Natal

Crítica | Meu Papai é Noel

Nos primeiros instantes da comédia dramática Meu Papai é Noel, dirigida por John Pasquin, tendo como direcionamento, o roteiro construído pela dupla formada por Steve Rudnick e Leo Benvenuti, sentimos que o que nos espera ao longo de seus 107 minutos é um festival do “mais do mesmo natalino”, com um dos personagens mais bem-sucedidos do capitalismo: o Papai Noel, frequente anualmente, geralmente nos lançamentos de novembro e dezembro. O que essa tal sensação nos passa? Simples: a mensagem de que devemos ser boas pessoas, consumir para presentear, fazer parte de uma família devidamente integrada para ser feliz, dentre outras lições das narrativas natalinas, em sua maioria, hollywoodianas.

Lançado em 1994, Meu Papai é Noel traz tudo isso, mas também consegue se estabelecer como uma história cativante, haja vista o carisma de seus personagens e a fuga de alguns clichês milagrosos, geralmente explicados diante da tal “magia natalina” que contamina todo mundo e faz quem não presta se tornar santo da noite para o dia. Em suma: mesmo que seu trajeto indique um final feliz para a família de Charlie (Eric Lloyd), o espírito natalino não mudará a condição de seus pais, divorciados e em tentativa de manutenção do diálogo social básico para as interações diante da resolução de conflitos que envolvam o garoto. Isso, para um filme natalino focado nas expectativas óbvias de um público cada vez mais alienado, torna-se o diferencial da produção, isto é, a entrega diante da fantasia sem perder o pé com a realidade.

Ao descortinar a história de Charlie, Meu Papai é Noel pinta um quadro de uma situação corriqueira na contemporaneidade: os filhos do divórcio e suas crises diante dos conflitos e tensões entre os seus pais. Na trama, o garoto é filho de Scott Calvin (Tim Allen), um homem que faz a linha do divorciado que ainda não arrumou uma nova relação e no feriado natalino, tem como missão tomar conta de seu único filho, jovem que teve a ilusão sobre a existência do Papai Noel diluída, graças ao padrasto Neal (Judge Reinhold), psiquiatra que acredita ser alienador iludir as crianças com uma farsa do tipo. Essa revelação cria no pai um sentimento de desrespeito em relação à forma como ele cria o seu filho, o que por sua vez, traz algumas celeumas no contato com a mãe do garoto (Wendy Crewson), a responsável por intermediar as idas e vindas e Charlie para a casa do pai. Interessante observar que Neal condena a existência do velho Noel, mas não assume que há um trauma diante dessa sua ojeriza, recalcado no passado e prestes a ser revelado nos momentos dramáticos próximos ao desfecho.

No último período juntos, Scott e Charlie vivem uma situação inusitada. O Papai Noel sofre um acidente e o pai do garoto agora é eleito, inicialmente contra a sua vontade, como o substituto do arauto dos presentes dos festejos natalinos. Eles trafegam de trenó, dialogam com as renas, conhecem o abrigo do bom velhinho e divertem-se tanto que tudo parece mera ilusão. A realidade, no entanto, revela-se dura quando Scott percebe que para ser o tal substituto, ele agora ganhará peso, barba e cabelo branco, além de ter que abdicar de suas necessidades dramáticos que gravitam em torno de seu perfil social. Ele agora é um novo homem. E, até conseguir comprovar o contrário, terá que sofrer a represália das pessoas descrentes, pois a maioria acha que a sua “loucura” pode colocar a vida do filho em perigo.

Diante dos conflitos, a produção arruma uma forma alternativa de contar a mesma história que o cinema, em especial, as narrativas oriundas do esquema hollywoodiano, adoram contar anualmente. Focado no público infantil, o filme é uma produção “família”, daquela que atende aos pequenos, mas não transforma a sessão de cinema dos adolescentes e adultos uma terapia do horror. Há o bom e velho sentimentalismo em busca de algumas lágrimas dos espectadores mais sensíveis, mas ainda assim, quando comparado ao lote gigantesco de filmes natalinos lançados todo ano, a produção se apresenta muito mais relevante e interessante não somente como entretenimento ligeiro, mas também por dar espaço para reflexões sobre padrões de família que não se encaixam no modelo tradicional pregado largamente pela própria indústria cinematográfica ao longo de seu percurso histórico.

Em seu processo narrativo, Meu Papai é Noel conta com a direção de fotografia de Walt Lloyd, profissional responsável pela captação de imagens, emprego do movimento e iluminação das cenas, todas geralmente eficientes, esquematizadas dentro de um padrão que não as deixam ser nada além do trivial, num material que funciona, tal como o seu design de produção, assinado por Carol Spier, funcional, mas também sem grandes momentos especiais: há os esperados pinheiros, o pisca-pisca, a lareira com as meias penduradas, os tons vermelhos, verdes e brancos em sintonia, principalmente nos trechos com neve, além de outros símbolos que fazem remissão ao período natalino. A música, conduzida por Michael Convertino, funciona e colabora com o ritmo do filme, dinâmico também graças aos seus efeitos visuais sem exageros.

Nos momentos finais, Meu Papai é Noel opta por não transformar a narrativa num festival de bobagens tradicionalistas ou preencher a tela pelo falso moralismo do american way of life. O consumismo, a tradição e outros elementos do tal modo de vida dos estadunidenses estão por lá, mas sem estratégias narrativas convenientes, fabricadas para encaixar as pessoas e as situações dentro de padrões extremamente cristalizados. Charlie, agora com nova família, conciliará a relação com a mãe e o padrasto, sem deixar de manter vínculo emocional e social com o seu pai, um homem que se tornou o próprio Papai Noel, um dos protagonistas do Natal vendido por nossa sociedade de consumo.

Meu Papai é Noel (The Santa Clause/Estados Unidos, 1994)
Direção: John Pasquin
Roteiro: Leonardo Benvenuti, Steve Rudnick
Elenco:David Krumholtz, Eric Lloyd, Jayne Eastwood, Judge Reinhold, Judith Scott, Larry Brandenburg, Mary Gross, Melissa King, Paige Tamada, Peter Boyle, Tim Allen, Wendy Crewson
Duração:  97 min

Crítica | A Loja da Esquina

Nos primeiros instantes do drama A Loja da Esquina, dirigido por Ernst Lubitsch, tendo como direcionamento, o roteiro de Samson Raphaelson, baseado na peça homônima de Miklós Laszló, percebemos que estamos diante de uma produção sobre a solidão, sentimento que não possui período específico para se manifestar, mas atenua-se nos festejos natalinos, principalmente para aqueles que vivem sem as configurações de família apresentadas pelo cinema hollywoodiano clássico, geralmente com um grupo de pessoas a dividir a ceia natalina farta diante da troca de afetos e presentes.

