Doctor Who

Crítica | Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me?

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Até o mais desgostoso dos espectadores deverá admitir que a premissa de Can You Hear Me? é fantástica e prometia um daqueles misteriosos episódios de terror bem legais que a gente já teve na série antes. O resultado, porém, não foi assim tão animador como esperávamos, mas teve seus bons momentos e conseguiu trabalhar de maneira aceitável o seu assunto principal, garantindo uma boa diversão, apesar das barrigas.

Dividida entre Aleppo, 1380; Sheffield, 2020 e a nave de Zellin, num futuro distante, a trama explora os medos mais intensos, e a partir dessa situação temos um convite para olhar para dentro de cada um, gerando oportunamente um final de episódio bastante reflexivo e que aparentemente acena para a partida dos companions da Doutora (pelo menos Ryan e Yaz), o que evidentemente me deixou pulando de felicidade — e mais uma vez deixo claro que não é por desgostar deles, é porque eu estou enjoado deles e penso que os roteiros, embora tenham melhorado muitíssimo a dinâmica de um time grande na TARDIS, ainda não está conseguindo explorar organicamente o trio + a Doutora. E a minha primeira reclamação sobre o episódio tem a ver com esse assunto, por sinal.

Eu tenho a maior curiosidade para saber como foi o processo de escrita de Chris Chibnall e Charlene James para este capítulo. De quem foi a ideia de colocar a garota síria (Tahira, interpretada por Aruhan Galieva) como adicional temporária na TARDIS e mais Tibo (Buom Tihngang), o amigo de Ryan? Gente é o que não falta nessa nave ou nessa temporada e está claro o quanto isso segura o roteiro pelo rabo, em duas medidas: na estranheza, porque a gente fica se perguntando: “cadê fulano?“, e na estupidez, porque não há tempo de criar falas ou dar funções minimamente interessantes para esses coadjuvantes de momento (e eu implicava com a coitada da Courtney Woods, interpretada por Ellis George, na era do 12º Doutor! Mal sabia eu que estava no Paraíso!), de modo que ficam todos com cara de bolacha falando amenidades que ninguém se importa, atravancando o uso dos companions (que já são muitos) e o escopo de ação da Doutora, que precisa abarcar todo mundo. Ai ai…

O que torna o texto interessante, no entanto, é a jornada em torno do medo ou do desequilíbrio metal e que traz, na figura do vilão Zellin a conexão com diversos momentos da Série Clássica, como os Eternals (Enlightenment), os Guardians of Time (The Ribos Operation) e o Celestial Toymaker, que tem uma citação especial, dado o jogo que Zellin monta para a Doutora. Aparentemente estamos diante de um episódio isolado, mas ele tem a sutil habilidade de aglutinar rapidamente pequenos elementos da temporada, como o Dregs de Orphan 55 e a Criança Atemporal, dando um senso maior de unidade, mesmo que não nos encha de respostas. Eu me diverti com a história em si, mas não pude deixar de me irritar com a já citada superpopulação do núcleo central e em mais dois momentos, que acho que realmente estragaram muita coisa.

O primeiro foi aquela TE – NE – BRO – SA escapada da Doutora. Eu juro pra vocês que eu pausei o episódio para tentar respirar e me acalmar com o que eu vi naquela cena. Aquilo foi horrível em tudo o que se possa imaginar: foi uma escapada feia e burra para os moldes e inteligência da Doutora; foi uma das resoluções mais mal editadas que eu já vi em toda a minha vida e, pior ainda, foi uma cena num ponto alto do episódio, já orbitando o clímax, e exigia que o roteiro desse a máxima atenção para fazer um bom crescendo até o ponto máximo. Só que em poucos segundos vem aquele Deus Ex Machina e pronto, a Doutora estava liberta…

Por outro lado, me agradou demais a atenção dada aos companions, cenas que deveriam aparecer na primeira metade da 11ª Temporada, mas tudo bem, pelo menos apareceram, certo? Esse é o tipo interessante de exploração de personalidade e vida pessoal dos personagens e que casa bem com a temática do capítulo, dando um pouco mais de pistas sobre as ações, o pensamento e os anseios de cada um. Mas aí, caindo na maldição dessa Era (que para cada coisa boa deve ter uma ruim) tem aquele monólogo bonito e doloroso do Graham com a Doutora e ela simplesmente escanteia o cara! Eu fiquei muito bravo com os roteiristas nesse ponto. A Doutora dar um puxão de orelha na Yaz e dizer que eles “fazem perguntas demais” é uma coisa que faz sentido esperar dela, mas tratar o Graham daquele jeito? A 13ª Doutora? Não faz nenhum sentido. Estragou um momento bonito a troco de nada, indo na contramão de tudo o que se construiu da Doutora até aqui e perdendo outra oportunidade de ouro para fazer com que ela se mostrasse mais.

Apesar dos pontos negativos do episódio, eu realmente gostei da história como um todo. O que me incomoda é que mesmo em episódios que eu tenho gostado da maior parte, a ponto de estarem solidamente acima da média, ainda vejo tropeços quase inacreditáveis para DW a essa altura do campeonato. Impossível não se irritar com Chris Chibnall por isso.

Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me? (Reino Unido, 9 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Chris Chibnall, Charlene James
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Clare-Hope Ashitey, Aruhan Galieva, Nasreen Hussain, Buom Tihngang, Bhavnisha Parmar, Ian Gelder
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X06: Praxeus

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Como existe uma similaridade de proposta deste episódio com o pior da temporada até agora (Orphan 55), eu vou reservar um tempo para falar da estrutura desse 12º ano do do show antes de entrar no episódio propriamente dito. E isso se deve não apenas à já dita proximidade temática como também ao caráter humano que ele traz, envolvendo recorte étnico, de sexualidade e ambiental. Eu já imagino os Megazord do Ódio vazando óleo e usando o termo “politicamente correto” errado e fora de contexto. O primeiro ponto que eu quero levantar é sobre a questão ambiental. Já fiz um apanhado histórico em relação à série lá no texto de Orphan 55, e mantenho exatamente a mesma opinião aplicada a este aqui, de modo que não vou repetir a mesma coisa. Menos um assunto. Já o segundo ponto é sobre o que faz esse episódio ser problemático, e o que é mais triste: isso tem pouco a ver com o episódio em si.

Para não ser injusto, eu restringirei o meu escopo comparativo apenas à Nova Série, mas quero deixar claro que há um número gigantesco de exemplos na Série Clássica que dão suporte ao meu argumento. E para não perder tempo, vamos nos ater apenas a Doctor Who, certo? Vamos lá. É um padrão para a série, desde o seu revival em 2005, manter uma estrutura organizacional de temporadas que tenha mais ou menos essa dinâmica: “apresentação de problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com mínima ligação; episódio chocante ligado à problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com alguma ou nenhuma ligação; reta final com diferentes níveis de relação diante da problemática da temporada; Finale“. Ou seja, todos nós já estamos acostumados com os fillers elegantes ou charmosos de Doctor Who, embora existam exceções (óbvio!), como os fartamente lembrados Love & Monsters e Fear Her, embora não sejam os únicos. Com isso já tiramos um “problema que não é um problema” de cena: episódio filler ou relativamente solto na temporada nunca foi uma novidade na série. TODAS as temporadas do show são organizadas com “pausas para respirar” e dar a oportunidade de colocar o Doutor num cenário diferente, sem real compromisso com a temática maior. Este não é o problema. O problema aqui é…

… a absurda falta de sensibilidade de Chris Chibnall (e sim, isso é culpa dele porque uma das coisas que ele mesmo disse que tem é a opinião final em relação à organização dos episódios na temporada) em fazer com que uma trama tão destoada da temática central seguisse a um episódio do nível de Fugitive of the Judoon. Eu, como espectador, imaginava uma sequência imediata, mas se não isso, pelo menos uma ligação direta e dramaticamente relevante em torno daquela ideia! O que tivemos com Praxeus, que é um bom episódio, foi uma quebra total após um turbilhão de informações, interferindo de fato na qualidade da temporada e também na forma como a gente vê o episódio. E você pode argumentar que a passagem para este foi 100% mais elegante que a de Spyfall – Part Two para Orphan 55, e eu concordo. Agora vamos pensar um pouco sobre a maneira como a ligação foi feita: o que o roteiro estava tentando nos sugerir? Que os sinais colhidos em 3 continentes diferentes teriam alguma coisa a ver com o drama dos Judoon ou um assunto correlato, certo? Pois cá estamos, falando inteiramente de outra coisa. Que organização tenebrosa de grade da temporada, meu Santo Omega!

Já o episódio em si foi uma experiência divertidíssima para mim. Eu gosto muito da estrutura frenética de abordagem de Chibnall, que aqui escreve o roteiro ao lado de Pete McTighe, mesmo autor de Kerblam!. O que é melhor nisso é que o tratamento dado aos companions, ao menos em termos de uso deles em cena, está em constante melhora, o que é surpreendente. Mas tem coisa que é difícil aceitar. A Doutora deixar Yas ir sozinha para um lugar que acabaram de fugir de aliens? Ainda com outra viajante ocasional da TARDIS? Não comprei isso de jeito nenhum, mas ao mesmo tempo, gostei de ver as duas jovens em ação. Da mesma forma, achei estúpido Ryan entrar na ala de quarentena do hospital, mas gostei da ação solo dele no Peru. E vale aqui acrescentar que foi MUITO legal ver a série trazer pessoas de diferentes nacionalidades e visitar diferentes países. Todavia, lá no fundo da minha cabeça, continua algo martelando desde o terceiro episódio: quando é que a gente vai visitar outro planeta? Por favor, que tenha pelo menos UM episódio ambientado de fato em outro lugar, outra Galáxia! A gente gosta da nossa casa, mas vamos sair da Terra um pouco?

A disposição do problema do vírus foi outro ponto positivo aqui. Como o episódio se passa em diferentes lugares, foi interessante ver os esforços conjuntos para trazer alguma resolução à causa e nesse aspecto eu só tenho uma grande decepção: criaram um mistério insano diante dos aliens e quando a gente viu a cara deles… eram iguais a nós. Nem pra ter uma orelhinha maior, um olho de uma cor diferente, umas tatuagens, uma roupa diferente! De todo modo, foi uma boa participação desses indivíduos, assim como a do casal com problemas conjugais que acabam ganhando bastante destaque. Os tropeços em relação a eles ficam mais por conta do personagem de Warren Brown, que tem uma personalidade mais esquiva, fria, desapegada. Com tanta gente no episódio para dar atenção, faltou tempo para expandir e mostrar uma mudança mais orgânica para ele.

