Mulheres Cineastas – Mulheres na Direção e/ou Co-Direção (Cinema)

Crítica | Crip Camp: Revolução Pela Inclusão

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Em 2019, a recém-criada produtora Higher Ground, do casal Barack e Michelle Obama, trazia seu primeiro filme, Indústria Americana. O documentário focava no dia-a-dia de uma fábrica automobilística comprada por chineses, mesclando temas como a troca cultural entre os trabalhadores e questões sindicais. Agora, na segunda produção da dupla, Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, os Obamas também apostam em uma história real que aborda direitos sociais e civis. Todavia, a diferença é que se no filme vencedor do Oscar havia uma certa postura distanciada e insegura de suas intenções, o novo filme da Netflix é uma visão totalmente subjetiva, intimista e nostálgica, com o diretor James Lebrecht, um cadeirante, recordando de suas memórias em um acampamento para deficientes na década de 70 e, posteriormente, a luta política pelos direitos dessas pessoas.

Entre as coisas que mais chamam a atenção no filme, é interessante ver como ele opta por uma mudança de tom muita abrupta. Em sua primeira metade, o que temos é a apresentação de toda aquela vida no acampamento. Primeiro, vem uma insegurança no relato de todas aquelas pessoas, sempre acostumadas com a rejeição. Contudo, rapidamente o clima de alegria e contamina o documentário, seja pelo próprio registro do passado ou pela maneira como Lebrecht está sempre entrevistando seus antigos colegas no presente de maneira descontraída. 

Parece um detalhe bobo, mas a condução de muitas dessas conversas para um lado mais amoroso e sexual é fundamental para quebrar um tabu existente quanto a isso. Justamente por não ser uma visão de fora, que talvez se preocupasse em um lado muito mais apelativo e que explorasse a dor daquelas pessoas, mas sim de alguém que vive aquilo, Lebrecht abraça a normalidade e a banalidade, tornando seu documentário incrivelmente humano. Não que mostrar o sofrimento real daquelas pessoas se tornasse um vitimismo barato, algo absurdo de concluir, mas a opção de uma abordagem mais otimista reforça que todas aquelas pessoas também são humanas e possuem sentimentos como todos os outros da sociedade. Neste sentido, Crip Camp é revolucionário.

Em contrapartida, na segunda metade, a narrativa ruma para caminhos mais sérios. Apesar de ser um tanto quanto anticlimático e contrastante em relação aos acontecimentos do acampamento, a mudança de direção se justifica. Afinal, o filme não é só divertimento e nem teria como ser, pois naquela época era praticamente inexistente o direito daquela minoria. Logo, Crip Camp também não deixa de ser um manifesto. Lebrecht reconhece que sem a existência daquela luta, seu documentário jamais existiria. Assim, nada mais justo do que retribuir aqueles que lutaram fazendo greve de fome por 20 dias durante a luta pelos direitos civis do que postergar a existência dos mesmos no próprio ato de resgatar imagens documentais.

No fim, Revolução Pela Inclusão fica neste meio termo entre mero registro despretensioso eu um documentário político didático típico da Netflix, uma vez que vai se criando a sensação de que talvez o primeiro talvez só exista para reforçar o segundo. Através da estrutura narrativa estabelecida, é precisamente pelos momentos de alegria do início do longa que se aumenta a importância do sacrifício posterior. Se eu falava que Lebrecht agia genuinamente na condução do registro de imagens do acampamento e nas conversas, a espontaneidade dos mesmos acabam perdendo sua força quando são utilizados não como fim em si mesmo, ainda que sejam um meio para uma das causas mais nobres possíveis.  

Crip Camp: Revolução Pela Inclusão (Crip Camp: A Disability Revolution) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicole Newnham, James Lebrecht
Roteiro: Nicole Newnham, James Lebrecht
Elenco: Larry Allison, Dennis Billups, Judith Heumann, James Lebrecht, Evan White
Duração: 107 mins.

Crítica | Curtas do Oscar 2020: Animação

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Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Animação em Curta Metragem em 2020 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia, com as traduções em português ao lado quando existirem). Os textos desse compilado são de Davi Lima e Iann Jeliel.

