Doctor Who: Especiais de Natal

Crítica | Doctor Who: Time Crash e Voyage of The Damned

plano critico doctor who Voyage of The Damned (1)

Sempre se pensa em festas de fim de ano quando se fala de um especial de Doctor Who, mas nos esquecemos que o show sempre participa do Children in Need, uma campanha beneficente da BBC que culmina em uma programação especial. A maior parte das participações da série na campanha limita-se a esquetes ou interações dos astros (ou personagens) com o público. Mas alguns desses mini episódios ganharam relevância, vide a primeira cena completa do 10º Doutor, ou o mini episódio Time Crashprimeiro multi-Doctor da Nova Série. Escrito por Steven Moffat, o especial situa-se após The Last of the Time Lords, com a TARDIS do 10º se chocando com a do 5º Doutor. Transportado para a nave de sua versão futura, o 5º tenta desesperadamente resolver a crise, pois a presença das duas naves no mesmo espaço abrira um buraco no tempo. O 10º Doutor, no entanto, está menos preocupado por estar empolgado demais em rever o seu antigo Eu.

Time Crash é quase uma esquete que, girando em torno das farpas entre os Doutores, tece um afetuoso meta-comentário sobre a série. Os diálogos rápidos apontam as mudanças sofridas pelo show em suas duas versões, como a aura mais Cool e Pop que a Nova Série adotou ou os aspectos mais bregas da Série Clássica. Apesar da zoeira, há muita reverência ao passado e à sua influência no presente. Mas o grande trunfo do Especial está na química de Peter Davison e David Tennant. Davison reassume o papel do Quinto Doutor como se nunca o houvesse deixado, ao mesmo tempo em que claramente se diverte ao tirar sarro de si mesmo, sem nunca tornar-se autoparódico. Há quem reclame que o personagem surge aqui muito mais rabugento do que em sua era, mas dentro da proposta ligeira do especial, me parece dentro do personagem, principalmente quando lembramos como Davison vivia o Time Lord como um homem velho dentro de um corpo jovem (aqui já não tão jovem, o que é justificado no roteiro pelo caos temporal). Já Tennant entrega um Décimo Doutor mais eufórico do que de costume, de modo a não podermos culpar o 5º Doutor quando este o confunde com um fã. David Tennant é um grande fã de Doctor Who, que começou a ver a série com as histórias do Doutor de Davison; portanto o ator coloca muito de si na atuação deste mini episódio e nós sentimos grande cumplicidade com ele. O seu discurso de despedida ao 5º Doutor parece não ser apenas as palavras do 10º Doutor, mas do próprio Tennant.

Em sete minutos, Time Crash é uma história reverente ao passado da série, mas que também consegue ser espirituosa com esse passado. O roteiro de Moffat é simples e até pueril, mas dentro do formato e da proposta apresentadas, não poderia ser diferente. A química de cena dos dois atores é ótima, com os segundos finais sendo realmente pungentes, levando diretamente ao Especial de Natal. Nada mal para um mini episódio produzido para uma campanha beneficente.

Já o Especial natalino de 2007, antecipado pela Season Finale anterior e por Time Crash, começa com o Titanic se chocando contra a TARDIS. Mas este Titanic não é o famoso navio e sim uma nave espacial que replica o original. O Doutor decide passar a noite de Natal a bordo da nave, que promove uma festa para turistas do planeta Sto; mas como a sua versão terráquea, a nave se vê condenada após ser atingida por meteoros. Enquanto tenta salvar os sobreviventes e impedir que a nave caia em Londres, o Time Lord percebe que a colisão contra os meteoros não foi acidental e que alguém quer garantir a colisão do Titanic contra a Terra + a eliminação dos passageiros. Escrito por Russell T. Davies, Voyage of The Damned configura-se como um ‘filme catástrofe’, fazendo várias referências a clássicos do subgênero, O Destino de Poseidon (1972) em especial, compartilhando come esta obra o fato do desastre se passar durante uma festa de fim de ano.

Mas antes da parte “catástrofe” da trama, o roteiro mais uma vez lança um olhar cínico para o Natal, seja pelos hilários comentários do “historiador especialista” do Titanic, ou pelos recorrentes símbolos natalinos convertidos em maquinas assassinas; desta vez, um grupo de anjos de presépio robóticos com auréolas laminadas. É interessante perceber também como o showrunner volta a brincar com a ideia de um mundo que começa a aceitar a existência de visitas alienígenas, vide a cena onde um grupo de turistas do Titanic desce à Terra só para encontrar uma Londres praticamente deserta, já que devido aos eventos dos Especiais anteriores, o Natal passou a ser uma data temida na cidade. Além de apresentar Wilfred Mott, que surge de forma discreta neste Especial, mas que teria grande importância no futuro da série, a cena também fortifica os laços entre o Time Lord e Astrid, uma garçonete com quem ele faz amizade a bordo do Titanic e que demonstra um gosto por aventura que a tornam candidata a Companion, o que na maioria dos casos significa que ou ela vai terminar a história viajando na TARDIS, ou recebendo um elogio póstumo.

Após esse terço inicial mais leve, o Especial abraça de vez o aspecto de filme catástrofe, manipulando com competência os arquétipos e clichês do subgênero, de modo que sirvam não só ao universo Sci Fi da série, mas à jornada dramática que o showrunner planejou para o 10º Doutor no restante de sua Era. O roteiro de Davies merece crédito aqui por conseguir nos fazer ter empatia (ou antipatia) por cada um dos sobreviventes liderados pelo protagonista, o que é vital para o sucesso deste tipo de história. A narrativa também volta a explorar o quanto o Doutor pode ser falível, e que apesar de todas as suas habilidades e recursos, ele não é (ou não deve ser) uma figura divina — e que apesar dos seus esforços para que todos sobrevivam, não cabe a ele decidir quem merece ser salvo ou não. Esse flerte do Doutor com o divino volta a ser representado através de uma imagem que referencia figuras bíblicas, como já havia sido feito em The Last of The Time Lords, e como voltaria a ser feito mais algumas vezes em episódios posteriores.

James Strong, diretor já veterano da série a essa altura, concede grande elegância ao Especial, ao mesmo tempo em que cria uma atmosfera de tensão crescente, nunca quebrada pelos muito bem empregados momentos de alívio cômico. A montagem merece grande destaque pelo ótimo crescendo de suspense, com destaque para a sequência em que o Titanic é atingido, enquanto a direção de arte concede um bonito aspecto vintage ao episódio. Mas apesar dos acertos, falta na direção de Strong um momento dramático mais forte, tão essencial ao subgênero com que ele está trabalhando, algo que o diretor já se mostrou capaz de fazer no passado e que aqui consegue apenas arranhar. Não que seja mal executado, longe disso, mas senti que certas cenas tinham um potencial maior que acabaram não se concretizando.

Voyage of The Damned é um episódio cheio de adrenalina e tensão e uma homenagem divertida a clássicos do cinema catástrofe como o citado O Destino de Poseidon e também Inferno Na Torre (1974). Os valores de produção são sólidos, a direção de Mark Strong é competente e o roteiro de Davies transita bem entre a tensão e momentos mais descontraídos, além de trazer bons conflitos para o Doutor e uma peça importante em seu desenvolvimento. Ainda assim, este Especial de Natal é o tipo de episódio que se encerra nos deixando com a impressão de que embora seja bom, poderia ter sido bem melhor.