Importante também é perceber a importância da compreensão do subtexto que permeia um filme clássico, conferido anos após a sua realização e estabelecimento no imaginário. A Loja da Esquina não faz referências apenas à solidão e melancolia de indivíduos isolados, mas também é uma alegoria da desesperança coletiva oriunda do pós-guerra (Primeira Guerra Mundial), Crise de 1929 e manifestações políticas e sociais que previam o estabelecimento dos conflitos bélicos da Segunda Grande Guerra Mundial. Lançado em 1940, a produção traz tudo isso embalado metaforicamente em seu arco dramático sobre linear, sem grandes surpresas e reviravoltas.

Ao longo de seus 99 minutos, a trama busca descortinar a história de Alfred (James Stewart), um dos mais antigos e dedicados funcionários da tal loja de confecções e outros itens de casa, situada na esquina da rua. Exposto dentro das dinâmicas de seu perfil social, sem traços que nos permita mergulhar psicologicamente em outras dimensões, Alfred é contido, mas não disfarça para o espectador o seu interesse amoroso por Klara (Margareth Sullivan). Ela é a garota com quem ele troca correspondências, mas ambos sequer desconfiam que os destinatários do amor mútuo fazem parte do mesmo ambiente de trabalho e, cotidianamente, trocam desaforos e constantes desentendimentos.

As farpas são diárias, trocadas por “balões de corações” apaixonados quando a trama se desenrola e o nó da narrativa é desatado. Diante dos conflitos, a produção nos conta uma história sobre resiliência, perdão, amor ao próximo e volta por cima de personagens que para a exaltação, precisaram amargar a humilhação. Tendo como proprietário da loja o Sr. Matuschek (Frank Morgan), os protagonistas e coadjuvantes sofrem diariamente com o homem que pensa apenas nas finanças e no lucro, sem deixar espaço na sua vida para outros sentimentos nobres, afinal, não sejamos hipócritas, sem dinheiro para as questões básicas no bojo do capitalismo, como um ser humano pode registrar a sua existência de maneira digna?

Alfred vai passar por esses questionamentos quando é demitido de maneira injusta e aleatória pelo seu chefe, após uma breve discussão por conta de opiniões adversas. E é justamente quando o personagem descobre quem é de fato a mulher que ele idealiza para ser o seu amor. As coisas inicialmente são difíceis, mas tal como a sua versão contemporânea, Mensagem Para Você, lançada em 1999, o clima natalino não é prejudicado pela maldade dos humanos que acabam se regenerando e exercem “aquilo” que o Natal pede, isto é, o arrependimento, o perdão, o pedido de desculpas, etc.

Em seu processo narrativo, A Loja da Esquina conta com a direção de fotografia de William M. Daniels, responsável por cenas que de maneira geral, situam-se no ambiente interno da loja, com brevíssimas tomadas externas para representar a rua, espaço que em suas aparições, é composta de diversos figurantes a representar a busca pelo consumo na semana de festejos natalinos, pessoas que caminham pela neve providenciada pela equipe de Cedric Gibbons e Edwin. B. Willis, diretor de arte e cenógrafo, respectivamente. Eles são cuidadosos com a gestão dos espaços e adereços que adornam a narrativa conduzida musicalmente por Werner R. Hymann.

Simples e com uma mensagem edificante, a produção é a típica estrutura de filme natalino, retomado pelos produtores de cinema e televisão desde então, ao lançar as suas narrativas anuais sobre o tema que é um subgênero da comédia e do drama. É uma data que tais realizações já tentaram reforçar o significado, isto é, período de comunhão e solidariedade entre os seres humanos diante de um mundo repleto de situações desiguais. Com a força midiática do consumismo e do materialismo, então, a data muitas vezes é esquecida, em prol da conjugação do verbo “comprar”, muitas vezes responsável por sublimar o “amar”.

A Loja da Esquina (The Shop Around The Corner/Estados Unidos, 1940)
Direção: Ernst Lubitsch
Roteiro: Ben Hecht, Miklós László, Samson Raphaelson
Elenco: James Stewart, Margaret Sullavan, Frank Morgan, Joseph Schildkraut, Sara Haden, Felix Bressart, William Tracy, Inez Courtney, Sarah Edwards, Edwin Maxwell, Charles Halton
Duração:  91 min

Crítica | Sobrevivendo ao Natal

Nos primeiros instantes do drama Sobrevivendo ao Natal, dirigido por Mike Mitchell, tendo como direcionamento, o roteiro de Deborah Kaplan, Joshua Sternin e Harry Elfant, algumas breves cenas nos mostram que veremos, aparentemente, algo que o cinema hollywoodiano faz anualmente em suas produções natalinas, isto é, trapalhadas, piadas, personagens solitários em busca de companhia para os festejos e design de produção inspirado, repleto de apetrechos para dar conta do tal clima natalino que deveria ser, em maior parte, responsabilidade dos conflitos do roteiro. As aparências não se deixam enganar e logo confirmamos o feixe de sensações.

Ao longo de seus 91 minutos, as trapalhadas acontecerão em excesso, as piadas ultrapassam os limites do gosto duvidoso, a solidão do protagonista vai engendrar todos os mecanismos dramáticos burlescos da narrativa e os elementos visuais da história se apresentam bem caprichados. Na trama, acompanhamos a trajetória de um homem que deseja alugar uma família para passar o natal. Todos os seus colegas de trabalho demonstram que estão com as festas programadas. As ceias prontas, os presentes para as trocas à beira da lareira já empacotados e os demais tópicos listados na programação basicamente cumpridos.

Drew Latham (Ben Affleck) é o único que não dispõe de nada disso. Em sua busca desesperada e de última hora, apenas frustrações. As mulheres que ficaram no aguardo de sua ligação após o primeiro e último encontro já estão com as suas agendas indisponíveis e as pessoas que ele imaginava ser parte do seu círculo de amizades na verdade são criaturas que gravitam em torno de sua existência apenas para usufruir do luxo que é estar ao seu lado num restaurante ou qualquer evento social. Sem familiares e com a sensação de solidão pulsante, o protagonista toma a inusitada decisão de ir para a casa onde viveu a sua infância, tendo em vista intensificar as suas boas memórias.

