses traços facilitam embasar histórias de forma mais orgânica do que o velho “A grande ameaça profetizada está chegando, e as emoções da equipe se encontram à flor da pele!”. É a mesma coisa que ocorreu com Iris: bastou centralizar a personagem em sua veia jornalística investigativa que voilá, premissas interessantes começaram a aparecer!

Tenho a impressão de que trazer o Gorila Grodd é sempre uma desculpinha para esbanjar um CG maroto em sequências de porradaria nonsense (objetivo sempre respeitável, na minha opinião). Assim sendo, situar o retorno do gorilão em um espaço mental foi uma excelente saída para realizar uma premissa absolutamente tosca — o Gorila Velocista — de forma convicente e divertida. Não apenas a luta final é uma galhofa divertidíssima e quadrinhesca, como todo o caminho até lá é repleto de coisas legais — os diálogos bem escritos com Grodd assumindo as formas familiares de outros personagens, por exemplo, foram outro twist bacana para a ideia, fazendo o tipo de coisa que sempre cai bem em televisão, que é explorar outras facetas do elenco recorrente sem muito compromisso com o enredo em si.

Já a subtrama da insegurança do recém-chegado Chester (Brandon McKnight) já representa um pouco mais do “arroz com feijão” dos arcos de personagem da série. Mesmo assim, funciona melhor que o habitual, com um tempo de tela bem comedido e diálogos bem escritos pontuando o posicionamento do personagem. Na verdade, a única bola fora nessa frente para mim foi a própria atuação do Gustin, que soou um tanto blasé demais em relação ao cara, mesmo após o sucesso na operação telepática…

Por sua vez, as outras histórias paralelas envolvendo as desventuras de Allegra (Kayla Compton) com seu stalker interdimensional Nash e as aventuras espelhadas de Iris com a tresloucada McCulloch continuaram a garantir um bom compasso para a trama geral da temporada, apostando em elementos interessantes e sem cair no vício de reduzir tudo a um grande teaser do que está por vir.

Durante a Crise, temi que o papel de Nash na história fosse ser encerrado por ali mesmo, e felizmente não parece ser esse o caso. Cavanagh é um dos corações da série e, felizmente, ao que tudo indica teremos não apenas seu retorno como Thawne como também uma exploração interessante sobre os efeitos da Crise sobre o Conselho dos Wells. Tenho curtido bastante a construção desse mistério, e espero que possamos ter um bom protagonismo para o cara mesmo mediante um possível retorno de Harry Wells (você também torce por isso, vai, pode assumir!).

E quanto à McCulloch, minha esperança é a de que a vilã continue a ser bem construída como o que vimos até agora. Poderes diferentes e imprevisíveis e motivações que não envolvem viagens no tempo ou a obtenção de MacGuffins de matéria negra a serem coletados até o finale são tudo o que eu espero de um vilão de temporada da série no presente momento, e se formos seguir o modelo do que foi feito com Ramsey na primeira metade da temporada, acho que dá pra permanecer otimista.

Entrei temendo outro show de horrores e saí empolgado com duas subtramas muito boas e, de quebra, enriquecido com a memória de um supergorila velocista usando o poder da amizade para se fundir com Barry Allen e derrotar seus maiores medos em busca da liberdade. Ou seja, Grodd Friended Me foi outra boa surpresa de uma temporada divertida em bem dosada em quase todos os aspectos. Difícil não ficar empolgado assim!

Peraí, semana que vem é o retorno de quem? Ah, não…

The Flash – 6×13: Grodd Friended Me — EUA, 25 de fevereiro de 2020
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Kristen Kim, Joshua V. Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Efrat Dor, Andy Mientus, Victoria Park, Kayla Compton, Brandon McKnight, David Sobolov, Keith David
Duração: 43 min.

Crítica | The Flash – 6X12: A Girl Named Sue

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

The Flash segue consistente em sua fase renovada, provando novamente a precisão das mudanças que o time de produção atual tem feito em relação ao modelo da série, especialmente desgastado ao longo das temporadas anteriores. Nosso episódio da vez, A Girl Named Sue, mostra que a nova ordem na casa é capaz até mesmo de entregar a apresentação de uma subtrama há muito tempo anunciada de forma justa, envolvente e — sempre bom — surpreendente!

O leitor que acompanha nossa cobertura da série já deve saber que Ralph Dibny (Hartley Sawyer) é um dos meus personagens favoritos de todo o extenso elenco da série, a versão da CW surpreendentemente tendo conseguido fazer jus ao Homem Elástico dos quadrinhos, mesmo levando em conta as ocasionais derrapadas. Assim, não tem como não admitir que a introdução de Sue Dearbon (Natalie Dreyfuss) não trazia uma carga de expectativa e de justificada apreensão da minha parte, em especial com a recente jogada para escanteio que o personagem de Ralph recebeu ultimamente.

Felizmente, o episódio não desperdiça a ocasião e prova que a estratégia de colocar o núcleo no banco de reservas é sempre válida quando significa explorar de forma legitimamente interessante as narrativas potenciais dos personagens, quando sua vez chegar. Muito mais vale um episódio bom desses do que meia dúzia de aparições reduzindo o Homem Elástico a alívio cômico e/ou contraponto em uma nova DR no Team Flash, não é?