Doctor Who: Time Crash (Reino Unido, 16 de Novembro de 2007)
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: David Tennant, Peter Davison
Duração: 07 Minutos

Doctor Who: Voyage of The Damned (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2007)
Direção: Mark Strong
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Kylie Minogue, Geoffrey Palmer, Russell Tovey, George Costigan, Gray O’Brien, Andrew Havill, Bruce Lawrence, Debbie Chazen, Clive Rowe, Clive Swift, Jimmy Vee, Bernard Cribbins, Paul Kasey
Duração: 71 Minutos

Crítica | Doctor Who: The Next Doctor

Vindo diretamente na sequência do cataclísmico Journey’s End, nosso Especial de Natal de 2008 representa a primeira instância onde a situação periclitante da vez não é preunciada pela “cena pós-créditos” do season finale que o antecede. Nada de Donna Noble vestida de noiva ou do Titanic invadindo a TARDIS — temos aqui uma aventura tecnicamente “avulsa”. Porém, se pensarmos um pouco melhor, veremos que essa impressão não se confirma muito bem.

Embora não tenhamos um vínculo cronológico direto, a verdade é que um forte elemento temático liga diretamente The Next Doctor com os eventos do episódio anterior. Contra o pano de fundo da mega reunião que marcou o clímax da temporada recém-encerrada, o Doutor se vê contemplando melancolicamente o papel de seus companions em sua jornada pelo tempo e espaço, ao mesmo tempo em que é levado a considerar a finitude de sua atual encarnação, tema que será central para o conjunto de Especiais que segue e que marca o fim das eras de Russel T. Davies como showrunner e de David Tennant como o 10º Doutor.

Iniciamos com um solitário Doutor desembarcando na Londres vitoriana, prestes a descobrir que chegou na véspera de Natal de um ano especialmente tranquilo. Ótimo, já que um bom feriado de final de ano não pede necessariamente ataques de símbolos natalinos letais ou chuva de cinzas Sycorax, certo? No entanto, algo sinistro se prepara pelos cantos misteriosos da cidade, pronto a emergir bem no dia festivo. Por sorte, alguém já está na cola do problema… o Doutor (David Morrisey), acompanhado de sua fiel companion, Rosita (Velile Tshabalala)!

Esse encontro entre o Doutor e uma possível (ainda que improvável) encarnação futura é mais uma daquelas premissas únicas que advém do conceito de regeneração, explorado de forma brilhante no que, com o benefício do ponto de vista atual, se mantem como o melhor momento possível para acontecer em termos de Série Nova. Embora a ideia obviamente pudesse funcionar com outras encarnações do Time Lord, o fato é que o egóico e vaidoso 10º Doutor é a figura perfeita tanto para encarar seu potencial sucessor (e justamente entregue a um momento de deprê total, diga-se de passagem) quanto para sustentar o tipo de auto-homenagem que o enredo presta ao personagem aqui, ressaltando seu sentido mais profundo de maneira crível e envolvente.

David Morrissey não desperdiça o momento, entregando uma atuação fantástica que diverte, comove e empolga. Sua química com Tennant é fortíssima do início ao fim, o que garante contornos ainda mais interessantes aos diálogos muito bem escritos de Davies. Como sempre, Tennant encarna os momentos mais dramalhescos e os vende com uma facilidade que autoriza o showrunner a explorar esse lado sem preocupar-se com o exagero. A emotividade tradicional desse Doutor serve muito bem tanto aos momentos cômicos quanto aos mais sóbrios (com a exceção de um momento em particular, do qual falaremos logo mais), e as reações do misterioso Doutor do futuro, muitas delas totalmente silenciosas, complementam o conjunto perfeitamente. Algumas das “piadas internas” são tão geniais quanto descaradas, incluindo aí a exploração comédica do Chameleon Arc visto em Human Nature Utopia. Um exemplo de fanservice finíssimo!

Antes de falarmos da ameaça dos Cybermen vitorianos como um todo, cabe uma pausa para tratar de um assunto de suma importância. Todas as vezes em que eu assisto esse episódio (que, por algum motivo, é um dos que acabei mais repetindo até hoje) eu me pego com a mesma dúvida: “Que diabos eram esses bichões-Cybermen mesmo? Será que eles explicam isso e eu esqueci?”. O motivo para isso é que eles meio que explicam, mas meio que não faz o menor sentido mesmo! Chamados oficialmente de Cybershades, essas criaturas hilárias estão presentes no primeiro encontro entre o Doutor e o “Próximo Doutor” — a melhor descrição que eu teria para seu visual seria uma cyber-conversão parcial do gorilão tosco que assombrava aquele jogo do programa do Sérgio Mallandro em que as crianças podiam escolher uma cabine para ganhar uma bicicleta, ou serem atacadas pela figura fantasiada e sair correndo chorando e em desespero. Alguém mais lembra disso?

Enfim, os Shades são o primeiro de dois elementos totalmente absurdos que são adicionados à mitologia Cyber ao longo dessa trama, e a explicação oficial é tão satisfatória quanto suas fantasias são convincentes: é dito que eles possuem “cérebros de cães e gatos” (e os corpos são de que, meu Menino Jesus?), e que são uma opção de batedores para a operação dos Cybermen que “evitam chamar muito a atenção”. Sério mesmo? Os caras conseguem ser ainda menos discretos do que aquele Cybermat-Anaconda que ataca a Sarah Jane em Revenge of the Cybermen! No final das contas eu continuo sem entender muito bem qual era a ideia por trás desses Shades — e rindo demais com a cena em que um deles inexplicavelmente é um cocheiro na carruagem que leva a Sra. Hartigan (Dervla Kirwan).

Falando na vilã, suas motivações e caracterização servem para enquadrar mais uma trama um tanto dark dando as caras em um especial natalino de Davies. O showrunner segue sua tradição de explorar ângulos particularmente pessimistas a respeito da natureza humana em meio ao contexto festivo, o que acaba sendo parte do charme desses episódios. Dona de um intelecto absolutamente fora dos padrões, Hartigan se alia aos Cybermen em busca de um programa pessoal de liberação que envolve desde a denúncia da hipocrisia do moralismo machista de sua época até uma caminhada destrutiva sobre Londes a bordo de um robô gigante construído via carvoaria movida a trabalho infantil forçado e potencialmente letal! Um bom exemplo de que não é legal apoiar um projeto até conhecer bem o plano por inteiro…

Equilibrando bem os elementos mais galhofeiros com as temáticas mais pesadas, trata-se de uma vilã marcante que explora os Cybermen sob um ângulo inovativo, fugindo do óbvio e aproveitando-se do período histórico da aventura para além dos visuais. O segundo elemento absurdo que dá as caras aqui, o citado robô gigante chamado Cyberking, vale principalmente pelo maneiríssimo visual, ainda que não faça muito sentido em termos da história. O Doutor explica se tratar de uma “nave de guerra” que possibilita a conversão em massa, mas nada do que acontece durante seu curto ataque às margens do Tâmisa passa muito bem essa noção. Em todo caso, um Cyberman gigante steampunk sempre teria meu apoio incondicional, mesmo que o episódio em que aparecesse não fosse de resto tão bom assim.

