Netflix – Filmes

Crítica | Entre Realidades

horse-girl-2020-alison-brie-netflix plano crítico entre realidades

O passado nem sempre é um lugar que queremos acessar, principalmente se ele guarda uma experiência traumática familiar. Há muitas formas tentar seguir a vida normalmente e esconder para baixo do tapete todos esses problemas. Entre elas, torna-se comum a busca por um isolamento social e por uma rotina tão protocolar que praticamente ligamos o piloto automático. Assim, a alienação parece ser o jeito mais fácil de achar um escapismo imediato. Este é o caso de Sarah (Alison Brie), que divide seu tempo em trabalhar como artesã e visitas a um estábulo, além de, nas horas vagas, assistir ao seriado fictício Purgatório (que lembra vagamente uma sátira de Supernatural) e visitar o túmulo de sua mãe.

Aliás, essa poderia ser muito bem a vida de qualquer cidadão médio: ir para seu trabalho e chegar em casa para assistir um seriado que, apesar de sua qualidade duvidosa, aliena e prende sua atenção. Todavia, há algo que diferencia Sarah das outras pessoas. Não só possui um sonambulismo que assusta sua colega de apartamento (Debby Ryan) e faz com que acorde em lugares inusitados, mas a protagonista passa a sonhar com pessoas que ela ainda irá conhecer na vida real e isso faz com que seja tomada por pensamento paranoico envolvendo clonagem e alienígenas, muito influenciado pelo programa de TV que assiste.

Obviamente, não é preciso dizer que Entre Realidades segue uma narrativa na qual ficamos tão desnorteados e confusos quanto Sarah, alternando entre a realidade e sonhos surrealistas. Seguindo o ponto de vista da protagonista, o filme tenta colocar nossa crença à prova. Estaria ela realmente sofrendo uma conspiração ou é tudo um surto psicótico por conta de sua depressão não assumida? O roteiro de Baena e da própria Brie deixa espaço para as duas interpretações, o que acaba sendo uma armadilha, já que nenhuma delas é desenvolvida bem o suficiente. Nem a metáfora para a depressão ganha mais do que uma cena de conversa com um psicólogo e nem o suspense se sustenta apenas por si só, apoiando-se constantemente em sua trilha sonora futurista que induz a ansiedade, quanto na encantadora atuação de Brie.

Falando em Alison Brie, é um mistério para mim como a atriz ainda não tenha conseguido um papel de maior destaque na carreira cinematográfica. Sua atuação em Entre Realidades é como um aperfeiçoamento de tudo que ela fez em séries como Community e GLOW até aqui, sendo principalmente uma pessoa que esbanja pureza e inocência, algo que acaba trazendo muita credibilidade para algumas situações um tanto quanto ridículas que sua personagem passa. Logo, Brie torna possível a existência de uma adulta que acredita estar vivendo dentro de um universo paralelo, o que ainda não é suficiente para impedir que várias cenas provoquem vergonha alheia, como a do cemitério ou a do banho de incenso na casa. 

Dentro desta lógica, penso até que no terço final o longa propositalmente vá perdendo sua conexão com a realidade conforme a protagonista embarca em sua loucura, mas Baena confia demais no poder imagético de seus sonhos acordados e negligencia uma maior exploração de da cabeça de Sarah ou das próprias informações que ele vai soltando casualmente. No fim, Entre Realidades parece ser um filme que fica no meio termo entre um episódio mal explorado de Arquivo X, uma sátira aos conspiracionistas norte-americanos e uma visão do mundo sob a ótica de alguém com problemas mentais. Uma pena que este último subtexto apenas pareça uma desculpa para que Baena brinque de tentar criar uma narrativa lyncheana, o que acaba sendo apenas genérico e sem foco definido. 

Entre Realidades (Horse Girl) – USA, 2020
Direção: Jeff Baena
Roteiro: Jeff Baena, Alison Brie
Elenco: Alison Brie, John Reynolds, Debby Ryan, Molly Shannon, John Ortiz, Jay Duplass, Robin Tunney, Paul Reiser
Duração: 104 min.