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Kitbull 

EUA, 2019

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por  Davi Lima

As produções da Pixar em geral têm suas obras pautadas em emocionalismo, o que não é um ponto negativo quando se faz boas histórias que comovem. Com o curta animado Kitbull não é diferente.

A oportunidade que o projeto SparkShorts deu para estagiários da Pixar permitiu que uma modelagem 2D dos animais com um cenário praticamente estático, colorizado e com pouca textura tivesse pulsão emotiva bem representativa do estúdio. Circunstâncias adversas e diferenças biológicas entre um cachorro e um gato são a ponte para a formação de uma amizade e encontro com uma vida melhor para os caracterizados animais domésticos aqui.

Em geral, o gatinho preto é acostumado a viver na rua, tem seu canto escondido, embora frágil, como sua caixa de papelão aponta. A personalidade dele é forte o suficiente para encarar um cachorro. Quando chega um para viver perto de sua moradia, há uma interação de casualidades. Com uma edição de som muito viva, assim como a trilha, os momentos se tornam críveis, mesmo com o 2D explícito. Assim, de maneira natural, os dois rivalizam por instinto, porém com atitudes lúdicas diante das circunstâncias em que se encontram. O cachorro permanece preso na coleira e o gato livre no seu lixo.

Diante desse cenário, o que pode usurpar esse naturalismo captado no curta, ou elevar a qualidade da experiência, é a influência proposital do ser humano na narrativa. O maltrato marcado no corpo do cachorro determina um momento dramático importante que influencia tanto a aproximação final do gatinho quanto a conclusão esperançosa do curta.

Direção: Rosana Sullivan
Roteiro: Rosana Sullivan
Duração: 9 min.

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Memorable (Mémorable)

França, 2019

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por Davi Lima

Para muitas obras artísticas, a máxima é não ser óbvio de maneira alguma. Mas ser compreensível em sua inteligência de abordar o tema com um personagem é essencial. Em um curta de animação, em que a habilidade artística do protagonista representa o auge e a sua grande depressão, nada mais justo que usar a pintura como a própria forma de expressão na obra.

O uso de papel machê, pintado no estilo pós-impressionista de Van Gogh, é mais que uma percepção, é quase metalinguístico dentro do universo criado na mente de um protagonista idoso e pintor, ou um pintor idoso. O não se reconhecer no espelho do personagem parte desse princípio de comentário, em que o divã oficial não é o médico, esse já virou conceito surrealista em deformação representativa de imagem. O divã é a esposa.

Ela é que exercita o que resta, e não se deforma ou muda suas cores, até nisso há uma diferença em como a memória pincelada se mostra. Por aí que o amor do curta se mostra. O que é “desprezível”, até mesmo nas falas de anos retrógrados, são os objetos tecnológicos. A preciosidade é o que ainda pode ser pintado.

E logo esse amor conjunto, pintura e esposa se juntam em ação e imagem. O pintor pinta agora com o dedo e a esposa tem seus traços mais meticulosos que só um esposo pode perceber, mesmo na perda da memória. Só que não é qualquer memória que se degenera, é a de um pintor.

Direção: Bruno Collet
Roteiro: Bruno Collet
Elenco: Dominic Reymond, André Wilms
Duração: 12 min.

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Sister (妹妹)

China, 2018

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por Davi Lima

Como vários curtas-metragens, qualquer intenção emocional tem que ser passada com voracidade devido ao tamanho da produção, apesar que a diversidade artística permite tudo do mais variado, em que a emoção ou a relação sentimental pode surgir após uma reflexão pessoal ou política.

Aqui, nesse curta chinês, encontra-se uma carga de mutação muito significativa dentro da linguagem de stop motion, para que a perda da presença depois seja muito sentida visualmente. De maneira bem simples, a narração parece ter um tom imutável: apenas os bonecos feitos de feltro que constantemente parecem permissíveis em agregar a um contexto de uma foto ou uma imaginação surrealista. Estão sempre em mudança, seja em proporção de tamanho ou em atividades comuns dentro de uma casa.