Diante dos conflitos iniciais, somos apresentados ao novo panorama de situações que precisam ser resolvidas pelo roteiro. Drew, um homem estéril emocionalmente, mas cheio de dinheiro, é atacado por Tom Valco (James Gandolfini), o patriarca da família que habita o local que já foi a sua casa no passado. Depois da situação explanada, o acordo: ele saca as necessidades dramáticas daquelas pessoas afundadas em crises de toda ordem e decide aluga-los para passar o período natalino. O valor inicial é 25 mil dólares. Isso traz uma série de exigências que mudará completamente a rotina das pessoas que moram nesta casa. Christine Valco (Catherine O´Hara) é a matriarca que tal como nós, espectadores, acha a ideia idiota, mas decide comprar o bilhete da crença para ver até que ponto a narrativa vai se deslocar.

Drew vai passar os festejos acompanhado, feliz, mas trará inicialmente uma série de problemas para todos, em especial, o jovem Brian Valco (Josh Zuckerman), o caçula da família, adolescente que precisará ceder seu quarto, verdadeiro santuário com jogos e computadores, para o chato do Drew saciar os seus desejos afetivos. As coisas caminham de maneira exagerada, mas confesso que engraçada, com algumas piadas divertidas e situações absurdas, mas suportáveis. A coisa fica mais densa quando Drew pede aos seus familiares emprestados que sejam parte de uma encenação para a sua namorada, a antipática Missy Vangilder (Jennifer Morrison),  bem como para seus sogros, pois a jovem em breve será a sua noiva e para ser aceito, Latham precisa demonstrar que possui os itens básicos para ser um bom marido, além do seu dinheiro, claro.

Abobalhado e com uma tentativa de mensagem edificante, a produção é a típica narrativa sobre o poder do consumo de uns em detrimento da felicidade dos outros. Alegórico, o que não faz a trama ser nada além de um entretenimento ligeiro, mas ainda assim, material para refletirmos o poder de compra do dinheiro. Drew quer comprar coisas abstratas, justamente numa família que precisa de um pouco do que ele tem de sobra para colocar as coisas em perspectiva. Para engrossar esse caldo, ainda há Alicia Valco (Christina Applegate), a filha mais velha que sequer imagina a situação e precisa se adequar para não surtar nas festas de final de ano. Como é de esperar neste tipo de filme, é possível que Drew se interesse pela moça, inicialmente uma megera não domada, mas que se encantará ao conseguir enxergar, mesmo que de bem longe, o outro lado do moço, um rapaz que não tem ninguém para chamar de família e que é cheio de boas intenções, mesmo que se confunda às vezes, ao achar que pode comprar tudo.

Assim, em seu processo narrativo cheio de trapalhadas e “surpresas”, “Sobrevivendo ao Natal” conta com a direção de fotografia de Peter Lyons e Tom Priestley, dupla que consegue captar bem o clima natalino erguido pelos cenários de Lisa Fischer, cuidadosa na arquitetura da casa e dos demais espaços, decorados pela direção de arte de Bue Chan, todos em consonância com as propostas do design de produção de Caroline Hanania, idealizadora de um projeto visual eficiente para o tema. O problema do filme é mesmo o seu roteiro, óbvio demais, mecânico em excesso, forçado em demasia, talvez de maneira proposital, pois deve ter agradado bastante ao público alvo, massa que geralmente não se importa muito com os clichês e personagens achatados, sem profundidade psicológica ou algo a mais que nos faça se importar com a sua trajetória errante no período natalino, era de profusão da solidão para muitos que não se encaixam dentro dos padrões estabelecidos por nossa sociedade.

Sobrevivendo ao Natal (Surviving Christmas/Estados Unidos, 2004)
Direção: Mike Mitchell
Roteiro: Deborah Kaplan, Harry Elfont, Jeffrey Ventimilia, Joshua Sternin
Elenco:Ben Affleck, Bill Macy, Catherine O’Hara, Christina Applegate, David Selby, James Gandolfini, Jennifer Morrison, Josh Zuckerman, Stephanie Faracy, Stephen Root, Sy Richardson, Udo Kier
Duração:  91 min

Crítica | Operação Presente

O que esperar de um filme natalino intitulado Operação Presente? No mínimo, uma ode ao verbo que está entre os cinco mais conjugados do período: “presentear”, claro, haja vista o nome da produção que guia a reflexão em questão. Dirigida por Sarah Smith e por Barry Cox, dupla que também assumiu o roteiro, em parceria com Peter Baynham, a animação versa sobre o processo de organização e entrega dos presentes natalinos pelo Papai Noel e sua equipe de colaboradores, comandada sob um grupo de líderes bem organizados diante da missão mais importante do ano no contexto de suas histórias.

Lançado em 2011, Operação Presente é uma produção que descortina a história de Arthur (voz de James McAvoy), filho de Papai Noel, o vigésimo de sua linhagem. Ele é quem veste a camisa das tarefas familiares e se encanta diante da felicidade de cada criança a receber o seu presente. Há beleza e virtude na ação e por ser desajeitado, o jovem não é a primeira opção de seus pais no comando da atividade num futuro próximo. Como desafio, há o aumento populacional que impede a tarefa de ser algo simples, ao contrário, é repleta de obstáculos desafiadores.

Com seu tamanho gigantesco, a nave S1 é o meio de transporte para a entrega dos presentes, sem renas e trenós, elementos considerados como coisa do passado. Assim, o filme entrega uma de suas discussões, focada em tecnologia, ao refletir como o Papai Noel consegue entregar tantos presentes em apenas uma noite? Debate da contemporaneidade, era dos aplicativos e da democratização em larga escala da cibercultura, com o ofício herdado por gerações comandado por meio de monitoramentos, computadores e outros itens de alta tecnologia.

O Papai Noel (voz de Jim Broadbent) já prepara os jovens para assumir missões no futuro, tal como o Vovô Noel (voz de Bill Nighy) fez quando necessário. Steve (Hugh Laurie), inicialmente colocado para ser o sucessor, recebe um cargo administrativo no processo de organização da entrega de presentes, haja vista a sua praticidade na atividade, sem deixar espaço para sentimentalismo ou distrações que o atrapalhe no exercício de sua função, afinal, a divulgação do filme delineia no cartaz: “já pensou como dois bilhões de presentes são entregues numa só noite?”.

Diante dos conflitos mais básicos, algo toma a preocupação dos envolvidos de maneira mais urgente. Após todas as entregas, descobre-se que uma garota do sudoeste da Inglaterra não recebeu o seu presente. Assim, torna-se possível que a garota perca relativamente a sua crença na magia natalina. É a chance de Arthur mostrar serviço e comprovar que por detrás de seu jeito desengonçado, há força para assumir tarefas complexas como as exercidas por seu pai. É algo desafiador e novo. A dúvida é saber se ela conseguirá ou não dar conta da incumbência.

