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Crítica | The Vampire Diaries – A Série Completa

the-vampire-diaries-plano crítico diário de um vampiro CW

Não existe algo que seja uma má ideia. Apenas ideias incríveis mal executadas.

 Damon

Dizer que a CW é a emissora mais predatória do mundo da TV é uma redundância inegável, até quem gosta de suas “formulinhas” de sucesso baratas tende a reconhecer a infinitude de problemas relacionados à extensão de seus seriados pelo máximo de tempo possível para que eles tenham audiência. Dito isso é desconsiderando esses problemas nos quais “TVD” (sigla para The Vampire Diaries) também se enquadra, é possível encontrar nas nuances de suas obras o mínimo de caracterização e personalidade que justificam o fato de elas serem tão bem-sucedidas em público. Grande parte desses méritos está na triangulação de seus personagens. Junto a Supernatural, talvez essa seja a série da CW com a gama mais carismática de estereotipações em constante transformação. 

Os irmãos Salvatore movimentam diferentes conflitos ideológicos que modificam o universo “high school” dos adolescentes. É uma maneira eficiente de se introduzir o universo para o público-alvo, que queria ver seu colegial ameaçado por criaturas mitológicas vestidas de belos marmanjos bonzinhos ou “anti-heróis”. Mesmo sem intenção, esse ar canastrão dos embates familiares e/ou adolescentes funciona dentro da falta de planejamento, onde o passado convenientemente aparece com justificativas e ao mesmo tempo instaura novos conflitos com a máxima urgência para terem que “pular” logo para o próximo. Claro que essa escolha dá uma tremenda irregularidade à narrativa, que não tem uma unidade se não a assumidamente episódica, várias subtramas espalhadas em 22 episódios ao longo de 8 temporadas, com alguns arcos bons e um senso consequencial até surpreendente (como o da Vicky, a primeira com quem Stefan sai da racionalidade), e outros são completamente sem noção (Silas, Os Viajantes, Kai…).

O que importa na real não é a história, mas como seus personagens se comportam nela. É um seriado de desventuras novelescas que, ao menos no início, era inegavelmente cativante dentro de sua proposta. As 3 primeiras temporadas tentavam não ficar na zona de conforto de ser apenas o que seus estereótipos diziam, buscando amplificar a escala em detrimento da evolução dos personagens. O elenco, por ser sempre bem empenhado, quando tinha mais material para trabalhar sabia entregar bem essas transmutações radicais da narrativa. Uma bela demonstração disso é Nina Dobrev, segurando Elena e o alter-ego Katherine numa dosagem equilibrada entre o sem sal de uma e a galhofa de outra, e logicamente Paul Wesley e Ian Somerhalder, convincentes até no piloto automático nos finalmentes da série, dos momentos mais sombrios e “bonzinhos” dos vampiros. 

Lógico que mesmo nessas boas temporadas, existia a cota gordurosa de enrolação, pegando como exemplo a narrativa “Os Originais”, possivelmente a mais memorável na cabeça do fandom (tanto que rolou série spin-off depois somente sobre eles), até essa teve seus desvios nada convincentes de percurso. Elijah com sua elegância ameaçadora introduz bem essa narrativa, que na crescente promete a chegada de um tal de Klaus como o grande vampiro supremo, e quando mostrado pela primeira vez, vem ao mundo através de uma troca de hospedeiros (isso é coisa de vampiro?), barganhando por um artefato que não leva nem ele nem os mocinhos a cumprirem seus objetivos. Leva um tempo para ele se transformar no grande vilão da série, manipulador e ao mesmo tempo de ego frágil, temperamento explosivo e decisões instintivas que pedem constantemente para a narrativa inventar soluções criativas para lidar com um ser basicamente imortal. 

E mesmo assim, todos esses desafios impostos por Klaus (ou qualquer outro vilão) no fim não levam a grandes consequências. Geralmente os conflitos viviam de barganhas eternas para manter o personagem por maior tempo possível, consequentemente gerando diversas soluções preguiçosas e anticlimáticas de roteiro, criando ganchos para resolver pendências em outros momentos. Aliás, esse é um enorme problema da série, que prefere propor desvios e novos elementos de universo ao invés de resolver o que estava sendo articulado nos momentos decisivos, inchando escandalosamente a duração já desgastante. Isso só piora nas temporadas seguintes, com o agravante do “morre e não morre”, quando os personagens que deveriam ter tido seu adeus vão embora, os demais ao seu redor sofrem pelo acontecimento, mas alguns episódios ou temporadas depois, eles retornam se não à vida, com alguma pontinha para fornecer uma despedida conveniente.

TRECHO COM SPOILERS

Isso é repetido à exaustão com basicamente toda a gama de secundários, com raras exceções, inclusas num pacote de falta de peso, já que durante a assistida, a possibilidade de retornarem era altíssima. Tanto que nas 8 temporadas houve ao menos 5 conceitos do “além” introduzidos só para conseguirem resgatar personagens através da magia que insere uma nova regra sempre quando precisa. Primeiro eles funcionavam como almas soltas que alguns poderiam ver, depois passaram a fazer parte de um mundo inteiro ao qual alguns bruxos tinham acesso, mas aí na 5ª temporada esse entra em colapso com Bonnie (que já tinha morrido e foi ressuscitada) e Damon dentro, levando-os para uma dimensão de espaço-tempo, mas incrivelmente só eles foram, o restante dos mortos? Iriam para onde? Nem eles sabiam, aí na última temporada, criam um inferno e um céu para meterem o próprio diabo (de nome Cade) como vilão ultimato, sendo que para conseguirem derrotá-lo, eles inventam que o inferno dele é uma fenda própria, que Bonnie consegue abrir uma igual para adquirir a capacidade de derrotá-lo e impedir a morte de Damon. Mas logo no capítulo seguinte, Katherine volta dos mortos com a desculpa de ter que assumir esse inferno anterior do Cade, no qual ela e os outros personagens do outro mundo mencionado estavam desde o início, ou seja, qual o sentido de Bonnie e Damon terem ido para aquela outra dimensão e os outros para o inferno? Pois é, nenhum.

FIM DOS SPOILERS 

Claro que não dá para cobrar tudo fechadinho de uma série desse porte com tal proposta, mas acho que o mínimo de organização de conceitos deveria existir. Porque existem outras bizarrices, como a inserção de sereias e híbridos de lobisomem e vampiro que funcionam com coesão no universo. Nesse sentido, os romances se saem melhor, a formação de casais se difere muito ao longo do tempo, mas com as devidas ressalvas, boa parte obedece à situação atual em detrimento do histórico das personalidades, embora não sejam muitos aqueles que têm uma química funcional. O bom dessas mudanças constantes é que a série passeia entre diferentes dilemas, tanto familiares quanto de relacionamentos, o que não deixa outros elementos repetitivos como as musiquinhas melosas ao final de cada episódio ou diálogos extremamente expositivos (é sério, só ver quantas vezes algumas frases como “porque você é meu irmão”, “ele desligou a humanidade”, entre outras são repetidas) se tornaram tão cansativos. 

Contudo, infelizmente não tem jeito, mudar tanto e tantas vezes dentro de um mesmo modus operandi em 171 episódios pesa demais. Numa projeção de 5 a 6 temporadas, com 10 ou no máximo 13 capítulos cada, retirando toda a gordura e arcos irrelevantes, distribuindo melhor o orçamento, não tenho dúvidas de que existiria material para render uma grande série. Exemplifico com a última temporada de apenas 16 episódios, que embora não seja a favorita de muitos e tenha uma sequência de falhas cumulativas das outras, particularmente, pelo menos até o episódio 14 era a mais bem orquestrada por saber impor sua personalidade OBJETIVAMENTE e por estar no leito do fim, se dispôs a arriscar mais. Uma pena que o protocolo da CW colocou novas amarras tão covardes nos dois capítulos finais para fechar simpaticamente que acabou manchando o legado da temporada. Enfim, no balanço geral é uma jornada longa, pouco recompensadora, mas tampouco esquecível graças a grandes momentos, que para o público-alvo, feminino de 15 anos que cresceu assistindo, falaram mais alto que sua inegável irregularidade.

Diários de um Vampiro (The Vampire Diaries, CW/EUA – 2009/2017)
Criadores: Kevin Williamson e Julie Plec
Principais diretores: Chris Grismer, Joshua Butler, Marcos Siega, Kellie Cyrus, Michael Allowitz, Pascal Verschooris, J. Miller Tobin, John Behring, Jeffrey Hunt, Rob Hardy, Lance Anderson, Leslie Libman e Paul Wesley
Principais roteiristas: Caroline Dries, Brian Young, Julie Plec, Rebecca Sonnenshine, Brett Matthews, Kevin Williamson, Melinda Hsu Taylor, Neil Reynolds, Michael Narducci, Andrew Chambliss, Chad Fiveash, James Stoteraux, Holly Brix, Elisabeth R. Finch, Barbie Kligman e Evan Bleiweiss
Elenco principal: Paul Wesley, Ian Somerhalder, Nina Dobrev, Candice King, Kat Graham, Zach Roerig, Matthew Davis, Steven R. McQueen, Michael Trevino, Michael Malarkey, Marguerite MacIntyre, Joseph Morgan, Claire Holt, Sara Canning, Susan Walters, Daniel Gillies, Malese Jow, Kayla Ewell e David Anders
Duração: 43min (cada episódio) – 8 temporadas (22 episódios cada, com exceção da última com 16, totalizando 171) – Baseada na série de livros de mesmo nome escrita por L. J. Smith.