Porém, se a trama dos Cybermen embasa a origem do “Próximo Doutor” e constrói uma ameaça interessante para nosso trio de aventureiros combater, o verdadeiro coração desse especial se encontra mesmo na dinâmica interna dos personagens centrais. Gosto particularmente da cena em que o recém-revelado Jackson Lake se mostra enfurecido e completamente frustrado por não ser, afinal de contas, o herói que tinha se iludido a respeito. O Doutor responde com um misto sensacional de atenciosidade e maravilhamento, explicando que mesmo que sua identidade seja outra, tudo o que ele fez nesse período ao lado de Rosita foi mérito próprio. Esse momento também ecoa na cena de encerramento do episódio, quando declara que, se era para alguém assumir sua identidade por engano, estava grato por ter sido Lake. A única bola fora desse bela amizade acontece no momento em que Lake se dá conta de que sua esposa foi morta pelos Cybermen. No que deveria ser um breve momento de absoluta melancolia, os cilindros de informação começam a bipar, e o Doutor começa a se mover dançando pelo cenário com uma trilha sonora toda doidinha, completamente mal encaixada no momento…

Tirando essa mancada de lado, creio que a eficácia desses pequenos momentos melosos aponta para o sucesso da história em vender o heroísmo de Lake e Rosita como a contraparte otimista da Sra. Hartigan. Mesmo em condições adversas e em meio a tamanha tragédia que passou, o cara assumiu a identidade do Doutor, mostrando o potencial heroico dos humanos para além dos cantos mais podres da sociedade da época, e de quebra jogando o LARP de Doctor Who mais bem trabalhado da história. Minha única ressalva a respeito desse núclero todo é a de que eu acho que Lake deveria ter subido no balão junto com o Doutor. Poxa vida, depois de tanta hesitação e preparação a respeito de sua “TARDIS”, seria a despedida ideal para sua encarnação fajuta do Doutor, não é?

Curiosamente indo na direção oposta do que se passou com outros especiais de Natal da série, The Next Doctor foi um episódio cuja apreciação só aumentou para mim ao longo das revisitações. Justificando bem a duração mais alongada com uma narrativa cheia de elementos interessantes, o capítulo inaugurou muito bem o que acabaria sendo um inconstante último ano para o Doutor de David Tennant, explorando suas maiores forças na dinâmica com um elenco enxuto e de ótima qualidade. De quebra, temos aqui também a primeira aparição explícita dos nove doutores anteriores na Nova Série, um marco importante na unificação explícita da cronologia da franquia, após uma série de flertes mais tímidos. Uma ocasião bem escolhida para a homenagem, em mais um exemplo de fanservice. Big Finish, por favor, eu quero uma nova aparição do Prof. Lake para ontem!

Doctor Who: The Next Doctor (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2008)
Direção: Andy Goddard
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, David Morrissey, Dervla Kirwan, Velile Tshabalala, Edmund Kente, Michael Bertenshaw, Jason Morell, Neil McDermott
Duração: 60 minutos

Crítica | Doctor Who: A Christmas Carol

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Após suceder Russell T. Davies como showrunner de Doctor Who, Steven Moffat trouxe diversas mudanças para a série, ainda que, inicialmente, essas mudanças fossem menos sobre as histórias que eram contadas e mais sobre como o show encarava o Doutor e seu Universo. A grande diferença entre os dois showrunners é que Davies vê Doctor Who sob uma aura mais mitológica e às vezes cínica, enquanto Moffat enxerga a série sob uma luz mais positiva com ares de fábula (especialmente na era do 11º Doutor). Não há episódios melhores para ver essa diferença entre os produtores do que os Especiais de Natal, como prova A Christmas Carol, primeiro especial natalino escrito por Moffat e que daria o tom dos especias seguintes.

Na trama, durante o Natal, o cruzeiro espacial em que Amy e Rory passam a sua lua de mel fica preso em uma tempestade elétrica. A nave deve pousar no planeta abaixo, mas é impossível devido à alta umidade da atmosfera, que cria uma neblina de cristais de gelo. Atendendo ao pedido de socorro dos Pond, o 11º Doutor parte ao encontro do único capaz de salvar a nave, Kazran Sardick, o homem mais rico do planeta e que possui uma máquina capaz de mudar o clima. Mas Kazran não tem interesse em salvar a nave. Para salvar seus amigos e centenas de pessoas, o Doutor precisa fazer com que o velho avarento se torne uma pessoa melhor e compreenda o real espirito do Natal.

O roteiro, inspirado no clássico de Charles Dickens Um Conto de Natal, apresenta uma história que transita com elegância entre a comédia amalucada e a melancolia trágica, sem perder a coesão tonal ou narrativa. Diferente dos especiais que o antecederam — tramas que apesar de se passarem no natal, poderiam perfeitamente se passar em outras datas sem grandes prejuízos –, há algo intrinsecamente natalino em A Christmas Carol. Se os especiais anteriores apontavam os aspectos mercadológicos do feriado e zombavam de seus signos ao torná-los armas alienígenas, agora as questões emocionais associadas à data são postas em primeiro plano e as brincadeiras com os signos surgem dentro de um contexto não de ameaça, mas de esperança, vide o surgimento do Doutor de dentro de uma chaminé ou os momentos envolvendo um trenó voador.

Mas o ponto mais interessante do Especial é como ele lida com a viagem no tempo. Para fazer o velho Sardick descobrir bondade e gentileza em seu coração, o Doutor praticamente reescreve a vida do sujeito ao voltar para a sua infância com a TARDIS e, a partir daí, tornar-se uma figura de grande influência para o jovem Kazran ao visitá-lo todos os natais. É interessante observar como mais uma vez a série brinca com a perspectiva de tempo, já que embora tenha como ponto de partida uma típica trama de deadline, logo essa corrida contra o tempo se torna secundária, já que devido ao dispositivo narrativo da viagem no tempo o Doutor pode tranquilamente passar semanas viajando com Kazran que, no fim das contas, é o grande protagonista deste especial.

Kazran, interpretado de forma soberba por Michael Gambon (que também vive o pai do personagem) é um homem solitário e egoísta que, nas próprias palavras, despreza o Natal e pouco se importa com a família pobre à sua porta ou com as pessoas que irão morrer na queda da nave. Mas atrás dessa frieza, o Doutor percebe uma centelha de humanidade e vulnerabilidade no momento em que o velho se mostra incapaz de bater em um menino, e é essa centelha que o Time Lord irá explorar. O Kazran de Gambon é assombrado por traumas de infância provocados por um pai cruel e violento, e ainda guarda dentro de si traços de sua criança interior, o que se torna evidente quando vemos o velho assistindo aos seus vídeos de infância; se assustando e vibrando com as aventuras do Doutor e do jovem Kazran.

