Edwin Hodge

Crítica | For All Mankind – 1X09: Bent Bird

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

O maior problema de Bent Bird não está localizado no episódio, mas sim na temporada como um todo, mais especificamente na forma como a personagem Molly Cobb, a primeira mulher a pisar na Lua, foi trabalhada a partir do final de Into the Abyss. Ela simplesmente desapareceu nos três episódios seguintes, somente ganhando uma breve menção em Rupture, o capítulo anterior, claramente com o objetivo de reintroduzi-la artificialmente aqui. Ronald D. Moore, já disse antes, não tem conseguido equilibrar bem a manutenção dos personagens em tela, usando-os apenas quando conveniente, o que retira muito da organicidade da história que conta.

Mesmo assim, Bent Bird é um baita episódio que reúne corretamente boas doses de drama, ação e uma chocante reviravolta que quase o transforma em um digno candidato a episódio final de temporada, já que o próximo provavelmente não conseguirá ultrapassá-lo em termos de qualidade, ainda que eu torça para que consiga esse feito para que o primeiro ano de For All Mankind acabe no topo. Dividindo a narrativa em três núcleos, o roteiro de David Weddle e Bradley Thompson (responsáveis pelo outro melhor episódio da temporada, Into the Abyss) continua a abordar a dor de Karen Baldwin pela perda de seu filho, estabelece uma crise na órbita da Terra com a turbina da Apollo 24 se recusando a ligar e, finalmente, coloca Ed Baldwin em uma espécie de “ponto sem volta” em sua trajetória como veterano de guerra e pai que recentemente perdeu o filho, descobrindo o fato não por sua esposa ou amigos, mas sim por intermédio do inimigo.

É particularmente bom ver que a morte de Shane não é algo passageiro apenas para chocar e que reverbera fortemente na estrutura narrativa. Shantel VanSanten continua aproveitando toda a oportunidade possível para mostrar a qualidade de seu trabalho como atriz, convencendo-nos muito facilmente do drama de Karen que leva a personagem a começar a pensar em quem exatamente ela é, passando a entender que talvez ela seja definida por quem está a seu redor – marido, filho e amigos – e não por méritos próprios. Ao procurar o socorro de Wayne, marido de Molly e provavelmente a única pessoa capaz de compreender o que está passando, o roteiro arrisca trabalhar o assunto de maneira expositiva demais, mas a química dos dois personagens (aqueles que ficam!) é gostosa o suficiente, com uma conversa relevante o suficiente para manter o interesse na discussão que têm até o fim.

Em órbita da Terra, a Apollo 24, comandada por Ellen e tendo o veterano Deke e o descendente de chinês Harrison Liu na tripulação, não consegue partir para a Lua em razão do citado problema na turbina, que se recusa a ligar. Uma operação de conserto é montada às pressas, de certa forma adiantando o cronograma da viagem de Tracy como comandante de sua missão, tendo Molly como segunda em comando, mas usando um foguete mais fraco que só permite a chegada até a órbita justamente para que a peça necessária seja substituída. Há pouco tempo para o episódio desenvolver a sequência de ação espacial, já que esse foi o capítulo mais curto até agora, mas o que é mostrado é suficientemente excitante e bem coreografado para nos deixar agarrando o braço da poltrona com toda a força possível. Apesar de Liu ser eliminado sem sequer tornar-se um personagem propriamente dito, o resgate de Molly, literalmente perdida no espaço, me fez lembrar de Gravidade em termos de qualidade técnica e construção de tensão. Algo me dizia que ela dificilmente morreria assim, mas mesmo com isso em mente, a sequência foi tensa e bem trabalhada também em Terra ao enquadrar Margo como uma líder fria e calculista e Gordo como o herói que sempre teve potencial para ter, mas que seus vícios impediam, o que provavelmente o reaproximará de Tracy, que também tem espaço para mostrar seus nervos de aço.

Finalmente, lá na superfície lunar, Ed, torturado pela morte do filho, tenta recompor-se minimamente, somente para dar de cara com um cosmonauta que, na maior cara-de-pau possível, é flagrado utilizando o elevador da base americana para chegar ao fundo da cratera Shackleton. Teria sido esse o objetivo dos russos ao correrem para contar para Ed que Shane estava morto? Um plano maquiavélico para desestabilizar Ed e permitir furto de pesquisa e tecnologia? Esse tipo de paranoia fica esplendidamente plantada não só na mente de Ed, como também do espectador, criando alguns segundos tensos na borda da cratera, mas que logo se mostram anti-climáticos.

No entanto, esse momento é usado como prelúdio para a chegada do cosmonauta à Jamestown, desesperado por ar. Toda a sequência foi magistralmente orquestrada de forma a dar a entender que Ed talvez pudesse chegar à redenção, à algum tipo de expiação de seu sentimento de culpa ao salvar o cosmonauta e, quem sabe, estabelecer algum tipo de laço com ele. Mas esse seria o caminho mais fácil, mais evidente para a série de Moore, e o showrunner elege fazer do título – Pássaro Torcido ou “quebrado” – não só uma alusão direta aos problemas da Apollo 24, como também ao próprio Ed, isolado e cheio de melaconlia, tendo que extravasar sua raiva da pior maneira possível e potencialmente criando um incidente internacional que só esquentará a Guerra Fria.

Mantendo o mistério sobre o fim da Apollo 24, que perde a capacidade de se comunicar; colocando o FBI novamente como instrumento opressor contra aqueles que não se encaixam em um padrão preconceituoso pré-estabelecido e chocando-nos com a frieza assassina de Ed, Bent Bird poderia facilmente ser um season finale explosivo. O fato de haver mais um episódio pode ser um problema, mas espero fortemente que seja uma bênção para essa série que demorou, mas definitivamente achou seu caminho.