Então, por essa relação visual tão cristalizada com o meio é que a perda tratada na história não é só sentida pela perspectiva do aborto ou por uma questão cultural – que com certeza influencia até na escolha do curta no Oscar -, existe também dentro da escolha do preto e branco a busca por remeter ao antigo e ao conflito presencial, captado pelo som e pelos movimentos como são do stop motion, a perda mais física na escolha da animação.

Dessa maneira, o objetivo emocional e catártico, junto à voz monotônica, prevalece de forma bem efetiva. A irmã é retratada na narração com tanta realidade pelo irmão que o conflito com a imagem imaginária alavanca ainda mais a descoberta do que realmente significa a proposta emocional da diretora Siqi Song.

Direção: Siqi Song
Roteiro: Siqi Song
Elenco: Bingyang Liu
Duração: 8 min.

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Daughter (Dcera) 

República Tcheca, 2019

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Iann Jeliel

O conflito de ego acumulado é uma maldição que só pode ser quebrada no rito de passagem para uma nova vida. A premissa do curta parte de uma filha tentando se reconectar com o pai que se vê à beira da morte, recuperando memórias, boas e ruins, sobre sua convivência passada. A grande proeza é em como a execução é habilidosa e didática sem parecer óbvia nas idas e vindas dos flashbacks, para especificar o porquê da relação dos dois ser conturbada e principalmente por que tem que ser reconquistada.

Nesse contexto, a montagem aliada à fotografia intercala o dinamismo de acontecimentos em constante desconforto, fechando muito os planos na teoria pela busca de extrair a maior quantidade de sentimentos possível dos personagens, mas quando esses são os bonecos stop motion deformados, o desafio emocional transita no campo surrealista para amplificar a fragilidade daqueles rostos naturalmente pesados diante do acúmulo dramático. Na falta de falas, a própria técnica se comunica, seja através dos sons ou imagens, a ambientação molda a animação conforme a construção dos dois pólos sentimentais mencionados, aliando-os meticulosamente na lírica dos momentos-chave.

A experiência animada predominante é plenamente sensorial e subjetiva, mas estabelece seu vínculo com o público, como todo bom curta, na correlação com sua temática principal de forma realista. Seja um pai, filha, amigo, todos nós temos desentendimentos com alguém importante que pesam quando possivelmente essa pessoa irá deixar o campo físico. Buscamos no fim, e muitas vezes nem dá tempo, uma forma de nos redimirmos com elas para dar o abraço final. Assim, surge a figura do pássaro, no melhor semblante de paz possível, saindo de um mero observador dessa relação e partindo a fazer parte dela, é o contato que os dois nunca tiveram e que a gente não tinha até então com o curta. No belíssimo final, as luzes se acendem no foco e desfoco, e o pássaro encontra o voo para novos horizontes.

Direção: Daria Kashcheeva
Roteiro: Daria Kashcheeva
Duração: 15 min.

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Hair Love

EUA, 2019

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por Iann Jeliel

Possivelmente a vencedora da categoria no Oscar, por trazer à tona uma temática pouco falada, mas de ampla representatividade e importância, a lírica ultrarrelacionável e “fofa” de uma animação com grande alcance distributivo e que possivelmente irá alcançar mais pessoas depois de ser premiada. O mais bacana é que em uma primeira camada, Hair, Love é sobre a desconstrução de uma opressão histórica específica, de que as negras não têm cabelo “ruim”, mas no fundo, no fundo, é uma carta de incentivo ao amor próprio, que deve ser criado desde cedo pelos olhares infantis e principalmente compreendido por suas figuras paternas, para que um novo ciclo de desconstrução identitária não se forme, e a partir da atual, já seja possível se desvincular totalmente desses estereótipos.

Desse modo, o curta atinge um ponto de vista muito mais amplo e universal de uma problemática simples, mas extremamente realista e particular. Diante do mal do século, a iniciativa publicitária da Sony é fantástica e recheada de bom coração, mas como lírica, acaba limitando e tornando a articulação do tema um tanto superficial. As ilustrações mais exageradas, como a do pai lutando boxe contra um cabelo indestrutível, ou os ensinamentos via internet, buscam criar um clima de divertimento que soa muito bobinho, mesmo com a intenção do didatismo e linguagem mais reconhecível com todas as idades, é pouco sutil e poderia ser preenchido com facetas menos manipulativas.