Crítica | Joias Brutas

plano crítico joias brutas uncut gems netflix plano crítico

Cinco anos antes de Joias Brutas, em 2014, os irmãos Benny e Josh Safdie dirigiam o longa Amor, Drogas e Nova York. Naquela história, a moradora de rua Harley estava presa em uma rotina que se baseava em conseguir dinheiro suficiente para comprar uma quantia de drogas que lhe deixasse anestesiada por um dia. Na manhã seguinte, a mesma coisa, e assim ia passando o tempo, um dia após o outro. Assim, era como se a protagonista estivesse sempre confiando seu futuro ao acaso ou na sorte. Afinal, não há como prever o aparecimento de um surto psicótico ou uma overdose. Já em Bom Comportamento, de 2017, o fugitivo Connie entrava uma crescente de decisões impulsivas que iam formando uma grande bola de neve, na tentativa de conseguir dinheiro para pagar a fiança de seu irmão preso. De certo modo, o novo trabalho dos Safdies é um grande amálgama desses dois filmes.

Em Joias Brutas, o joalheiro e judeu Howard Ratner (Adam Sandler) — assim como os outros protagonistas dos Safdies —  possui um vício. No seu caso, apostar, não só com dinheiro, mas, consequentemente, com a sua própria vida. Após conseguir uma rara pedra de opala de mineradores da Etiópia, Ratner começa diversas negociações paralelas e acaba se enrolando com todas elas. Todavia, para quitar suas dívidas anteriores, ele vai se afundando em mais apostas arriscadas, principalmente envolvendo jogos de basquete.

Desde o início somos transportados para a frenética vida de Ratner. Ele é um personagem que está em constante movimento e sempre ao telefone negociando novos esquemas que surgem decorrentes dos anteriores. Se não há nenhum momento de respiro durante a narrativa, é porque o filme segue a mesma lógica de um mercado financeiro especulativo. Não há tempo de pensar, só de uma reagir imediatamente, em uma relação muito direta entre causa e consequência que parece se reinventar através de um caos a todo momento. Se Joias Brutas é uma experiência tão sufocante desde que começa, um dos principais motivos é porque, nós, com uma visão de fora, conseguimos ver que o protagonista está cavando sua própria cova, ao mesmo tempo que ele está totalmente cego diante do jogo que está imerso.

Para Howard, cada ato desesperado é como uma tentativa de retomar controle de algo que já está totalmente longe de seu alcance. Mais do que estar no poder, como ele indica em uma determinada conversa com Kevin Garnett (jogador de basquete que interpreta a si mesmo), é sobre ter a sensação de comando. Este mesmo raciocínio é o que acontece com o próprio Garnett, que, quando está sob a posse da pedra de opala, acredita que faz partidas melhores na NBA

Como alguém que se aventurou em apostas, fica fácil, para mim, entender toda essa questão central de falso-controle que envolve o protagonista. Lembro de passar horas discutindo com amigos sobre a lógica de uma roleta. Entre várias apostas possíveis, uma delas é se a próxima bola a ser sorteada será da cor preta ou vermelha. A chance de cada uma são iguais, sempre. Entretanto, eu só entrava com dinheiro toda vez que havia, no mínimo, uma sequência de cinco bolas de uma cor para apostar contra ela. Na minha cabeça, eu tinha a impressão de que era mais seguro apostar assim. No entanto, estou apenas me enganando, pois nada impede que venha a sexta bola da mesma cor. Não há como ser mais esperto que o próprio sistema.

Me perdoem pela digressão acima, mas tal analogia me pareceu cabível como um resumo do que é assistir Joias Brutas. O personagem vivido por Sandler possui tanta convicção que está contornando a situação que chegamos a nos iludir, junto com ele, conforme a progressão da trama. O pior ainda é que o roteiro escrito pelos próprios Safdies e por Ronald Bronstein nos manipula justamente porque cede pequenas vitórias momentâneas, apenas para trazer uma catástrofe maior no segundo seguinte. Chega a ser curioso que no meio da história, Howard receba uma ligação positiva do seu médico sobre o resultado da colonoscopia que ele havia realizado no início do filme. Ele fica genuinamente aliviado por alguns segundos, mas não consegue nem assimilar este momento, porque está discutindo no meio de seu escritório.

Aliás, nessa lógica de um protagonista que está constantemente precisando se provar, a escolha de Adam Sandler acaba sendo a melhor possível. Com exceção de Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson, o ator parecia ter entrado em uma zona de conforto nesta década em papéis cômicos voltados para um nicho muito específico de público. Desta vez, assim como o próprio Howard, Joias Brutas soa como uma grande prova para Sandler mostrar seu valor e que, no fundo, o declínio de sua carreira teve muito mais a ver com escolhas erradas do que sua capacidade como ator. Há um misto de sofrimento e de energia que vai se adaptando muito bem para cada situação que o personagem se encontra, acompanhando a bipolaridade de picos do longa. 