Sem didatismo no final (aleluia!), a temática ambiental funcionou perfeitamente bem e manteve a cara ágil da temporada, embora essa agilidade esteja ligada ao deslocamento de personagens + edição, não necessariamente de entendimento geral do problema na narrativa, que de fato acaba demorando um pouco mais para se mostrar de todo (o que para mim não é um problema, só estou apontando fatos). Eu certamente gostaria mais se este episódio estivesse no começo da temporada, não depois de uma porrada de novidades que tivemos uma semana antes. Por que, Chibnall? Por que?

Doctor Who – 12X06: Praxeus (Reino Unido, 2 de fevereiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Pete McTighe
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Warren Brown, Matthew McNulty, Molly Harris, Joana Borja, Thapelo Maropefela, Gabriela Toloi, Soo Drouet, Tristan de Beer
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X05: Fugitive of the Judoon

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Inicialmente eu pensei em só a escrever a crítica deste episódio em conjunto com o próximo, para falar do arco todo. Depois eu me dei conta de que haveria muito para falar e que dividir a argumentação em dois blocos seria a melhor coisa a se fazer. Adotarei, porém, a minha política de paciência desesperada que vocês puderam ver em Spyfall – Part One. Isso quer dizer que: não farei o julgamento da “grande revelação” agora, porque o que temos é apenas isso: a revelação. E embora eu não acredite que tudo seja entregue no capítulo da próxima semana, sei que o bastante será dado para que a gente entenda quem diabos é a “Doutora” interpretada por Jo Martin. Só digo uma coisa: continua mentindo pra mim, BBChibnall! Continua! Agora vamos aos refrescos.

Eu adoro os Judoons. Criados por RTD lá em Smith and Jones, esses rinocerontes bípedes constantemente agindo como força policial mercenária, trabalhando cegamente segundo os protocolos e punindo de forma exagerada qualquer violação às leis que nem todos conhecem, eles sempre me pareceram o tipo de vilão perfeito para um roteiro sobre autoridade, justiça ou algo mais ou menos na linha de espionagem (olha só a temática de novo!), ação e fuga alçar voo suavemente. E em Fugitive of the Judoon isso de fato acontece.

Escrito por Chris Chibnall e Vinay Patel (mesmo autor de Demons of the Punjab), o episódio serve como a construção de mais uma ponte para algo que deve deslanchar com força agora na segunda metade da temporada, de um lado envolvendo a relação da Doutora com o Mestre, e de outro, o conceito da Criança Atemporal + o mistério sobre Ruth — coisas que imagino que irão se afunilar para o drama da destruição de Gallifrey. Nesse ambiente, temos um aproveitamento verdadeiramente interessante dos rinocerontes mercenários, longe da abordagem cômica que eles tiveram em Sarah Jane Adventures e ligados a um serviço que, para surpresa de ninguém, coloca Gallifrey no centro da busca. A surpresa, na verdade, foi o quê eles buscavam, intermediados pela gallifreyana Gat (Ritu Arya).

A história segue de maneira ágil e interessante, com uma intervenção providencial da Doutora para um caso atípico de caça dos Judoons na Terra, mas que acaba se desenrolando para algo ainda maior. O texto, nesse sentido, é quase cirúrgico. Eu ainda tenho problemas com a dinâmica de companions, mas para mim houve uma melhora de quase cem por cento em relação à 11ª Temporada, o que faz com que certos tropeços em relação a essa família sejam vistos com menos raiva (nota: a conversa final, por mais bela que tenha sido pensada, me pareceu forçada por parte dos companions, o único ponto do episódio que eu olho e falo: “isso foi ruim“). Desse modo, Doutora e gangue estão envolvidos nessa misteriosa busca que leva a Time Lady para um lado e os terráqueos para outro, ligando-os à primeira e estupenda surpresa do episódio: o Capitão Jack Harkness (John Barrowman). Quem diria que seria logo o hateado Chris Chibnall quem atenderia a um pedido antigo dos fãs da série nos últimos 10 anos, não é mesmo? E que prazer em ver esse fenomenal personagem de volta!

Mesmo em uma sequência rápida e editada em alternância, o roteiro sabe tratar muito bem o Capitão, brincando com sua pansexualidade, sua comicidade, um pouco de acidez e diálogos rápidos, verdadeiro deleite para o público e surpreendentemente bem escrito (se eu soubesse que ele iria aparecer de fato, estaria tremendo de nervoso, porque né…). E aí temos Ruth. O que eu tenho para falar dessa mulher é que: eu amei cada segundo dela na tela. Eu amei o figurino dela. Eu amei o amálgama de personalidades dela. Eu amei a interação dela com a Doutora (Jodie está ótima nesse episódio, por sinal). Eu amei o mistério, a impossibilidade, o uso do Chameleon Arch para a restituição de suas memórias e personalidade originais. Eu estou encantado. A única coisa que eu espero é que, o que quer que estejam aprontando nas sombras, que seja bem feito. Porque se for, não me importa o quê. Eu já comprei a premissa — embora ache que estão mentindo para nós.

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UM PEDIDO MUITO IMPORTANTE PARA QUEM FOR COMENTAR

Se você for falar sobre teorias e rumores  no seu comentário, por tudo o que é mais sagrado nesse mundo, coloque-as em uma parágrafo separado do seu comentário geral, com o aviso de “TEORIAS ABAIXO!“. Eu estou fugindo de toda e qualquer teoria aprimorada e rumores diversos a respeito dos episódios, e preciso desse aviso para saber onde parar de ler os comentários que trouxerem essas ideias. Mas encorajo quem quiser escrever sobre, porque tem os que não se importam com isso e gostam de se aprofundar e discutir teorias. Sigam em frente! Só deixem marcado o momento onde você começará a falar sobre o assunto!

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SOBRE A POSSIBILIDADE DE RETCON

Esta é a óbvia primeira impressão que podemos ter do que foi apresentado nesse episódio, certo? Sobre esse assunto, já vou deixar aqui a minha opinião, porque aí não preciso voltar a ele no próximo episódio. Minha ideia sobre retcons é exatamente a mesma que tenho sobre sequências, pré-sequências, spin-offs e afins: paradoxalmente humana. O que isso quer dizer? Simples: em teoria, eu não gosto de nada disso. Eu preferia ter um produto inédito, original, no lugar de cada uma dessas coisas. Mas aí vem o paradoxo humano: mesmo não gostando da possibilidade (normalmente porque tenho um acúmulo de más experiências com isso), eu estou totalmente disposto a abraçá-las se:

  1. A premissa e apresentação para essas coisas forem interessantes e bem vendidas;
  2. A execução do projeto for de qualidade;
  3. A relação direta com o original não o descaracterize, não retire a sua essência.

E no fim você pode dizer: “ah, mas isso é tudo muito pessoal” e sim, é isso aí mesmo. É a minha visão sobre a questão e tenho certeza que você também tem a sua. Coisa de seres humanos, não é? Cabeças e corações diferentes, ideias e sentimentos diferentes. Assim, se de fato a coisa for o que se vendeu para nós aqui, minha ideia inicial é de medo e rejeição. Mas pela minha crítica acima vocês já viram que o ponto 1 da minha lista de três foi cumprido. Se não falharem nos outros dois, cá estará mais um paradoxo de consumo ganhando a luz.

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SOBRE O “EFEITO PRÓXIMO DOUTOR”

Alguns amigos me escreveram aludindo à possibilidade de isto ser igual ao que vimos em The Next Doctor, com David Morrissey vivendo “Um Doutor”. Está claro, porém, que não é a mesma coisa. Ainda no primeiro ato daquele Especial de Natal a gente já tinha sacado que não se tratava DE FATO de um outro Doutor. Aqui, a personagem de Jo Martin é completamente diferente. Ela tem uma TARDIS, ela é uma Time Lady e ela é DE FATO a mesma pessoa (outra encarnação) da 13ª! Isso também não é teoria, pois está literalmente dito no episódio! Desse modo, não estamos diante de um “Efeito Próximo Doutor”. O que quer que seja, é outra coisa. E a única alusão próxima disso que já tivemos na série, que eu consigo me lembrar, foi aquela cena ou interpretação (polêmica? Para mim, não) de batalha mental do 4º Doutor contra Morbius em The Brain of Morbius. Ai ai ai…

Doctor Who – 12X05: Fugitive of the Judoon (Reino Unido, 26 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor, Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Vinay Patel
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Jo Martin, John Barrowman, Neil Stuke, Ritu Arya, Paul Kasey, Richard Price, Nicholas Briggs, Michael Begley, Katie Luckins, Judith Street
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

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Depois de Orphan 55, creio que a maioria de nós estava com os dois pés atrás em relação ao que poderia aparecer na série e ora… vejam só que coisa interessante veio a seguir! Um episódio histórico (e daí já é possível ficar nervoso só com a ideia, porque não é fácil fazer arcos históricos funcionarem bem) que coloca na tela um dos grandes gênios da História: Nikola Tesla. Segundo a própria sinopse da BBC, o episódio se passa em 1903, e embora a Doutora diga “1900” para a vilã, eu entendi como se ela estivesse se referindo à década (os anos 1900) e não a este ano em específico. A rigor, porém, isso não importa muito.

Um dos impasses que eu pessoalmente tenho quando vejo representações de duas personas históricas “rivais” na ficção (Mozart X Salieri é um dos casos mais famosos) é o fato de os roteiristas — no presente caso, Nina Metivier — caírem na armadilha dramática de gerar conflito não diante da simplicidade factual entre os indivíduos, mas diante de declarada criação de guerra e ódio por um, em oposição ao louvor do outro. Evidente que eu sei que se trata de uma ficção e não de um documentário, e também sei que Thomas Edison era relativamente parecido com o que o texto mostra aqui. Mas ele não era nada estúpido, e muitas vezes isso é praticamente esfregado na nossa cara durante o episódio. Sim, Tesla era um homem muitíssimo mais sagaz, inteligente, melhor cientista/inventor e até melhor pessoa que Edison, mas ainda assim retratar Edison do jeito que majoritariamente retrataram nesse episódio me pareceu um exagero bobo, que poderia ser evitado.