É um curta para fazer chorar, e isso fica bem claro em todo o visual colorido, e é bom que faça mesmo, as lágrimas da representatividade em tela são lindas de se ver. Contudo, a temática fala mais alto que sua execução animada de modo arbitrário, mesmo com as diversas camadas do problema expostas, elas só ficam no primeiro comentário. Que bom e tomara que ele seja suficiente para todo o início de uma mudança social.

Direção: Bruce W. Smith, Matthew A. Cherry, Everett Downing Jr.
Roteiro: Matthew A. Cherry
Elenco: Issae Rae
Duração: 7 min.

Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

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Quando Aves de Rapina (e seu grandioso subtítulo que não será replicado aqui) acabou, fiquei inicialmente em conflito. Afinal, ele funciona constantemente como uma própria extensão da cabeça caótica de Arlequina (Margot Robbie), que enxerga o mundo como um grande parque de diversões colorido. Ao mesmo tempo, o longa nunca se entrega completamente a uma deadpoolzação de sua narrativa. Pelo contrário, a fotografia do excelente Matthew Libatique até se aproxima de um tom mais sombrio (lembrando suas parcerias com Darren Aronofsky), principalmente no terceiro ato do filme. É justamente daí que vem minha frustração inicial, pois eu queria ver mais dessa extrapolação, visualmente falando. 

No entanto, fui percebendo que Aves de Rapina não poderia ser apenas um surto pós-término de sua protagonista. Nem uma grande diversão inconsequente de alguém que está dando o dedo do meio para todo mundo, como eu queria. Por mais que tenha tenha saído de sua posição submissa ao Coringa e finalmente desfrute de uma autonomia, o mundo a volta de Arlequina ainda é dominado por homens. Por isso, existe aqui um equilíbrio coerente entre a comemoração de sua emancipação e um sinal de alerta nunca lhe deixa relaxar completamente. A Gotham que Arlequina vive é extremamente traiçoeira e suja, principalmente quando se trata de homens. 

Assim, é precisamente por isso que o grupo Aves de Rapina é formado. Não por serem mulheres que automaticamente se gostam, o que soaria um tanto simplificador e genérico, mas pela necessidade do momento. Todas estão atrás de um grande mcguffin (objeto desejado por todos e que move a trama): o diamante da família Bertinelli. De início, existe até uma corrida entre elas para ver quem fica com a jóia. Todavia, o que o grupo rapidamente assimila é que mesmo existindo uma grande diferença entre elas, há um inimigo em comum mais urgente. Se aquelas mulheres já são tanto massacradas pelos mafiosos e policiais de Gotham, não há porque elas facilitarem o trabalho deles matando umas as outras. Desta forma, acaba surgindo assim uma sororidade muito natural dentro daquele contexto específico e que depois se expande para um genuíno respeito após lutarem juntas em sincronia.  

Nesta lógica de sororidade, a sequência final (na qual todas estão reunidas) acaba assimilando uma movimentação que se utiliza principalmente de ataques combinados entre o grupo, ressaltando a importância do trabalho em equipe. Não só isso, como toda ação parece se equilibrar muito bem entre uma brutalidade coreografada da franquia John Wick (não à toa, já que Chad Stahelski, criador da franquia, ajudou nas filmagens) com a estética festeira de Arquelina, o que nos leva diretamente para a questão da harmonia entre o exagero e a sobriedade que se propaga pelo longa. Enquanto pernas estão sendo quebradas e rostos estão sendo cortados, confetes rosas explodem e uma trilha sonora pop fazem tudo parecer um grande videoclipe para maiores de idade, o que faz total sentido dentro da cabeça da anti-heroína.