Por fim, em Joias Brutas, os Safdies fogem do submundo dos junkies, das drogas e dos rejeitados de seus filmes anteriores, mas, no fundo, eles apenas estão mostrando o outro lado da mesma moeda. Agora, eles vão para uma Nova York dos leilões, dos empresários, rappers e apostas para abordar o mesmo tema: o vício. E, pobre ou rico, o vício é a ruína do homem. Algo que os diretores parecem entender melhor do que ninguém no cinema norte-americano moderno. 

Joias Brutas (Uncut Gems) – USA, 2019
Direção: Josh Safdie e Benny Safdie
Roteiro: Josh Safdie, Benny Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Adam Sandler, Julia Fox, Lakeith Stanfield, Idina Menzel, Kevin Garnett, Judd Hirsch, The Weeknd, Tilda Swinton, John Amos, Trinidad James, Eric Bogosian, Marcia DeBonis, Pom Klementieff,  Natasha Lyonne
Duração: 135 min.

Crítica | Sombra Lunar

in-the-shadow-of-the-moon plano crítico sombra lunar

É triste reconhecer que Sombra Lunar tinha tudo para ser um ótimo filme, mas que se destrói pela necessidade de abranger um público que o roteiro e a ideia  inicial não planejavam atingir. As primeiras cenas, por exemplo, não conversam com o decorrer da trama, que é repleto de um drama familiar desnecessário. Além disso, a película é mais uma que serve como exemplo para obras que utilizam viagem no tempo em sua narrativa: mesmo que cuidadosamente pensada, vai terminar com inúmeros furos e questões não respondidas. Sombra Lunar conta a história de Locke (Boyd Holbrook), um policial da Filadélfia que investiga um caso de serial killer com o investigador Holt (Michael C. Hall). No entanto, o caso ganha novas repercussões quando Locke passa a associar a investigação a uma garota que consegue viajar no tempo a cada nove anos.

Eu não entendo como um projeto que mostra um cérebro fritando em uma chapa de hambúrguer nos primeiros minutos logo se torna um drama familiar com conceitos clichês. É nítido que Sombra Lunar ainda tenta resgatar o elemento fúnebre da abertura durante a trama, porém depois que a dramaticidade é incluída, esse elemento fica escondido. São inúmeras as cenas de ação (que, porventura, são mal filmadas) seguidas de sequências do protagonista precisando lidar com a filha pequena. Não satisfeitos, os roteiristas introduzem uma relação familiar do investigador com Locke que, além de ser mal explorado, não tinha qualquer motivo para estar lá. Essa relação só aumenta o efeito sentimental que a ideia inicial (policial com viagem no tempo) claramente não suporta. Isso não significa que o protagonista não deveria ter uma vida pessoal, com uma filha e uma esposa falecida abordadas. No entanto, bastava uma citação para que entendêssemos as motivações e a história dele. O problema, enfim, está no excesso de drama familiar em uma obra que tem seus pilares no gênero policial, na ação e no mistério. 

Esse artifício demonstra o interesse do filme em alcançar um público que não deveria estar incluso – no caso, o público juvenil. Se fosse só um drama familiar, seria um erro dos roteiristas e ponto. Porém, também é notório o clichê envolvido nos diálogos, puxando para um lado mais infantil. Esse clichê não é visto em qualquer diálogo das cenas de ação, por exemplo, ou ao menos lembrados. Considerando que as sequências fora dos laços familiares do protagonista são pesadas e voltadas a um público mais adulto, encontramos uma pergunta  no filme: afinal, quem deveria estar assistindo? Alguém que procura um suspense policial com cenas pesadas e um roteiro não tão óbvio se sentirá incomodado com as sequências dramáticas; ou outro que procura um drama familiar… bem, com certeza estaria assistindo o filme errado.

Isso tudo também é base para mostrar que o drama familiar, além de abaixar drasticamente a nota oferecida ao filme, não foi benéfico em nenhum aspecto da obra. Só descobrimos esse lado clichê da trama quando assistimos, não sendo citado no trailer ou na sinopse. Dessa forma, alguém que procura algo mais voltado para o sentimental, não encontrará interesse nenhum em Sombra Lunar. Então, qual a necessidade deste elemento estar presente?