Assim, em seu processo narrativo, Operação Presente conta com imagens deslumbrantes, produzidas com apoio da equipe de efeitos visuais comandada por Doug Keller, profissional que teve como apoio, a condução musical leve de Harry Gregson-Williams. São imagens que guiam um roteiro acima da média, diferente do que geralmente se faz no campo da animação, isto é, a excessiva facilitação narrativa para atingir o público infantil, majoritário diante deste tipo de filme. Produzido pelos estúdios Aardman, teve distribuição da Sony Pictures e foi um relativo sucesso de público.

E, por fim, a reflexão adicional sobre o natal, época em que o amor é a questão moral que mais importa. Alguns colocam o seguinte ponto: o que seria uma prova de amor mais contundente que o ato de presentear? Desculpa de consumista ou atitude exclusivamente nobre? Na ótica da animação, despreocupada com esse tipo de preocupação, afinal, não é parte de seu foco narrativo, presentear é algo basicamente industrial, mecânico, necessário para se estabelecer a ordem das tradições vigentes. É uma operação de caráter militar.

Operação Presente (Arthur Christmas/Estados Unidos, 2011)
Direção: Sarah Smith
Roteiro: Peter Baynham, Sarah Smith
Elenco: Adam Tandy, Alan Short, Alistair McGowan, Andy Serkis, Ashley Jensen, Bill Nighy, Bronagh Gallagher, Clint Dyer, Cody Cameron, DannyJohn-Jules, David Schneider, Deborah Findlay, Dominic West, Donnie Long, Emma Kennedy, Eva Longoria, Finlay Duff, Hugh Laurie, Iain McKee, Ian Ashpitel, Imelda Staunton, James McAvoy, Jane Horrocks
Duração:  97 min

Crítica | Um Natal Muito, Muito Louco

A comédia dramática Um Natal Muito, Muito Louco é um caso sério no bojo dos filmes contemporâneos que insistem em nos cristalizar em artimanhas sociais ultrapassadas. Nada contra o mergulho na memória, mas isso se torna negativo quando “valores” invertidos, tais como o machismo e o tradicionalismo tóxico permeiam uma história que é aparentemente inofensiva. Dirigida por Joe Roth, tendo como direcionamento, o roteiro construído por Chris Columbus, dramaturgo e realizador que adora temas natalinos, também responsável por assinar a produção, o filme é a exposição de todos os clichês possíveis no bojo das ficções natalinas.

Além de ser uma narrativa exageradamente conversadora para uma produção lançada em 2004, período demarcado por muitos avanços nas configurações de família, bem como na dimensão social do papel da mulher. Um Natal Muito, Muito Louco é uma produção que quase não se sustenta enquanto entretenimento, afinal, os seus 98 minutos são de muitas cenas arrastadas e com humor forçado, sem conseguir alcançar a graça devida quando demonstra interesse em nos fazer rir. Até mesmo a sua trilha interessante, com os temas natalinos embalados pelo estilo garage rock, não consegue emplacar ritmo para os problemas enraizados em sua história.

A trama descortina a história de Luther (Tim Allen), patriarca da família Krank, um homem que paga caro ao cancelar os festejos natalinos para embarcar numa viagem com a sua esposa, Nora (Jamie Lee Curtis), uma mulher histérica, sem projetos de vida além de servir ao marido e ao casamento, responsável por muitas cenas burlescas que não conseguem se salvar nem mesmo diante do carisma e talento da atriz que a interpreta. Parecida com uma dessas mulheres do período clássico hollywoodiano, e até mesmo, com as esposas dominadas pelo tradicionalismo na era do romance romântico, Nora é irritantemente plana, construída para ser a cônjuge chata que implica com tudo, inclusive com a proposta do marido em mudar o esquema de final de ano.

A proposta se estabelece depois que Blair (Julie Gonzalo), a filha do casal, decide passar o natal no Peru, ao lado do namorado que está prestes a se tornar noivo, Enrique DeCardenal (René Lovan). O que os pais não esperavam era a surpresa pregada pela filha, ao avisar bem em cima da hora que não iria mais para a América do Sul, mas que está de volta para casa, tendo em vista passar o período natalino. O esquema de Luther Krank desce ralo abaixo, pois havia comprado um cruzeiro com a esposa e agora precisará cancelar a viagem para arrumar a festa de natal às pressas, tendo em vista não desapontar a filha e a sua esposa, uma mulher que se nega a decepcionar os padrões de família e que constantemente aponta a proposta de mudança de paradigma como algo excêntrico por parte do marido. Assim, a viagem é cancelada, transferida posteriormente para outro casal que a usará melhor, talvez.

Diante dos conflitos, a produção se perde com o excesso de subtramas, principalmente pela exposição rodeada de piadas bobas e sem impacto. É o tipo de humor pastelão, coisa que Chris Columbus adora fazer em suas narrativas repletas de gente se esborrachando em quedas grandiosas, dentre outras trapalhadas. É a busca pelo riso fácil, pela piada morna, situada no bojo de uma narrativa gélida e sem vigor. Os conflitos são todos resolvidos, mas antes disso, os Kranks precisam comer o pão que o diabo amassou diante da não aceitação, metáfora para a falta de respeito em relação ao “outro” e seus processos culturais.  Renegados pela vizinhança, o casal consegue ganhar credibilidade e aceitação quando decidem manter os festejos natalinos e fazer jus aos elementos que regem a tradição.

Em seu processo narrativo, Um Natal Muito, Muito Louco, conta com a direção de fotografia de Don Burges, responsável por nos inserir no esquema visual erguido pelo design de produção de Garret Stever, eficiente, mas básico, bem dentro das demandas óbvias de um filme natalino cheio de pisca-pisca e neve. Burges, em sua fotografia, consegue dar conta dos maneirismos propostos pelo roteiro de Columbus, em especial, nas cenas com as trapalhadas, quedas e outros exageros, traços captados de maneira bastante adequada em sua movimentação de câmera, também “correta” na contemplação dos cenários de Karen O’Hara, adornados pela direção de arte natalina de Christopher Burian-Mohr. A condução musical de John Debney também “dá conta do recado”.

Ademais, visualmente funcional, a trama peca mesmo por seu texto, material muito raso em sua mensagem sobre amor e fraternidade, mas que na verdade deveria assumir os seus interesses comerciais e consumistas, afinal, a trama deixa isso bem delineado, isto é, o período natalino como a celebração do consumo e da ostentação para manter as devidas aparências dentro de uma sociedade que parece um jogo de espelhos, com as pessoas sempre a comparar a sua trajetória com base no sucesso ou fracasso do outro. Filme da era Bush, Um Natal Muito, Muito Louco, traz até mesmo o conservadorismo dos mais jovens, pois por qual motivo a filha do casal se zangaria por uma mudança na vida dos pais? Ela não escolheu a sua mudança? Com necessidades dramáticas estéreis, o filme se revela fraco tanto em seu argumento quanto na condução dos diálogos do roteiro.