Entre os outros elementos que Aves de Rapina nos remete ao caos mental de Harley, o principal é a maneira como a narrativa se organiza de um modo não linear. Quebrando a quarta parede ao interagir com o público, esta é uma história da protagonista para nós. Assim como alguém que está numa mesa de bar contando seus feitos, é normal uma interrupção para relembrar de algo que havia esquecido de mencionar. Além de servir como uma representação de sua cabeça embaralhada, é até interessante pensar que é a própria Arlequina esteja controlando o filme, podendo fazer o que quiser com sua linearidade e servindo até como uma outra emancipação em um nível metalinguístico. 

Falando em emancipação, além do próprio Coringa, este é um filme que tenta a todo jeito se afastar da imagem sexualizada de Margot Robbie em Esquadrão Suicida. Não há mais os planos do David Ayer que começavam nos pés da atriz e subiam até sua cabeça. Inclusive, em uma cena de assédio envolvendo Roman Sionis (Ewan McGregor alopradíssimo) e uma figurante, a diretora Cathy Yan sabe criar o terror apenas ao focar em suas pernas desnudas ou no rosto da atriz, contrastando bem a diferença que uma direção feminina faz. 

Similarmente, a própria Margot está cada vez mais confortável com o papel, sabendo abusar muito bem da falsa inocência irônica da Arlequina com suas caras e bocas sempre expansivas, além da debochada narração em off. Contudo, o melhor da personagem acaba saindo de suas interações com a jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Em uma relação de tutora e aprendiz, a menina é a primeira que trata a protagonista como alguém que existe por si só, e não intrinsecamente ligada ao Coringa, precisamente porque ela não sabe quem ele é. Nos poucos minutos em que estão juntas sem estarem sendo perseguidas, chegamos mais próximos de ver o que seria Harley como mãe — louca, mas com intenções honestas. Em contraste, todas as subtramas envolvendo as outras protagonistas nunca ganham força por si só, sempre presas a condição de tentar encaixar três mini histórias de origem, que apenas dão o básico de caracterização para que suas personagens não sejam meramente unidimensionais.

No fim, eu diria que Aves de Rapina é como ir à uma festa para beber sem moderação, mas acompanhado daquele seu amigo que te lembra de tomar água e de se controlar. Na hora, você sente raiva porque só quer curtir, mas, no dia seguinte, agradece. No meio de um passeio frenético pela mente de Harley Quinn em seu momento de empoderamento, o filme constantemente quebra sua onda lisérgica de alegria para nos lembrar que o mundo ainda é cruel com as mulheres e ainda há muito pela frente. Homens que usam de suas relações de poder para assediarem, padrastos agressores ou profissionais que tomam crédito por um trabalho feito por mulher. Aliás, nada mais irônico do que, no confronto final, todos os capangas estarem mascarados com caras de animais. Resume bem o longa como a união de mulheres que estão tentando sobreviver em ambiente predatório.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn) – USA, 2020
Direção: Cathy Yan
Roteiro: Christina Hodson
Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Chris Messina
Duração: 109 min.

Crítica | Quatro Histórias de Fantasmas

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É difícil criticar uma obra que é dividida em quatro histórias diferentes e que não se conectam. Enquanto uma apresenta conceitos inovadores e uma narrativa linear que aumenta a tensão com o passar dos segundos e atinge o clímax na última cena, a outra peca pela permanência no terror banal sem qualquer diferencial — notadamente o reflexo da falta de coragem do diretor. Com essa afirmação, seria muito mais interessante e coeso que Quatro Histórias de Fantasmas fosse uma série de quatro capítulos a fim de que o espectador aproveitasse o que cada história tem para oferecer, sem que um episódio roubasse ou atrapalhasse o brilho do outro. Uma série estilo Black Mirror, por exemplo. Na crítica, serão avaliadas as histórias individualmente, mas é importante ressaltar que o formato escolhido pela Netflix foi uma péssima decisão que afetou amargamente o resultado final do projeto. A película conta quatro histórias diferentes que possuem um único elemento em comum: contém fantasmas.

A Enfermeira e a Paciente

Quatro Histórias de Fantasmas possui um deplorável abre-alas com a narrativa da diretora Zoya Akhtar. Tratando o espectador da forma mais burra possível, a primeira história enrola durante trinta minutos para no final divulgar o óbvio. Mais do que uma perca de tempo, a história demonstra o lado covarde da diretora em querer se aproveitar de um dilema comum nas lendas urbanas americanas: loucos são apenas loucos ou podem estar na presença de fantasmas? Mas, infelizmente, ela se esqueceu que a pauta não sustenta o filme sozinho. Também é preciso desenvolver.