SPOILERS

Mais uma vez a viagem no tempo ocasiona inúmeros furos que, para serem refutados, seria necessário construir uma narrativa totalmente diferente – e isso não seria benéfico para ninguém. O arco da antagonista Rya (Cleopatra Coleman) deixa inúmeras questões que são vagamente respondidas, mas que qualquer reflexão nos deixa minimamente inquietos. Por exemplo, a própria antagonista diz que não é possível modificar a linha do tempo, ou seja, se ela morreu nas mãos de Locke em 1988 durante uma viagem no tempo, inevitavelmente isso deve se repetir. Então, como foi que a primeira pessoa viajou no tempo e mudou o futuro apocalíptico retratado na primeira cena do filme? Mais: se Locke é o principal responsável para que Rya se torne voluntária como viajante do tempo, e considerando que ele só se tornou físico especializado na área por causa dos acontecimentos com a garota em 1988, como Rya foi a primeira a viajar no tempo se na primeira vez que ela viajou Locke não era físico? Esses são dois exemplos de questões que a trama não responde. É claro que tem muitos outros.

Por outro lado, as cenas policiais são interessantes e a ousadia em envolver policial com viagem no tempo é inovador. É uma pena que esse recurso é desfocado pelo drama familiar excessivo e por inúmeras questões não respondidas (comuns em filmes do gênero). Deixo apenas um apelo talvez extremista: deixem de fazer filme com viagem no tempo. No geral, não funciona como deveria.

Sombra Lunar (In the Shadow of the Moon) – EUA, 2019
Direção: Jim Mikcle
Roteiro: Gregory Weidman, Geoffrey Tock
Elenco: Boyd Holbrook, Cleopatra Coleman, Bokeem Woodbine, Michael C. Hall, Rudi Dharmalingam, Al Maini, Quincy Kirkwood, Sarah Dugdale, Rachel Keller, Ryan Allen, Tony Nappo, Philippa Domville, Tony Craig, Gabrielle Gaham, Julia Knope
Duração: 115 min.

Crítica | Indústria Americana

Indústria Americana, de certa forma uma continuação de The Last Truck: Closing of a GM Plant, de 2009, é o primeiro filme da Higher Ground Productions, produtora nascente de ninguém menos do que Barack e Michelle Obama. E isso é o que de melhor posso dizer sobre esse documentário dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert, focado na entrada da Fuyao, empresa chinesa fabricantes de vidros automobilísticos, em território americano, ocupando a fábrica da GM fechada em 2008 e que fora objeto do documentário anteriormente citado.

Diferente do que muitos podem imaginar, documentários não são documentos assépticos e sem opiniões que precisam analisar cada lado da história de maneria isenta e equilibrada. A “contaminação” dessas obras por ideologias, posicionamentos políticos, religiosos, sócio-culturais e tudo mais fazem parte do jogo e, muito francamente, é o que dá o sabor para a grande maioria delas, especialmente quando o espectador discorda da abordagem assumida, já que é isso que gera o debate sadio e, nessa esteira, o aprendizado. A questão é que, para que isso ocorra, é necessário que o documentário tenha um objetivo e um caminho claro a ser trilhado, sob pena de os assuntos que aborda ou ficarem incompletos ou, no final das contas, parecerem uma compilação de informações soltas sobre determinada situação.

E é exatamente isso o que acontece em Indústria America. Se o curta documental The Last Truck – que concorreu ao Oscar em sua categoria em 2006 – tinha um objetivo claro, que era documentar o fechamento da fábrica da GM e a demissão de três mil funcionários em Moraine, Ohio, o novo longa da dupla de diretores atira para todos os lados sem parar para mirar e, portanto, acaba não acertando em nada, pelo menos não de maneira significativa e duradoura. E olha que não é por falta de questões interessantes para abordar.

Se inicialmente os conflitos culturais entre americanos e chineses – a visão que cada “lado” tem do outro trafega por todos os estereótipos que podemos imaginar – ganha relevo e parece sedimentar as bases da narrativa, isso logo é deixado de lado para que a formação ou não de um sindicato de trabalhadores passe a ser o foco por algum tempo, somente para novamente abrir espaço para outros assuntos paralelos como a viagem de um grupo de americanos para a sede chinesa da empresa e a mudança de postura corporativa em relação ao comando da filial americana. Ainda que seja perfeitamente possível concatenar as narrativas soltas em uma linha temporal lógica, esse não é um trabalho que deve ser jogado no colo do espectador, especialmente considerando que as questões não são abraçadas de verdade pela narrativa e sim salpicadas aqui e ali na medida em que há imagens ou sons gravados clandestinamente para apimentar o documentário.