Crítica | Breaking Bad – 2ª Temporada

  • spoilers. Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Breaking Bad.

Mesmo com os problemas trazidos pela greve dos roteiristas de Hollywood que acabaram levando ao encurtamento da 1ª temporada, Vince Gilligan fez, lá, um trabalho memorável de preparação de terreno. E, exatamente um dia antes de completar um ano da exibição do último episódio da temporada inaugural, Breaking Bad voltava à televisão para seu primeiro ano efetivamente completo, com todos os treze capítulos inicialmente planejados.

Usando um enigmático – e, quando completado, absolutamente incrível – artifício de enquadramento da temporada com um trágico evento futuro que tem o condão de deixar muito claro que toda ação tem consequência e, pior, que toda a violência tem consequências violentas, a 2ª temporada da série desenvolve seus personagens com muita cadência e lógica ao mesmo tempo em que introduz todos os demais grandes jogadores que permitirão o completo desabrochar da obra: o Hector Salamanca de Mark Margolis, a Jane Margolis de Krysten Ritter, o Saul Goodman de Bob Odenkirk, o Gustavo Fring de Giancarlo Esposito e, finalmente, o Mike Ehrmantraut de Jonathan Banks, com apenas Jane sendo instrumento narrativo restrito a essa temporada em específico, ainda que as consequências de sua existência reverberem drasticamente até o final de tudo. E o melhor é que todas essas peças móveis, que Gilligan realmente não tem pressa de introduzir e desenvolver, entram na narrativa macro de maneira lógica, sem que os magníficos roteiros precisem fazer muito malabarismo para introduzi-las.

Começando exatamente do ponto em a temporada inaugural parou, descobrimos que o espancamento de N0-Doze por Tuco levou à morte de seu capanga, somente para a amplificação do horror de Walt e Jesse que, ato contínuo, passam a temer por suas vidas. Esse é o gatilho para o encadeamento de eventos que culmina com o doloroso assassinato – sim, assassinato – de Jane, explicando as misteriosas sequências quase que totalmente em preto e branco que iniciam a temporada e que são salpicadas ao longo dela e que envolvem um urso de pelúcia rosa todo chamuscado e sem um olho, além de corpos em frente à casa da família White.

A conexão de eventos é belíssima e muito bem planejada, começando pelo plano de Walt de matar Tuco com veneno, algo que já coloca o protagonista em outro patamar completamente, deixando de vez de ser apenas um professor de química com câncer fazendo de tudo para deixar dinheiro para sua família para ser algo mais, ainda a essa altura não completamente definido, mas vislumbrado pelo uso de sua persona de Heisenberg e pela maneira estupenda quando a câmera enquadra o rosto dele em situações extremas, revelando um misto de raiva incubada com um prazer vilanesco que assusta qualquer um (Bryan Cranston está tão incrível que elogiar é chover no molhado), especialmente Jesse. O arco de Tuco acaba tendo um encerramento apoteótico que envolve a campainha de Hector Salamanca (um personagem sem voz, que mal se mexe, mas que é mais intenso e perfeito que muito vilão por aí), a chegada providencial de Hank procurando Walt e um tiroteio um tantinho conveniente demais em que o agente da DEA sai sem ferimentos físicos, ainda que com profundas cicatrizes psicológicas.

No lado pessoal, o sumiço de Walt catalisa a desconfiança de que há algo errado por parte de Skyler, algo maior do que apenas um eventual romance extraconjugal por parte do marido e que a leva a voltar a trabalhar e a manter-se distante do seio familiar por um bom tempo na temporada, demonstrando que Gilligan não está disposto a simplesmente manter a personagem como uma coadjuvante padrão. O arco narrativo de Skyler, aqui, é, por falta de elogios mais preciso, fora do comum e realmente significativo para a história como um todo, ainda que, como o acidente de avião que não sabemos que é acidente no começo, só percebamos a real dimensão de tudo quando a temporada chega a seu final (Anna Gunn não deixa absolutamente nada a dever a seus pares masculinos). O mesmo vale para um elemento componente desse arco, que é a cleptomania de sua irmã Marie, e que chega a um encerramento técnico aqui e que muita gente acha que foi uma ponta narrativa esquecida. Não foi. Os dividendos desse mini-arco não são gigantes e não alteram o status quo e nem são pagos na 2ª temporada, mas eles existem e estão bem inseridos na série para quem parar para pensar neles (eu os abordarei no momento adequado em crítica futura, assim como a “vilanização” generalizada de Skyler, outra falta de compreensão sobre o que representa a personagem).

Jesse é a grande vítima da temporada, com uma atuação soberba de Aaron Paul que jamais imaginaria que o ator seria capaz. Não só ele passa praticamente o tempo todo sendo escorraçado por um Walter cada vez mais inclemente, como seu “romance de fuga” com Jane e que o leva à drogas mais pesadas ainda, acaba em tragédia causada de caso pensado por seu parceiro. Jane é uma daquelas personagens que existem para cumprir uma função específica e, ainda que eu provavelmente preferisse que ela fosse introduzida ainda mais cedo na temporada para que o romance entre os dois pudesse gerar mais frutos e tornar-se mais enraizado na narrativa para quando o terrível clímax chegasse, não tenho como efetivamente reclamar da forma como tudo foi conduzido. Ela é a personagem trágica por excelência, a ovelha de sacrifício, por assim dizer e que tem como objetivo não exatamente mostrar como Jesse é frágil (ou sensível) psicologicamente, mas sim funcionar como um chaga inconciliável entre os protagonistas. Ela é, talvez mais claramente, a semente da destruição que começa a ser germinada aqui.

Em termos do elenco de suporte, talvez o mais importante seja Saul Goodman e não porque ele, depois, ganharia sua própria (e magnífica) série spin-off prelúdio, mas sim porque ele é o personagem de bastidor que é um excelente artifício narrativo para tornar possível o “negócio” de Walt e Jesse. Sem a malemolência de Goodman, a série teria que permanecer lidando com uma estrutura de tráfico pequena, pouco ambiciosa ou que passasse a exigir de maneira exagerada de nossa suspensão da descrença, já que é óbvio que nem Walt, nem Jesse tem capacidade de ser chefões do tráfico. Portanto, o advogado facilitador que “conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém” para absolutamente tudo de mais sombrio – de lavar dinheiro, passando pela criação de “fantasmas eletrônicos” e chegando até à ações típicas de Mr. Wolf, de Pulp Fiction – é também o facilitador da história sendo contada e que torna possível os passos lógicos seguintes, como o aumento da fortuna ilegal da dupla e, claro, os primeiros e hesitantes contatos com Gus Fring, o cuidadoso dono da cadeia de lojas Los Pollos Hermanos que é um dos braços do cartel de drogas no Novo México.

Gilligan mostra o completo domínio de sua arte na 2ª temporada de Breaking Bad, não deixando nada para o azar e jamais trabalhando linhas narrativas que não geram frutos. O próprio formato escolhido para a apresentação da temporada, com o acidente de avião tendo conexão de “seis graus de Kevin Bacon” (na verdade, bem menos que seis graus) com Walter White e seu inexorável mergulho ao inferno, é prova do que ele quer entregar aos espectadores, ou seja, um assustador mecanismo de retroalimentação do mal que se esconde à margem da vida pública que cada um de nós tem. E o showrunner mais do que consegue alcançar seu intento, ainda que ele muito claramente só esteja começando.

Breaking Bad – 2ª Temporada (EUA, de 08 de março a 31 de maio de 2009)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Bryan Cranston, Charles Haid, Terry McDonough, John Dahl, Johan Renck, Peter Medak, Felix Alcala, Michelle MacLaren, Phil Abraham, Adam Bernstein, Colin Bucksey
Roteiro: J. Roberts, George Mastras, Peter Gould, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, Vince Gilligan, John Shiban
Elenco: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Steven Michael Quezada, Krysten Ritter, Charles Baker, Christopher Cousins, Matt L. Jones, Bob Odenkirk, John de Lancie, Tom Kiesche, Rodney Rush, Michael Shamus Wiles, Raymond Cruz, Giancarlo Esposito, Tess Harper, Mark Margolis, Sam McMurray, Carmen Serano, Jonathan Banks, Jeremiah Bitsui, Nigel Gibbs, Jessica Hecht, Danny Trejo
Duração: 611 min. (13 episódios)

Crítica | Amazing Stories (2020) – 1X05: The Rift

Encerrando com categoria a primeira temporada do revival de Amazing Stories (Histórias Maravilhosas), The Rift traz uma adaptação da HQ homônima de 2017 escrita pelo americano Don Handfield e pelo britânico Richard Rayner, com arte do piauiense Leno Carvalho, que, por sua vez, parece ser fortemente inspirada no clássico Nimitz – De Volta ao Inferno só que ao contrário. No lugar de um porta-aviões moderno ser transportado para a 2ª Guerra Mundial em razão de um fenômeno misterioso, é um piloto americano lutando por sobre Rangun que cai em Ohio. Ou seja, a temporada acaba como começou com The Cellar, abordando o eterno e sempre bem-vindo artifício sci-fi da viagem no tempo, ainda que de maneiras bem diferentes.