Assista a qualquer película com a narrativa no mesmo ponto: fantasmas em volta de alguém com transtornos mentais. Literalmente todos têm o mesmo “incrível e belíssimo” final. Mas, mesmo assim, assistimos porque dentre a pauta e o desfecho há jump scares, diálogos, atuações… No entanto, essa primeira história não carrega nenhum desses elementos. Entre o início e o fim não acontece nada: não há sustos, não há tensão, não há diálogos eficientes, e as atuações são amadoras ao extremo. Realmente não faz sentido assistir a esse filme se o principal diferencial do dilema em questão (o desenvolvimento) não acontece de forma cativante ou interessante — ou sequer chega a acontecer. E nem para tentarem forçar algo no desfecho que ao menos espantasse pelo excesso de bizarrice. É literalmente o mesmo final que todos do gênero possui e, consequentemente, o que estávamos esperando desde o primeiro minuto. O mais vergonhoso é que a câmera foca no rosto da protagonista quando temos o “bombástico” desfecho, parecendo que foi um plot twist totalmente inesperado. Que vergonha alheia!

Ressalto que utilizar temas tradicionais nunca é um erro. Porém, devem se sustentar em pilares que inovam ou produzir o comum com excelência. O erro dessa história é não possuir qualquer artifício de destaque.

A Grávida e o Pássaro

Então começa o problema da trama em formato de filme único. Se alguém sobreviver até o final da primeira história sem desistir, será recompensado com um incrível e inovador curta-metragem que não se preocupa em agradar ou explicar passo-a-passo o que está acontecendo ao espectador. A segunda história se preocupa em se consolidar em si: é produzida para si mesma e, só então, é exibida ao público. Dessa forma, encontramos uma narrativa que explora a mente subjetiva do diretor Anurag Kashyap, que utiliza uma fotografia mais mórbida do que o necessário a fim de levantar um terror psicológico que o roteiro quis abordar.

Aplausos para Kashyap em reconhecer que o espectador é um ser muito inteligente e que não precisa de explicações óbvias para entender algo (e destaco que essa sensação é mais uma consequência da falta de interesse do curta em agradar o espectador). O roteiro simplesmente joga as informações com o pressuposto de que vamos interpretar o que está acontecendo. Por exemplo, nenhuma vez é citada que a protagonista está grávida, mas descobrimos isso por meio de uma cena totalmente subjetiva em que aparece um feto. Seria comum que ficássemos confusos com tantas cenas aleatórias, no entanto funciona muito mais do que introduzir um diálogo em que a atriz é forçada a falar “estou grávida de quatro meses”. Bem inteligente, não?

Além disso, obrigado por não se render ao plot twist Kashyap! Esse conto tinha tudo para que tivesse um “final inesperado” que, ironicamente, todo mundo iria esperar. Contudo, surpreendentemente essa informação que deduzimos no início é demonstrada no começo do segundo ato. O desenvolvimento é realmente uma progressão que acaba quando a história termina: não recorre a fatos passados para tentar impressionar o espectador.

Infelizmente, isso é muito ofuscado pela primeira história. Demoramos um pouco a aceitar que, enfim, assistiremos algo digno e então, passamos parte dessa narrativa zangados e de cara fechada. Claro que vale a pena ir no início e assistir de novo, desta vez alegre. Ainda mais que é complicado de entender o roteiro de primeira.

A Vila e os Canibais

Sabe aquele episódio que só acontece, diverte um pouco e então é esquecido? Pois bem, esse é o terceiro episódio. Aqui encontramos uma trama que parece mais uma ponte para o quarto episódio ou alguma forma de encher tempo do filme e, assim, uma narrativa neutra, sem ousadia ou inovação, mas que se destaca na produção.