Um Natal Muito, Muito Louco (Christmas With The Kranks/Estados Unidos, 2004)
Direção: Joe Roth
Roteiro: Chris Columbus
Elenco: Billy Asher, Cheech Marin, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtis, Jordan Alec, Julia Roth, Julie Gonzalo, Raymond Braun, Tim Allen
Duração:  100 min

Crítica | O Expresso Polar

A comparação pode ser considerada vulgar para alguns, mas convenhamos, os comerciais elaborados para as campanhas da Coca-Cola todo final de ano, ao menos em minha infância e adolescência, eram materiais dignos de todas as premiações possíveis dentro do segmento. A textura visual, a simbiose entre imagem e som, bem como as escolhas estéticas fizeram destes produtos de marketing algo tão memorável que ao assistir O Expresso Polar, tenho a impressão de estar diante destas peças publicitárias num formato mais extenso e aperfeiçoado.

A intensidade do contraste entre os tons de azul e a presença do branco da neve traz a boa sensação de estarmos diante de um período que pode ter se tornado a ode ao consumo das sociedades contemporâneas, mas também possui outros significados, afinal, o natal também é uma época de diminuição do ritmo habitual do nosso cotidiano, para a maioria das culturas ocidentais. É quando também renovamos os nossos votos para o próximo ano, pois numa existência cheia de simbologias, o fechamento de ciclos é importante para muitas pessoas, época de fazermos balanço, equilibramos as metas e sondarmos o que foi conquistado e o que precisa ser alcançado na próxima etapa.

Dirigida pelo veterano Robert Zemeckis, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro que ele mesmo escreveu, em parceria com William Broyles Jr., ambos inspirados no livro homônimo de Chris Van Alburg, O Expresso Polar não é exatamente sobre as reflexões descritas brevemente nos primeiros parágrafos, mas parte de um tema e de escolhas estéticas que por convenções ao longo da nossa história, ficam entrelaçadas ao período: os reencontros, a neve do cinema hollywoodiano, antítese do nosso verão escaldante de dezembro, o ato de presentear, as tensões nas ceias familiares, dentre outras coisas.

Lançado em 2004, O Expresso Polar é uma produção que descortina, ao longo de seus 100 minutos, a história de um garoto estadunidense no final da década de 1950. Ao testemunhar a parada do expresso polar na porta de sua casa, o jovem terá a experiência mais fantástica de sua vida, algo que o marcará para sempre e permitirá que a sua crença no natal, não tão firme como era de esperar para uma criança, fique ainda mais sólida. Inicialmente reticente, o jovem aceita partir no trem que o leva por um passeio cheio de aventuras incríveis. Cada pedaço de território atravessado é um aprendizado diferente, marcante em sua trajetória ainda incipiente. Ele se bate com Scrooge, o famoso espírito mal natalino, imortalizado pela literatura de Charles Dickens, passa pela famosa Aurora Polar, local com o fenômeno óptico pelo brilho observado nos céus noturnos das regiões polares, em decorrência do impacto de partículas de vento solar com a alta atmosfera da terra, canalizadas pelo campo magnético do nosso planeta, isto é, um espetáculo visual impressionante e que não deixa ninguém indiferente.

Diante dos conflitos, pois cabe ressaltar, o menino não acredita mais no Papai Noel, a narrativa se torna uma alegoria para a necessidade de se acreditar e investir no “tal” espírito natalino. Conferimos com certa resistência, pois o pé na realidade não nos permite se entregar demais às utopias propostas pelo discurso cinematográfico estadunidense. No entanto, uma das “tarefas” da arte é justamente nos permitir elucubrar sobre a realidade por meio de propostas ficcionais, sendo assim, o bilhete de entrada no mundo do filme de Zemecks é “comprado” por todos aqueles que se entregam aos encantos da narrativa que se desdobra diante de nossos olhos, conjunto de cenas construídas por meio de recursos visualmente incríveis.

Assim, em seu processo narrativo, O Expresso Polar conta com imagens deslumbrantes, oriundas do virtuosismo fantástico dos elementos que compõem o setor estético. Na voz de Bing Crosby, White Christmas entoa na tela, tal como Santa Claus Is Coming To Town, na versão de Frank Sinatra, gravada em 1948, juntamente com outras músicas e texturas percussivas oriundas da trilha sonora de Alan Silvestri. A direção de fotografia de Don Burges e Robert Presley empregam ao espetáculo visual os quadros ideais para que possamos contemplar cada detalhe do design de produção também produzido em dupla, formada por Rick Carter e Doug Chiang.

A técnica de captura de movimento, novidade na época, traz ao filme a junção de “imagens reais” e animação, numa das experiências cinematográficas natalinas mais surpreendentes em toda a história do cinema. Ademais, O Expresso Polar é um filme muito, muito bonito e cuidadoso com sua temática, mesmo que a história pudesse ter personagens e conflitos mais densos para deixar a experiencia ainda mais inesquecível. Ainda assim, é uma bela produção sobre amizade e como devemos, sem se iludir demais, cultivar os nossos sonhos, tendo em vista deixar a nossa existência mais suportável.

O Expresso Polar (The Polar Express/Estados Unidos, 2004)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis, William Broyles Jr.
Elenco: Tom Hanks, Brendan King, Charles Fleischer, Chris Coppola, Dante Pastula, Daryl Sabara, Debbie Lee Carrington, Ed Gale, Eddie Deezen, Gordon Hart, Gregory Gast, Isabella Peregrina, Jimmy Bennett, Jon Scott, Josh Eli, Julene Renee, Leslie Zemeckis, Mark Goodman, Mark Mendonca, Mark Povinelli, Michael Jeter, Nona Gaye, Peter Scolari, Phil Fondacaro, Rolandas Hendricks, Sean Scott, Steven Tyler
Duração:  100 min

Crítica | Uma Noite Mágica

Então é Natal. E o que você fez ao longo do ano? Para muitas pessoas nas redes sociais ultimamente, a resposta é humorada: “fiz o que deu”. Para o personagem de Michael Keaton na comédia dramática natalina Uma Noite Mágica, a resposta é a mesma, com algumas variações. Ele é o patriarca de sua família, por isso, provedor, trabalha com música, algo não considerado “sério” e espera há anos a sua chance com algum empresário, tendo em vista a decolagem de sua banda. O problema é que toda essa dedicação o impediu de manter contato mais próximo com o filho, uma criança que mesmo antes da morte do pai, sente que não teve a conexão que sempre desejou. Assim, talvez o natal seja uma oportunidade para se redimir. Será?