Com isso, não fica exatamente claro se Bognat e Reichert estão criticando o sistema capitalista como responsáveis por todas as mazelas do mundo (se você ouviu um som agora, foram meus olhos revirando) ou se o objetivo é mostrar o quão inconciliáveis são as posturas americana e chinesa em termos corporativos e sociais ou se o foco está mesmo nas questões de aproximação cultural entre os dois países ou, ainda, se a questão fica restrita às vantagens e desvantagens do sindicalismo. Ao tentar abordar tudo, os diretores não abordam nada com profundidade e coesão e sequer conseguem transmitir seu posicionamento sobre determinado assunto. É como se Indústria Americana fosse a costura mal feita de dois ou três potencialmente interessantes documentários em curta-metragem que a produção tinha em mãos.

Os Obamas poderiam ter escolhido material melhor para fazer sua estreia no audiovisual. Indústria Americana sofre de falta de foco e de sofreguidão narrativa que, porém, por levarem o carimbo do querido casal presidencial americano, provavelmente terá todos os seus defeitos convenientemente esquecidos para continuar ganhando todas as láureas possíveis.

Indústria Americana (American Factory, EUA – 2019)
Direção: Steven Bognar, Julia Reichert
Com: Junming ‘Jimmy’ Wang, Robert Allen, Sherrod Brown, Dave Burrows, Austin Cole, John Crane, John Gauthier, Rob Haerr, Cynthia Harper, Wong He, Timi Jernigan, Jill Lamantia, Jeff Daochuan Liu, Shawnea Rosser, Rebecca Ruan-O’Shaughnessy
Duração: 110 min.

Crítica | El Pepe, Uma Vida Suprema

“O amor não é sempre um refúgio?”

Imagine que você é filho de alguém que dedicou sua vida à política, participando de guerrilha urbana, movimentos revolucionários e sendo, ainda jovem, um dos líderes da resistência contra uma ditadura militar e, posteriormente, já idoso, eleito presidente. Uma figura lendária na política de seu país, correto? Imagine que essa figura é José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, e você seja Emir Kusturica e esteja gravando um documentário sobre a vida do ex-presidente uruguaio. Essa é a premissa de El Pepe, Uma Vida Suprema.

Coloco dessa forma porque durante toda a projeção presenciamos uma conversa entre Mujica e Kusturica em vários pontos da casa do uruguaio, como se fossem simplesmente conversas do cotidiano entre pai e filho. Não há nenhuma ligação desse gênero entre o político e o cineasta, obviamente, porém toda atenção e admiração do diretor ao ouvir os relatos do protagonista de sua obra criam uma atmosfera totalmente paternal. E é através dessa abordagem que o realizador começa a dissecar o passado do ex-guerrilheiro de maneira orgânica, adentrando o íntimo do entrevistado como se estivéssemos todos saboreando um mate em uma bela tarde da primavera uruguaia.

Além da ambientação durante esses momentos, sempre em locais calmos e em meio a natureza, a utilização de planos fechados é uma das principais razões que trazem esse ar aconchegante para a conversa. Enquanto Mujica vai relembrando conquistas e derrotas de sua vida política e pessoal, Kusturica, entre cenas e fotografias desse passado de enfrentamento, faz uso do primeiríssimo plano em seu próprio rosto, possibilitando percebermos seu foco absoluto e admirado entre as baforadas que dá em seu charuto.

Ao entrevistar companheiros de Pepe entre os relatos do protagonista para ajudar a reconstruir as histórias, como Eleuterio Fernández Huidobro, ex-integrante do MLN-T (grupo dos guerrilheiros) e ex-ministro da Defesa no governo Mujica, o diretor traz cenas da obra Estado de Sítio, do grego Costa-Gavras, com o objetivo de ilustrar as falas dos personagens. Não somente com esse intuito, porém, já que os militares aparecem sendo ridicularizados, como na cena que tentam desligar, sem sucesso, diversos alto-falantes exaltando Che Guevara, trazendo um ar cômico que casa bem com o tom leve apresentado majoritariamente na fita.

Fica evidente a paixão de Mujica pela vida. Desde a maneira como relembra episódios dos mais diversos de sua própria vida até como fala indignado sobre as dificuldades vividas por uma grande quantidade de pessoas, demonstrando sua imensa empatia (e seu orgulho ao lembrar que diminuiu imensamente a taxa de pobreza do país durante seu mandato). E o quesito da obra que conversa melhor com essas exposições do ex-presidente é  trilha sonora. Kusturica utiliza o tango, ritmo referenciado pelo entrevistado, para costurar a emoção dos relatos com a do gênero musical, resultando em cenas absolutamente agradáveis aos olhos e ouvidos.