Se Gambon brilha como o velho Kazran, os devidos méritos devem ser dados a Laurence Belcher e Danny Horn, que vivem respectivamente Kazran em sua infância e adolescência, com o primeiro retratando com competência a inocência do pequeno Kazran e seu coração generoso, que ainda tenta resistir a influência do pai, e o segundo fazendo uma ponte adequada entre o jovem Kazran inocente e bondoso e o velho Kazran amargo. As cenas passadas na infância do personagem trazem os trechos mais lúdicos da especial, como o divertido momento em que o Doutor e o menino são atacados por um tubarão voador. São nessas passagens que Abigail, uma jovem congelada pelo pai de Kazran como uma apólice de seguro pelas dívidas de sua família, ganha importância. O roteiro mostra de forma econômica como a amizade pueril entre Kazran e a moça se transforma em paixão á medida em que o rapaz cresce, e é curioso observar como mesmo o humor do roteiro, que vinha adotando uma linha mais ingênua, assume traços mais adultos a partir do momento em que o Kazran criança é substituído por uma versão mais velha.

Abigail acaba sendo ao mesmo tempo o grande trunfo e a grande falha do plano do Doutor, pois ao mesmo tempo em que a moça desperta o melhor que existe em Kazran, a sua perda inevitável arrisca tornar o homem ainda mais amargo. A maneira como o roteiro de Moffat soluciona o arco dramático de Kazran, em uma brilhante subversão da estrutura de Um Conto de Natal adotado pela trama, funciona maravilhosamente bem. Honestamente, me peguei achando a manobra final do Time Lord para fazer Kazran reconectar-se com a sua humanidade um pouco cruel, mesmo depois do monstruoso discurso do velho, justamente por que o especial nos faz ter total empatia por esse personagem ao acompanharmos a sua história, o que é um grande mérito do roteiro.

O grande Michael Gambon simplesmente devora todas as cenas de que participa, seja explorando as facetas mais mesquinhas de Kazran, ou o seu lado mais vulnerável. Quando Kazran é cruel, ele é assustador, e quando mostra suas fragilidades, ele nos emociona de verdade. Mas este especial também é um ótimo episódio para Matt Smith, pois ao mesmo tempo em que o ator pode brincar com a natureza mais infantil e inocente do Décimo Primeiro Doutor, ele também ganha a chance de mostrar o quão duro e emocionalmente brutal o seu Doutor pode ser. A cantora Katherine Jenkins, embora não tenha nenhum desafio em termos de atuação (afinal, foi seu primeiro trabalho em atuação) não compromete e, com a sua beleza etérea e linda voz, concede o ar angelical que Abigail deve ter, embora, devo confessar, Silence is All You Know, entoado por Jenkins no clímax, esteja longe de ser a minha sequência musical preferida em Doctor Who.

A direção de Toby Raynes concede a este especial um ar fortemente cinematográfico e um ritmo dinâmico, crédito que também deve ser dado à excelente montagem (que em certo momento, chega a utilizar um recurso frequente de Sherlock, série também produzida por Moffat, para retratar a linha de raciocínio do Doutor). A direção de arte também é um show à parte, com a cidade onde a história se passa evocando a Londres Vitoriana, mas ainda mantendo um certo visual alienígena devido a fotografia de cores frias usada para retratar a umidade da atmosfera, que de tão densa, permite que peixes nadem no ar, o que é apoiado pelos relativamente competentes efeitos especiais, que reforçam a aura de fantasia do especial.

A Christmas Carol tem tudo o que se poderia pedir de uma aventura natalina, ao contar uma história emocionante de amor e redenção que, apesar de não ser conquistada sem dor ou lágrimas, ainda encontra um final feliz — com direito a um “milagre de Natal” para salvar o dia. É o meu especial de Natal preferido da série até o momento, tendo envelhecido muito bem. É divertido e poético, possuindo tanto momentos ternos quanto de pungência emocional. Pode ficar um pouco piegas no final? Talvez. Mas se existe um dia que nos autoriza a ser um pouco piegas, esse dia é o Natal.

Doctor Who: A Christmas Carol (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2010)
Direção: Toby Raynes
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Karen Gillan, Arthur Darvill, Michael Gambon, Katherine Jenkins, Laurence Belcher, Danny Horn, Leo Bill, Pooky Quesnel, Micah Balfour, Steve North, Tim Plester, Nick Malinowski, Laura Rogers.
Duração: 61 min.

Crítica | Doctor Who: The Doctor, the Widow and the Wardrobe

O segundo dos Especiais de Natal com Steven Moffat na cadeira de comando chega com a difícil missão de ficar à altura de A Christmas Carol, episódio que elevou o patamar desse lado festivo da série se tornando um clássico instantâneo e nos lembrando novamente do que o formato é capaz quando apoiado sobre um roteiro forte e elenco bem alinhado.

Seguindo com a pegada fabulesca que marcou grande parte da era do 11º Doutor, o roteiro de Moffat engenhosamente monta um drama de época que combina a tragédia da guerra com a esperança característica do período festivo (algo que tornaria a aparecer em seu último Especial de Natal, Twice Upon a Time). Tomando seu tempo para construir um vínculo entre o Doutor e Madge Arwell (Claire Skinner), que vem ao seu resgate após um “pouso forçado” desastrado na Terra, a narrativa constrói o Time Lord como uma figura de contos de fada que retorna para consolar a família em um momento de crise.

Tendo sabido há pouco da morte em combate de seu marido Reg (Alexander Armstrong), Madge se encontra na difícil posição de proteger seus filhos da notícia por tempo suficiente para não arruinar para sempre seu espírito natalino. Em seu resgate chega a figura que ela salvou algum tempo atrás (mas que não pôde reconhecer devido ao capacete usado ao contrário), sob a guida de Zelador da casa de férias de um parente.

Assim como comentei sobre David Tennant em The Next Doctor, algo que merece ser reconhecido aqui é o quão acertada é a construção dessa premissa em torno da versão do Doutor interpretada por Matt Smith. Apoiando-se muito bem na construção de sua personalidade e tonalidade de suas aventuras até então, o roteiro de Moffat mais uma vez demonstra o potencial do ator em vender seu inusitado ângulo de conto de fadas sobre Doctor Who.

Apesar do título referenciar mais obviamente As Crônicas de Narnia, a outra inspiração de peso do enredo na verdade é Mary Poppins, com nosso Time Lord titular apresentando-se como curador de um retiro natalino dos sonhos, desenhado especialmente para alegrar Cyril (Maurice Cole) e Lily (Holly Earl) e oferecer ajuda à agoniada e relutante Madge em segurar as pontas da família em sua atual situação. O grande ponto forte desse episódio, para mim, é justamente a apresentação do 11º Doutor como Zelador dessa mansão natalina. O papel é brilhantemente interpretado por Smith, que demonstra com total fascínio juvenil suas invenções como uma torneira de limonada e um quarto repleto de brinquedos (mas sem cama) para os pequenos. Esse misto de infantilidade genuína e inegável velhice é para mim uma das marcas dessa encarnação do Doutor, e é especialmente bem explorada aqui.