Essa posição mais pessoal, no entanto, não me impediu de aproveitar a história. Em primeiro lugar, é maravilhoso ver uma interação tão orgânica entre personalidade histórica e Doutora, o que valida de imediato a trama. Sendo Tesla e Edison inventores, homens da ciência, a presença de ambos com o tipo de ameaça que temos aqui parece algo esperado, compreensível que tenha acontecido, ainda mais quando falamos desse tipo de vilã, a Rainha dos Skithra (Anjli Mohindra, a Rani de Sarah Jane Adventures), povo aparentemente primo dos Racnoss, que nesse caso está recolhendo sucata e artefatos de diversas raças pelo Universo. Usando uma nave venusiana, armas silurianas, unidade de dobra klendoviana, ressonador dulliriano e um orbe de Thassor (alterado e enviado especialmente para encontrar Tesla), a Rainha dos Skithra se mostra uma sobrevivente a todo custo e sua presença na Terra é ao mesmo tempo um genial e acidental evento.

Alguns espectadores devem ter se perguntado se a brincadeira com Tesla receber sinais de Marte tinha algum fundo de verdade ou era apenas um elo de ligação com a parte puramente sci-fi do episódio. Pois bem, a resposta é sim, o verdadeiro Tesla de fato tentava se comunicar com Marte e deixou escapar isso em 1899 para um pequeno grupo de espectadores de suas invenções, o que gerou as risadas e zombarias que o presente texto retrata muito bem. Num primeiro momento eu não queria aceitar a presença desses vilões na Terra, mas a ligação dos pontos é realmente muito bem feita: o Tesla de Doctor Who recebe uma mensagem de rádio vinda de Marte e a responde. Daí acha que não vai dar em nada, mas na verdade atrai os Skithra para a Terra, que a mando da Rainha começam a procurar pelo homem que respondeu o sinal. É um plot simples, mas bem fechadinho, assim como o plano geral da Doutora e de Tesla para vencer o inimigo da vez. Em aventuras desse porte, normalmente o ponto final força demais barra, mas aqui a iniciativa funciona. Não é perfeita (especialmente pela presença da Rainha no laboratório), mas funciona.

A atuação de Goran Visnjic como Nikola Tesla é incrível. Gosto da delicadeza que ele imprime ao personagem em diversos momentos, o jeito que ele tem de conter a raiva e principalmente a representação de seu pensamento científico e visão de mundo. Aquele diálogo que ele tem com a Doutra sobre inventar coisas, sobre ser diferente, sobre pensar coisas que os outros não entendem é tocante e ao mesmo tempo muitíssimo condizente com mentalidades científicas à frente de seu tempo. Um dos momentos mais legais do episódio, onde a Doutora, mais uma vez, tem seu espaço para brilhar e os companions, mesmo não tendo tanta coisa para fazer, pelo menos são colocados em um bom ritmo de afazeres fora da tela, de modo que não parece que eles foram apenas esquecidos no churrasco.

Dos setores técnico, a melhor coisa desse episódio é definitivamente a trilha sonora. Tanto o acompanhamento simples como os temas específicos compostos para personagens são belíssimos, e meu maior destaque vai para aquele puro e sensacional ataque da orquestra que a gente ouve quando a câmera vai aumentando o alcance da lente e mostra a nave como um todo, revelando o perigo que Yas e Tesla estão correndo. A música nesse momento dá medo e engrandece imensamente a cena, me lembrando a mesma dinâmica que ouvimos em Demons of the Punjab, só que dessa vez mais intensa, mais sombria e com muito mais destaque na edição de som.

O pêndulo da qualidade da série agora parece que está novamente no campo das coisas interessantes. Que as ondas da corrente alternada nos tragam episódios nesta mesma seara até o fim da temporada. #amem

Doctor Who – 12X034: Nikola Tesla’s Night of Terror (Reino Unido, 19 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor
Roteiro: Nina Metivier
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Robert Glenister, Goran Visnjic, Anjli Mohindra, Haley McGee, Paul Kasey, Robin Guiver, Erick Hayden, Russell Bentley, Brian Caspe, Shaun Mason
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X03: Orphan 55

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Escrito pelo mesmo autor de O Sapo Não Lava o Pé It Takes You AwayOrphan 55 é um episódio complicado e que já descobri que está sendo odiado pelos motivos mais estapafúrdios possíveis, alimentando aquela ideia de que quando a gente está disposto a odiar algo, a própria existência desse “algo” já é o bastante (eu tenho a minha lista curta de coisas assim, sei bem do que estou falando). Embora a jornada de Chris Chibnall à frente da série dê munição para esse tipo de pensamento, um pouco mais de sensatez e pé no chão poderia ajustar as reclamações para aquilo que o episódio realmente tem de problemático. E dentre essas coisas não estão os humanos mutantes e nem um trágico futuro possível do nosso planeta.

Ed Hime começa seu rap com um toque cômico e ainda assim solene, pelo humor afetado da Time Lady após a ‘revelação’ do Mestre em Spyfall – Part Two. A equipe está faxinando a TARDIS após a nojeira causada por uma espécie em época de acasalamento para quem eles, pelo visto, deram carona. Os diálogos são rápidos, Graham aparece todo pimpão com os cards promocionais que acumulou da máquina de café da nave e então a Doutora e seus companheiros são teletransportados para o Tranquility Spa, no planeta Orphan 55. A apresentação do problema/divertimento é bem feita, a direção de Lee Haven Jones é inacreditavelmente caprichada (algo que me faria sentir imensa raiva dele na segunda metade do episódio, simplesmente por passar de uma ótima direção para o piloto automático) e a interação do time da TARDIS com esse lugar de férias que logo se torna um problema também merece grande destaque (pedaços de The Leisure Hive e The Mysterious Planet me vieram à mente).

E aí chegamos a uma das estranhas reclamações: como isso se encaixa na linha do tempo da série? A resposta é: se encaixando! A Doutora deixa bem claro que o que se vê aqui é um futuro possível da Terra, com humanos mutantes. E convenhamos, reclamar disso em Doctor Who é estupidez pura e simples, porque já vimos humanos mutantes num futuro possível da Terra poluída em The Curse of Fenric; já vimos uma versão paralela da Terra ser devastada na obra-prima Inferno, e até na Nova Série já vimos uma versão modificada da Terra e dos humanos em Utopia, ou seja, hatear a mutação do Homo Sapiens e a mudança do planeta ainda tendo a indicação de que este é apenas um dos futuros possíveis me parece choro de bebezão que quer colocar problema onde não existe problema.

O mesmo se dá com a temática do episódio, que ao mesmo tempo segue a base de muitas histórias isoladas da série (com premissa + início ótimos) e traz em seu bojo uma mensagem de alerta para impactos negativos da humanidade sobre o meio ambiente, assunto que nós vemos aparecer sob os mais diversos patamares no show, desde The Moonbase, na Era do 2º Doutor, passando por The Green Death (3º Doutor) até citações leves ou trabalhos diretos com essa temática de desequilíbrio da flora/fauna do planeta que aparecem na Nova Série em diversos momentos, como em Planet of the OodThe Waters of Mars, The Hungry Earth/Cold BloodIn the Forest of the Night e já na fase atual do programa, em Arachnids in the UK. A mensagem em relação ao meio ambiente, portanto, nunca foi ausente na série e nunca foi um problema para a série. O que ocorre — e este é o meu maior impasse com o presente episódio — é a questionável abordagem do tema. E não por ser ESTE tema. Qualquer assunto importante que é mal entregue, mal abordado ou jogado ao didatismo acaba sendo um problema. Aqui, não estamos lamentando o conteúdo, mas a forma.

O trabalho que o roteiro faz brincando com a temática de base sob ataque num planeta que ainda não sabemos, mas é o nosso (referenciado muito mais De Volta ao Planeta dos Macacos do que o glorioso clássico dirigido por Franklin J. Schaffner) é inicialmente feito de modo aplaudível. A forma como Haven Jones filma o ataque do Dreg é absolutamente assustador, com cortes rápidos e se valendo de uma bela fotografia, variando cores de cena para cena, mas com a menor incidência possível de luz sobre o monstro, um tipo de mistério que o deixa ainda mais assustador, perdendo-se depois quando vemos os corpos pálidos, ridículos e um pouco menos assustadores em seu próprio habitat. À medida que o texto amplia o seu alcance e insere novos personagens, aí as coisas começam a cair de qualidade. O mecânico e o filho de cabelos verdes, por exemplo. Eu trocaria ambos por um tratamento inteligente do roteiro colocando a Doutora descobrindo como sair daquela situação. E o que dizer do irritante e inútil casal de velhinhos? É o tipo de camada de um roteiro que a gente olha e tenta entender o que deu na cabeça do escritor para colocar isso no episódio. O tempo gasto com essa bobagem poderia facilmente ser utilizado para desenvolver uma relação dupla realmente interessante e que merecia mais tempo de dela: Bella (Gia Lodge-O’Meally) & Ryan e depois Bella & Kane (Laura Fraser).

Após a ágil e realmente boa luta contra os Dregs e o teletransporte da equipe para a TARDIS, chegamos ao maior impasse do episódio para mim, aquele discurso final da Doutora. A atuação de Jodie Whittaker é muito boa, a mensagem é absolutamente necessária e interessante, mas minha gente, o que foi aquilo pelo amor de Deus? O diálogo da Doutora com a gang de repente se torna uma pregação que claramente se dirige ao público, num longo fôlego em torno de um tema que o próprio roteiro já tinha deixado extremamente claro. Eu não consigo entender o por que o autor achou necessário bater na mesma tecla, agora de maneira mais formal e com ar de pregação para o espectador. A pior e mais vergonhosa forma de se entregar uma mensagem, especialmente quando é uma repetição. O discurso até o futuro possível da Terra poderia pegar qualquer outro ramo possível envolvendo o grupo, com algum tipo de demonstração prática, mas o final mastigado desse episódio foi um bom banho de água fria em todo o restante. Uma pena. Porque o cerne do capítulo me divertiu bastante.