Sem perder muito tempo, o episódio começa com Mary Ann (Kerry Bishé) e Elijah (Duncan Joiner), respectivamente madrasta e enteado, em viagem de mudança quando o mencionado avião passa raspando por sobre suas cabeças e cai em um riacho. O piloto, o tenente Theodore Cole (Austin Stowell), é salvo por Mary Ann e logo levado pelas autoridades para o hospital mais próximo, enquanto um agência governamental secreta chega ao local do acidente para tomar controle de tudo e reverter os efeitos da “fenda” do título. A partir daí, o óbvio passa a acontecer, com Elijah conectando-se com o piloto e os dois, em fuga, tentando entender exatamente o que aconteceu e como evitar o pior.

Mais uma vez, Amazing Stories não tenta surpreender com linhas narrativas originais ou mesmo com a execução original de linhas narrativas batidas. Ao contrário, a série esmera-se em trabalhar os clichês e até os arquétipos narrativos sem maiores invencionices, entregando, normalmente, capítulos honestos, bem feitos e que tem o entretenimento como foco principal. The Rift não é diferente, mas, talvez indo um pouco além do que os demais episódios foram, o roteiro escrito pela dupla responsável pela HQ sabe criar relações enternecedoras entre Mary Ann e Elijah e entre Elijah e Theodore que usam as coincidências inerentes ao gênero e à história como parte da engrenagem para justificar certas conveniências, o que acaba funcionando muito bem.

Além disso, há uma boa e imediata conexão entre Bishé, Joiner e Stowell, com os três atores estabelecendo química em qualquer dupla que formem, algo que não só deve ser creditado ao elenco, como também ao trabalho de direção de Mark Mylod, com extensa carreira em séries como Entourage, Game of Thrones, Shameless e Succession. Mesmo na correria e tendo ainda que lidar com a equipe de “Homens de Preto” que chega ao local, o cineasta tem excelente controle de câmera, mantendo uma estrutura fácil de acompanhar e aplicando filtros em momentos precisos, como quando Theodore lembra de sua casa antes de partir para a guerra ou segurando boas tomadas com fotografia noturna sem muito esforço como a da pista de pouso mais ao final.

A correria que o roteiro impõe à direção é, sem dúvida, o ponto mais fraco do episódio, que mereceria uma minutagem um pouco mais alongada ou, até mesmo, arrisco dizer, a divisão em duas partes para que um pouco mais desse universo construído velozmente pudesse ser abordado com mais vagar. Por outro lado, é sempre um sinal positivo quando queremos ver mais de determinada cena e é exatamente isso que acontece muitas vezes, como no reencontro de Theodore com sua esposa ou na conexão à beira do rio dele com Elijah.

The Rift vem para fechar com chave de ouro a mini-temporada inaugural de Amazing Stories, entregando substancialmente mais da mesma atmosfera agradável e descompromissada de Sessão da Tarde que marcou a série oitentista original e que volta com força total pela Apple TV+. Só resta, agora, torcer pela renovação da série em formato de antologia para que ganhemos mais histórias maravilhosas spielberguianas para aquecer nossos corações.

Amazing Stories – 1X05: The Rift (EUA, 03 de abril de 2020)
Direção: Mark Mylod
Roteiro: Don Handfield, Richard Rayner
Elenco: Edward Burns, Kerry Bishé, Austin Stowell, Duncan Joiner, Juliana Canfield, Aly Ward Azevedo, Jay DeVon Johnson, Desmond Phillips, Andrew Benator, Bernardo Cubria, Michael Chandler
Duração: 48 min.

Crítica | Vikings – 5ª Temporada: Parte 2

vikings5temporada parte2 plano crítico série

Irmão lutará contra irmão.

OBS: Não sou o mesmo responsável pelas críticas antecessoras da série aqui no Plano Crítico, portanto os comentários da metade da temporada em si irão ser contextualizados a minha relação com a série como um todo. Por isso, haverá SPOILERS de todas as temporadas.

Foi a partir da morte de Ragnar Lothbrok que se começou a questionar sobre a habilidade do showrunner Michael Hirst, responsável pela criação e durabilidade do fenômeno nórdico. Contudo, grande parcela das críticas mencionadas pelo público já eram observadas (ao menos por mim) desde o início, e nunca foi um real problema, mas uma limitação na qual a série teria uma clara linha de partida e chegada devido à estrutura adotada. Digo mais, o único momento em que Vikings saiu da zona de conforto foi em todo o período dessa jornada final do seu protagonista, ainda que não fugindo exatamente da tal mencionada estrutura. 

Mas, afinal, qual seria ela? Passeando por uma retrospectiva geral, podemos resumi-la no aspecto documental técnico em detrimento da narrativa mainstream. Focando exacerbadamente no seguimento histórico coeso, os ciclos de temporadas baseavam-se em preparações longínquas para um certo objetivo exploratório (que iria dar em guerra), para fechar-se de modo inconclusivo (os líderes não morriam ou o objetivo não era atingido, logo a próxima temporada iria ter vingança ou continuidade a esse tal objetivo). Exemplificando: Ragnar na 3ª Temporada buscou dominar Paris, ao final ele não conseguiu, e a primeira metade da 4ª Temporada seria ele de novo tentando conquistá-la e não conseguindo novamente, em nenhuma das duas diretamente indo para o embate físico mortal contra seu irmão Rollo, o que já tinha histórico. 

Esse mesmo exemplo vale para toda essa temporada, a primeira metade se concentrava em separar os objetivos dos irmãos, para logo após cruzá-los em uma batalha de que nenhum sairia morto, e ter a chance da vingança para a próxima metade, que faz justamente o mesmo processo, de forma diferente somente no ponto de vista histórico, entrando aí um ponto positivo dessa escolha fidedigna que aproveita bem o tempo para desenvolver os personagens. Agora, para que exatamente adianta desenvolvê-los sem uma finalidade? Pôr os questionamentos filosóficos e angústias religiosas em xeque para os personagens não terem fins dignos? Quando esses acontecem, geralmente vêm tardiamente, quando o personagem já perdeu uma oportunidade antes de ter ido com o arco bem amarrado e é segurado, sem sofrer nenhuma transformação posterior cronologicamente correta segundo os contos nos quais foram baseados. 

Nesse ponto, Hirst só foi capaz de dosar bem esse storytelling mais livre do material-fonte com Ragnar, e por isso, ele faz tanta falta, já que seu protagonismo era tão centrado que desviava as atenções dos problemas secundários. No início, ao se livrar dele, pensava em ser a escolha mais correta a fim de livrar esse problema, visto que todos os seus filhos tinham personalidades interessantes e propósitos diversos de legado para seguir com a história para várias direções, e aí sim seguir para algo fora do looping de preparação/objetivo, mas infelizmente com a entrada deles, o problema ficou mais escancarado, principalmente para o público casual. Junte à extensão sofrida a partir da 4ª Temporada, com o acréscimo de 10 episódios, e a série passou a ser assombrada pela síndrome de The Walking Dead, onde estruturalmente cada número de episódios já desenha a linha perfeita de acontecimentos. 

O que não é exatamente ruim, dentro da proposta e limitações do roteiro é entregue aquilo que se espera, tecnicamente um universo viking excepcionalmente rico, mas emocionalmente beirando o genérico. Só não é de fato porque existe o desenvolvimento, e principalmente, a distribuição de forma igualitária para uma gama maior de personagens, levando em consideração a falta de uma figura central que chame mais a atenção. Claro, Ivar faz um pouco desse papel pela performance mais emotiva do ator e pelas características imprevisíveis de seu personagem, que o tornam um belo vilão, mas todos os irmãos são tão interessantes quanto. Quem fica sem ter o que fazer nessa teia de intrigas sobre legado são os já recorrentes, um pouco desviados da linha principal da narrativa, apesar de queridos, Floki e Lagertha ficam sem ter muito o que fazer na trama.