Dirigida pelo veterano Troy Miller, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro de Jonathan Roberts e Mark Steven Johnson, a produção retrata a necessidade de desprendimento quando um ente querido está ausente, num diálogo com a importância da aceitação diante da morte, uma condição natural da própria existência humana, tema que já deixou muito filósofo elucubrando por décadas sem chegar à uma conclusão definitiva sobre o assunto que em si não possui uma resposta exata. Aos que se sentem ofendidos com a entrega de um acontecimento tão importante, isto é, a morte do pai do garoto, adianto que essa é uma informação que já consta na sinopse, afinal, será apenas diante de sua “partida” que teremos a tal “noite mágica” do filme.

Lançado em 1998, Uma Noite Mágica é uma produção que descortina, ao longo de seus 101 minutos, a história de Jack Frost (Michael Keaton), um homem que passa pelas condições descritas acima e certo dia, antes de uma viagem inesperada de trabalho, responsável por cancelar o passeio de natal em família, ele sofre um acidente e morre. Um ano depois, retorna como um boneco de neve para viver aventuras com Charlie Frost (Joseph Cross), seu filho. Os dois vivem diversas aventuras, fazem coisas que deveriam ter sido parte de suas vidas nos momentos em que o personagem ainda estava vivo, mas enfim, não foi possível, até porque os filmes não conseguem demonstrar que na vida real, em muitos casos, torna-se quase impossível conciliar a educação e zelo ideal aos filhos e cônjuges diante das dinâmicas econômicas e sociais de nossa existência nua e crua, sempre cheia de obstáculos, desafios e muitas, muitas dificuldades, afinal, no bojo do capitalismo, privilégios é para poucos, não é mesmo?

Diante dos conflitos, perdidos diante de um roteiro e direção que pecam na perda do ritmo da história, os personagens precisam compreender as suas necessidades dramáticas para avançar em mais uma etapa de suas respectivas vidas. O jovem Charlie é quem mais aprende neste processo, inclusive a lidar com o bullying que sofre cotidianamente, um tema explorado sem muita profundidade, mas de maneira eficiente pela narrativa. Gaby Frost (Kelly Preston), inicialmente muito paciente, começa a acreditar que o filho está com distúrbios psicológicos gravíssimos, algo que a faz demorar para compreender que vive uma espécie de situação ao estilo Ghost – Do Outro Lado da Vida, salvas as suas devidas proporções, obviamente.

Assim, em seu processo narrativo, Uma Noite Mágica conta com imagens adequadas para a sua temática natalina, haja vista o bom design de produção de Mayne Berke, responsável por estabelecer os traços visuais que compõem o filme, numa mescla de cenários amadeirados, contraste entre neve e as luzes e objetos em tonalidades vermelhadas, as cores que geralmente fazem parte da dinâmica natalina, paletas e objetos coordenados pela direção de arte e cenografia, assinadas por Gary Diamond e Ronald R. Reiss, respectivamente. Os efeitos visuais da equipe de Mark Franco também cumprem a sua missão, sem grandes momentos na apresentação do boneco de neve, exposto de maneira “apenas suficiente” ao dar conta das cenas em que é protagonista, centro ou parte das imagens captadas pela direção de fotografia de Laszló Kovács.

De volta ao filme, o natal está próximo ao fim e Jack precisa se despedir do filho, afinal, está prestes a derreter. É a hora da despedida e da aceitação dos seus destinos. Ademais, o filme cumpre o seu propósito na seara das ficções natalinas que pregam sentimentos que deveriam ser parte das nossas preocupações ao longo de todo ano, mas que por questões conservadoras, o que nos leva às invenções das tradições, torna-se parte da nossa agenda nas datas festivas do final do ano, época de balanços e fechamentos de ciclos. Uma Noite Mágica amargou desaprovação da crítica especializada quando lançado, mas fez sucesso nas exibições televisivas e não é, de fato, um filme tão ofensivo quanto se pensa, ao menos se tivermos como referencial as análises sem humor dos espectadores “de sua época”.

Uma Noite Mágica (Jack Frost/Estados Unidos, 1998)
Direção: Troy Miller
Roteiro: Jeff Cesario, Jonathan Roberts, Mark Steven Johnson, Steven Bloom
Elenco: Andrew Lawrence, Benjamin Brock, Cameron Ferre, Eli Marienthal, Joe Rokicki, Joseph Cross, Kelly Preston, Mark Addy, Michael Keaton, Mika Boorem, Taylor Handley, Will Rothhaa
Duração:  88 min

Lista | Doctor Who: Os Especiais de Natal Ranqueados (2019)

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Doctor Who começou uma tradição de Especiais de Natal em 2005, no ano de seu retorno. Antes, havíamos tido um tipo de Especial… ou melhor… uma celebração de Natal num episódio da série, The Feast of Steven, 7ª parte do gigantesco arco The Daleks’ Master Plan (1966). Este é o marco zero de uma citação/inclusão do Natal (e posteriormente do Ano-Novo) num episódio da série. Mas foi apenas em 2005, com a volta do show à TV, que os Especiais se tornaram uma marca fixa, até a chegada da 13ª Doutora…

Para esta lista, contei com a participação dos meus queridos little Daleks da casa (Giba, Rafa e Denilson), do meu particular e fofo witch’s familiar (Gui SantiGADO) e do meu mozão cyber-planner Gustavo Freisleben.

Nota: não é necessário explicar a imagem de destaque, certo?

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13º Lugar: The Doctor, The Widow and the Wardrobe

Denilson: Agora sim, o fundo do poço! Não tenho quase nada de positivo a adicionar, roteiro lento e história sem graça fazem toda a experiência parecer bem mais longa do que devia. Único especial que eu não sinto vontade alguma de rever e pulo numa maratona, se no último foi vejam outra coisa, nesse eu recomendo distância de 3 parsecs entre vocês e qualquer aparelho que esteja reproduzindo essa coisinha desagradável!

Giba: Ainda que repleto de momentos genuinamente encantadores e amarrando muito bem suas temáticas ao longo do episódio, The Doctor, the Widow and the Wardrobe acaba sofrendo um pouco de um problema que, de certa forma, é típico deste segundo ano de Steven Moffat como showrunner da série: um bom número de ideias interessantes que, costuradas de forma desigual entre si, acabam tendo que recorrer demais à exposição para se articular em termos de enredo. Ainda assim, é um Especial que, para mim, vale sempre ser revisitado, especialmente na época festiva!