O desfecho disso tudo não inclui nenhuma ameaça alienígena, mas na verdade diz respeito à inevitável desobediência de Cyril em aguardar o momento certo para abrir o gigantesco presente deixado sob a árvore de Natal (quem nunca?), o que o transporta antes da hora para a viagem natalina planejada pelo Doutor para o planeta não-nomeado povoado por miraculosos pinheiros festivos naturais. A coisa já não soa tão promissora quando descobrimos que o Time Lord planejou a excursão para ocorrer durante (ou após, contando com a citada diferença temporal do portal?) a extração de carbono via chuva ácida, cortesia dos madeireiros de Androzani Major (sério, se eu fosse o Doutor em um dia ruim acho que eu ia descer o Time Lord Victorious para cima desses caras) e de seu terrificante mecha.

Infelizmente, desse ponto em diante o enredo acaba perdendo um pouco do momentum, rendendo-se a uma perseguição entre os três grupos no planejamento natalino, e um desfecho que não depende em nada das ações de nossos protagonistas, mas sim das misteriosas criaturas arbóreas nascidas dos ovos-enfeites de Natal. Esse desenrolar mais “contemplativo” se justifica internamente pelo roteiro e não deixa de fazer sentido na tonalidade proposta pelo episódio, mas acaba também nos privando de algum momento propriamente heroico de nossos protagonistas, já que não se trata de salvar as árvores do planeta natalino ou sequer de planejar uma fuga, mas sim de observar os eventos e “se virar” com eles na medida do possível.

Isso deixa as exposições do Doutor notadamente mais óbvias do que o normal, sabotando um pouco do efeito dramático da “fuga espiritual” das árvores, que partem em um genial efeito visual que referencia a tradicional estrela no topo dos pinheiros natalinos. Evocando a licença poética de poder se caprichar no otimismo e na esperança em um conto de Natal, a viagem acaba com um improvável resgate de Reg, uma vez que é para lá que a pilotagem de Madge os leva quando ela os tenta levar de volta para casa. Essa sacada, em si, é fantástica, mas acaba não aterrissando de forma tão contundente devido à maneira um tanto solta e apressada com que chegamos ali.

Ainda que repleto de momentos genuinamente encantadores e amarrando muito bem suas temáticas ao longo do episódio, The Doctor, the Widow and the Wardrobe acaba sofrendo um pouco de um problema que, de certa forma, é típico deste segundo ano de Steven Moffat como showrunner da série: um bom número de ideias interessantes que, costuradas de forma desigual entre si, acabam tendo que recorrer demais à exposição para se articular em termos de enredo. Ainda assim, é um Especial que, para mim, vale sempre ser revisitado, especialmente na época festiva!

Doctor Who: The Doctor, the Widow and the Wardrobe (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2011)
Direção: Farren Blackburn
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Claire Skinner, Maurice Cole, Holly Earl, Karen Gillian, Arthur Darvill, Alexander Armstrong
Duração: 59 min.

Crítica | Doctor Who: The End of Time – Part One

Doctor Who_ The End of Time - Part One plano crítico

Originalmente exibida no Natal de 2009, esta primeira parte do arco The End of Time teve como função preparar o terreno para a regeneração do 10º Doutor, após uma longa caminhada sozinho e várias especulações dos espectadores sobre em que momento viria de fato a morte do personagem de David Tennant para a entrada do já ‘odiado’ (como de praxe, em novos Doutores) Matt Smith. Mas há m detalhe que normalmente a gente se esquece no meio dessa grandeza e importância toda do episódio. Estamos diante de um Especial de Natal de Doctor Who! Um Especial de Natal onde a data esteve apenas como pano de fundo e absolutamente tudo no roteiro (aqui, de Russell T. Davies) foca em apenas uma coisa: construir o cenário para a futura morte do Doutor.

As duas cenas iniciais do episódio são ótimas. Primeiro temos o retorno do fantástico Wilfred Mott (Bernard Cribbins), que encontramos fazendo compras e o vemos lembrar-se de um pesadelo com o Mestre. Mais adiante ele se encontra com a misteriosa Time Lady interpretada por Claire Bloom e que tantas teorias suscita até hoje entre alguns whovians. No bloco seguinte, temos uma cena com o Doutor na Ood Sphere, em 4226. Esses dois ótimos momentos estabelecem um perigo maior que de fato teremos citado no episódio, mas eis aqui o meu primeiro grande problema com The End of Time – Part One: ele pouco vale como episódio solo, de modo que não faz sentido algum haver uma separação como Especial de Natal e Ano-Novo (partes 1 e 2). Como já disse, trata-se de um enredo de preparação. E quem dera que essa preparação valesse o tempo e a expectativa — a não ser que o espectador realmente se deixe levar pela tênue linha de costura com Rassilon falando ao longo do capítulo e aquela cena final, em plena Time War. Sim, tudo é grandioso. Épico. Música, intenção, exposição. Mas é uma cena, gente. Uma cena que não compensa as centenas de outras risíveis e irritantes cenas que temos aqui.

O veterano Euros Lyn assume a direção do episódio e procura fazer o máximo com os delírios quase super-vilanescos de Davies. Para isso, o diretor tomou muito cuidado com as cenas de ligação e afastamento dos personagens daquilo que seria o “misterioso problema” a ser trabalhado adiante. Vejam como momentos de caráter pessoal com os Oods e principalmente aquela soberba cena de David Tennant e Bernard Cribbins num café da cidade são conduzidas delicadamente, fazendo-nos sentir e não apenas observar aquilo que está acontecendo. Isso é importante para que o episódio não caia abaixo da linha média, porque é o que realmente parece que vai acontecer quando surge o plot de ressurreição do Mestre. Não há um único segundo envolvendo esse aspecto dramático que não seja ridículo. Não há preparação prévia para o ‘culto’ ao vilão e ainda assim eles conseguem saber o local da cremação, pegam o anel e conseguem recursos para reviver o renegado Time Lord. E vejam só, no meio do processo, Lucy praticamente tira da cartola um ~misterioso~ frasco contendo uma poção/antídoto que poderia impedir aquela abominação, tudo isso porque… wait for it… sua família tem contatos. Sim, isso é dito literalmente em um diálogo, do nada. Que morte horrível…

Daí para frente, a minha relação com o episódio é de uma irritação cortada por momentos de puro interessante pelo que poderia ser esta “outra coisa” que estava por vir. Já que o Especial de Natal é uma enganação barata em termos de motivação e que Davies resolveu transformar o Mestre num comilão energético que dá saltos gigantes e que tem até propulsão à la Homem de Ferro (Senhor Jesus…) chega um momento em que os eventos deixam de ser organicamente interessantes. Nossa atenção está mais jogada para o futuro, pelo mistério dos Time Lords e, claro, pela morte do Doutor. Mas notem que estamos falando de DW, então o elenco é fantástico, de modo que me dói ver alguém do porte de John Simm ter tão poucas cenas boas num episódio (os breves momentos dele com o Doutor, falando das batidas na cabeça, são poderosos) e o restante agindo de forma… bem… nomeiem vocês mesmos.