Acho que o grande problema da 5ª Temporada foram os 20 episódios, que a transformaram em duas temporadas iguais dentro de uma só. Se voltasse com a estrutura tradicional de apenas 10 episódios para organizar a casa, e mais 10 para fechar todo o arco da série, o fator cíclico poderia não ser tão incômodo como foi. Mesmo diante desses problemas, cada parte, e essa principalmente, ainda tem seus momentos e entrega bem o momento decisivo, como foi a execução primorosa da épica batalha de retomada a Kattegat. Virtude suficiente para gerar boas expectativas para o gran finale, esperar que nele o showrunner esteja ciente de que não terá mais para onde estender.

Vikings – 5ª Temporada – Parte 2 (Canadá/ Irlanda, 2018 – 2019)
Direção: Ciarán Donnelly, Steve Saint Leger, Helen Shaver, David Wellington.
Roteiro: Michael Hirst
Elenco: Katheryn Winnick, Gustaf Skarsgård, Alexander Ludwig, Jonathan Rhys Meyers, Moe Dunford, Georgia Hirst, Jennie Jacques, Alex Høgh Andersen, Jordan Patrick Smith, Marco Ilso, Ida Nielsen, Peter Franzén, Jasper Pääkkönen, Josefin Asplund, Ferdia Walsh-Peelo
Duração: 43min. por episódio

Crítica | Better Call Saul – 5X07: JMM

Hello darkness, my old friend.
– Simon & Garfunkel

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Um dos maiores pontos de interrogação dessa temporada de Better Call Saul era a razão para a presença intermitente de Howard, primeiro oferecendo emprego em seu escritório para Jimmy e, depois, sendo alvo de bolas de boliche arremessadas e prostitutas enviadas por Saul, em uma espécie de vingança mesquinha. O que Vince Gilligan e Peter Gould queriam com isso, afinal de contas, já que, apesar da comicidade das sequências, elas não estavam de forma alguma se encaixando no todo. Mas a resposta veio agora, em JMM, como mais uma prova que essa dupla criativa não costuma errar.

Howard, ao que tudo indica, foi usado como a proverbial gota d’água, como o vetor para a explosão de Saul que terminou de dissipar o que ainda havia de Jimmy nele. Chega a dar pena do advogado almofadinha que ainda tenta, mais uma vez, oferecer o emprego a Jimmy como uma forma de expiar seus próprios pecados e de “salvar” o irmão de Chuck. Essa última oferta, ali nos corredores do tribunal, com Jimmy olhando para as consequências dos atos do cartel que agora passou a defender, era, quase que literalmente, sua última chance, sua última forma de escapar de seu futuro sombrio de defensor de criminosos que não mostram um pingo de arrependimento pelo que fizeram.

Não é que Howard seja um inocente útil em toda essa equação, pois ele tem sua parcela de culpa em tudo o que aconteceu antes – ainda que infinitamente menor do que a parcela de culpa de Chuck e do próprio Jimmy -, mas sim que sua tentativa de se redimir ao tentar redimir Jimmy mostrou-se genuína ao ponto de ele entender os ataques que sofrera, ataques esses que foram válvulas de escape para um Jimmy furioso consigo mesmo. E, novamente, quando, ainda furioso, esse Jimmy perde as estribeiras com Howard, gritando nos corredores de seu local de trabalho, é como se ele estivesse deixando, ali, suas últimas palavras como Jimmy e abrindo de vez as portas para Saul, o advogado de bandido ou, como diria Jesse para Walter, o advogado bandido.

Sei que me adiantei nos comentários, começando pelo final, mas é que ver o descontrole de Jimmy foi chocante, um momento realmente forte e que, em retrospectos, podemos ver que estava em banho maria já há muito tempo, quase passando do ponto. Se rebobinarmos para os momentos anteriores do próprio episódio, com Lalo e depois Mike exigindo que Jimmy soltasse o bandido com pagamento de caução, por mais improvável que isso fosse sob o ponto de vista jurídico, com a transformação da sigla JMM de James Morgan McGill (que nunca foi) para Justice Matters Most (“Justiça é o Que Mais Importa”) para, finalmente, Just Make Money (“Apenas Fazer Dinheiro”) e os olhares de Jimmy para a família da vítima de Lalo, entendo a magnitude do que estava fazendo, entenderemos o dilema e a certa facilidade com que Jimmy varre o que ainda tinha de moralidade para debaixo do tapete e encara o trabalho que o tornaria famoso de braços abertos, sem, aparentemente, mais reservas.

E isso porque a abrupta proposta de casamento de Kim à Jimmy ao final de Wexler v. Goodman tinha, no final das contas, um raciocínio frio e prático por trás: minimizar as mentiras entre eles e impedir que um testemunhe contra o outro se um dia eles chegarem a esse ponto. Tive a impressão que havia sido algo fruto do desespero de Kim em ver sua relação com Jimmy desmoronar; mas não, ela tinha um plano sólido por trás daquele discurso que colocou seu parceiro contra a parede. Mas, na execução do plano, no casamento em cartório dos dois com Huell como testemunha (e hilariamente achando que tudo é um golpe – o que, de certa forma, não deixa de ser), vemos pela primeira vez em todas essas temporadas os dois realmente juntos e… felizes. A maneira distante como eles sempre se trataram é dissipada aqui, com sorrisos, brincadeiras e um momento raro de desejo e intimidade na cama em que Kim recebe a notícia de que Jimmy havia sido contratado pelo cartel de drogas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Muitos podem ver isso tudo como algo que coloca Kim e Jimmy mais próximos ainda do abismo, mas, sinceramente, tenho uma visão especulativa diferente e creio que o caminho que a relação dos dois tomará será no mínimo peculiar.

Um episódio perfeito talvez merecesse mais comentários, mas acho que o uso do adjetivo “perfeito” deixa já muito claro minha opinião sobre ele. Eu poderia falar da curta, mas excelente sequência de Mike finalmente voltando a contactar Jimmy e, depois, revelando-se como “curado” diante de sua nora e neta, como se o trabalho para Gus fosse sua própria válvula de escape; de Gus e Nacho explodindo a loja dos Los Pollos Hermanos para manter a farsa em relação aos Salamancas e a Don Eladio, com o ódio fluindo do olhar destruidor de Gus; do estabelecimento ainda mais forte da conexão de Gus com a Madrigal, empresa dona de sua cadeia de lojas de frango frito e que, como fica claro, banca o super-laboratório subterrâneo na futura lavanderia, mas isso seria chover no molhado, pois é quase inacreditável que tantas peças móveis conectadas na base dos “seis graus de Kevin Bacon” funcione tão bem narrativamente, com transições fluidas e lógicas que mantém a temática de expiação e de mergulho no lado mais sombrio da personalidade em cada momento.

JMM parece ser o enterro de Jimmy e o começo de Saul como o vemos no episódio 2X08 (Better Call Saul) e seguintes da 2ª temporada de Breaking Bad. Mas ainda há um grande espaço temporal para ser coberto, mesmo que, eventualmente, as duas séries não se alcancem completamente e, tenho certeza que, no processo, Gilligan e Gould têm ainda diversas bolas curvas para arremessar.

Better Call Saul – 5X07: JMM (EUA, 30 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Melissa Bernstein
Roteiro: Alison Tatlock
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 48 min.

Crítica | Homeland – 8X08: Threnody(s)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Uma trenodia é uma ode, poema ou composição triste e/ou fúnebre e o 8º episódio da última temporada de Homeland entrega justamente o que promete no título, inclusive com a pluralização da palavra. Chegam ao fim, aqui, não só Haissam Haqqani e, junto com ele, a esperança de paz Oriente Médio, como também o silencioso, tímido, mas corajoso Max Piotrowski, especialista em escuta eletrônica que era o último personagem clássico da série fora Carry e Saul.

O roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, dupla imbatível na escrita da série, novamente entrega um texto afiado, repleto de tensão e angústia que, se não chega a nos dar exatamente esperança especialmente sobre o fim de Max, certamente valoriza muito os acontecimentos, pintando um quadro sombrio para o futuro tanto da protagonista, como da série como um todo. Tornando as mortes interdependentes, os roteiristas deixam claro de início que nada acabará bem e o pior acontece na reunião da sede de sangue e de vingança de G’ulom com a covardia e a falta de personalidade de Hayes, em demonstrações do que de pior o ser humano é capaz.

Toda o nervosismo que o episódio cultiva vem das desesperadas tentativas de David Wellington de ganhar a queda de braço contra John Zabel (Hugh Dancy, marido de Claire Danes) sobre quem tem mais o ouvido do influenciável presidente americano, com o segundo, extremamente belicista, daqueles que acham que tudo se resolve com bomba, tiro e porrada, levando os EUA à proximidade de mais uma guerra, desta vez tendo o Paquistão como alvo. Particularmente, a entrada de Zabel na série, que aconteceu ao final de F**ker Shot Me, e sua alçada a personagem-chave quase que instantaneamente aqui em Threnody(s) incomodou-me muito, por ele ser personagem novo, sem contexto, que deveria ter sido apresentado bem mais cedo na temporada de forma que ele funcionasse melhor aqui. Entendo perfeitamente a necessidade de um personagem assim, para contrabalançar o bom-mocismo de David que realmente parece querer fazer o melhor diante das circunstâncias, mas é justamente por ser evidente essa necessidade que essa peça deveria ter sido usada antes, mesmo que de maneira tangencial.

