De Niro

Crítica | Star Trek: Picard – 1X01: Remembrance

A nova Era de Ouro das séries de TV, turbinada pela entrada pesada de um sem-número de concorrentes que, seguindo o modelo do Netflix, querem oferecer conteúdo próprio via streaming, tem provocado uma garimpagem sem paralelo por material para ser adaptado, o que é sempre uma boa notícia, já que potencializa a existência de obras que de outra maneira permaneceriam esquecidas. O outro lado da moeda é que a estratégia tipicamente hollywoodiana de se reciclar e ressuscitar propriedades que já carregam um público cativo embutido e que, portanto, reduzem o risco, vem sendo também empregada com força.

A CBS, proprietária da franquia televisiva Star Trek, usou Star Trek: Discovery como o principal veículo de divulgação de seu serviço de streaming CBS All Access e, navegando nesse sucesso, agora expande ainda mais seus produtos baseados na imortal criação de Gene Roddenberry com Star Trek: Picard, tirando da aposentadoria o almirante Jean-Luc Picard, capitão da Enterprise na sensacional e longeva Star Trek: A Nova Geração, que foi ao ar entre 1987 e 1994 e também em quatro longas. Muito diferente de Discovery, que partia de material substancialmente inédito dentro desse universo, a nova série tinha o desafio de equilibrar o legado de Picard, o que significa, claro, uma cuidadosa contextualização e a apresentação de uma nova história que efetivamente justificasse sua existência, algo tão esquecido em obras que são trazidas à vida depois de tanto tempo no limbo.

De certa maneira, o roteiro de Akiva Goldsman e James Duff para Remembrance, que partiu de história dos dois e também de Michael Chabon e Alex Kurtzman, mostra um pouco de sofreguidão em ter certeza de que os desafios que mencionei acima seriam ultrapassados com sucesso, o que acaba deixando o episódio razoavelmente tumultuado e carregado tanto de informações pregressas para trabalhar o espaço temporal entre praticamente o final de Nêmesis e o começo da temporada quanto de informações que servem para armar a estrutura do que está por vir. É decididamente algo difícil de se fazer, especialmente quando lembramos que os roteiristas precisaram dar conta de 18 anos de Jean-Luc Picard longe das telas, período que inclusive introduziu a chamada linha temporal Kelvin, inaugurada pelo filme de 2009.

Tenho para mim, porém, que Goldsman e Duff mais acertaram do que erraram e isso fundamentalmente porque eles se mantiveram firmes em uma linha mestra que está muito clara no título escolhido para a série: Picard. No lugar de inventarem uma história exógena ao personagem, a dupla de roteiristas criaram algo que efetivamente parte do amado personagem vivido por Patrick Stewart. Não que a história comece em razão de Picard, mas sim porque toda a narrativa parece estar profundamente amarrada na mitologia do personagem. Não só o androide Data (Brent Spiner), que se sacrificou por seu capitão em Nêmesis é fundamental para esse pontapé inicial – e, suspeito, para muito mais do que apenas isso – como toda a conexão de Picard com seres cibernéticos, inclusive sua “possessão” pelos Borgs, é premissa narrativa para o que se desenvolve aqui.

No entanto, o espectador que não conhece a história de Picard não é esquecido e essa é uma das razões pelas quais há uma fatia razoável de tempo dedicado a contextualizações, o que inevitavelmente leva a textos expositivos, inclusive com o uso do artifício de uma entrevista com o almirante aposentado em sua vinícola na França que funciona tanto para afirmar sua importância, como para apresentar os grandes eventos nesse intervalo temporal: Romulus, planeta natal dos romulanos, foi destruído (esse evento é o que “cria” a linha temporal Kelvin e que ejeta o Spock Prime para o outro universo) e Picard largou o comando da Enterprise para ajudar nos esforços de evacuação, somente para que sintéticos sabotassem os esforços, transformando Marte – planeta que estava recebendo os romulanos – em um inferno e levando a duas decisões da Frota Estelar, a proibição da criação de androides e o fim das missões de resgate. Picard, discordando das decisões, aposentou-se.

Esse é o contexto. A história em si da nova série envolve a misteriosa chegada da jovem Dahj (Isa Briones) que, depois de um atentado a sua vida que revela que ela é muito mais do que aparenta ser, procura a ajuda de Picard, rosto que ela vê em sua mente e com quem sente uma conexão imediata, o mesmo acontecendo do lado do aposentado octogenário. O compasso de conexões com o passado se intensifica com Picard, conscientizando-se de que relaxar em um vinhedo não é a vida que ele realmente quer mesmo nesse estágio avançado de sua carreira, partindo para tentar descobrir quem exatamente é Dahj. Nesse processo, muita coisa acontece – ainda que a ação em si não seja constante, ainda bem – e a construção de universo que o roteiro faz ganha corpo exponencialmente e amarra passado, presente e futuro por meio de pesadelos, artefatos e revelações bombásticas.

Patrick Stewart continua mostrando vigor mesmo na terceira idade e a direção de Hanelle Culpepper não poupa o ator de close-ups, demonstrando que não há vergonha alguma em deixar evidente a passagem de tempo. Até mesmo Brent Spinner como Data não tem sua idade apagada como em tese deveria ter por razões óbvias, ganhando breves, mas significativas participações que respeitam seu personagem, mas não se preocupam em mascarar o que não precisa ser mascarado com CGI ou mesmo maquiagem mais pesada ainda. E, melhor ainda, o roteiro não transforma Picard em um super-herói atlético, o que parece ter sido a razão principal para os poucos momentos de ação pura, com o cuidado de mostrar o almirante aposentado mal conseguindo subir escadas. Se é para trazer de volta personagens que deveriam ter 80 ou 90 anos, nada de fingir que eles têm 60 ou 50. Além disso, Star Trek nunca foi necessariamente afeita à pancadaria incessante – Discovery e a linha Kelvin são exceções bem-vindas, mas que deveriam permanecer como exceções – e Picard, nesse aspecto, é mais old school.

Mas o CGI existente, basicamente focado em dar vida às cidades – é particularmente bacana ver Paris – é muito eficiente e cumpre sua função. Não chega a ser espetacular principalmente porque a série ainda não exigiu isso da equipe criativa, mas há potencial para que ele seja do excelente nível de Discovery assim que a ação for levada ao espaço.

Claro que as referências estão em todos os lugares, da música de abertura, passando pelo chá earl grey, até o nome de seu cachorro, mas, diferente de fan services vazios que são a praga de muitas produções atuais, aqui eles carregam significado e lógica. Claro que há exageros aqui e ali, mas não é nada que interfira na narrativa ou que pareça ter sido construído para que determinada referência exista, isso se o espectador aceitar que a narrativa que parte das características pessoais de Picard, como mencionei acima, não são fan services, pelo menos não da forma como eles são usualmente utilizados.

A 8ª série da franquia Star Trek definitivamente começa com o pé direito e, mesmo que não necessariamente vá para onde nenhuma outra série jamais esteve, pelo menos mostra que esse vasto universo tem ainda muitas boas histórias para serem contadas. E se isso significa que relíquias do passado precisam ser reviradas e reaproveitadas na febre de se conseguir material para ser adaptado, então que assim seja.

Star Trek: Picard – 1X01: Remembrance (EUA, 23 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman, James Duff (baseado em história de Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman e James Duff)
Elenco: Patrick Stewart, Isa Briones, Alison Pill, Brent Spiner, Orla Brady, Jamie McShane, De Niro
Duração: 44 min.