El Pepe, Uma Vida Suprema apresenta-se como um documentário da vida de uma enorme personalidade política de um dos nossos países vizinhos, no entanto é muito mais. O filme é praticamente uma ode à paixão pela vida e pela busca de um mundo mais humano, igualitário e justo, abdicando do supérfluo e do material. Tudo isso durante uma adorável conversa, com um adorável senhor em algum adorável recanto do Uruguai.

El Pepe, Uma Vida Suprema (El Pepe, Una Vida Suprema) – Argentina, Sérvia, Uruguai, 2019
Direção: Emir Kusturica
Roteiro: Emir Kusturica
Elenco: José Mujica, Emir Kusturica,  Eleuterio Fernández Huidobro, Lucía Topolansky
Duração: 74 minutos

Crítica | O Aplicativo (The App)

plano crítico the app o aplicativo 2019

Desde o sucesso do jogo Simulacra, que tematiza revolução tecnológica por meio de inteligência artificial em aplicativos, é a segunda vez que a Netflix aposta em algo do gênero. Na primeira, a plataforma produziu o maravilhoso Cam. Agora, esboçou um projeto que acaba quando começa. Mais Simulacra que isso, impossível! Nick (Vincenzo Crea), um ator famoso, fica obcecado por um aplicativo de namoro, ao passo que desperta a desconfiança de sua namorada e dos produtores de seu primeiro filme em Roma.

A trama é a mais arrastada que já vi (e não é uma hipérbole). É a primeira vez que não consigo diferenciar os três atos, ou ao menos dois deles. Os roteiristas nos tratam como idiotas, e escrevem cenas cíclicas que não nos levam a lugar algum. No caso do protagonista, a fama dele como ator é citada trocentas vezes, mas não têm influência alguma: é aproveitada naquela cena em específico mas não impacta em nada depois. Isso também se estende a incrivelmente todos os personagens secundários. O irmão do protagonista, a namorada, a camareira, ninguém tem uma ação que impacte minimamente em algo na trama. Apenas – e em alguns poucos momentos – as ações do protagonista tem alguma relevância. Com isso, é possível condensar os intermináveis 79 minutos em 2 minutos (e ainda acho muito), mantendo apenas o personagem de Crea. 

Junto a isso (e também por causa disso), os personagens são jogados cruelmente na narrativa. Eles simplesmente aparecem, fazem suas falas, saem e, claro, não impactam em nada. Uma cena em específico me chamou muito a atenção negativamente. Na sequência, um garçom atende Nick no restaurante do hotel e, do nada, pede para que ele consiga um emprego para o seu irmão formado em marketing (?). Poxa, se está no começo do filme, vai mudar em algo, né? Spoiler: não! O garçom literalmente some da trama depois dessa sequência. E o irmão dele sequer dá as caras ou é citado novamente.

Sinceramente, se alguém planeja assistir a isso, basta saber que o projeto fala de um aplicativo à la Simulacra e… partir para os 5 minutos finais. Fazendo o teste, realmente descobri que isso é funcional. E nem assim a obra convence. O final é o mais aleatório possível, forçando um plot que a sinopse e a trama simplesmente não suportam. É um final tão arrastado quanto os personagens. E para piorar tudo, a película introduz nos últimos momentos um “6 meses depois” que finalmente parece alavancar algo de interessante na obra. Infelizmente o filme acaba quando, enfim, tenta começar.

A nota só não foi mínima porque a obra se salva minimamente pelo tema. Levantar a questão do avanço tecnológico desenfreado no mundo atual é importante e necessário. Além disso, lembra um pouco algum episódio de Black Mirror, mas é claro que o pior episódio possível. 

O Aplicativo é uma das piores produções da Netflix. Com roteiro, personagens e direção cuspidos aleatoriamente na tela, a obra não é digna de ser vista por ninguém. A sensação ao terminar é de assistirmos a uma produção escolar sem orçamento de alunos do sexto ano do Ensino Fundamental.

O Aplicativo (The App) – Itália, 2019
Direção: Elisa Fuksas
Roteiro: Elisa Fuksas, Lucio Pellegrini
Elenco: Vincenzo Crea, Jessica Cressy, Greta Scarano, Maya Sansa, Abel Ferrara, Anita Kravos
Duração: 79 minutos.

Crítica | Eli (2019)

“-Sabe o que aconteceu com o garoto que fez perguntas demais?

-Obteve respostas?”

Eli é mais um terror que promete muito, porém o roteiro preguiçoso, recheado de dilemas comuns ao gênero e jump scares que só assusta quem nunca assistiu um terror na vida, transforma o longa em uma grande vergonha. Além disso, a falta de comprometimento dos roteiristas em finalizar uma história coerentemente é uma grande falta de respeito com quem perde o tempo assistindo ao projeto.