A grande verdade, porém, é que a história sobrevive a esse “intruso” graças à qualidade do trabalho da dupla de roteiristas e também de Michael Klick na direção que orquestra uma montagem paralela extremamente eficiente que contrapõe os dramas de Haqqani, sempre em planos americanos ou close-ups, e de Max, sempre visto à distância, em planos gerais. Sabemos que não há saída para nenhum dos dois, ganhamos momentos de respiro quando a prisão de Max segura a execução de Haqqani por um tempo, somente para tudo desmoronar em seguida. E, como se isso não bastasse, a reunião dos talibãs sob as mentiras engendradas por Jalal Haqqani é como sal da ferida, tornando toda a situação próxima de uma bomba prestes a explodir.

Mas toda essa desgraça funciona, na verdade, como degraus de uma escada para os torturantes momentos finais de Carrie, que espera o resgate do corpo de Max chorando sobre ele e expiando seus pecados para Yevgeny. A presença de Saul é um bálsamo, pois, com ele ali, tudo correrá bem, ainda que mesmo ali saibamos que as coisas não são tão simples assim. As dúvidas sobre a idoneidade de Carrie depois de seus sete meses presa na Rússia e de seus recentes contatos com Yevgeny precisavam cair sobre ela como uma guilhotina e é exatamente isso que aqueles segundos próximos ao helicóptero em que os soldados querem algemá-la significam. Mesmo que Saul não tivesse mesmo ideia do que estava prestes a acontecer, o mundo de Carrie termina de desabar ali, sem nenhum amigo seu vivo e o único que ela considerava aliado mostrando-se no mínimo impotente. Para o manipulador Yevgeny ser a última esperança de achar a caixa preta do helicóptero dos presidentes, quer dizer que, possivelmente, a agora novamente ex-agente da CIA chegou a seu outro fundo do poço.

A essa altura do campeonato, mesmo com a súplica de Haqqani para que Saul continue o caminho da paz, já não consigo vislumbrar qualquer final próximo do feliz. Não que eu esperasse isso, claro, mas, antes, eu conseguia ver raios de luz no meio da escuridão total e, agora, não mais. Um presidente fraco sendo manipulado por um conselheiro abertamente pró-guerra; a morte de um líder sendo utilizada como mecanismo para recrudescer sentimentos de vingança; uma quase declaração de guerra e uma agente da CIA desertando seu posto e bandeando-se para o lado de alguém cujas intenções estão longe de ser claras. O mundo de Homeland – talvez assim como o nosso – está em frangalhos e reconstruí-lo é um sonho longínquo. Melhor mesmo já irmos nos preparando para mais trenodias…

Homeland – 8X08: Threnody(s) (EUA, 29 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Klick
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 48 min.

Crítica | The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers

plano crítico The Walking Dead – 10X14 Look at the Flowers

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Ou um tolo disposto a acreditar em futuros amigos.

Aproximando-se do final da 10ª Temporada fica mais claro o alarme falso dos sussurradores, prometidos como a maior ameaça da série até então, mas na prática nunca funcionando dessa forma (tal como o Negan), extremamente bem introduzidos, mas com um arco enrolado tão à exaustão que foi diminuindo o tamanho deles conforme o tempo. A Alfa MORREU no episódio passado e parece que toda a sua trupe evaporou junto a ela, porque ninguém fica sabendo disso ao longo desse episódio além de Beta e outros cinco capangas. Inclusive, aquele final vinha com a conexão forçada de Carol como a precursora do plano ao liberar Negan para matá-la, uma jogada deviadamente irresponsável, no limbo, mas que parecia na fala “You take long enough”, transparecia uma lucidez de que ela sabia que era certa, para o discurso mudar justamente na cena seguinte, em que ela já começa reclamando ao Negan que demorou demais e começa a transtornar de novo, dizendo que quer ficar sozinha e partindo sem rumo, para lugar nenhum.

Já defendi a personagem antes, poucos episódios atrás (especificamente em Squeeze), mesmo sendo uma dramaticidade de atitudes irracionais que ela já havia tomado antes na série, havia coerência e verdade segundo a tendenciosa crescente do arco até aquele momento. Contudo, com o fim de Alfa, com a confiança daquela fala e dado o “planejamento” que o roteiro assumiu, escancaradamente explicado na primeira cena forçando a conexão, não faz sentido ela, nesse episódio, continuar maluca da cabeça alucinando fantasminha (de novo) para lembrar da sua fragilidade que já está clara há muito tempo. O que isso significa? De novo, aquela famosa enrolação marota que The Walking Dead adora fazer em episódios de numerações parecidas. Ao menos em determinado tempo, a série fazia uma questão de esconder, agora pouco importa, Negan nem a questiona ao não cumprir a parte do trato de levá-lo para Alexandria como álibi de testemunha, porque eventualmente ele não está nem um pouco preocupado, no território inimigo, em ser pego, porque já parece que sabe o que vai acontecer nas cenas seguintes.

Ok. Admito que mesmo assim foi de enorme satisfação a cena em que três dos sussurradores encurralam Negan e Daryl, que encontra o personagem na cabana de Lydia (sumida, de novo), e todo o contexto leva a crer que ambos estavam encrencados, mas inesperadamente os capangas mascarados se ajoelham perante Negan como se fosse o novo Alfa. Aproveitando a situação, principalmente diante da grande desconfiança de Daryl, Negan articula um teatrinho para satisfazer o ego, e consequentemente, pela indomável performance de Jeffrey Dean Morgan, por alguns segundos consegue levar o público a achar que realmente a série poderia mudar totalmente o rumo e colocá-lo como vilão de novo (e seria sensacional se acontecesse, diga-se de passagem). Mas lógico, na hierarquia dos “sussu”, quem estava devoto a isso era Beta, que assim como Carol passa o episódio tendo devaneios inúteis com a Alfa zumbi, a diferença é que ele não quase morre gratuitamente com isso e que não era um fantasminha, mas a cabeça da mulher falando com ele e o guiando a tomar alguma atitude. 

Ora, qual seria esse grande plano do subconsciente de Beta, digo, que a cabeça de Alfa tinha para guiá-lo? Pegar um vinil, aparentemente dele mesmo pelo que deu a entender, chamado Half Moon, começa tocar e juntar zumbis na área para que ele possa guiá-los de lá, Rob Zombie ficaria orgulhoso. Mas, cadê o resto dos zumbis da caverna? Ou do ataque a Hilltop? Não eram controlados por eles? Como dito, parece que eles evaporaram junto de Alfa, tanto que na cena em que Beta pega a cabeça de Alfa, só dois o acompanham ao invés uma manada considerável, um deles é comido pela cabeça e o outro foge e fica por isso mesmo, a ameaça final parece ser apenas Beta e o restante dos zumbis que irão à vingança, com desvantagem. A promessa de que “nunca vimos uma horda tão grande como aquela do penhasco” possivelmente ficará na falácia, afinal só faltam mais dois episódios para o fim, e o próximo, que até tinha tempo para organizar isso, não vai porque irá provavelmente ocupar o que esse deveria ter sido, que é a jornada de Eugene em conhecer a tal nova comunidade de Stephanie no rádio.

Infelizmente até nisso eles enrolaram, embora a preocupação geográfica mais uma vez tenha ido para o espaço. Como depois de tanto tempo eles se deparam com uma cidade nova aparentemente tão próxima dali, porque Atlanta certeza que não era vista a demora imensurável que foi chegar em Alexandria originalmente, então fica o questionamento. Chega a ser tão grotesco que vai além dos erros de montagem, também presentes no capítulo, que em uma cena Negan e Daryl trocam palavras, e na outra, Daryl já está em Alexandria recebendo Carol que quase morreu na cena anterior, sozinha, cadê a cena de ligação entre os fatos? Ou melhor, Negan entrou lá de boa mesmo por causa do Daryl? Aliás, o combinado de Eugene e Stephanie era só que ambos se encontrassem, mas Ezequiel e Yumiko decidem ir também só para haver três ceninhas de enrolação, uma com Yumiko e Magna falando se é uma boa ideia ela acompanhar e abandonar de novo o grupinho delas, já separado, e as outras duas com Ezequiel possivelmente se despedindo de Jerry porque deve morrer logo em breve, e outra que ele questiona se deve continuar ou não pela limitação física.

A Stephanie mesmo só vai dar as caras por meio segundo nos minutos finais do episódio, obviamente, como dito, deixando o gancho de como se desdobrará essa nova comunidade para o próximo. Espremendo tudo ao final, não houve nada, a história não avançou, personagens não foram desenvolvidos, situações que já não estavam previstas para ele foram criadas, foi um travamento completo e inútil de dezenas de situações pendentes que ficaram para ser resolvidas somente no último episódio, que nem tem data mais para estrear, visto a baderna que está a produção da série, não houve tempo nem de concluir um episódio já gravado de longa data na pós-produção, porque nem os produtores devem saber como ele deve acontecer para ligar o universo compartilhado e finalizar de forma minimamente recompensadora essa decepcionante temporada.