Na reta final o ritmo da trama fica cada vez mais intenso, a edição começa a mostrar um trabalho aplaudível e a trilha sonora não tem mais a intenção de se segurar. O clima criado é bom, mas o evento em cena… nem tanto. Por mais engraçado que seja o plano roubado/adaptado do Mestre, eu nunca consegui gostar dele de verdade. Pode-se pensar que Davies já fizera bizarrices piores (alô alô Love & Monsters!), logo, o evento dessa Parte 1 está condizente com a Era do showruuner. E sim, tudo isso é verdade. Mas a coerência de uma escolha dramática diante de uma tradição não torna o enredo que a contém automaticamente bom ou uma obra-prima, não é mesmo?

Poucas cenas impedem que The End of Time – Part One caia ainda mais em qualidade. No fim das contas, estamos diante de um Especial de Natal “desnatalizado” e de uma desculpa conceitual para segurar o 10º Doutor por mais um episódio no papel. Tsc tsc tsc… Por isso que eu prefiro o meu Especialzinho de Doctor Nárnia… (sim, podem soltar seus Daleks pra cima de mim, eu não ligo hehehehehe).

Doctor Who: The End of Time – Part One (Reino Unido, 25 de dezembro de 2009)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, John Simm, Bernard Cribbins, Timothy Dalton, Catherine Tate, Jacqueline King, Claire Bloom, June Whitfield, David Harewood, Tracy Ifeachor, Sinead Keenan, Lawry Lewin, Alexandra Moen, Karl Collins, Teresa Banham
Duração: 60 min.

Crítica | Doctor Who: The Snowmen

plano crítico the snowmen especial de natal doctor who

O contexto em que os eventos de Snowmen aparecem para o 11º Doutor é um contexto de luto. Em sua aventura anterior, The Angels Take Manhattan, o Time Lord havia perdido Amy e Rory, dois dos seus queridos companions de longa data. A carga emocional daquele episódio, o fato de o Doutor não poder fazer nada pelo que aconteceu e o tamanho do sentimento que ele tinha por Amy, o primeiro rosto que ele viu após a regeneração, fez com que se sentisse extremamente amargurado, enraivecido e até depressivo em certa medida. Então ele resolveu se aposentar e não ajudar mais a humanidade.

Muita gente tem os dois pés atrás com a escolha de Steven Moffat para o tratamento do Doutor nesse Especial de Natal, mas eu sinceramente não vejo discrepância alguma com a personalidade ou reação que este Doutor teria diante do acontecimento. Ele era um crianção no corpo de um homem muito velho, que teve o primeiro contato com uma criança que acabaria tornando a sua melhor amiga e que o acompanharia por muito tempo, mesmo depois de casada. E se a gente ainda somar o grau de parentesco que os Pond tiveram com o Doutor, é perfeitamente natural a reação enraivecida dele e a forma como ficou luto, sentimento que este Especial de Natal tem justamente o poder de ajudar a curar, colocando um mistério realmente interessante para o Doutor, um mistério encarnado por alguém que ele conhecera (ou melhor… ouvira) em Asylum of the Daleks.

As relações emotivas aqui são muito bem pensadas. A “novidade” na equação é uma personagem que surgiu quando ele ainda estava acompanhado de seus sogros e, como impulso condicional para o seu envolvimento, uma palavra certeira no jogo de “uma única palavra para me deixar interessado“: pond. E ainda há a atmosfera vitoriana muito bem trabalhada, com a presença da Paternoster Gang (Madame Vastra, Jenny Flint, Strax) que conhecêramos em A Good Man Goes to War. Mesmo que o espectador não tenha tido contato com o material que serve como prequel desse Especial (a saber, The Great Detective, Vastra Investigates: A Christmas Prequel, O Demônio na Fumaça e The Battle of Demons Run: Two Days Later), a sensação de familiaridade entre os personagens e a própria reclusão do Doutor justamente próximo a esses amigos se faz sentir no decorrer do capítulo, um ambiente que serve também como bem-vinda colocação de mais uma encarnação de Clara.

É interessante ver como Moffat realiza um fantástico entrosamento entre o Doutor e os personagens de seu núcleo e perde consideravelmente a mão na hora de conceber os antagonistas. Temos a sorte de contar com Richard E. Grant e a voz de Ian McKellen como vilões (Dr. Simeon e a Grande Inteligência, respectivamente), mas chega um momento em que o plano parece bobo demais para o poder desses atores e pelo pavor que os bonecos de neve representavam inicialmente. Dr. Simeon passa o tempo todo coletando amostras de neve e a Grande Inteligência parece se esquecer de quem é de fato, ou seja, a receita perfeita para que uma grande ideia acabe se tornando apenas um surto vilanesco, cujo principal objetivo não é ser combativo pelo Doutor, mas para dar suporte à série para desenvolver outras coisas. Esse é um recurso comum em shows de caráter procedimental, mas quando a gente vê acontecer no nosso quintal, incomoda bem mais do que deveria.

O Doutor com um mapa do metrô de Londres datado dos anos 60 (referenciando The Web of Fear) e Simeon sugerindo que Arthur Conan Doyle se inspirou em Madame Vastra para criar Sherlock Holmes são pontos conceituais que ajudam prender a atenção do público, assim como a fenomenal interação entre Matt Smith e Jenna Coleman. Os dois juntos são realmente incríveis e Moffat já tinha aqui o cuidado de fazer com que Clara, mesmo nessa versão vitoriana, acompanhasse o Doutor em raciocínio, fosse sagaz, assumisse riscos e gostasse realmente de uma aventura onde as coisas não são facilmente explicáveis. É encantador ver tudo isso. E por estes bons motivos é que The Snowmen consegue se mostrar melhor no final, com o Natal aparecendo como uma data de esperança, mesmo frente a uma tragédia. É a partir desse intrigante momento que o Doutor consegue ânimo para olhar de novo o mundo à sua volta, sair do luto e buscar respostas para aquela que logo logo ganharia o título de “garota impossível“. Quem era Clara Oswald?

Doctor Who: The Snowmen (Reino Unido, 25 de dezembro de 2012)
Direção: Saul Metzstein
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Jenna Coleman, Tom Ward, Richard E. Grant, Catrin Stewart, Neve McIntosh, Dan Starkey, Joseph Darcey-Alden, Ellie Darcey-Alden, Liz White, Jim Conway, Cameron Strefford, Annabelle Dowler, Ben Addis, Sophie Miller-Sheen, Ian McKellen
Duração: 60 min.

Crítica | Doctor Who: The Time of The Doctor

plano crítico the time of the doctor especial de natal

Rever este Especial de Natal para escrever a presente crítica me trouxe um turbilhão de lembranças. Parte da linha de produções comemorativas em torno dos 50 anos da série (trajetória composta por The Name, The Night, The Day e este The Time of the Doctor), o episódio veio com uma responsabilidade enorme, que era a de nos trazer a regeneração do Doutor, mas mais do que isso, uma explicação para a mudança da regra de 12 regenerações. Na época isso trouxe inúmeras dúvidas e chegou um momento em que era irritante ver espectadores que simplesmente pareciam não querer entender o que estava acontecendo. Pior que nem era algo absurdo assim, pois o Mestre, um dos vilões já conhecidos mesmo por quem só acompanhava a Nova Série, já tinha manipulado e burlado esses sistema inúmeras vezes. Retávamos saber como isso se daria com o Doutor.