For All Mankind – 1X09: Bent Bird (EUA, 13 de dezembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: John Dahl
Roteiro: David Weddle, Bradley Thompson
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge, Nate Corddry
Duração: 48 min.

Crítica | For All Mankind – 1X10: A City Upon a Hill

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo é um dos melhores thrillers espaciais realistas do cinema, reunindo tensão de arrancar os cabelos com uma boa dose de humanidade tanto no espaço quanto na Terra. Ronald D. Moore, fico feliz em afirmar, conseguiu fazer seu próprio Apollo 13 agora, bem no finalzinho da 1ª temporada de For All Mankind, com o magnífico A City Upon a Hill. São 76 minutos de um roteiro azeitado de Matt Wolpert e Ben Nedivi e uma direção precisa de John Dahl (melhor ainda do que sua própria direção do já excelente episódio anterior) que tocam as teclas certas entre ação, emoção e crítica social, encerrando a temporada com chave de ouro e, melhor ainda, sem nenhum grande cliffhanger, daqueles que deixam o espectador pendurado no meio de algum momento crítico, mostrando que não é necessário recorrer a esse tipo de artifício barato para se contar uma baita história. E olha que eu tinha certeza, como escrevi na última crítica, que o episódio final não seria capaz de ser melhor que Bent Bird

Com a situação da Apollo 25 já resolvida depois do resgate de Molly, quase toda a atenção do capítulo se vira à Apollo 24 que, como descobrimos logo no início, continua queimando o combustível de sua turbina, acelerando descontrolada na direção do espaço profundo. Ellen está desfalecida e acorda com os gritos desesperados de Deke, pendurado lado de fora da nave, com um rombo em sua roupa espacial e um grave ferimento. Sem comunicação alguma com Houston, os dois começam a tomar medidas para reduzir a velocidade e corrigir o rumo de forma a alcançarem – e ficarem – na órbita lunar, o que consome todo o combustível e os deixa aquém do número exato que precisavam. Ou seja, muito barulho por nada, já que não há mais saída a não ser escolher como morrer.

Por seu turno, em Jamestown, respiramos aliviados ao vermos o cosmonauta russo vivo, mas amarrado na base por um Ed enfurecido e completamente alheio a tudo que ocorreu e está ocorrendo em sua operação de resgate. A perda de seu filho e sua paranoia anti-soviética o deixam cego, apenas pensando no que os “vilões” estão construindo/perfurando lá na base deles. Se existe algum momento menos do que absolutamente perfeito no episódio, este é o desenvolvimento do relacionamento entre os dois astronautas, que segue detalhe por detalhe a cartilha clichê de inimigos que se tornam amigos, com direito até mesmo a um simpaticíssimo cosmonauta soviético que se torna o “bonzinho” na história toda. No entanto, a grande verdade é que a relação entre os dois não só representa visualmente exatamente o que foi a Guerra Fria, fazendo perfeito sentido lógico dentro da história macro sendo contada, como Joel Kinnaman e Mark Ivanir estabelecem perfeita química juntos desde o início mais beligerante até o final “fofinho”, com os dois melhores amigos se despedindo. Portanto, a sequência é mais do que completamente perdoável.

Ajuda muito também que, uma vez acordado para a realidade dos fatos, Ed não hesita em decolar para resgatar seus resgatadores, em uma baita sequência de ação em órbita lunar que funciona muito bem também em razão da coragem de Ellen e de todo o contexto fornecido antes que a faz sair do armário para Deke, somente para descobrirmos que Deke nutre profunda homofobia, mesmos que, nos últimos segundos de vida, mesmo não se arrependendo, demonstra ter consciência do que é. É uma inversão de expectativa enorme, já que Deke Slayton, personagem real vivido pelo simpático Chris Bauer, não só é um herói veterano da Corrida Espacial, como, também, o responsável final por colocar mulheres na Lua. O espectador é “ensinado” a esperar dele as melhores reações, mesmo quando é durão e, aqui, uma rasteira nos é dada, demonstrando que mesmo o melhor entre nós esconde segredos sombrios e reações impensadas.

Na Terra, a narrativa relacionada com a homofobia ganha eco com Karen aproximando-se da bartender Pam Horton, que é secretamente apaixonada por Ellen, na busca de alguém para ouvir suas realizações como mulher de um astronauta. O preconceito – de outro tipo – também é materializado pela deportação de Octavio Rosales, pai de Aleida, dos EUA, deixando a menina completamente desamparada. E, por completamente, leia-se no sentido mais amplo, já que nem Margo, incapaz de criar conexões, a ajuda quando a jovem mais precisa.

Considerando que a cena pós-créditos (sim há cena pós-créditos – corram lá para ver!) faz o maior salto temporal da série até agora – algo como sete ou oito anos, para 1983 – será interessante ver quem do elenco será mantido e em que capacidade, que outros personagens serão adicionados e, claro, como Aleida entrará nessa equação. Com nova tecnologia à disposição dos americanos e não exatamente uma base, mas uma colônia lunar, a temporada termina novamente reforçando sua cara de ficção científica realista dentro dessa história alternativa que Ronald D. Moore demorou, mas conseguiu desenvolver maravilhosamente bem.

For All Mankind – 1X10: A City Upon a Hill (EUA, 20 de dezembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: John Dahl
Roteiro: Matt Wolpert, Ben Nedivi
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge, Nate Corddry, Meghan Leathers
Duração: 76 min.