The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers — EUA, 29 de fevereiro de 2020
Direção: Daisy Mayer
Roteiro: Channing Powell
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | Westworld – 3X03: The Absence of Field

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aqui, as críticas dos outros episódios.

Bom, como se não bastassem as notícias ruins da atualidade, descobrimos agora que em 2058 não existirão mais elefantes. E é com essa frase animadora que eu começo a falar sobre o interessante episódio de Westworld nesta semana, que trouxe diversas perguntas e, tenho certeza, fez a festa na cabeça dos espectadores que adoram dissecar possibilidades e pensar em inúmeras teorias sobre o que assistem, o que definitivamente não é o meu caso. Mas o que foi apresentado pela série até aqui é, de fato, um bom cenário de preparação de guerra. Sigo entre curioso e animado pelo desenrolar desse conflito.

O foco em “Charlotte” foi um exercício de sugestão muito interessante do roteiro, embora um pouco confuso no começo. E não digo isso porque a identidade de quem está naquele corpo segue um mistério para nós. Falo diretamente em relação ao processo que o texto de Denise Thé oferece, tornando a personagem presente e solidificando a sua presença com mistério e com um despertar que é capaz de gerar uma história inteirinha sobre perspectiva, entendimento de si e escolhas pessoais (até onde é possível), ou seja, o retrabalhar de ingredientes já conhecidos da série, mas que nunca perdem a validade ou a graça, especialmente quando colocados em outra base narrativa, com outros personagens, condições e consequências a serem analisados.

Confesso que só comecei a aproveitar de verdade esse bloco a partir da cena em que “Charlotte” chega em casa, mais precisamente, sua cena com o filho. A atuação de Tessa Thompson ganha aí uma outra proporção, e tanto esta quanto as cenas dela com Dolores e com o abusador que estava assediando o garotinho no parque são as minhas favoritas do episódio. É a partir do núcleo de “Charlotte” que a temporada ganha uma cara nova, adicionando um certo tempero de narrativa intricada, algo que alguns espectadores gostam bastante. O que me deixa feliz com os mistérios e possibilidades abertas neste terceiro ano é que elas nos permitem pensar diretamente nas ações em jogo, o que torna a situação mais realista e com possibilidades plausíveis que podemos aludir aqui e ali, fazendo-nos parte direta do processo de construção, mesmo que não saibamos exatamente o que está sendo construído — diferente do tsunami simbólico-temporal intransponível e permanentemente confuso da temporada passada.

O mesmo processo de lidar com dilemas de autoconhecimento ou de “acordar para a realidade” se dá no núcleo de Caleb, agora definitivamente ao lado de Dolores. O que descobrimos sobre ele é que é um humano com um implante capaz de fazer com que seja possível controlar certas funções vitais de seu corpo — ao que me parece, é algo comum para os militares do futuro. Nesse mesmo núcleo, temos mais informações sobre a misteriosa Inteligência Artificial chamada Rehoboam, vindo aqui com uma citação de “Mundo Espelhado”. O que é mais amedrontador em relação a isso é que a coleta de dados pessoais de todos nós é uma realidade hoje, e que isso é utilizado para moldar uma porção de coisas no mercado consumidor e de produção (e aqui estou sendo bonzinho e não vou levantar outras áreas porque aí teria que dar muito contexto para não entrar no barco dos alucinados de teorias de conspiração… e não estou com paciência e nem vontade de fazer isso. Sem contar que aqui não é o lugar. Quem sabe um Plano Polêmico no futuro?).

É aplaudível a maneira totalmente pé no chão com que os roteiros estão trabalhando situações complicadas e sugestões sobre o andamento da problemática central, considerando o papel diferente de cada personagem, a dúvida sobre QUEM são e como suas realidades se encaixam. Como imaginávamos, o desenvolvimento dos grandes temas começariam a partir deste terceiro episódio e não fomos decepcionados. Claro que o enredo demora um pouco mais para engatar, mas no fim, compensa com gosto o início. Ninguém segura mais Dolores!

Westworld – 3X03: The Absence of Field (EUA, 29 de março de 2018)
Direção: Amanda Marsalis
Roteiro: Denise Thé
Elenco: Evan Rachel Wood, Tessa Thompson, Aaron Paul, Vincent Cassel, Lawrence Adimora, Cody Banta, Cameron Blunt, Stephanie Burke, Cindy Choi, Lorna Duyn, Tommy Flanagan, Dexter Hobert, Remington Hoffman, Pom Klementieff, Nikol Kollars, Mathieu Szymkowiak
Duração: 65 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Pelo menos um leitor matou a grande surpresa reservada para o final da 1ª temporada de Star Trek: Picard, prevendo o uso do golem inacabado visto brevemente no laboratório de Altan Inigo Soong, filho do criador de Data, como o novo corpo de Jean-Luc Picard. Em outras palavras, um twist perfeitamente circular não só para a temática da temporada em si, como para toda a trajetória do protagonista desde que seu coração foi substituído por uma versão mecânica em A Nova Geração e suas assimilações pelos Borg aconteceram como elementos formativos de sua personalidade tanto na clássica série quanto no melhor filme da franquia, Primeiro Contato.

Portanto, por mais que alguns possam virar o nariz para a solução encontrada, tenho para mim que ela foi o encaixe necessário para a temporada inaugural das aventuras de Picard já bem avançado em idade acabar com um saldo positivo, mas ainda ficando aquém de seu verdadeiro potencial. Afinal, se eu aplaudo a escolha dos showrunners em transformar o protagonista em um androide, a jornada até lá foi repleta de altos e baixos, desvios narrativos, fan services deslocados, enfim, uma sucessão de problemas que, por melhor que tenha sido o episódio duplo de encerramento, não foi suficiente para que eles tenham sido curados.

O próprio tratamento que os roteiros deram para a doença terminal de Picard é algo que me incomodou profundamente. Não só o assunto foi introduzido em um breve e críptico diálogo entre o ex-almirante e seu médico, como ele não ganhou qualquer tipo de contexto e, pior ainda, desenvolvimento ao longo da temporada. Ao contrário, ele foi soterrado debaixo de uma extensa minutagem dedicada à bobagens para agradar fãs, como Riker fazendo pizza de coelho-unicórnio (WTF!) ou Sete de Nove surgindo não uma, mas duas vezes como borg ex machina. Com isso, fomos relembrados desse “detalhe” somente na primeira parte de Et in Arcadia Ego que culmina aqui com a providencial morte de Picard justamente no minuto seguinte que ele consegue resolver todo o problema entre sintéticos, Federação e Romulanos. Coincidência é um eufemismo brabo, diria.

Aliás, um de meu receios sobre a resolução do conflito era justamente que tudo acontecesse rapidamente demais e foi exatamente o que aconteceu. Rápido, mas não ilógico, que fique bem claro. Ok, há ilogicidades, mas estas ficam confinadas a coisas como “como é que Narissa estava lá no Cubo sem ser detectada pelos xBs” que podem ser respondidas com algo na linha de “para Sete poder chutar a bunda da moça, arremessando-a em um abismo”, o que pode ser incômodo, mas que sem dúvida é catártico, mesmo que tenhamos que ouvir choramingos arrependidos de Sete para Ríos.

A velocidade dos eventos demonstra muito claramente, mais uma vez, que a temporada foi desequilibrada em termos de ação, com praticamente tudo o que é mais relevante acontecendo de maneira apertada e econômica em meros 40 minutos do episódio final, aí incluindo a já citada luta de Sete contra Narissa, a união providencial de Narek com Ríos, Raffi e o inútil do Elnor, a revelação de que Jurati estava do lado dos humanos depois de sua “traição”, a traição de Soong, a chegada da frota romulana (estranho que o Zhat Vash seja uma organização super-secreta, mas que tem uma frota desse tamanho…), a chegada da frota da Federação (o comando temporário de Riker, aí sim, é um exemplo de ótimo fan service) e, claro, o plano suicida de Picard. Sobre o plano, aliás, ele é a cara de Picard e, nesse quesito, a temporada foi perfeitamente justa com o legado do personagem. Não há nada que signifique mais a essência do adorado ex-capitão do que um sacrifício altruísta dessa natureza, mesmo que ele tenha que ser atrapalhado por diálogos mal escritos e extremamente expositivos do tipo “o exemplo vem de cima” e tal.