Gosto muito mais do episódio agora do que quando o vi pela primeira vez e a diferença vem justamente no peso que dei para os pontos negativos do episódio no passado e o peso que dou para os mesmos pontos agora. Ainda olho com certa desconfiança para a segunda metade, quando Trenzalore começa de fato a ser invadido — porque na minha visão o estrago deveria ter sido bem maior e não acredito que o Doutor, com tão poucos recursos e possibilidade reduzida ou nula de contra-ataque e defesa teria durado tanto tempo –, mas agora consigo ver isso como um problema mais leve, o que por tabela traz uma série de outras relações que não tinha antes, como gostar de Tasha Lem… exceto na parte final, com ela já dominada por um Dalek e sendo redimida por uma provocação do Time Lord. Isso realmente nunca melhora, nem quando eu quero brincar de fanfic e jogo com aquela teoria de que Tasha é na verdade a 4ª regeneração de River Song.

Steven Moffat conseguiu criar um ponto final realmente aplaudível para o 11º Doutor, pelo menos na apresentação de todos os elementos para o drama. Primeiro, a mensagem misteriosa em torno de Trenzalore, um planeta diante do qual uma antiga profecia (no Universo e para nós também!) reinava. Depois, a rachadura no espaço-tempo como uma cicatriz reaberta lá da 5ª Temporada. E por fim, a ideia de um lugar que seria o túmulo do Doutor, o lugar onde o silêncio iria cair. Eu gosto muito quando qualquer mídia que trabalha durante muito tempo personagens dentro de um Universo usa de forma inteligente os signos, símbolos e pistas da própria jornada para tornar as coisas melhores, que é exatamente o que o showrunner faz aqui, e sem precisar de muito esforço em setores que normalmente causam problemas para alguns episódios de caráter épico: justificativa para o acontecimento e motivação para o protagonista intervir. Aqui em The Time of The Doctor o Doutor já começa na órbita do planeta e tanto a justificativa quando motivação para isso se tornam ainda melhores com o passar dos minutos.

Daí o roteiro brinca com o que tem em mãos, apresentando-nos Handles (que depois me faria chorar, por sua partida) e o ponto natalino de fato, com Clara entrando na história a partir de alguns problemas durante o almoço de Natal, que também exigia um namorado. Gosto de todas as brincadeiras — mesmo aquela bobinha do peru assando na TARDIS… e se você perguntar pra mim, aquela cor que ele saiu não é cor de peru assado nem aqui nem em Trenzalore! E mais: tinha só aquilo de batata na forma? Como assim? — e da maneira fluída com que o texto passa para os assuntos mais sérios, deixando os trocadilhos e risos de lado para colocar a ameaça em cena. Tecnicamente falando, tudo colabora para que esse primeiro momento dê certo e o diretor Jamie Payne não se furtou em criar planos que nos mostrem ou indiquem coisas que nos fazem sorrir em diversas cenas. Os problemas começam a acontecer quando o Doutor e Clara chegam no planeta e são recebidos por uma porção de Weeping Angels, o que me pareceu só um fanservice bobo. E quanto a esse aspecto, criticamente falando, eu também deveria dizer que o Cybermen de madeira foi um fanservice bobo, mas não vou dizer porque… gente, era um Cybermen de madeira! O quão sensacional é isso?

Os 900 anos que o Doutor passa em Trenzalore colocam-no em contato bem próximo com a população local — especialmente em Christmas — e o texto cria um cenário bonito de proteção, dialogando bem com o Natal ao fazer com que o Doutor fosse, em última medida, uma espécie de Papai Noel que mantinha todos vivos. Infelizmente o episódio não mostra nenhuma ação mais sólida do Doutor ou mesmo da Church of the Papal Mainframe para lidar de outra maneira com toda a situação. Sim, eu entendo o apelo de tudo isso, mas penso que seria mais interessante ver uma mente como a do Doutor trabalhando em alternativas do que as idas e vindas de Clara. Ainda assim, consegui aproveitar bem mais toda a história dessa vez, a despeito de seus problemas no meio do caminho — sendo o último aquela exibição ridícula do Doutor destruindo as naves Daleks com a força da regeneração. Eu sei que é sempre muita energia e que ela é expelida de qualquer forma, eu sei disso, eu assisto Doctor Who! Mas convenhamos, dava para usar o mesmo recurso sem ter aquela giradinha de braço horrorosa, vai…

A sequência final do episódio — da qual um recorte em elipse seria retomado de maneira meio brega, mas não menos emocionante e interessante em Deep Breath — é um primor. Payne mantém a mesma abordagem poética com que dirigiu todas as cenas com crianças e desenhos e brinquedos no episódio e Moffat capricha na despedida. Por mais que eu ame o glorioso Capaldão, quem vence o campeonato de melhor discurso de despedida até o momento (2019) é o 11º Doutor, não tem jeito. Sem se tornar um melodrama e sem querer parecer frio, o discurso está perfeitamente condizente com essa fase de mudanças para o personagem, afinal, a vida dele foi estendida para além do que naturalmente sua espécie foi designada! Ele ganhou um ciclo regenerativo inteiro de presente e comparando o que acabara de passar com todo o longo futuro que tinha pela frente, tal discurso cai como uma luva. E melhor: consegue ser aplicado a cada um de nós também. Uma despedida muito bonita, com direito a um cameo de Amy, em um Especial de Natal que traz a ideia de renovação e, acima de tudo, de funcionamento do ciclo da vida.

Doctor Who – The Time of the Doctor (Reino Unido, 25 de dezembro de 2013)
Direção: 
Jamie Payne
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Jenna Coleman, Peter Capaldi, Karen Gillan, Orla Brady, James Buller, Elizabeth Rider, Sheila Reid, Mark Anthony Brighton, Rob Jarvis, Tessa Peake-Jones, Jack Hollington, Sonita Henry, Kayvan Novak, Tom Gibbons, Ken Bones, Aidan Cook
Duração: 60 min.

Crítica | Doctor Who: Last Christmas

Fechando o primeiro ano de Peter Capaldi na pele do 12º Doutor, Last Christmas acabou sendo o meu Especial de Natal favorito estrelando essa encarnação do Time Lord. Provavelmente ele já inicia a corrida na vantagem ao trazer vários dos ingredientes que eu considero essenciais para um bom episódio do tipo: cenários e temas festivos utilizados ao ponto da breguice, temáticas sentimentalistas e reflexivas para combinar com a época, a participação em carne e osso (ou quase) de Papai fucking Noel (Nick Frost) — claro, devidamente munido de um arsenal de armas natalinas… Sério, o que mais se pode esperar de um especial festivo?

Bem, aí é que entram alguns fatores de “desempate”: que tal pontuar com algumas homenagens a grandes clássicos da ficção científica em uma trama excepcional, dar sequência diretamente ao arco de personagem dos protagonistas após o season finale e embalar tudo com a gloriosa presença destacada de “Merry Xmas Everybody”, do Slade, na trilha sonora incidental?