Dibakar Banerjee pareceu fundir todos os filmes do estilo e, dessa forma, juntar em uma só obra. Isso também se encontra nas ações, diálogos e desenvolvimento do roteiro: é uma narrativa comum e “zero grau”. Ainda reforçado no desfecho da película que até tentou forçar um mínimo plot twist, porém não passa de mero reflexo de outros incontáveis finais semelhantes que estão presentes nesse gênero.

Infelizmente, a ambientação não é muito explorada. Um lugar no meio do nada, cheio de neblina e criaturas desconhecidas é um ótimo local para cenas agonizantes no escuro. No entanto, os protagonistas passam quase a trama toda na parte interna das construções.

A sorte dessa história está na produção. Pra quem está enjoado desse tema, pode até se interessar pela forma em que as sequências são exibidas: nuas e cruas, sem medo de assustar ou traumatizar alguém. Se o roteiro permitisse mais exploração do cenário, poderíamos encontrar algo tão gore quanto Holocausto Canibal

A Noiva e a Vovó

O quarto conto até compensa pela produção interessante e momentos tensos, mas não deixa de parecer um remake melhorado do primeiro episódio (mais uma vez, o formato em filme atrapalhando o brilho de um dos contos). A última história novamente recorre ao terror tradicional envolvendo fantasmas e contém exatamente o desfecho que todos esperam. No entanto, diferente do primeiro, o diretor Karan Johar não nos trata como burros e sempre nos deixa indícios de para onde o roteiro pretendia nos levar. Assim, não há aquela citada vergonha no final: o plot twist não é tratado com cerimônia.

O único artifício que salta aos olhos para quem espera um terror inteligente é a falta de jump scares. Não é preciso o uso desse recurso para causar tensão, certo? E essa quarta história se aproveita disso. A maioria das cenas está presente no mundo real, de forma que a tensão não possui o caráter sobrenatural. Por exemplo, quando o protagonista diz inesperadamente “precisamos ver isso com a vovó” e, considerando que a vovó está morta, levanta um ar de mistério. No final, é até um bom passatempo.

Claro que uma história sem inovação muito dificilmente vai passar de mediano. Mas, nesse caso, o mediano é um elogio: se está na média, é porque não cometeu erros graves. Ao menos demonstra que a produção tem potencial de construir algo eficiente.

Quatro Histórias de Fantasmas (Ghost Stories) – Índia, 2019
Direção: Zoya Akhtar, Anurag Kashyap, Dibakar Banerjee, Karan Johar
Roteiro: Ensia Mirza, Zoya Akhtar, Isha Luthra, Dibakar Banerjee, Aninash Sampath
Elenco: Janhvi Kapoor, Sobhita Dhulipala, Sukant Goel, Gulshan Devaiah, Mrunal Thakur, Avinash Tiwary, Vijay Varma, Sagar Arya, Surekha Sikri
Duração: 144 min.

Crítica | A Sister (Une Soeur)

plano crítico crítica A Sister (Une Soeur) oscar 2020

Em seu terceiro curta, a diretora e atriz francesa Delphine Girard tenta abordar uma tensa situação de violência e sequestro usando, apenas, uma ligação telefônica entre a vítima e uma operadora da polícia encoberta como uma ligação da vítima para sua “irmã” para falar de sua filha, já que o criminoso está ao seu lado no carro. É sem dúvida uma premissa interessante — embora não exatamente original –, mas que Girard executa como um pedaço de uma história.

Não é que não haja um começo (ou quase), meio e fim no curta, ou que Girard não saiba criar tensão na conversa entre Alie (Selma Alaoui), a vítima, e a operadora (Veerle Baetens), mas esse deveria ser o artifício que impulsiona a narrativa e não toda a narrativa. No entanto, aqui, uma coisa se confunde com a outra e, mais do que isso, a premissa se torna tudo o que a diretora tem a apresentar. 

É sem dúvida interessante como a fotografia escurecida e desfocada no lado de Alie evita mostrar rostos ou mesmo a estrada em detalhes, mantendo o espectador razoavelmente desorientado, emulando, com isso, os sentimentos da vítima. E é também interessante como, na outra ponta, a da operadora, as imagens são claras e seu rosto tenso, mas frio, é sempre mantido em foco e tomando quase toda a lente. O problema é que A Sister fica parecendo um experimento, um fragmento de uma ideia bacana que não ganha nenhum desenvolvimento para além da estrutura narrativa em si.