Tudo teria sido praticamente perfeito, portanto, se os roteiros tivessem trabalhado todos esses elementos de ação ao longo de mais alguns episódios, sem esquecer de tornar a doença de Picard algo mais presente e constante em sua vida e não uma nota de rodapé que, de repente, do nada, torna-se relevante e sem transformar Narek em não muito mais do que um mero extra glorificado, considerando toda a importância que ele teve antes. Da mesma forma, o belo epílogo em que ele se reencontra com seu amigo Data na Matrix… digo, na simulação virtual onde a consciência do comandante androide vive, poderia ter ganhado mais solenidade do que apenas um pedaço dos 20 minutos finais de projeção de forma que até a transferência da consciência de Picard para o golem pudesse ser explorada um pouquinho mais, sem que, mais uma vez, precisássemos que os personagens sentassem à mesa para explicar o óbvio ululante.

No entanto, apesar de todos os pesares e assim como a primeira parte desse final, a segunda conseguiu capturar a essência do que faz Star Trek ser Star Trek, algo que esteve infelizmente muito ausente na temporada, entregando um desfecho que funciona bem para a história como um todo e muito bem para quem realmente interessa, ou seja, Jean-Luc Picard. Tomara que os showrunners aprendam um pouco com a experiência e construam uma segunda temporada que dependa menos de afagos nostálgicos e mais de uma história realmente sólida e bem distribuída ao longo dos episódios, de preferência aprofundando os personagens que formam a atual tripulação e não se perdendo com novos ou antigos integrantes que não agreguem nada para a história que será contada.

Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2 (EUA, 26 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner, Jonathan Frakes
Duração: 57 min.

Crítica | Amazing Stories (2020) – 1X04: Signs of Life

Signs of Life, o quarto e penúltimo episódio da curtíssima primeira temporada do revival de Amazing Stories (Histórias Maravilhosas) mantém seu mistério central por tanto tempo que não posso sequer arriscar mencionar sobre o que ele é sem soltar spoilers, algo que não pretendo fazer. Portanto, já peço desculpas adiantado pelo malabarismo na crítica para me desviar dessa questão, mas já deixo uma coisa clara: assim como nos demais episódios, o tema é um clichê clássico que simplesmente não podia faltar em uma série como essa.

Na história, Sara (Michelle Wilson) acorda misteriosamente de um coma de seis anos e passa a ter que reconectar-se com sua filha Alia (Sasha Lane). No entanto, apesar de mostrar-se bem fisicamente e lembrar-se de tudo, Sara não consegue estabelecer contato com Alia, mantendo-se distante e alheia à filha, ao mesmo tempo que demonstra ter, digamos, habilidades especiais, como do nada falar espanhol fluentemente ou ter uma capacidade auditiva fora do comum. Além disso, não demora e Wayne (Josh Holloway), que parece ser um amigo de longa data, reentra em sua vida de forma a acrescentar mais uma série de pontos de interrogação na cada vez mais desconfiada Alia.

O trunfo do episódio é fazer o espectador quase que literalmente ser Alia por um boa parte da minutagem, ou seja, deixando-nos à margem de qualquer tipo de explicação e levando-nos naturalmente a todo tipo de especulação e teorias enquanto o mistério só fica vai ficando mais profundo, como um episódio de Arquivo X. Essa ignorância sobre o que exatamente está acontecendo e que corajosamente permanece por algo como 40 a 45 minutos dos 53 do episódio acaba muito facilmente prendendo a atenção nem que seja por pura curiosidade, com o roteiro propositalmente jogando pistas falsas o tempo todo para alimentar as dúvidas.

No entanto, o texto de Leah Fong acaba perdendo o fôlego tanto ao focar no drama pessoal de Alia, dividida entre dois mundos, quanto na resolução do mistério. Sim, tudo é resolvido, mas, apesar da duração levemente avantajada do episódio, há uma correria muito grande nos minutos finais que provavelmente não satisfarão aqueles que, como eu, esperava um pouquinho mais de conexão narrativa. É como uma ideia muito boa que tem todo um capítulo escrito ao seu redor, mas que quem teve a ideia não sabe exatamente o que ela é em seus detalhes.

Mas o lado simpático que vem marcando todos os episódios da temporada está presente aqui também, com um enfoque especial na importância da família e no próprio conceito de família, com alguns momentos bonitos entre mãe e filha que colorem com eficiência o manto de mistério que encobre a história. Michelle Wilson e Sasha Lane mostram-se eficientes em seus papeis de mãe e filha separadas pelo tempo, com a primeira sequer lembrando direito desse seu passado com a segunda, o que a leva a atitudes frias inicialmente. Josh Holloway, por seu turno, é o canastrão carismático de sempre que tem boa presença em tela e, mesmo sendo subaproveitado, consegue fazer seu personagem funcionar.

Mesmo não encerrando com elegância a história, Signs of Life cumpre a missão de intrigar o espectador, deixando-o suficientemente engajado com o que está acontecendo para envolver-se na história. Assim como todos os episódios que vieram antes dele, o objetivo – alcançado plenamente – é oferecer um pouco de diversão descompromissada envolta em uma produção infanto-juvenil com a chancela spielberguiana de qualidade.

Amazing Stories – 1X04: Signs of Life (EUA, 27 de março de 2020)
Direção: Michael Dinner
Roteiro: Leah Fong
Elenco: Michelle Wilson, Sasha Lane, Josh Holloway, Linda Park, Jacob Latimore, Barret Swatek, Lesa Wilson, Tyler Graham, Rose Bianco, Fallyn Brown, Moses Das
Duração: 53 min.

Crítica | Piratas da Informática

Cinebiografias são sempre muito polêmicas, pois tal como exposto nas análises de Jobs e Steve Jobs, ambas sobre o polêmico “gênio da informática”, biografar é metaforizar o real. Não há como ser exato, o tempo de duração de um filme não pode dar conta da trajetória completa de qualquer ser humano, tampouco a equipe realizadora tem a obrigação de ser totalmente favorável ou desfavorável ao ser humano retratado. Isso, não impede, no entanto, que a trama seja boa enquanto narrativa fílmica, magnética e interessante ao seu público, pois há riscos gigantescos no que tange ao abandono das plateias diante da falta de qualidade do que é exposto.

Foi o que houve com as duas narrativas citadas anteriormente. Enquanto Steve Jobs buscou retratar a faceta humana do personagem que na cultura da mídia, é um mito, Jobs ficou apenas na superficialidade, covarde ao emular apenas a genialidade da figura, praticamente um “santo”. Antes destas polêmicas produções, por sua vez, o telefilme Piratas da Informática, produzido pelo canal TNT, em 1999, apresentou ao público uma visão menos estanque e mais humorada da trajetória desta figura e de seu antagonista mercadológico: Bill Gates, outra figura lendária que possuía visão de marketing e tato para lidar com as ideias que confluíam constantemente. São duas figuras com histórias ricas sobre tecnologias portáteis do mundo globalizado.

O que é apresentado ao longo de seus 97 minutos também pode ser considerado metáfora, uma produção menor que as cinebiografias que já foram citadas apenas por seus aspectos estéticos simplórios. Sob a direção de Martyn Burke, também responsável pelo roteiro repleto de diálogos inteligentes e ágeis, mesmo que explicativos demais, Piratas da Informática teve o seu texto inspirado no livro homônimo de Paul Freiher e Michael Swaine. No desenvolvimento da história, acompanhamos Bill Gates (Anthony Michael Hall) e Steve Jobs (Noah Wyle) em demonstrações paralelas de trajetórias, narradas por seus sócios Steve Balhmer (John DiMaggio) e Steve Wozniak (Joey Slotnick), cofundadores da Microsoft e Apple, respectivamente.

Enquanto a trajetória de Gates é mais carregada de humor, os caminhos percorridos por Jobs dialogam com traços mais dramáticos. Isso, no entanto, não provoca desequilíbrio no filme que se mantém em sua simplicidade “docudramática” sem ser prejudicado pelos tons diferentes de cada segmento. Há muitas pausas explicativas, algo que explicita o interesse informativo do conteúdo que na época, trazia para as telas uma disputa mercadológica e ideológica ainda pouco conhecida pela mídia, desdobrando-se diante da indústria da informática. O que começa com protestos na Universidade de Berkeley, nos anos 1970, torna-se uma aventura sobre as primeiras tentativas de tornar a revolução no campo da informática uma possibilidade doméstica.

Assim, os computadores sairiam apenas do reduto dos pesquisadores e se tornaria parte integrante das empresas de menor porte e dos lares ao redor do planeta. A evolução disso tudo foi gradativa, cheia de peculiaridades, erros e acertos, plágios e empréstimos de ambos os lados, tendo nas figuras de Gates e Jobs dois grandes nomes centrais, representativos, cabe ressaltar, de suas equipes de colaboradores. Eles eram os caras de visão, enxergavam potencial onde investidores muitas vezes já tinham desistido injetar capital. Ambiciosos, atravessaram as décadas de evolução da informática sempre em busca de novidades, focados em quem daria o primeiro passo, numa trama que demonstra como cada um, da sua maneira, colaborou com o que hoje é o terreno da comunicação, a chamada era da cibercultura.

