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Crítica | Indústria Americana

Indústria Americana, de certa forma uma continuação de The Last Truck: Closing of a GM Plant, de 2009, é o primeiro filme da Higher Ground Productions, produtora nascente de ninguém menos do que Barack e Michelle Obama. E isso é o que de melhor posso dizer sobre esse documentário dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert, focado na entrada da Fuyao, empresa chinesa fabricantes de vidros automobilísticos, em território americano, ocupando a fábrica da GM fechada em 2008 e que fora objeto do documentário anteriormente citado.

Diferente do que muitos podem imaginar, documentários não são documentos assépticos e sem opiniões que precisam analisar cada lado da história de maneria isenta e equilibrada. A “contaminação” dessas obras por ideologias, posicionamentos políticos, religiosos, sócio-culturais e tudo mais fazem parte do jogo e, muito francamente, é o que dá o sabor para a grande maioria delas, especialmente quando o espectador discorda da abordagem assumida, já que é isso que gera o debate sadio e, nessa esteira, o aprendizado. A questão é que, para que isso ocorra, é necessário que o documentário tenha um objetivo e um caminho claro a ser trilhado, sob pena de os assuntos que aborda ou ficarem incompletos ou, no final das contas, parecerem uma compilação de informações soltas sobre determinada situação.

E é exatamente isso o que acontece em Indústria America. Se o curta documental The Last Truck – que concorreu ao Oscar em sua categoria em 2006 – tinha um objetivo claro, que era documentar o fechamento da fábrica da GM e a demissão de três mil funcionários em Moraine, Ohio, o novo longa da dupla de diretores atira para todos os lados sem parar para mirar e, portanto, acaba não acertando em nada, pelo menos não de maneira significativa e duradoura. E olha que não é por falta de questões interessantes para abordar.

Se inicialmente os conflitos culturais entre americanos e chineses – a visão que cada “lado” tem do outro trafega por todos os estereótipos que podemos imaginar – ganha relevo e parece sedimentar as bases da narrativa, isso logo é deixado de lado para que a formação ou não de um sindicato de trabalhadores passe a ser o foco por algum tempo, somente para novamente abrir espaço para outros assuntos paralelos como a viagem de um grupo de americanos para a sede chinesa da empresa e a mudança de postura corporativa em relação ao comando da filial americana. Ainda que seja perfeitamente possível concatenar as narrativas soltas em uma linha temporal lógica, esse não é um trabalho que deve ser jogado no colo do espectador, especialmente considerando que as questões não são abraçadas de verdade pela narrativa e sim salpicadas aqui e ali na medida em que há imagens ou sons gravados clandestinamente para apimentar o documentário.

Com isso, não fica exatamente claro se Bognat e Reichert estão criticando o sistema capitalista como responsáveis por todas as mazelas do mundo (se você ouviu um som agora, foram meus olhos revirando) ou se o objetivo é mostrar o quão inconciliáveis são as posturas americana e chinesa em termos corporativos e sociais ou se o foco está mesmo nas questões de aproximação cultural entre os dois países ou, ainda, se a questão fica restrita às vantagens e desvantagens do sindicalismo. Ao tentar abordar tudo, os diretores não abordam nada com profundidade e coesão e sequer conseguem transmitir seu posicionamento sobre determinado assunto. É como se Indústria Americana fosse a costura mal feita de dois ou três potencialmente interessantes documentários em curta-metragem que a produção tinha em mãos.

Os Obamas poderiam ter escolhido material melhor para fazer sua estreia no audiovisual. Indústria Americana sofre de falta de foco e de sofreguidão narrativa que, porém, por levarem o carimbo do querido casal presidencial americano, provavelmente terá todos os seus defeitos convenientemente esquecidos para continuar ganhando todas as láureas possíveis.

Indústria Americana (American Factory, EUA – 2019)
Direção: Steven Bognar, Julia Reichert
Com: Junming ‘Jimmy’ Wang, Robert Allen, Sherrod Brown, Dave Burrows, Austin Cole, John Crane, John Gauthier, Rob Haerr, Cynthia Harper, Wong He, Timi Jernigan, Jill Lamantia, Jeff Daochuan Liu, Shawnea Rosser, Rebecca Ruan-O’Shaughnessy
Duração: 110 min.

Crítica | Dois Papas

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Duas visões muito distintas do que é a igreja e de como ela deve ser gerida encontram-se neste Dois Papas (2019), filme dirigido por Fernando Meirelles para a Netflix. No centro da obra, dois religiosos católicos — Joseph Ratzinger (Bento XVI, interpretado por Anthony Hopkins) e Jorge Bergoglio (Francisco, interpretado por Jonathan Pryce) — em um momento bastante conturbado para a igreja, com diversas investigações acontecendo em torno do líder religioso e uma visão geral de que para se manter viva, a igreja precisava de reformas. E é justamente nesse tablado de crise que o roteiro de Anthony McCarten começa a sua jornada, centrando a história nos diálogos entre o Papa e o Cardeal.