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12º Lugar: The Christmas Invasion

Denilson: Primeiro dos especiais e definitivamente um dos piores. Temos Natal? Até temos, aliás, de forma bem mais presente do que em outros episódios futuros. Porém o Doutor bela adormecida e outros pontos me impedem de dizer que esse é um episódio bom, só vejam outra coisa mesmo!

Rafael: Embora tenha problemas em fazer a transição entre os tons da história, o diretor James Hawes consegue driblar o baixo orçamento da série na maior parte do tempo e conceder ao especial o clima de grandiosidade proposto pelo roteiro de Davies, embora não faça um trabalho tão acurado quanto em The Empty Child/ The Doctor Dances, sua estreia no show. Destaca-se também na parte técnica o e visual criado para os Sycorax, que ganham certo aspecto tribal. The Christmas Invasion é um episódio bastante divertido, que funciona como uma boa introdução ao 10º Doutor e a muitos dos temas que seriam trabalhados na Segunda Temporada (Torchwood ganha a sua primeira citação aqui, tendo um papel importante no rompimento do Doutor e Harriet Jones), além de ter determinado o tom de todos os Especiais de Natal seguintes da Era Davies/Tennant. Entretanto, o roteiro parece sofrer de certa crise de identidade, que acaba prejudicando o resultado final.

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11º Lugar: The End of Time Part I

Denilson: Eu já fui mais viúva do Tennant e devo admitir que se fosse feito a algum tempo esse episódio ficaria mais alto. Não há muito o que destacar, todos sabem mais ou menos o que há de bom e ruim nesse episódio. Hehehe

Luiz: Poucas cenas impedem que The End of Time – Part One caia ainda mais em qualidade. No fim das contas, estamos diante de um Especial de Natal “desnatalizado” e de uma desculpa conceitual para segurar o 10º Doutor por mais um episódio no papel. Tsc tsc tsc… Por isso que eu prefiro o meu Especialzinho de Doctor Nárnia… (sim, podem soltar seus Daleks pra cima de mim, eu não ligo hehehehehe).

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10º Lugar: The Next Doctor

Denilson: Poderia e deveria estar mais alto na lista, mas sempre tive um certo desgosto com esse episódio por algum motivo que me impede de apreciá-lo da forma mais plena. E como a lista é minha…

Giba: Curiosamente indo na direção oposta do que se passou com outros especiais de Natal da série, The Next Doctor foi um episódio cuja apreciação só aumentou para mim ao longo das revisitações. Justificando bem a duração mais alongada com uma narrativa cheia de elementos interessantes, o capítulo inaugurou muito bem o que acabaria sendo um inconstante último ano para o Doutor de David Tennant, explorando suas maiores forças na dinâmica com um elenco enxuto e de ótima qualidade. De quebra, temos aqui também a primeira aparição explícita dos nove doutores anteriores na Nova Série, um marco importante na unificação explícita da cronologia da franquia, após uma série de flertes mais tímidos. Uma ocasião bem escolhida para a homenagem, em mais um exemplo de fanservice. Big Finish, por favor, eu quero uma nova aparição do Prof. Lake para ontem!

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9º Lugar: The Return Of Doctor Mysterio

Denilson: Episódio bem simples, mas tão absolutamente divertido com aquele já tradicional elemento paródia tão famoso em Doctor Who que não podia deixar de figurar num lugar alto do ranking.

Luiz: The Return of Doctor Mysterio não teve Papai Noel (mas isso a série já mostrou, literalmente, em Last Christmas, não é mesmo? Não era hora de visitar outros cenários?), mas teve a reunião de pessoas que se amam, apesar das dificuldades. Um dos episódios de Natal mais diferentes, e ainda assim, mais interessantes de toda a série, com uma soberba fotografia noturna; direção de arte certeira, sem carregar muito nenhum cenário — mesmo o quarto de Grant, quando criança –; efeitos especiais bons a maior parte do tempo; boas interpretações e a “conclusão” da história do Doutor após sua vida de casado. Um Natal heroico, apesar da dor, e necessário para o Doutor e para todos nós, especialmente em um ano absurdamente troll como este 2016.

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8º Lugar: The Runaway Bride

Denilson: Basicamente é um The Christmas Invasion 2.0, os temas são bem semelhantes, ambas se passam na terra, com uma invasão (nesse caso às avessas já que os aliens não vem do espaço, mas das profundezas do planeta) até com os robôs Noel fazendo sua participação. Só ganha um plus pela Donna ter sua primeira participação aqui.

Rafael: Tecnicamente, o episódio é bem executado. Embora eu tenha elogiado a sequência de perseguição, outros trechos envelheceram mal visualmente, como a fábrica onde o Doutor e Donna encontram a Imperatriz Racnoss pela primeira vez, onde a profundidade de campo é claramente um Chroma Key. O próprio conceito visual da Imperatriz Racnoss como uma criatura aracnídea, embora interessante, não parece muito bem executado, em um misto de maquiagem, animatrônico e CGI que não convence. Na trilha sonora, Murray Gold compõe um tema contagiante para Donna, que casa com o clima do episódio, e retornaria com a personagem na 4ª Temporada. Pessoalmente The Runaway Bride é o meu Especial de Natal favorito da Era Davies. É uma aventura despretensiosa e honesta no que se propõe, e ainda introduz uma das personagens mais carismáticas da Nova Série.

plano critico doctor who The Runaway Bride

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7º Lugar: Last Christmas

Denilson: Capaldi mais uma vez trabalhando com o que dá. Seu primeiro Especial conversa muito com o clima soturno da temporada que o precedeu, tanto que acaba sendo tão mediano e esquecível quando a fatídica 8ª temporada.

Giba: Last Christmas aposta em uma mistura eclética de estilos e tonalidades e sai vencedor em todas as frentes, tomando seu tempo para explorar suas premissas de forma envolvente e apoiando-se na combinação sem falhas de um roteiro inventivo, direção sólida e elenco excelente para entregar o que se tornou, com o tempo, meu segundo especial natalino favorito da série, apenas não batendo o sensacional A Christmas Carol.

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6º Lugar:  The Snowmen

Denilson: Episódio impecável visualmente, com uma trama envolvente e com a melhor versão da Clara dentre as apresentadas na série na minha opinião. Simplesmente maravilhosa para assistir em qualquer momento do ano.