Os acontecimentos em torno da venda de recursos como o DOS para a IMB, sem sequer ter o produto para vender, a criação da Apple e de suas máquinas revolucionárias (Lisa, Macintosh), o surgimento do Windows com interface similar aos produtos da Apple, o “golpe” de gênio diante do desinteresse da Xerox pelo que seria o mouse, em suma, todos os principais tópicos mitológicos de ambas as trajetórias são abordadas em Piratas da Informática. Não há, como dito, o rigor das cinebiografias mais recentes de Jobs, por exemplo, mas o filme cumpre o seu papel dentro do gênero em que se ancora: a cinebiografia com toques de comédia, conduzida musicalmente por Frank Fitzpatrick e editada de maneira pedagógica por Richard Halsey.

Ainda na seara estética, cabe ressaltar a direção de fotografia de Ousana Rawi, com planos constantemente fechados para Gates e ângulos contra-plongee para Jobs, olhado com admiração pelas pessoas que o veneravam em suas apresentações de novos produtos. O design de produção de Jeff Ginn trabalha em prol da construção de espaços que nos insere num ambiente tipicamente computadorizado, com muitas máquinas, ferramentas e equipamentos, etc. Terrenos exclusivos da experimentação no campo da informática, complementados pelos breves, mas eficientes efeitos visuais da equipe de Sam Nicholson.

Ademais, os filmes sobre internet e tecnologia geralmente são carregados por discussões que se estabelecem como proféticas, tomadas por um exotismo e mistério que nem sempre coadunam com a suposta realidade pretendida na abordagem. Assim, Piratas da Informática, com o seu tom bem-humorado, flerta com uma área conhecida por sua incansável busca por soluções, ideias, novas descobertas, mesmo que isso seja para alimentar o ego de quem assim algo que o demarcará para toda a história da humanidade, como é o caso da dupla biografada, lideres de uma revolução que mudou para sempre, em num breve espaço de tempo, a relação dos seres humanos com os computadores e demais aparatos tecnológicos indispensáveis em nossas dinâmicas contemporâneas.

Piratas da Informática (Pirates of Silicon Valley) – EUA, 1999
Direção:
Martyn Burke
Roteiro: Martyn Burke, Paul Freiher, Michael Swaine
Elenco: Anthony Michael Hall, John DiMaggio, Noah Wyle, Joey Slotnick, Wayne Pére, Sheila Shaw, Gema Zamprogna, J.G. Hertzler
Duração: 97 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

O título do episódio diz tudo: esse parece ser o momento de ruptura que tanto esperamos. Por outro lado, a última fala de Kim – “ou nós nos casamos” – parece ter o condão de nos dar uma rasteira dramática, que deixa todas as portas abertas para o futuro, ou a inexistência de futuro, para o casal Wexler-McGill.

Aliás, escrevi McGill acima mais por uma licença poética, pois Goodman e McGill parecem ser “personagens” cada vez mais indistinguíveis, com o primeiro mantendo-se preponderante por muito mais tempo, como uma segunda personalidade que toma controle de alguém sofrendo de transtorno dissociativo de identidade. São como as formigas comendo o sorvete nas belíssimas sequências de abertura e encerramento de The Guy for This. Isso fica evidente aqui, com toda a lógica por trás do golpe que Goodman aplica não apenas contra o banco Mesa Verde, mas sim contra ninguém menos do que sua companheira Kim Wexler que, antes, resolvera voltar atrás e fechar um acordo financeiro para a saída do último proprietário no terreno destinado ao call center.

O raciocínio faz mesmo muito sentido. Um dos objetivos era apagar qualquer dúvida sobre a idoneidade e ética de Kim e pegá-la de surpresa, com uma reação genuína de raiva e desapontamento, parece, na superfície, uma solução perfeita, talvez a única possível. Mas Jimmy/Saul simplesmente não enxerga que, com isso, ele terminou de quebrar a confiança que Kim tinha nele. Aliás, ao ser confrontado, ele nem mesmo consegue prometer que isso não acontecerá novamente, tamanha é a importância desses golpes para ele. Porque sim, Saul fez o que fez muito mais porque seu plano era bom demais para desperdiçar com a mudança de ideia de Kim do que por qualquer outro sentimento dele em relação a ela. Os hilários anúncios – aquele pessoal que ele sempre contrata ainda está na faculdade??? – que ele produz, assim como a acusação de violação de direitos autorais (essa uma ideia de Kim), realmente pareciam apetitosos demais para Saul deixar de lado e foi absolutamente impagável ver Kevin gradativamente enfurecendo-se como um personagem do Looney Tunes cuja cabeça começa a sair fumaça para depois explodir, algo com que Saul simplesmente contava que aconteceria.

Portanto, nem passa pela cabeça de Saul que Kim tornou-se alvo de seu golpe ou, se passa, ele não consegue entender o que exatamente isso significa para ela. Ah, mas Kim também sente prazer em pequenos golpes e foi ela que começou a arquitetar o ataque ao seu próprio cliente. Sim, sei muito bem disso. Não é segredo algum que ela tem esse conflito interno inconciliável desde o começo da série, mas a questão, aqui, é de confiança mútua com alguém com quem ela vive. Isso fica ainda mais evidente a partir do flashback de abertura para sua adolescência, em que vemos sua mãe, embrigada, chegar tarde para pegá-la em sua escola em Red Cloud, Omaha (lembrando: o mesmo estado onde Gene tem seu Cinnabon…). Confiança é a chave para qualquer relacionamento e não há futuro para Kim e Jimmy sem esse pilar.

Mas e o pedido em casamento? – alguns podem perguntar. Sabem quando estamos tão conectados com alguém ou até mesmo alguma coisa e, na iminência de perder essa pessoa ou coisa acabamos fazendo de tudo para manter o status quo? Pois bem, é assim que eu vejo essa alternativa que Kim dá a Saul (ou seria Jimmy?) no último segundo do episódio. Em poucas palavras, trata-se de desespero, um momento impensado em que uma parte da personagem acha que uma união formal resolverá tudo magicamente. Sabemos que não é assim que a banda toca, especialmente em uma situação em que sequer entendemos exatamente se Kim tem consciência sobre para quem ela fez a proposta, Jimmy ou Saul ou, como já disse, a amálgama indistinguível dos dois. É como se um casamento resolvesse tudo magicamente, algo que ela não acha de verdade, pois ela é adulta e inteligente, mas que, no calor do momento, talvez signifique algo para a Kim esperançosa.

E como resultado desse sensacional conflito, ganhamos sequências memoráveis como a da produção dos anúncios, a da espalhafatosa e hilária apresentação de Saul para Kevin e seus advogados e, lógico, o do sensacional diálogo entre Kim e Jimmy ao final de tudo, que mais uma vez serve de palco para que Rhea Seehorn e Bob Odenkirk deem um show de atuação. Tudo funciona muito bem e, apesar da variedade de assuntos sendo tratados, a montagem mantém o fluxo narrativo tinindo, com a fotografia mais uma vez despontando com o cuidado com cada tomada.

Na “outra história” do episódio, vemos o início do plano de Mike para eliminar Lalo da jogada. Mas, antes disso, deixe-me rebobinar e abordar algo que me incomodou. Tudo bem que Dedicado a Max foi um episódio milimetricamente preparado para reunir Mike a Gus novamente. Mais do que entendo – e na verdade, acho essencial para a unicidade narrativa da temporada – que isso precisa acontecer, mas a “queda de Mike”, por assim dizer, não me pareceu profunda o suficiente ou trabalhada adequadamente para justificar de maneira inequívoca seu retorno para debaixo das asas de Gus. Parece que os traumas de Mike foram varridos para debaixo do tapete muito rapidamente, algo pouquíssimo característico em Better Call Saul, como se os showrunners tivessem decididos, de uma hora para a outra, que a separação já deu o que tinha que dar.

Mas, se aceitarmos esse retorno (e eu tirei meia estrela justamente por causa disso, já que, como disse, não gostei), o que resulta daí é mais um bom trabalho da produção em reinserir Mike significativamente na história, com um plano cheio de partes móveis e que retorna à Winner, o episódio 4X10 da série, para resgatar o assassinato do atendente da agência de transferência de dinheiro e o subsequente incêndio criminoso do local por Lalo em um arroubo de raiva incontida. Toda a forma lenta e enviesada que as maquinações de Mike vão tomando forma é um deleite, com o personagem assumindo sua usual identidade de Dave Clark e usando de muita cara-de-pau e poder de persuasão para levar Lalo à cadeia, retirando-o do jogo das drogas da região. Resta saber se ele agora é mesmo carta fora do baralho e o que isso significa para Nacho, em tese o herdeiro natural das operações dos Salamancas.

Wexler v. Goodman pode ser um episódio de virada na série, mas é muito difícil apostar em alguma coisa quando temos Vince Gilligan e Peter Gould como os marionetistas de uma série. Se Kim não pode nem de longe confiar em Jimmy, nós certamente podemos confiar de olhos fechados na capacidade de contar histórias desses espetaculares showrunners.

Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman (EUA, 23 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Michael Morris
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 51 min.