Doctor Who – 12X03: Orphan 55 (Reino Unido, 12 de janeiro de 2020)
Direção: Lee Haven Jones
Roteiro: Ed Hime
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Laura Fraser, Gia Lodge-O’Meally, James Buckley, Julia Foster, Amy Booth-Steel, Will Austin, Colin Farrell, Lewin Lloyd, Spencer Wilding
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X02: Spyfall – Part Two

Spyfall - Part Two (2020) plano critico doctor who episódios

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Eu ainda não me decidi em relação à timeline do Mestre de Sacha Dhawan. Como isso ainda não foi de fato dito nesta temporada, a possibilidade de ele estar em qualquer momento da longa caminhada de regenerações do Mestre é grande, mas tudo indica que trata-se mesmo de uma versão pós-Missy. Eu vi citarem o conto Girl Power!, da antologia As Crônicas de Missy como sendo uma “resposta definitiva” para isso, mas é bem assim não. Na verdade o conto se passa naquele período em que a Time Lady ficou no cofre guardado pelo Doutor e Nardole, e há uma única parte em que ela fala sobre a sua vida. A indicação aqui é matemática: tudo  o que ela diz (na verdade escreve) nessa citação é uma de suas encarnações, e o que temos é isso:

Born, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Took over some bloke’s body, Died, Died, Died, Became a human, Stopped being a human, Died, Died, Became a woman, Ruled!

Viram o finalzinho? Depois de se tornar uma mulher? Pois bem, considerando simplesmente contexto dessa frase (e eu posso dizer que não há mais nada além disso, pois li o conto poucos minutos antes de escrever esta crítica) não faz sentido considerar o “ruled” apenas como um verbo que indica orgulho da personagem por ter se tornado uma mulher. Ela está falando da história de vida dela, então essa é a situação: uma encarnação depois. Agora… trata-se de uma resposta definitiva? Certamente que não. Porque o Mestre de Dhawan continua não sendo necessariamente o desta última citação (e o curioso é que Missy já sabia que haveria uma outra)… E ainda tem o fato de que na primeira parte de Spyfall o Mestre diz claramente que roubou o corpo de O no primeiro dia de trabalho do pobre homem, então mesmo se Missy se regenerou, ainda não há uma real certeza de que esta versão que agora conhecemos é a primeira regeneração após o que vimos em The Doctor Falls. É por isso que eu ainda não me decidi em relação à timeline do Mestre de Sacha Dhawan.

Mas eu certamente me decidi em relação ao ator vivendo o personagem. Pelos motivos apontados acima eu não vou teorizar sobre a origem do comportamento dele e nem vou entrar no mérito de que ele “desfaz o arco de redenção de Missy“, porque aqui todos nós assistimos Doctor Who e certamente entendemos como funciona a regeneração, certo? Ótimo, então vamos adiante. Eu não pude deixar de me deliciar com o que vi do personagem até aqui. Extremamente perigoso (no sentido real mesmo, daquele tipo de querer jogar sério, para ganhar), com um imenso incremento de sua persona psicopata, que tem real prazer em matar, esse Mestre vem para contrastar imensamente com a personalidade dessa Doutora, que é uma espécie de diplomata aparentemente ingênua, reservada e que sabe quando colocar as garras de fora (mas não por muito tempo). O personagem parece que veio mudar a Doutora, marcar o surgimento de uma outra camada de sua evolução como personagem através do puro horror, da pura maldade.

Cheio de maneirismos e forte afetação, o Mestre de Dhawan é um maníaco com ares infantis e pelo que vimos até o momento, uma das mais infames versões do personagem, cuja ação não está em jogos e subterfúgios no meio do caminho. Ele é um Mestre de prazeres rápidos. A paciência, ele já deixou claro, só existe quando seu propósito é a vingança, deixando claro que foi um longo processo até que descobrisse “a verdade” sobre a origem dos Time Lords e os anos em que passou até reencontrar a 13ª Doutora e continuar com o seu plano de invasão. Um Mestre Espião. Que baita personagem!

Neste Spyfall – Part Two, temos uma expansão interessantíssima para o Mestre, sua reação a momentos de crise, interrupção de planos e, claro, a revelação do que estava por trás da invasão espiã ao planeta Terra. Diferente do que se havia teorizado, a raça em cena aqui é a Kasaavin, por enquanto apenas um vilão que começou de forma interessante (conseguiu ultrapassar as paredes da TARDIS!), disse que vinha de além do Universo e que queria conquistar este Universo, o que dá uma boa noção de dimensão do poder dessa espécie. Todavia, eles se encerram aqui de forma secundária, até porque o grande vilão do arco é o Mestre, sendo os Kasaavin apenas uma ponte, uma desculpa que levaria a Doutora ao seu amigo-inimigo mais antigo. E talvez justamente por conta desse escanteamento é que o plano maligno, a real costura para as ações do Mestre aqui, se torna confuso.

Eu consigo ver claramente o motivo da escolha de Chris Chibnall para este tipo de premissa, afinal, reapresentar um personagem desse porte à série clama por algo épico, viagens no tempo, diversos eventos em movimento. Mas infelizmente isso não significa que o resultado final será livre de pequenas estranhezas, como de fato não o é. Os muitos nós no plano geral meio que desviam a nossa atenção e faz com que a gente se volte para o que realmente importa, ou seja, para o Mestre. E sim, esta é a pura verdade — o Mestre é o mais importante — mas um artifício como o que temos aqui poderia ser conseguido de maneira mais simples e o foco “naquilo que importa” permaneceria o mesmo. De todo modo, tudo valeu pela presença de Ada Lovelace no episódio, além daquela maravilhosa sequência em Paris, com referência a Logopolis e tudo.

Apesar de ser muito corrida, a resolução para o caso do avião caindo foi satisfatória, com uma ação direta da Doutora pra salvar seus companheiros, além de uma interessante ação feita por eles, o que é sempre bom de se ver: os companions trabalhando diretamente em um caso. Essa ação dos espiões amadores se segue ainda na fuga do trio das mãos de Daniel Barton (Lenny Henry está mesmo maravilhoso no papel, realizando aqui, segundo ele, um sonho que era o de trabalhar em Doctor Who), completamente cego pela busca de poder e com um discurso extremamente verdadeiro e incômodo sobre a tecnologia, o uso de dados pessoais por empresas, como isso é absolutamente ruim para todos nós e como a maioria de nós simplesmente não liga, porque clicar “eu concordo” já faz parte do nosso dia a dia.

O roteiro nos deu a cereja do bolo trazendo um tema da 11ª Temporada (The Timeless Child), a tal “verdade” que os Time Lords sempre esconderam, algo que envolve a sua própria origem como espécie. A citação à esta Criança Atemporal apareceu pela primeira vez em The Ghost Monument e é algo que terminou por tirar todos os parafusos restantes do novo Mestre, que ao descobrir do que se trata, destruiu Gallifrey. Talvez eu esteja melodramático demais, mas confesso que queria um final de episódio apenas com a Doutora demostrando algo a mais, falando, remoendo o que ela tinha acabado de ver. Não digo que foi um final ruim, pelo contrário, foi condizente com a personagem e tudo, mas isso é algo grande demais. Depois de tudo o que fez para salvar Gallifrey, lá está a Citadela e seus arredores… em chamas.

Agora fica a curiosidade sobre o papel dos Pais Fundadores de Gallifrey em tudo isso. Existe algum debate sobre quem eram ou quantos eram, mas a maioria das fontes apontam para um triunvirato, formado por Rassilon, Omega e The Other, este último, alguém sobre o qual temos pouquíssima informação, mesmo no Universo expandido da série. Coisas muito boas podem aparecer por aqui. Desde a 10ª Temporada eu não me sinto tão empolgado com a série como estou agora.

Com uma direção ágil e um roteiro que, a despeito de pequenos tropeços, consegue manter um alto nível; com ótimas referências à Série Clássica (eu adorei o contato telepático da Doutora com o Mestre, como víramos há muito tempo em The Three Doctors e The Five Doctors, por exemplo), bela e muitíssimo bem utilizada trilha sonora, boas interpretações e, acima de tudo, um verdadeiro (e chocante) plot para a temporada, o duo Spyfall veio com tudo para mostrar que Chris Chibnall pode se redimir em Doctor Who. O que precisamos agora é de que isso permaneça nos capítulos seguintes.

Doctor Who – 12X02: Spyfall – Part Two (Reino Unido, 5 de janeiro de 2020)
Direção: Lee Haven Jones
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Lenny Henry, Tom Ashley, Sylvie Briggs, Mark Dexter, Sacha Dhawan, Ravin J. Ganatra, Shobna Gulati, Kenneth Jay, Aurora Marion, Bhavnisha Parmar, Andrew Pipe
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X01: Spyfall – Part One

doctor who plano crítico Spyfall - Part One

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Depois de uma 11ª Temporada que dividiu o público da série e afastou muita gente (particularmente achei uma temporada muito boa, mas ainda assim cheia de tropeços e estranhezas por parte do novo showrunner), havia um mescla de medo e expectativa pelo que Chris Chibnall poderia nos trazer nesta nova temporada. Claro que entre a saga anterior e esta tivemos o Especial de Ano Novo de 2019, Resolution, que parece ter unido um pouco mais os whovians, mas ainda assim, nada que ajustasse a maioria de opiniões positivas sobre os rumos do show. De lá para cá eu acompanhei muito por cima algumas coisas em relação à série, vi algumas fotos de bastidores, mas só. Então 2020 chegou e trouxe também a nova temporada, com um episódio que vai dar o que falar.

Um elemento muito positivo aqui é o fato de estarmos diante de um duplo, o que dá a oportunidade de o roteiro trabalhar em algo um pouco mais aprimorado e, dependendo do rumo do episódio, segurar a atenção do público para o que vem adiante, algo de fato conseguido com sensacional cliffhanger que temos aqui. Depois, há o tema e a maneira como o roteirista o explorou. Histórias de espionagem possuem um ritmo próprio e todas são centradas em algo conhecido da maioria das pessoas (a intensidade na ação e as surpresas nas revelações), mas cada uma procura adequar os clichês do gênero ao tipo de espião que está envolvido. Notem que isso não é assim tão comum em outros tipos de narrativa, como o suspense, por exemplo, havendo uma integração muito maior entre os detetives dos mais distintos projetos possíveis (especialmente no audiovisual). Já na espionagem, o caminho é diferente.