Em termos de roteiro, não consigo pensar em forma mais eficiente de introduzir Sue do que a que tivemos aqui. Ao mesmo tempo em que se presta homenagem às origens da personagem e da relação com Dibny nos quadrinhos originais, temos também uma série de ajustes que a colocam em boa sintonia com essa versão do personagem, resultando em uma química interessante e instantânea. Enquanto, assim como no original, temos o Homem Elástico perseguindo a moça em um comportamento levemente stalker, no twist final  descobrimos que a persecutoriedade não apenas era recíproca e, pior ainda, resultou em uma traição fria e calculista! Esse encaminhamento tornou a personagem instantaneamente mais interessante, introduzindo conflito na subtrama romântica de uma forma que cai perfeitamente bem com o personagem. A dinâmica de Lupin III e Fujiko Mine cai perfeitamente bem para a dupla, e espero que possa ser trabalhada com o ritmo que merece. Não temos pressa em ver o casal “feliz para sempre”, eu quero ver é drama e desgraça (desculpa, Ralph)!

Fora isso, a dinâmica pessoal da dupla também funciona muito bem desde o inicio, valendo-se de diálogos bem escritos, boa atuação e a benção de algo que costumeiramente falta para a série: sutileza. Não é difícil imaginar (e ainda pode muito bem acontecer) uma versão desse episódio recheada de diálogos toscos em que Ralph explica ao espectador o paralelo e as semelhanças entre ele e Sue, roubando a coisa toda de qualquer organicidade. Mesmo o momento breve em que Cecile (Danielle Nicolet) dá as caras para fazer um pouco dessas honras, a coisa funciona bem pois serve de base para um momento comédico bem atuado que entrega o mesmo ponto (a compatibilidade e identificação de Ralph e Sue, mesmo que já suspeitemos dela nesse momento) sem precisar soletrar para nós de forma maçante.

A aventura lupinesca do (ainda não) casal — não bastassem as máscaras, temos até o macacão de couro a la Fujiko da Sue! — acaba em um combate muito bacana contra Ultraviolet (Alexa Barajas), onde ambos conseguem brilhar e, no final das contas, segue até uma pontinha para nosso Velocista Escarlate salvar o dia na hora H. Gostei de absolutamente tudo nessa subtrama, que de quebra conseguiu se encaixar perfeitamente com o restante do arco maior da temporada, que tem conseguido deixar de lado a afobação e o teasing característicos em favor de uma narrativa que, no melhor dos sentidos, parece uma excelente série em quadrinhos se desenvolvendo.

Não dá um belo fôlego renovado acompanhar as ocorrências metahumanas em Central City sem fazer com que tudo gire em torno de alguma ameaça futura pré-determinada com ligações profundas com o passado/futuro de Barry, a Força de Aceleração e os ensinamentos que seus pais deixaram para ele? Com um elenco tão extenso e forte de personagens, é uma injustiça que a série faça menos do que isso, e felizmente estamos tendo um ótimo aproveitamento de personagens que antes acabavam totalmente esmagados pela ladainha narrativa de sempre.

A subtrama de Iris (Candice Patton) e sua duplicata espelhada (podemos combinar de chamar ela de Siri?) continua forte, aproveitando o espaço de tempo alocado para o plot-B para algo muito mais interessante do que o habitual. Construindo uma potencial nova versão do Mestre dos Espelhos, a náufraga especular Eva McCulloch (Efrat Dor), esse núcleo evoca muito bem a aparição anterior do vilão, tomando o tempo para mostrar o truque anterior de se resfriar o espelho não funcionando aqui — provavelmente devido aos poderes que McCulloch adquiriu sem saber. Mais uma vez: não dá pra imaginar a mesma coisa sendo tratada na base do esculacho, com Cisco apenas comentando algo como: “Putz, não dá para congelar o espelho dessa vez porque as leituras de matéria escura ultrapassaram o eixo negativo!”? O quão mais interessante é trazer a continuidade passada de forma orgânica e tomar o tempo para mostrar nossos personagens tentando se virar com o que sabem, ao invés de rechear o caminho do “ponto A” ao “ponto B” da história com um tratado de diálogo expositivo?

A Girl Named Sue é tudo que eu espero de um bom episódio de The Flash: elenco bem explorado de personagens, diálogo afiado, momentos cômicos, sequências de ação, suspense, ausência de plots repetidos de forma canalha e dramalhões desnecessários. Sei que temos que tomar cuidado ao animar com essa série, mas estou cada vez mais caindo nesse novo truque da CW! Sério mesmo, o que poderia acontecer de errado, agora?

Peraí, semana que vem vai ter o quê!? Ah não…

The Flash – 6×12: A Girl Named Sue — EUA, 18 de fevereiro de 2020
Direção: Chris Peppe
Roteiro: Thomas Pound, Lauren Certo
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Hartley Sawyer, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Natalie Dreyfuss, Alexa Barajas
Duração: 43 min.