Luiz: O Doutor com um mapa do metrô de Londres datado dos anos 60 (referenciando The Web of Fear) e Simeon sugerindo que Arthur Conan Doyle se inspirou em Madame Vastra para criar Sherlock Holmes são pontos conceituais que ajudam prender a atenção do público, assim como a fenomenal interação entre Matt Smith e Jenna Coleman. Os dois juntos são realmente incríveis e Moffat já tinha aqui o cuidado de fazer com que Clara, mesmo nessa versão vitoriana, acompanhasse o Doutor em raciocínio, fosse sagaz, assumisse riscos e gostasse realmente de uma aventura onde as coisas não são facilmente explicáveis. É encantador ver tudo isso. E por estes bons motivos é que The Snowmen consegue se mostrar melhor no final, com o Natal aparecendo como uma data de esperança, mesmo frente a uma tragédia. É a partir desse intrigante momento que o Doutor consegue ânimo para olhar de novo o mundo à sua volta, sair do luto e buscar respostas para aquela que logo logo ganharia o título de “garota impossível“. Quem era Clara Oswald?

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5º Lugar: The Voyage of Damned

Denilson: Episódio longo e cansativo para alguns, mas que me é bem apreciado principalmente pelo carisma da Kylie Minogue numa atuação que mesmo relativamente inconsistente consegue convencer de forma bem agradável.

Rafael: Voyage of The Damned é um episódio cheio de adrenalina e tensão e uma homenagem divertida a clássicos do cinema catástrofe como o citado O Destino de Poseidon e também Inferno Na Torre (1974)Os valores de produção são sólidos, a direção de Mark Strong é competente e o roteiro de Davies transita bem entre a tensão e momentos mais descontraídos, além de trazer bons conflitos para o Doutor e uma peça importante em seu desenvolvimento. Ainda assim, este Especial de Natal é o tipo de episódio que se encerra nos deixando com a impressão de que embora seja bom, poderia ter sido bem melhor.

plano critico doctor who Voyage of The Damned (1)

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4º Lugar: The Time of the Doctor

Denilson: Polêmicas! Tem gente que ama esse episódio, não é meu caso. Aqui temos Moffat no auge da sua capacidade em trabalhar com roteiros com furos tendo que fechar esses furos em um roteiro de 1 hora, ou seja… Brotam personagens que nunca foram citados, obrigação de retornar elementos já quase esquecidos e um resultado final muito, mas muito mais fraco comparado com os outros membros da trilogia “of the Doctor“. O planeta se chama Natal, mas tirando o Chester que cozinhou na TARDIS por sabe-se lá quanto tempo, as festividades acabaram esquecidas no churrasco.

Luiz: A sequência final do episódio — da qual um recorte em elipse seria retomado de maneira meio brega, mas não menos emocionante e interessante em Deep Breath — é um primor. Payne mantém a mesma abordagem poética com que dirigiu todas as cenas com crianças e desenhos e brinquedos no episódio e Moffat capricha na despedida. Por mais que eu ame o glorioso Capaldão, quem vence o campeonato de melhor discurso de despedida até o momento (2019) é o 11º Doutor, não tem jeito. Sem se tornar um melodrama e sem querer parecer frio, o discurso está perfeitamente condizente com essa fase de mudanças para o personagem, afinal, a vida dele foi estendida para além do que naturalmente sua espécie foi designada! Ele ganhou um ciclo regenerativo inteiro de presente e comparando o que acabara de passar com todo o longo futuro que tinha pela frente, tal discurso cai como uma luva. E melhor: consegue ser aplicado a cada um de nós também. Uma despedida muito bonita, com direito a um cameo de Amy, em um Especial de Natal que traz a ideia de renovação e, acima de tudo, de funcionamento do ciclo da vida.

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3º Lugar: Twice Upon a Time

Denilson: Aqui começam os verdadeiros problemas, Capaldi e David Bradley brilham na atuação, Rachel Talalay incrível na direção como sempre e Moffat tenta se esforçar no roteiro, mas a sensação de ser um puxadinho de última hora e o claro cansaço dos mais de 10 anos de roteiros do showrunner fizeram esse episódio bem pior do que poderia ter sido.

Giba: Twice Upon a Time é um epílogo inspirado e bem construído da Era Capaldi, que abraça sua identidade como Especial de Natal ao mesmo tempo em que seleciona cuidadosamente linhas narrativas focadas no momento que o personagem vive, não apenas celebrando o que veio antes mas efetivamente oferecendo um fechamento à altura dos melhores momentos de sua duração. Marcando um desses momentos especiais exclusivos do universo de Doctor Who que são as regenerações, a sempre constante mudança é tematizada de forma hábil em todas as frentes de produção – roteiro, direção, interpretação e música (destaque para a volta olímpica do próprio Murray Gold, que se despede da série após compor sua trilha sonora desde a 1ª temporada, aproveitando-se do momento reflexivo para retomar vários de seus temas clássicos – incluindo aí os três temas do Doutor, para o deleite auditivo dos fãs). Com o tradicional misto de tristeza e alegria é que nos despedimos do 12º Doutor e de toda uma era do programa, ao mesmo tempo em que permanecemos intrigados a respeito do que o futuro do personagem reserva para nós.

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2º Lugar: The Husbands of River Song

DenilsonA hora do Moffat brilhar fechando pontas soltas com uma eficácia bem maior do que outras tentativas anteriores… Bastante ação envolvida e um material digno para fechar nossa medalha de bronze.

Luiz: Os erros deste episódio encerram-se nos personagens secundários — entre aparição, tratamento e encerramento, com exceção do rei Hydroflax, o melhor deles –, mas mesmo nesses casos, os erros não são totais. Isso faz desse Especial um “capítulo final” bem conduzido, harmonioso, bonito e realmente muito bom, sem ‘milagres estranhos’ que justifiquem o [re]aparecimento de River e o preenchimento mais que louvável de uma história que conhecíamos desde a primeira vez que a vimos. Uma feliz história de Natal, quase como um conto de fadas maluco.

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1º Lugar: A Christmas Carol

Denilson: Disparado o episódio com mais cara de Natal, com enredo cativante e extremamente divertido de assistir. E só mais duas palavras: Charles Dickens!

Rafael: A Christmas Carol tem tudo o que se poderia pedir de uma aventura natalina, ao contar uma história emocionante de amor e redenção que, apesar de não ser conquistada sem dor ou lágrimas, ainda encontra um final feliz — com direito a um “milagre de Natal” para salvar o dia. É o meu especial de Natal preferido da série até o momento, tendo envelhecido muito bem. É divertido e poético, possuindo tanto momentos ternos quanto de pungência emocional. Pode ficar um pouco piegas no final? Talvez. Mas se existe um dia que nos autoriza a ser um pouco piegas, esse dia é o Natal.

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