Jonathan Pryce e Anthony Hopkins estão absolutamente fascinantes em seus papéis. A semelhança física dos dois atores com os personagens históricos que representam já é algo notável (palmas para a equipe de maquiagem!), mas a coisa vai muito além das aparências. Os dois atores assumem a seriedade e o pensamento desses dois religiosos e recebem um texto forte, respeitoso e muito verdadeiro sobre aquilo que o mundo pensa a respeito da igreja como um todo, tando o lado daqueles que não possuem religião, quanto o lado dos religiosos. Os dilemas de fé e de vida aqui representados podem ser compreendidos por qualquer um.

O fascínio em torno do ritual religioso começa cedo no filme, com a morte de João Paulo II e o início do Conclave que elegeria Bento XVI. O texto se constrói através de um paralelismo entre trajetórias, com Ratzinger assumindo o cargo em Roma e Bergoglio iniciando o processo de sua aposentadoria, para a qual precisava da aprovação do novo pontífice. Fernando Meirelles sabe separar muito bem as diferentes abordagens visuais para as cenas na Argentina (mais documentais, com fotografia sem grande garbo e montagem mais rápida) e para as cenas na Itália, especialmente nos espaços religiosos. Como os figurinos “oficiais” já possuem um grande impacto e beleza por si só, coube à fotografia e à direção aproveitar ao máximo as locações e a presença de dois grandes atores levando adiante uma conversa teológica, mostrando que a visão da Bíblia e a própria tradição eclesiástica são mutáveis e ajustáveis, abraçando as necessidades dos fiéis em novos tempos à luz dos mandamentos divinos.

Este, aliás, é o grande ponto de separação entre os dois religiosos e, apesar da mensagem de amizade e proximidade que o filme nos traz, o fato é que a cisão religiosa (dentro e fora da alta cúpula) prossegue firme e forme durante todo o papado de Francisco, especialmente pelas declarações de maior acolhimento, assistência, amor ao próximo e a Deus… basicamente a reafirmação do Evangelho proposto por Cristo e que, por um motivo bastante incompreensível, tem gerado um inconformismo notável em certos grupos. Essa tendência já é possível ver no filme como uma parte da oposição de ideias entre os protagonistas, condição que gera, de maneira bastante orgânica, uma aproximação fraterna (e espiritual, claro) entre eles. A câmera adota excelentes ângulos para mostrar a visão do espaço pelos olhos desses indivíduos, o que também reflete a maneira como eles se comportam, cabendo ao roteiro inserir muitos pontos de humor (todos bem pensados) e alguns momentos ternos e inesquecíveis entre os dois homens.

A coisa muda bastante quando chega o flashback e, posteriormente, as “imagens reais”. Esse momento de distanciamento não é ruim em si mesmo, mas se torna um pequeno estorvo para o filme. Primeiro, as cenas curtas que apresentam o passado de Bergoglio são um bom aperitivo. Mas o roteiro aumenta muitíssimo esse bloco, dando-nos praticamente um outro filme, deslocando a trama daquilo que ela tem de melhor (os diálogos, debates e quaisquer interações entre os dois atores principais) para um ato que age como grande distração, embora seja isoladamente interessante e com um grande peso para o discurso de mudança, perdão e reafirmação da fé que o longa trará no final, agora dentro da esfera confessional onde as fragilidades de cada um vêm à tona. O flashback para o passado do Papa Francisco mostra seus terríveis erros, assim como alguns breves momentos indicam os erros terríveis do Papa Bento XVI. Por mais nuances de propaganda que a obra tenha (e que obra não tem, não é mesmo?), o roteiro não permite uma visão totalmente defensora ou condenatória dos Papas, mostrando-os como líderes, mas também humanizando-os o bastante para indicar que todos precisam lutar para se tornar alguém melhor.

Belas imagens, trilha sonora e atuações soberbas fazem de Dois Papas um drama que fala ao coração de qualquer espectador. Claro que para os religiosos há um significado maior em tudo o que está aqui, mas aquilo que se debate, a trajetória e mesmo o conflito interno à instituição desses indivíduos podem falar a todos, porque constituem um bom drama. Dando espaço demais às cenas do passado e perdendo a mão na miríade de imagens sobre as viagens do Papa Francisco (das quais a única bem utilizada e necessária é aquela com o discurso sobre os imigrantes e refugiados), o filme é minado por uma estranha ambição documental ou de fechamento de um ciclo com profundo realismo. Mas não deixa de ser uma boa produção. E uma porta de entrada para a discussão sobre a igreja e a fé em tempos onde alguns milhares de cristãos são verdadeiras máquinas de odiar e reproduzir mentiras, supostamente em nome de Deus e em defesa do Cristianismo…

Dois Papas (The Two Popes) — Reino Unido, Itália, Argentina, EUA, 2019
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Sidney Cole, Thomas D Williams, Federico Torre, Pablo Trimarchi, Walter Andrade, Juan Miguel Arias, Lisandro Fiks, Fabricio Martin, Matthew T. Reynolds, María Ucedo
Duração: 125 min.