Eli (Charlie Shotwell) sofre de uma rara doença que o deixa alérgico a quase tudo, incluindo o mundo exterior. Na tentativa de curar o filho, Rose (Kelly Reilly) e Paul (Max Martini) levam o garoto para a Doutora Horn (Lili Taylor). A médica utiliza métodos duvidosos, ao passo que cada vez mais afeta a sanidade de Eli.

Apenas destaco a brilhantíssima pauta. Com esse tema, seria possível construir uma história voltada ao terror psicológico, recheada de sequências claustrofóbicas, como a do garoto desesperado ao tocar o mundo exterior, por exemplo. Eli de fato se apropria dessa ideia, porém ela parece jogada no primeiro ato, não aparecendo mais depois, de modo que não influencia em nada no decorrer da história. Além disso, a doença do garoto não é desenvolvida em qualquer momento da narrativa, e é rapidamente deixada de lado com a desculpa de que a casa de Horn é totalmente livre de contaminação. A brilhantíssima pauta, enfim, foi só uma desculpa para deixar os protagonistas presos na casa e não os possibilitarem de saírem correndo desesperados.

O roteiro também não quis explorar brilhantíssimas ideias nas cenas de susto. Os jump scares são tão comuns que parecem ser escritos por uma criança: fantasmas sussurrando, vidros batendo, barulhos de madeira estalando, sombras em cortinas, entre outros. E isso não é só em momentos específicos do filme, o segundo ato é literalmente apenas disso. O pior de tudo é que o terceiro não precisava do segundo ato. Sim! assistimos grande parte do filme inutilmente.

SPOILERS!

Parece que os três roteiristas brigaram para cada um ter sua parte na trama. Se analisarmos o primeiro e o segundo atos com o terceiro, eles são completamente dissociáveis. No terceiro, partimos para uma história com poderes demoníacos, freiras, exorcismos, fantasmas do bem e… Satã!? Lembre que a premissa era de um garoto com uma doença rara…

O que salva o filme do desastre total são as atuações e o CGI. O trio de adultos atua com louvor, enquanto Shotwell e Sadie Sink, como Haley, seguram a barra durante toda a trama. Já o CGI é mais notável no final do terceiro ato, entretanto é algo que marca positivamente todo o filme. A cena em que Eli coloca três freiras de ponta cabeça e as queima, apesar de super pesada, é uma das mais belas da Netflix.

Eli é uma grande perda de pauta. O roteiro não se sustenta e parece uma briga de crianças para aparecer nas telas. Sorte que os efeitos visuais e as atuações salvam o filme da nota mínima. Tomara que roteiristas mais competentes se inspirem no tema e produzam uma obra digna da mesma pauta…

Eli – EUA, 2019
Direção: Ciarán Foy
Roteiro: David Chirchirillo, Ian Goldberg, Richard Naing
Elenco: Charlie Shotwell, Kelly Reilly, Max Martini, Lili Taylor, Sadie Sink, Deneen Tyler, Katia Gomez, Austin Foxx, Kailia Posey, Parker Lovein, Lou Beatty Jr., Jared Bankens, Nathaniel Woolsey, Mitchell de Rubira
Duração: 98 minutos.

Crítica | Dois Papas

The-Two-Popes plano critico dois papas

Duas visões muito distintas do que é a igreja e de como ela deve ser gerida encontram-se neste Dois Papas (2019), filme dirigido por Fernando Meirelles para a Netflix. No centro da obra, dois religiosos católicos — Joseph Ratzinger (Bento XVI, interpretado por Anthony Hopkins) e Jorge Bergoglio (Francisco, interpretado por Jonathan Pryce) — em um momento bastante conturbado para a igreja, com diversas investigações acontecendo em torno do líder religioso e uma visão geral de que para se manter viva, a igreja precisava de reformas. E é justamente nesse tablado de crise que o roteiro de Anthony McCarten começa a sua jornada, centrando a história nos diálogos entre o Papa e o Cardeal.

Jonathan Pryce e Anthony Hopkins estão absolutamente fascinantes em seus papéis. A semelhança física dos dois atores com os personagens históricos que representam já é algo notável (palmas para a equipe de maquiagem!), mas a coisa vai muito além das aparências. Os dois atores assumem a seriedade e o pensamento desses dois religiosos e recebem um texto forte, respeitoso e muito verdadeiro sobre aquilo que o mundo pensa a respeito da igreja como um todo, tando o lado daqueles que não possuem religião, quanto o lado dos religiosos. Os dilemas de fé e de vida aqui representados podem ser compreendidos por qualquer um.