Ao trazer isso para Doctor Who, Chibnall tinha, digamos, um caminho específico para seguir. Nós já tivemos todo um direcionamento do show para este gênero durante a Série Clássica, na encarnação do 3º Doutor (inclusive o Tissue Compression Eliminator que aparece aqui surgiu nesse período, no arco Terror of the Autons), onde a UNIT exercia um papel primordial nas aventuras, dando um ar meio James Bond–sci-fi ao programa. Uma herdeira distante dessa abordagem foi Torchwood (que assim como a UNIT também é citada por C, personagem de Stephen Fry) e nesse espírito de referências e abordagens com um grande peso dentro da própria série é que o showrunner resolveu escrever um texto no melhor estilo “espião por acaso” + “espião espia espião“, que é um tipo de narrativa que começa de forma cômica, com surpresas para os protagonistas — colocados no meio da espionagem por motivos alheios a eles — mas pouco a pouco começa a trazer as já esperadas relações com os clássicos do gênero e a assumir um ar sério. Como é comum nesse tipo de abordagem, a ação está em foco desde o começo, mas a motivação ou maiores explicações demoram mais que o normal para virem à tona.

Em Spyfall – Part One, Chris Chibnall realiza um ótimo trabalho de construção geral do drama (o mistério dos vilões, as equipes de investigação — uma bem preparada outra amadora), com a intriga pouco a pouco se tornando um espetáculo desafiador e realmente perigoso, diante do qual a Doutora está espantosamente sem saber para onde ir, porque é algo novo para ela… tudo isso tem peso e é bem introduzido no episódio, que é embalado por uma ótima trilha sonora. Em suma, um bom esqueleto dramático (embora eu reconheça que esse tipo de estrutura do gênero não agrada a todo mundo). Mas ainda vamos encontrar aqui diálogos bem incômodos vindos dos companions, muitos deles fortemente expositivos, o que irrita bastante. Para mim, contudo, esses maus momentos foram facilmente suplantados por aquilo que o episódio trouxe de bom. Consegui embarquei na ideia desde a muitíssimo bem dirigida cena do carro assassino e daí para frente foi surpresa atrás de surpresa.

Jodie Whittaker está bem mais solta, mais natural, mais ativa nesse episódio, tendo bons momentos para brilhar (mas merecia mais!). E foi bom ver Ryan e Yas com verdadeiros e inteligentes diálogos na maior parte do tempo. Já Grant fica na retaguarda (estão vendo? Manter três companions é complicado!), recebendo até um cartão amarelo do próprio O, que aponta o papel de repetição/reafirmação de Grant para as coisas que a Doutora ou outro personagem diz. É um momento engraçado, mostrando que Chibnall realmente sabe o tipo de problema que tem em mãos, mas ainda assim não consegue apagar o pouco de incômodo que esse escanteio nos causa. E aí temos o homem do momento, Sacha Dhawan (que fez o papel do diretor Waris Hussein em An Adventure in Space and Time), a nova encarnação do Mestre. Eu vou deixar para explorar muito mais essa nova versão do personagem no episódio que encerra esse arco, por motivos de coerência mesmo. Mas uma coisa preciso dizer: meu queixo caiu quando ele disse quem era. Foi uma absoluta surpresa para mim. Amei o que vi até aqui, mas me reservarei de maiores comentários oficiais agora para fazê-los de maneira mais ampla e melhor amparada na próxima semana.

Spyfall – Part One foi um baita começo de temporada, uma fantástica surpresa para os fãs — tomara que implique em coisas bem legais daqui para frente — e possivelmente uma indicação de mudança no trabalho do showrunner neste ano. Vamos esperar para ver.

Doctor Who – 12X01: Spyfall – Part One (Reino Unido, 1º de janeiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Stephen Fry, Lenny Henry, Andrew Bone, Sacharissa Claxton, Melissa De Vries, William Ely, Ravin J. Ganatra, Shobna Gulati, Asif Khan, Brian Law, Dominique Maher
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who: Time Crash e Voyage of The Damned

plano critico doctor who Voyage of The Damned (1)

Sempre se pensa em festas de fim de ano quando se fala de um especial de Doctor Who, mas nos esquecemos que o show sempre participa do Children in Need, uma campanha beneficente da BBC que culmina em uma programação especial. A maior parte das participações da série na campanha limita-se a esquetes ou interações dos astros (ou personagens) com o público. Mas alguns desses mini episódios ganharam relevância, vide a primeira cena completa do 10º Doutor, ou o mini episódio Time Crashprimeiro multi-Doctor da Nova Série. Escrito por Steven Moffat, o especial situa-se após The Last of the Time Lords, com a TARDIS do 10º se chocando com a do 5º Doutor. Transportado para a nave de sua versão futura, o 5º tenta desesperadamente resolver a crise, pois a presença das duas naves no mesmo espaço abrira um buraco no tempo. O 10º Doutor, no entanto, está menos preocupado por estar empolgado demais em rever o seu antigo Eu.

Time Crash é quase uma esquete que, girando em torno das farpas entre os Doutores, tece um afetuoso meta-comentário sobre a série. Os diálogos rápidos apontam as mudanças sofridas pelo show em suas duas versões, como a aura mais Cool e Pop que a Nova Série adotou ou os aspectos mais bregas da Série Clássica. Apesar da zoeira, há muita reverência ao passado e à sua influência no presente. Mas o grande trunfo do Especial está na química de Peter Davison e David Tennant. Davison reassume o papel do Quinto Doutor como se nunca o houvesse deixado, ao mesmo tempo em que claramente se diverte ao tirar sarro de si mesmo, sem nunca tornar-se autoparódico. Há quem reclame que o personagem surge aqui muito mais rabugento do que em sua era, mas dentro da proposta ligeira do especial, me parece dentro do personagem, principalmente quando lembramos como Davison vivia o Time Lord como um homem velho dentro de um corpo jovem (aqui já não tão jovem, o que é justificado no roteiro pelo caos temporal). Já Tennant entrega um Décimo Doutor mais eufórico do que de costume, de modo a não podermos culpar o 5º Doutor quando este o confunde com um fã. David Tennant é um grande fã de Doctor Who, que começou a ver a série com as histórias do Doutor de Davison; portanto o ator coloca muito de si na atuação deste mini episódio e nós sentimos grande cumplicidade com ele. O seu discurso de despedida ao 5º Doutor parece não ser apenas as palavras do 10º Doutor, mas do próprio Tennant.

Em sete minutos, Time Crash é uma história reverente ao passado da série, mas que também consegue ser espirituosa com esse passado. O roteiro de Moffat é simples e até pueril, mas dentro do formato e da proposta apresentadas, não poderia ser diferente. A química de cena dos dois atores é ótima, com os segundos finais sendo realmente pungentes, levando diretamente ao Especial de Natal. Nada mal para um mini episódio produzido para uma campanha beneficente.

Já o Especial natalino de 2007, antecipado pela Season Finale anterior e por Time Crash, começa com o Titanic se chocando contra a TARDIS. Mas este Titanic não é o famoso navio e sim uma nave espacial que replica o original. O Doutor decide passar a noite de Natal a bordo da nave, que promove uma festa para turistas do planeta Sto; mas como a sua versão terráquea, a nave se vê condenada após ser atingida por meteoros. Enquanto tenta salvar os sobreviventes e impedir que a nave caia em Londres, o Time Lord percebe que a colisão contra os meteoros não foi acidental e que alguém quer garantir a colisão do Titanic contra a Terra + a eliminação dos passageiros. Escrito por Russell T. Davies, Voyage of The Damned configura-se como um ‘filme catástrofe’, fazendo várias referências a clássicos do subgênero, O Destino de Poseidon (1972) em especial, compartilhando come esta obra o fato do desastre se passar durante uma festa de fim de ano.

Mas antes da parte “catástrofe” da trama, o roteiro mais uma vez lança um olhar cínico para o Natal, seja pelos hilários comentários do “historiador especialista” do Titanic, ou pelos recorrentes símbolos natalinos convertidos em maquinas assassinas; desta vez, um grupo de anjos de presépio robóticos com auréolas laminadas. É interessante perceber também como o showrunner volta a brincar com a ideia de um mundo que começa a aceitar a existência de visitas alienígenas, vide a cena onde um grupo de turistas do Titanic desce à Terra só para encontrar uma Londres praticamente deserta, já que devido aos eventos dos Especiais anteriores, o Natal passou a ser uma data temida na cidade. Além de apresentar Wilfred Mott, que surge de forma discreta neste Especial, mas que teria grande importância no futuro da série, a cena também fortifica os laços entre o Time Lord e Astrid, uma garçonete com quem ele faz amizade a bordo do Titanic e que demonstra um gosto por aventura que a tornam candidata a Companion, o que na maioria dos casos significa que ou ela vai terminar a história viajando na TARDIS, ou recebendo um elogio póstumo.

Após esse terço inicial mais leve, o Especial abraça de vez o aspecto de filme catástrofe, manipulando com competência os arquétipos e clichês do subgênero, de modo que sirvam não só ao universo Sci Fi da série, mas à jornada dramática que o showrunner planejou para o 10º Doutor no restante de sua Era. O roteiro de Davies merece crédito aqui por conseguir nos fazer ter empatia (ou antipatia) por cada um dos sobreviventes liderados pelo protagonista, o que é vital para o sucesso deste tipo de história. A narrativa também volta a explorar o quanto o Doutor pode ser falível, e que apesar de todas as suas habilidades e recursos, ele não é (ou não deve ser) uma figura divina — e que apesar dos seus esforços para que todos sobrevivam, não cabe a ele decidir quem merece ser salvo ou não. Esse flerte do Doutor com o divino volta a ser representado através de uma imagem que referencia figuras bíblicas, como já havia sido feito em The Last of The Time Lords, e como voltaria a ser feito mais algumas vezes em episódios posteriores.