Retomando os ganchos deixados pelo season finale anterior de forma um tanto inusitada, iniciamos o episódio com uma reunião que acaba acontecendo antes do que se poderia esperar — e em condições ainda mais inimagináveis. Minutos após receber a visita do Papai Noel em sua casa, Clara Oswald (Jenna Coleman) vê a TARDIS se rematerializar novamente pela primeira vez em muito tempo, e é levada por um Doutor particularmente fora de espírito festivo para investigar uma crise em uma base de pesquisas no Polo Norte. A dupla chega a tempo de descobrir um ataque em curso de criaturas grotescas: os Dream Crabs, espécie de facehuggers que digerem os cérebros de suas vítimas lentamente. Com metade da equipe já comprometida, nossa dupla de protagonistas precisa encontrar a forma certa de derrotar esses alienígenas antes que seja tarde — e, por algum motivo, o Papai Noel pode ser a chave para obter as respostas!

Lembro-me que, quando anunciado o tema do episódio, não me empolguei muito com a ideia — um Especial de Natal onde nossos heróis tem que ajudar o Papai Noel a salvar o Natal? Eu provavelmente já estava cansado desse clichê quando toda minha referência sobre o assunto eram meia dúzia de gibis da Turma da Mônica! No entanto, logo fui provado errado: abrindo com a excelente renderização do Papai Noel de Nick Frost e seus ajudantes élficos Dan Starkey e Nathan McMullen, que em nenhum momento se preocupam em exagerar demais na galhofagem, temos uma troca de tonalidade notável após o tom melancólico do final de temporada anterior. Ainda que sem botar muita fé, a abertura já nos estimula e faz a ponte para um reencontro que, não fosse assim, provavelmente soaria forçado e anti-climático. O trio continua a roubar a cena e fazer valer a investida na ideia a cada aparição em tela, e a revelação sobre sua real natureza acaba sendo muito bem justificada pelo elemento onírico que vai se tornando central na trama.

E aí entra outro ponto forte do episódio: os terrificantes Dream Crabs. Sua particularidade é mais uma das invenções do horror psicológico simples e eficiente de Steven Moffat: desprovidos de qualquer tipo de receptores sensoriais, mas com imensos poderes psíquicos, o método de caça dos alienígenas consiste em tomar como alvo toda e qualquer representação mental deles. Conforme sumariza o Doutor: “Se você pensou em um Dream Crab, então há um Dream Crab chegando mais perto de você!”

A produção consegue brincar muito bem com a troca brusca de tonalidade, mantendo sempre a qualidade: da bravataria do Doutor com o Papai Noel para um clima bem construído de horror/sci-fi no centro de pesquisas para então, bem no meio da imersão, reencontrarmos o Bom Velhinho. Depois disso tudo, temos tempo ainda para um epílogo emotivo que explora o próximo passo da relação entre o Doutor e Clara — nada mal para um único episódio!

A prova da boa construção do roteiro é que, mesmo se apoiando fortemente em um plot twist principal, a trama se mantém interessante mediante novas revisitações. Na verdade, trata-se do tipo de história que é ainda mais legal de se acompanhar com o benefício de saber mais sobre o que se está passando. Às referências a elementos de Alien e O Monstro do Ártico, citados diretamente em tela, se somam a um caos onírico de fazer inveja a A Origem e brinca com vários dos elementos do enredo de forma astuta e interessante. Não se trata do plot twist pelo plot twist, mas do tipo de surpresa que intriga e contribui tanto com a trama quanto com os arcos pessoais dos personagens.

O showrunner novamente se mostra particularmente habilidoso no delineamento desse tipo de premissa onde se coloca em suspensão a “confiabilidade do narrador”, coisa que pode até parecer simples quando bem executada, mas não é. Revisitando o episódio agora, notei que o 12º Doutor, em especial, acabou contando com excelentes histórias do gênero, notadamente nos excelentes Sleep No More e Extremis.

Essa combinação se prova promissora em termos do estilo dessa encarnação do Doutor, que adota uma postura mais pré-emptiva e investigativa em relação às ameaças do que é tradicional para o personagem. Convenhamos: mais do que um andarilho espaço-temporal, o 12º é um Time Lord com ansiedade que passa horas (dias?) dentro de sua TARDIS hipotetizando sobre os métodos de caça do predador perfeito! Ou seja, acompanhá-lo na investigação desses cenários é divertido do início ao fim, já que sua impaciência crescente revela não só a antissociabilidade divertida que lhe é característica, mas também o entusiasmo e a paixão por compreender o que se passa, mostrada da forma mais sincera possível.

Ou seja, a trama é um prato cheio para essa versão do personagem, e Capaldi entrega aqui o mesmo espetáculo à parte de sempre, com um jogo muito bom contra personagens como os já citados Papai Noel e Clara, mas também com o elenco de cientistas excêntricos da base de pesquisas, dentre os quais o grande destaque acaba sendo Shona (Faye Marsay). Lembro que na época da exibição torci demais para que a personagem retornasse como companion na próxima temporada, fosse substituindo Clara, fosse adicionando-se ao “time da TARDIS”.

Eu não era fã da Clara desde a introdução da personagem, e acho que a relação dela com o 12º Doutor, embora contasse com seus elementos bacanas, acaba sofrendo pelos momentos ruins da personagem. Que a cena final tenha me feito ficar feliz pela reviravolta que a manteve na série (apesar do sonho inicial ser uma belíssima cena de despedida para  a companion) atesta a favor da qualidade do momento em vender o lado bom da personagem para um de seus detratores.

Por fim, o capítulo encontra espaço ainda para fazer algo que sempre acho muito legal de se ver em Doctor Who: a quebra da quarta parede e a exploração metalinguística com o caráter fictício das aventuras do Doutor. A divertida bravata entre o Doutor e o Papai Noel retoma esse traço, visto mais recentemente em Robot of Sherwood e explorado mais a fundo no clássico The Mind Robber. Se tem um personagem fictício que se dá bem com esse tipo de brincadeira é justamente o Doutor! E, na verdade, nada mais justo que aconteça aqui, já que tecnicamente a primeira quebra da quarta parede da série provavelmente se deu no episódio The Feast of Steven, quando William Hartnell decide, do nada, desejar aos espectadores em casa um Feliz Natal!

Last Christmas aposta em uma mistura eclética de estilos e tonalidades e sai vencedor em todas as frentes, tomando seu tempo para explorar suas premissas de forma envolvente e apoiando-se na combinação sem falhas de um roteiro inventivo, direção sólida e elenco excelente para entregar o que se tornou, com o tempo, meu segundo especial natalino favorito da série, apenas não batendo o sensacional A Christmas Carol.

Doctor Who: Last Christmas (Reino Unido, 25 de dezembro de 2014)
Direção: Paul Wilmshurst
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Nick Frost, Samuel Anderson, Dan Starkey, Nathan McMullen, Faye Marsay, Natalie Gumede, Maureen Beattie, Michael Troughton
Duração: 60 min.