O fascínio em torno do ritual religioso começa cedo no filme, com a morte de João Paulo II e o início do Conclave que elegeria Bento XVI. O texto se constrói através de um paralelismo entre trajetórias, com Ratzinger assumindo o cargo em Roma e Bergoglio iniciando o processo de sua aposentadoria, para a qual precisava da aprovação do novo pontífice. Fernando Meirelles sabe separar muito bem as diferentes abordagens visuais para as cenas na Argentina (mais documentais, com fotografia sem grande garbo e montagem mais rápida) e para as cenas na Itália, especialmente nos espaços religiosos. Como os figurinos “oficiais” já possuem um grande impacto e beleza por si só, coube à fotografia e à direção aproveitar ao máximo as locações e a presença de dois grandes atores levando adiante uma conversa teológica, mostrando que a visão da Bíblia e a própria tradição eclesiástica são mutáveis e ajustáveis, abraçando as necessidades dos fiéis em novos tempos à luz dos mandamentos divinos.

Este, aliás, é o grande ponto de separação entre os dois religiosos e, apesar da mensagem de amizade e proximidade que o filme nos traz, o fato é que a cisão religiosa (dentro e fora da alta cúpula) prossegue firme e forme durante todo o papado de Francisco, especialmente pelas declarações de maior acolhimento, assistência, amor ao próximo e a Deus… basicamente a reafirmação do Evangelho proposto por Cristo e que, por um motivo bastante incompreensível, tem gerado um inconformismo notável em certos grupos. Essa tendência já é possível ver no filme como uma parte da oposição de ideias entre os protagonistas, condição que gera, de maneira bastante orgânica, uma aproximação fraterna (e espiritual, claro) entre eles. A câmera adota excelentes ângulos para mostrar a visão do espaço pelos olhos desses indivíduos, o que também reflete a maneira como eles se comportam, cabendo ao roteiro inserir muitos pontos de humor (todos bem pensados) e alguns momentos ternos e inesquecíveis entre os dois homens.

A coisa muda bastante quando chega o flashback e, posteriormente, as “imagens reais”. Esse momento de distanciamento não é ruim em si mesmo, mas se torna um pequeno estorvo para o filme. Primeiro, as cenas curtas que apresentam o passado de Bergoglio são um bom aperitivo. Mas o roteiro aumenta muitíssimo esse bloco, dando-nos praticamente um outro filme, deslocando a trama daquilo que ela tem de melhor (os diálogos, debates e quaisquer interações entre os dois atores principais) para um ato que age como grande distração, embora seja isoladamente interessante e com um grande peso para o discurso de mudança, perdão e reafirmação da fé que o longa trará no final, agora dentro da esfera confessional onde as fragilidades de cada um vêm à tona. O flashback para o passado do Papa Francisco mostra seus terríveis erros, assim como alguns breves momentos indicam os erros terríveis do Papa Bento XVI. Por mais nuances de propaganda que a obra tenha (e que obra não tem, não é mesmo?), o roteiro não permite uma visão totalmente defensora ou condenatória dos Papas, mostrando-os como líderes, mas também humanizando-os o bastante para indicar que todos precisam lutar para se tornar alguém melhor.

Belas imagens, trilha sonora e atuações soberbas fazem de Dois Papas um drama que fala ao coração de qualquer espectador. Claro que para os religiosos há um significado maior em tudo o que está aqui, mas aquilo que se debate, a trajetória e mesmo o conflito interno à instituição desses indivíduos podem falar a todos, porque constituem um bom drama. Dando espaço demais às cenas do passado e perdendo a mão na miríade de imagens sobre as viagens do Papa Francisco (das quais a única bem utilizada e necessária é aquela com o discurso sobre os imigrantes e refugiados), o filme é minado por uma estranha ambição documental ou de fechamento de um ciclo com profundo realismo. Mas não deixa de ser uma boa produção. E uma porta de entrada para a discussão sobre a igreja e a fé em tempos onde alguns milhares de cristãos são verdadeiras máquinas de odiar e reproduzir mentiras, supostamente em nome de Deus e em defesa do Cristianismo…

Dois Papas (The Two Popes) — Reino Unido, Itália, Argentina, EUA, 2019
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Sidney Cole, Thomas D Williams, Federico Torre, Pablo Trimarchi, Walter Andrade, Juan Miguel Arias, Lisandro Fiks, Fabricio Martin, Matthew T. Reynolds, María Ucedo
Duração: 125 min.