James Strong, diretor já veterano da série a essa altura, concede grande elegância ao Especial, ao mesmo tempo em que cria uma atmosfera de tensão crescente, nunca quebrada pelos muito bem empregados momentos de alívio cômico. A montagem merece grande destaque pelo ótimo crescendo de suspense, com destaque para a sequência em que o Titanic é atingido, enquanto a direção de arte concede um bonito aspecto vintage ao episódio. Mas apesar dos acertos, falta na direção de Strong um momento dramático mais forte, tão essencial ao subgênero com que ele está trabalhando, algo que o diretor já se mostrou capaz de fazer no passado e que aqui consegue apenas arranhar. Não que seja mal executado, longe disso, mas senti que certas cenas tinham um potencial maior que acabaram não se concretizando.

Voyage of The Damned é um episódio cheio de adrenalina e tensão e uma homenagem divertida a clássicos do cinema catástrofe como o citado O Destino de Poseidon e também Inferno Na Torre (1974). Os valores de produção são sólidos, a direção de Mark Strong é competente e o roteiro de Davies transita bem entre a tensão e momentos mais descontraídos, além de trazer bons conflitos para o Doutor e uma peça importante em seu desenvolvimento. Ainda assim, este Especial de Natal é o tipo de episódio que se encerra nos deixando com a impressão de que embora seja bom, poderia ter sido bem melhor.

Doctor Who: Time Crash (Reino Unido, 16 de Novembro de 2007)
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: David Tennant, Peter Davison
Duração: 07 Minutos

Doctor Who: Voyage of The Damned (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2007)
Direção: Mark Strong
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Kylie Minogue, Geoffrey Palmer, Russell Tovey, George Costigan, Gray O’Brien, Andrew Havill, Bruce Lawrence, Debbie Chazen, Clive Rowe, Clive Swift, Jimmy Vee, Bernard Cribbins, Paul Kasey
Duração: 71 Minutos

Crítica | Doctor Who: The Next Doctor

Vindo diretamente na sequência do cataclísmico Journey’s End, nosso Especial de Natal de 2008 representa a primeira instância onde a situação periclitante da vez não é preunciada pela “cena pós-créditos” do season finale que o antecede. Nada de Donna Noble vestida de noiva ou do Titanic invadindo a TARDIS — temos aqui uma aventura tecnicamente “avulsa”. Porém, se pensarmos um pouco melhor, veremos que essa impressão não se confirma muito bem.

Embora não tenhamos um vínculo cronológico direto, a verdade é que um forte elemento temático liga diretamente The Next Doctor com os eventos do episódio anterior. Contra o pano de fundo da mega reunião que marcou o clímax da temporada recém-encerrada, o Doutor se vê contemplando melancolicamente o papel de seus companions em sua jornada pelo tempo e espaço, ao mesmo tempo em que é levado a considerar a finitude de sua atual encarnação, tema que será central para o conjunto de Especiais que segue e que marca o fim das eras de Russel T. Davies como showrunner e de David Tennant como o 10º Doutor.

Iniciamos com um solitário Doutor desembarcando na Londres vitoriana, prestes a descobrir que chegou na véspera de Natal de um ano especialmente tranquilo. Ótimo, já que um bom feriado de final de ano não pede necessariamente ataques de símbolos natalinos letais ou chuva de cinzas Sycorax, certo? No entanto, algo sinistro se prepara pelos cantos misteriosos da cidade, pronto a emergir bem no dia festivo. Por sorte, alguém já está na cola do problema… o Doutor (David Morrisey), acompanhado de sua fiel companion, Rosita (Velile Tshabalala)!

Esse encontro entre o Doutor e uma possível (ainda que improvável) encarnação futura é mais uma daquelas premissas únicas que advém do conceito de regeneração, explorado de forma brilhante no que, com o benefício do ponto de vista atual, se mantem como o melhor momento possível para acontecer em termos de Série Nova. Embora a ideia obviamente pudesse funcionar com outras encarnações do Time Lord, o fato é que o egóico e vaidoso 10º Doutor é a figura perfeita tanto para encarar seu potencial sucessor (e justamente entregue a um momento de deprê total, diga-se de passagem) quanto para sustentar o tipo de auto-homenagem que o enredo presta ao personagem aqui, ressaltando seu sentido mais profundo de maneira crível e envolvente.

David Morrissey não desperdiça o momento, entregando uma atuação fantástica que diverte, comove e empolga. Sua química com Tennant é fortíssima do início ao fim, o que garante contornos ainda mais interessantes aos diálogos muito bem escritos de Davies. Como sempre, Tennant encarna os momentos mais dramalhescos e os vende com uma facilidade que autoriza o showrunner a explorar esse lado sem preocupar-se com o exagero. A emotividade tradicional desse Doutor serve muito bem tanto aos momentos cômicos quanto aos mais sóbrios (com a exceção de um momento em particular, do qual falaremos logo mais), e as reações do misterioso Doutor do futuro, muitas delas totalmente silenciosas, complementam o conjunto perfeitamente. Algumas das “piadas internas” são tão geniais quanto descaradas, incluindo aí a exploração comédica do Chameleon Arc visto em Human Nature Utopia. Um exemplo de fanservice finíssimo!

Antes de falarmos da ameaça dos Cybermen vitorianos como um todo, cabe uma pausa para tratar de um assunto de suma importância. Todas as vezes em que eu assisto esse episódio (que, por algum motivo, é um dos que acabei mais repetindo até hoje) eu me pego com a mesma dúvida: “Que diabos eram esses bichões-Cybermen mesmo? Será que eles explicam isso e eu esqueci?”. O motivo para isso é que eles meio que explicam, mas meio que não faz o menor sentido mesmo! Chamados oficialmente de Cybershades, essas criaturas hilárias estão presentes no primeiro encontro entre o Doutor e o “Próximo Doutor” — a melhor descrição que eu teria para seu visual seria uma cyber-conversão parcial do gorilão tosco que assombrava aquele jogo do programa do Sérgio Mallandro em que as crianças podiam escolher uma cabine para ganhar uma bicicleta, ou serem atacadas pela figura fantasiada e sair correndo chorando e em desespero. Alguém mais lembra disso?

Enfim, os Shades são o primeiro de dois elementos totalmente absurdos que são adicionados à mitologia Cyber ao longo dessa trama, e a explicação oficial é tão satisfatória quanto suas fantasias são convincentes: é dito que eles possuem “cérebros de cães e gatos” (e os corpos são de que, meu Menino Jesus?), e que são uma opção de batedores para a operação dos Cybermen que “evitam chamar muito a atenção”. Sério mesmo? Os caras conseguem ser ainda menos discretos do que aquele Cybermat-Anaconda que ataca a Sarah Jane em Revenge of the Cybermen! No final das contas eu continuo sem entender muito bem qual era a ideia por trás desses Shades — e rindo demais com a cena em que um deles inexplicavelmente é um cocheiro na carruagem que leva a Sra. Hartigan (Dervla Kirwan).

Falando na vilã, suas motivações e caracterização servem para enquadrar mais uma trama um tanto dark dando as caras em um especial natalino de Davies. O showrunner segue sua tradição de explorar ângulos particularmente pessimistas a respeito da natureza humana em meio ao contexto festivo, o que acaba sendo parte do charme desses episódios. Dona de um intelecto absolutamente fora dos padrões, Hartigan se alia aos Cybermen em busca de um programa pessoal de liberação que envolve desde a denúncia da hipocrisia do moralismo machista de sua época até uma caminhada destrutiva sobre Londes a bordo de um robô gigante construído via carvoaria movida a trabalho infantil forçado e potencialmente letal! Um bom exemplo de que não é legal apoiar um projeto até conhecer bem o plano por inteiro…

Equilibrando bem os elementos mais galhofeiros com as temáticas mais pesadas, trata-se de uma vilã marcante que explora os Cybermen sob um ângulo inovativo, fugindo do óbvio e aproveitando-se do período histórico da aventura para além dos visuais. O segundo elemento absurdo que dá as caras aqui, o citado robô gigante chamado Cyberking, vale principalmente pelo maneiríssimo visual, ainda que não faça muito sentido em termos da história. O Doutor explica se tratar de uma “nave de guerra” que possibilita a conversão em massa, mas nada do que acontece durante seu curto ataque às margens do Tâmisa passa muito bem essa noção. Em todo caso, um Cyberman gigante steampunk sempre teria meu apoio incondicional, mesmo que o episódio em que aparecesse não fosse de resto tão bom assim.

Porém, se a trama dos Cybermen embasa a origem do “Próximo Doutor” e constrói uma ameaça interessante para nosso trio de aventureiros combater, o verdadeiro coração desse especial se encontra mesmo na dinâmica interna dos personagens centrais. Gosto particularmente da cena em que o recém-revelado Jackson Lake se mostra enfurecido e completamente frustrado por não ser, afinal de contas, o herói que tinha se iludido a respeito. O Doutor responde com um misto sensacional de atenciosidade e maravilhamento, explicando que mesmo que sua identidade seja outra, tudo o que ele fez nesse período ao lado de Rosita foi mérito próprio. Esse momento também ecoa na cena de encerramento do episódio, quando declara que, se era para alguém assumir sua identidade por engano, estava grato por ter sido Lake. A única bola fora desse bela amizade acontece no momento em que Lake se dá conta de que sua esposa foi morta pelos Cybermen. No que deveria ser um breve momento de absoluta melancolia, os cilindros de informação começam a bipar, e o Doutor começa a se mover dançando pelo cenário com uma trilha sonora toda doidinha, completamente mal encaixada no momento…

Tirando essa mancada de lado, creio que a eficácia desses pequenos momentos melosos aponta para o sucesso da história em vender o heroísmo de Lake e Rosita como a contraparte otimista da Sra. Hartigan. Mesmo em condições adversas e em meio a tamanha tragédia que passou, o cara assumiu a identidade do Doutor, mostrando o potencial heroico dos humanos para além dos cantos mais podres da sociedade da época, e de quebra jogando o LARP de Doctor Who mais bem trabalhado da história. Minha única ressalva a respeito desse núclero todo é a de que eu acho que Lake deveria ter subido no balão junto com o Doutor. Poxa vida, depois de tanta hesitação e preparação a respeito de sua “TARDIS”, seria a despedida ideal para sua encarnação fajuta do Doutor, não é?

Curiosamente indo na direção oposta do que se passou com outros especiais de Natal da série, The Next Doctor foi um episódio cuja apreciação só aumentou para mim ao longo das revisitações. Justificando bem a duração mais alongada com uma narrativa cheia de elementos interessantes, o capítulo inaugurou muito bem o que acabaria sendo um inconstante último ano para o Doutor de David Tennant, explorando suas maiores forças na dinâmica com um elenco enxuto e de ótima qualidade. De quebra, temos aqui também a primeira aparição explícita dos nove doutores anteriores na Nova Série, um marco importante na unificação explícita da cronologia da franquia, após uma série de flertes mais tímidos. Uma ocasião bem escolhida para a homenagem, em mais um exemplo de fanservice. Big Finish, por favor, eu quero uma nova aparição do Prof. Lake para ontem!

Doctor Who: The Next Doctor (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2008)
Direção: Andy Goddard
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, David Morrissey, Dervla Kirwan, Velile Tshabalala, Edmund Kente, Michael Bertenshaw, Jason Morell, Neil McDermott
Duração: 60 minutos

Crítica | Doctor Who: A Christmas Carol

A Christmas Carol plano crítico doctor who especial natal

Após suceder Russell T. Davies como showrunner de Doctor Who, Steven Moffat trouxe diversas mudanças para a série, ainda que, inicialmente, essas mudanças fossem menos sobre as histórias que eram contadas e mais sobre como o show encarava o Doutor e seu Universo. A grande diferença entre os dois showrunners é que Davies vê Doctor Who sob uma aura mais mitológica e às vezes cínica, enquanto Moffat enxerga a série sob uma luz mais positiva com ares de fábula (especialmente na era do 11º Doutor). Não há episódios melhores para ver essa diferença entre os produtores do que os Especiais de Natal, como prova A Christmas Carol, primeiro especial natalino escrito por Moffat e que daria o tom dos especias seguintes.

Na trama, durante o Natal, o cruzeiro espacial em que Amy e Rory passam a sua lua de mel fica preso em uma tempestade elétrica. A nave deve pousar no planeta abaixo, mas é impossível devido à alta umidade da atmosfera, que cria uma neblina de cristais de gelo. Atendendo ao pedido de socorro dos Pond, o 11º Doutor parte ao encontro do único capaz de salvar a nave, Kazran Sardick, o homem mais rico do planeta e que possui uma máquina capaz de mudar o clima. Mas Kazran não tem interesse em salvar a nave. Para salvar seus amigos e centenas de pessoas, o Doutor precisa fazer com que o velho avarento se torne uma pessoa melhor e compreenda o real espirito do Natal.

O roteiro, inspirado no clássico de Charles Dickens Um Conto de Natal, apresenta uma história que transita com elegância entre a comédia amalucada e a melancolia trágica, sem perder a coesão tonal ou narrativa. Diferente dos especiais que o antecederam — tramas que apesar de se passarem no natal, poderiam perfeitamente se passar em outras datas sem grandes prejuízos –, há algo intrinsecamente natalino em A Christmas Carol. Se os especiais anteriores apontavam os aspectos mercadológicos do feriado e zombavam de seus signos ao torná-los armas alienígenas, agora as questões emocionais associadas à data são postas em primeiro plano e as brincadeiras com os signos surgem dentro de um contexto não de ameaça, mas de esperança, vide o surgimento do Doutor de dentro de uma chaminé ou os momentos envolvendo um trenó voador.

Mas o ponto mais interessante do Especial é como ele lida com a viagem no tempo. Para fazer o velho Sardick descobrir bondade e gentileza em seu coração, o Doutor praticamente reescreve a vida do sujeito ao voltar para a sua infância com a TARDIS e, a partir daí, tornar-se uma figura de grande influência para o jovem Kazran ao visitá-lo todos os natais. É interessante observar como mais uma vez a série brinca com a perspectiva de tempo, já que embora tenha como ponto de partida uma típica trama de deadline, logo essa corrida contra o tempo se torna secundária, já que devido ao dispositivo narrativo da viagem no tempo o Doutor pode tranquilamente passar semanas viajando com Kazran que, no fim das contas, é o grande protagonista deste especial.

Kazran, interpretado de forma soberba por Michael Gambon (que também vive o pai do personagem) é um homem solitário e egoísta que, nas próprias palavras, despreza o Natal e pouco se importa com a família pobre à sua porta ou com as pessoas que irão morrer na queda da nave. Mas atrás dessa frieza, o Doutor percebe uma centelha de humanidade e vulnerabilidade no momento em que o velho se mostra incapaz de bater em um menino, e é essa centelha que o Time Lord irá explorar. O Kazran de Gambon é assombrado por traumas de infância provocados por um pai cruel e violento, e ainda guarda dentro de si traços de sua criança interior, o que se torna evidente quando vemos o velho assistindo aos seus vídeos de infância; se assustando e vibrando com as aventuras do Doutor e do jovem Kazran.

Se Gambon brilha como o velho Kazran, os devidos méritos devem ser dados a Laurence Belcher e Danny Horn, que vivem respectivamente Kazran em sua infância e adolescência, com o primeiro retratando com competência a inocência do pequeno Kazran e seu coração generoso, que ainda tenta resistir a influência do pai, e o segundo fazendo uma ponte adequada entre o jovem Kazran inocente e bondoso e o velho Kazran amargo. As cenas passadas na infância do personagem trazem os trechos mais lúdicos da especial, como o divertido momento em que o Doutor e o menino são atacados por um tubarão voador. São nessas passagens que Abigail, uma jovem congelada pelo pai de Kazran como uma apólice de seguro pelas dívidas de sua família, ganha importância. O roteiro mostra de forma econômica como a amizade pueril entre Kazran e a moça se transforma em paixão á medida em que o rapaz cresce, e é curioso observar como mesmo o humor do roteiro, que vinha adotando uma linha mais ingênua, assume traços mais adultos a partir do momento em que o Kazran criança é substituído por uma versão mais velha.

Abigail acaba sendo ao mesmo tempo o grande trunfo e a grande falha do plano do Doutor, pois ao mesmo tempo em que a moça desperta o melhor que existe em Kazran, a sua perda inevitável arrisca tornar o homem ainda mais amargo. A maneira como o roteiro de Moffat soluciona o arco dramático de Kazran, em uma brilhante subversão da estrutura de Um Conto de Natal adotado pela trama, funciona maravilhosamente bem. Honestamente, me peguei achando a manobra final do Time Lord para fazer Kazran reconectar-se com a sua humanidade um pouco cruel, mesmo depois do monstruoso discurso do velho, justamente por que o especial nos faz ter total empatia por esse personagem ao acompanharmos a sua história, o que é um grande mérito do roteiro.

O grande Michael Gambon simplesmente devora todas as cenas de que participa, seja explorando as facetas mais mesquinhas de Kazran, ou o seu lado mais vulnerável. Quando Kazran é cruel, ele é assustador, e quando mostra suas fragilidades, ele nos emociona de verdade. Mas este especial também é um ótimo episódio para Matt Smith, pois ao mesmo tempo em que o ator pode brincar com a natureza mais infantil e inocente do Décimo Primeiro Doutor, ele também ganha a chance de mostrar o quão duro e emocionalmente brutal o seu Doutor pode ser. A cantora Katherine Jenkins, embora não tenha nenhum desafio em termos de atuação (afinal, foi seu primeiro trabalho em atuação) não compromete e, com a sua beleza etérea e linda voz, concede o ar angelical que Abigail deve ter, embora, devo confessar, Silence is All You Know, entoado por Jenkins no clímax, esteja longe de ser a minha sequência musical preferida em Doctor Who.

A direção de Toby Raynes concede a este especial um ar fortemente cinematográfico e um ritmo dinâmico, crédito que também deve ser dado à excelente montagem (que em certo momento, chega a utilizar um recurso frequente de Sherlock, série também produzida por Moffat, para retratar a linha de raciocínio do Doutor). A direção de arte também é um show à parte, com a cidade onde a história se passa evocando a Londres Vitoriana, mas ainda mantendo um certo visual alienígena devido a fotografia de cores frias usada para retratar a umidade da atmosfera, que de tão densa, permite que peixes nadem no ar, o que é apoiado pelos relativamente competentes efeitos especiais, que reforçam a aura de fantasia do especial.

A Christmas Carol tem tudo o que se poderia pedir de uma aventura natalina, ao contar uma história emocionante de amor e redenção que, apesar de não ser conquistada sem dor ou lágrimas, ainda encontra um final feliz — com direito a um “milagre de Natal” para salvar o dia. É o meu especial de Natal preferido da série até o momento, tendo envelhecido muito bem. É divertido e poético, possuindo tanto momentos ternos quanto de pungência emocional. Pode ficar um pouco piegas no final? Talvez. Mas se existe um dia que nos autoriza a ser um pouco piegas, esse dia é o Natal.

Doctor Who: A Christmas Carol (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2010)
Direção: Toby Raynes
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Karen Gillan, Arthur Darvill, Michael Gambon, Katherine Jenkins, Laurence Belcher, Danny Horn, Leo Bill, Pooky Quesnel, Micah Balfour, Steve North, Tim Plester, Nick Malinowski, Laura Rogers.
Duração: 61 min.

Crítica | Doctor Who: The Doctor, the Widow and the Wardrobe

O segundo dos Especiais de Natal com Steven Moffat na cadeira de comando chega com a difícil missão de ficar à altura de A Christmas Carol, episódio que elevou o patamar desse lado festivo da série se tornando um clássico instantâneo e nos lembrando novamente do que o formato é capaz quando apoiado sobre um roteiro forte e elenco bem alinhado.

Seguindo com a pegada fabulesca que marcou grande parte da era do 11º Doutor, o roteiro de Moffat engenhosamente monta um drama de época que combina a tragédia da guerra com a esperança característica do período festivo (algo que tornaria a aparecer em seu último Especial de Natal, Twice Upon a Time). Tomando seu tempo para construir um vínculo entre o Doutor e Madge Arwell (Claire Skinner), que vem ao seu resgate após um “pouso forçado” desastrado na Terra, a narrativa constrói o Time Lord como uma figura de contos de fada que retorna para consolar a família em um momento de crise.

Tendo sabido há pouco da morte em combate de seu marido Reg (Alexander Armstrong), Madge se encontra na difícil posição de proteger seus filhos da notícia por tempo suficiente para não arruinar para sempre seu espírito natalino. Em seu resgate chega a figura que ela salvou algum tempo atrás (mas que não pôde reconhecer devido ao capacete usado ao contrário), sob a guida de Zelador da casa de férias de um parente.

Assim como comentei sobre David Tennant em The Next Doctor, algo que merece ser reconhecido aqui é o quão acertada é a construção dessa premissa em torno da versão do Doutor interpretada por Matt Smith. Apoiando-se muito bem na construção de sua personalidade e tonalidade de suas aventuras até então, o roteiro de Moffat mais uma vez demonstra o potencial do ator em vender seu inusitado ângulo de conto de fadas sobre Doctor Who.

Apesar do título referenciar mais obviamente As Crônicas de Narnia, a outra inspiração de peso do enredo na verdade é Mary Poppins, com nosso Time Lord titular apresentando-se como curador de um retiro natalino dos sonhos, desenhado especialmente para alegrar Cyril (Maurice Cole) e Lily (Holly Earl) e oferecer ajuda à agoniada e relutante Madge em segurar as pontas da família em sua atual situação. O grande ponto forte desse episódio, para mim, é justamente a apresentação do 11º Doutor como Zelador dessa mansão natalina. O papel é brilhantemente interpretado por Smith, que demonstra com total fascínio juvenil suas invenções como uma torneira de limonada e um quarto repleto de brinquedos (mas sem cama) para os pequenos. Esse misto de infantilidade genuína e inegável velhice é para mim uma das marcas dessa encarnação do Doutor, e é especialmente bem explorada aqui.

O desfecho disso tudo não inclui nenhuma ameaça alienígena, mas na verdade diz respeito à inevitável desobediência de Cyril em aguardar o momento certo para abrir o gigantesco presente deixado sob a árvore de Natal (quem nunca?), o que o transporta antes da hora para a viagem natalina planejada pelo Doutor para o planeta não-nomeado povoado por miraculosos pinheiros festivos naturais. A coisa já não soa tão promissora quando descobrimos que o Time Lord planejou a excursão para ocorrer durante (ou após, contando com a citada diferença temporal do portal?) a extração de carbono via chuva ácida, cortesia dos madeireiros de Androzani Major (sério, se eu fosse o Doutor em um dia ruim acho que eu ia descer o Time Lord Victorious para cima desses caras) e de seu terrificante mecha.

Infelizmente, desse ponto em diante o enredo acaba perdendo um pouco do momentum, rendendo-se a uma perseguição entre os três grupos no planejamento natalino, e um desfecho que não depende em nada das ações de nossos protagonistas, mas sim das misteriosas criaturas arbóreas nascidas dos ovos-enfeites de Natal. Esse desenrolar mais “contemplativo” se justifica internamente pelo roteiro e não deixa de fazer sentido na tonalidade proposta pelo episódio, mas acaba também nos privando de algum momento propriamente heroico de nossos protagonistas, já que não se trata de salvar as árvores do planeta natalino ou sequer de planejar uma fuga, mas sim de observar os eventos e “se virar” com eles na medida do possível.

Isso deixa as exposições do Doutor notadamente mais óbvias do que o normal, sabotando um pouco do efeito dramático da “fuga espiritual” das árvores, que partem em um genial efeito visual que referencia a tradicional estrela no topo dos pinheiros natalinos. Evocando a licença poética de poder se caprichar no otimismo e na esperança em um conto de Natal, a viagem acaba com um improvável resgate de Reg, uma vez que é para lá que a pilotagem de Madge os leva quando ela os tenta levar de volta para casa. Essa sacada, em si, é fantástica, mas acaba não aterrissando de forma tão contundente devido à maneira um tanto solta e apressada com que chegamos ali.

Ainda que repleto de momentos genuinamente encantadores e amarrando muito bem suas temáticas ao longo do episódio, The Doctor, the Widow and the Wardrobe acaba sofrendo um pouco de um problema que, de certa forma, é típico deste segundo ano de Steven Moffat como showrunner da série: um bom número de ideias interessantes que, costuradas de forma desigual entre si, acabam tendo que recorrer demais à exposição para se articular em termos de enredo. Ainda assim, é um Especial que, para mim, vale sempre ser revisitado, especialmente na época festiva!

Doctor Who: The Doctor, the Widow and the Wardrobe (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2011)
Direção: Farren Blackburn
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Claire Skinner, Maurice Cole, Holly Earl, Karen Gillian, Arthur Darvill, Alexander Armstrong
Duração: 59 min.

Crítica | Doctor Who: The End of Time – Part One

Doctor Who_ The End of Time - Part One plano crítico

Originalmente exibida no Natal de 2009, esta primeira parte do arco The End of Time teve como função preparar o terreno para a regeneração do 10º Doutor, após uma longa caminhada sozinho e várias especulações dos espectadores sobre em que momento viria de fato a morte do personagem de David Tennant para a entrada do já ‘odiado’ (como de praxe, em novos Doutores) Matt Smith. Mas há m detalhe que normalmente a gente se esquece no meio dessa grandeza e importância toda do episódio. Estamos diante de um Especial de Natal de Doctor Who! Um Especial de Natal onde a data esteve apenas como pano de fundo e absolutamente tudo no roteiro (aqui, de Russell T. Davies) foca em apenas uma coisa: construir o cenário para a futura morte do Doutor.

As duas cenas iniciais do episódio são ótimas. Primeiro temos o retorno do fantástico Wilfred Mott (Bernard Cribbins), que encontramos fazendo compras e o vemos lembrar-se de um pesadelo com o Mestre. Mais adiante ele se encontra com a misteriosa Time Lady interpretada por Claire Bloom e que tantas teorias suscita até hoje entre alguns whovians. No bloco seguinte, temos uma cena com o Doutor na Ood Sphere, em 4226. Esses dois ótimos momentos estabelecem um perigo maior que de fato teremos citado no episódio, mas eis aqui o meu primeiro grande problema com The End of Time – Part One: ele pouco vale como episódio solo, de modo que não faz sentido algum haver uma separação como Especial de Natal e Ano-Novo (partes 1 e 2). Como já disse, trata-se de um enredo de preparação. E quem dera que essa preparação valesse o tempo e a expectativa — a não ser que o espectador realmente se deixe levar pela tênue linha de costura com Rassilon falando ao longo do capítulo e aquela cena final, em plena Time War. Sim, tudo é grandioso. Épico. Música, intenção, exposição. Mas é uma cena, gente. Uma cena que não compensa as centenas de outras risíveis e irritantes cenas que temos aqui.

O veterano Euros Lyn assume a direção do episódio e procura fazer o máximo com os delírios quase super-vilanescos de Davies. Para isso, o diretor tomou muito cuidado com as cenas de ligação e afastamento dos personagens daquilo que seria o “misterioso problema” a ser trabalhado adiante. Vejam como momentos de caráter pessoal com os Oods e principalmente aquela soberba cena de David Tennant e Bernard Cribbins num café da cidade são conduzidas delicadamente, fazendo-nos sentir e não apenas observar aquilo que está acontecendo. Isso é importante para que o episódio não caia abaixo da linha média, porque é o que realmente parece que vai acontecer quando surge o plot de ressurreição do Mestre. Não há um único segundo envolvendo esse aspecto dramático que não seja ridículo. Não há preparação prévia para o ‘culto’ ao vilão e ainda assim eles conseguem saber o local da cremação, pegam o anel e conseguem recursos para reviver o renegado Time Lord. E vejam só, no meio do processo, Lucy praticamente tira da cartola um ~misterioso~ frasco contendo uma poção/antídoto que poderia impedir aquela abominação, tudo isso porque… wait for it… sua família tem contatos. Sim, isso é dito literalmente em um diálogo, do nada. Que morte horrível…

Daí para frente, a minha relação com o episódio é de uma irritação cortada por momentos de puro interessante pelo que poderia ser esta “outra coisa” que estava por vir. Já que o Especial de Natal é uma enganação barata em termos de motivação e que Davies resolveu transformar o Mestre num comilão energético que dá saltos gigantes e que tem até propulsão à la Homem de Ferro (Senhor Jesus…) chega um momento em que os eventos deixam de ser organicamente interessantes. Nossa atenção está mais jogada para o futuro, pelo mistério dos Time Lords e, claro, pela morte do Doutor. Mas notem que estamos falando de DW, então o elenco é fantástico, de modo que me dói ver alguém do porte de John Simm ter tão poucas cenas boas num episódio (os breves momentos dele com o Doutor, falando das batidas na cabeça, são poderosos) e o restante agindo de forma… bem… nomeiem vocês mesmos.

Na reta final o ritmo da trama fica cada vez mais intenso, a edição começa a mostrar um trabalho aplaudível e a trilha sonora não tem mais a intenção de se segurar. O clima criado é bom, mas o evento em cena… nem tanto. Por mais engraçado que seja o plano roubado/adaptado do Mestre, eu nunca consegui gostar dele de verdade. Pode-se pensar que Davies já fizera bizarrices piores (alô alô Love & Monsters!), logo, o evento dessa Parte 1 está condizente com a Era do showruuner. E sim, tudo isso é verdade. Mas a coerência de uma escolha dramática diante de uma tradição não torna o enredo que a contém automaticamente bom ou uma obra-prima, não é mesmo?

Poucas cenas impedem que The End of Time – Part One caia ainda mais em qualidade. No fim das contas, estamos diante de um Especial de Natal “desnatalizado” e de uma desculpa conceitual para segurar o 10º Doutor por mais um episódio no papel. Tsc tsc tsc… Por isso que eu prefiro o meu Especialzinho de Doctor Nárnia… (sim, podem soltar seus Daleks pra cima de mim, eu não ligo hehehehehe).

Doctor Who: The End of Time – Part One (Reino Unido, 25 de dezembro de 2009)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, John Simm, Bernard Cribbins, Timothy Dalton, Catherine Tate, Jacqueline King, Claire Bloom, June Whitfield, David Harewood, Tracy Ifeachor, Sinead Keenan, Lawry Lewin, Alexandra Moen, Karl Collins, Teresa Banham
Duração: 60 min.