E, muito em razão disso, por mais que o espectador consiga conectar-se com a situação de tensão e, em razão dela, também com a vítima e a operadora, Girard não consegue ir além e tornar as personagens interessantes por elas mesmas. Não há sequer um semblante de arco narrativo, aliás, pois a técnica audiovisual da diretora é um fim em si mesma. 

A Sister é um filme de “treinamento” para Girard, como um TCC, mal comparando. E o resultado é que ela passou raspando.

A Sister (Une Soeur) — Bélgica, 2018
Direção: Delphine Girard
Roteiro: Delphine Girard
Elenco: Veerle Baetens, Selma Alaoui, Guillaume Duhesme
Duração: 16 min.

Crítica | Cléo das 5 às 7

Tendo estreado no cinema com o longa-metragem La Pointe-Courte (1955), a cineasta belga Agnès Varda demorou sete anos até que assinasse um outro longa, tendo dirigido sete curtas-metragens nesse meio tempo. Entre a sua obra que daria o pontapé inicial para a Nouvelle Vague e este seu primeiro grande sucesso, Cléo das 5 às 7 (1962), a diretora adquiriu um domínio ainda maior do seu instrumento de trabalho, podendo explorar de forma bem mais intensa o dinamismo da vida envolto em uma atmosfera trágica, tensa e lúgubre, como a espera da morte. Ou pelo menos a suposição da morte pela protagonista, que das 17h às 18h30 do dia 21 de junho, aguarda o resultado de uma biópsia para diagnóstico de câncer.

A premissa existencial do roteiro, escrito pela própria diretora, não domina o filme de forma marcantemente depressiva, com um mergulho ou entrega a uma reflexão sem volta a respeito do fim da vida e sobre o que fazer com o pouco tempo que resta. Na verdade, essas discussões existem no filme, mas estão embrulhadas em um tom de bravura e num mix de resignação e medo iluminado, sem nunca apelar exclusivamente para um lado. Sendo uma cineasta com os pés fincados na fotografia e com grande apreço pelo documentário (a maior parte da carreira de Varda foi com esse gênero, inclusive), a artista nos faz acompanhar Cléo de maneira objetiva, visualmente marcante e plural, andando pela cidade e cumprindo os seus afazeres do dia, voltando constantemente à preocupação com o resultado do exame, mas sem fazer com que isso a paralise de algum modo.

Abrir uma discussão sobre a mortalidade tendo uma mulher como protagonista e ponto central da trama é também um recado que a própria Varda explanou ainda muito cedo em entrevistas. Não é segredo para ninguém que a diretora era uma ativista feminista e esse viés também é tratado por ela ao longo das atividades entre “5 às 7” da protagonista vivida maravilhosa e delicadamente por Corinne Marchand, especialmente quando ela recebe a visita de um compositor (Michel Legrand, responsável pela trilha sonora do filme). Ela atesta que ninguém a leva a sério porque é mulher jovem e bonita, e ainda precisa ouvir que, quando diz que está doente, na verdade “está fingindo e só quer chamar atenção“. Mais cedo, em uma cena ao mesmo tempo viva e melancólica, a protagonista olha-se no espelho e nos entrega a cartada social que, embora não seja exclusiva de seu gênero, ataca as mulheres com muito mais voracidade: “enquanto eu for bonita, estou viva“.

Ao colocar Cléo em circulação por Paris em uma das tardes mais angustiantes de sua vida, a diretora consegue manipular a perspectiva do público e também de sua personagem, não fermentando um pesar passivo pela doença, mas redescobrindo e revendo diversas coisas e pessoas como se fosse pela primeira (ou última?) vez. Há uma marca solene nessa abordagem e ao lado da partitura de Legrand a cineasta incutiu grande sensibilidade diante das coisas mais simples da cidade, criando uma atmosfera geral que não ignora o problema, mas consegue pouco a pouco encontrar a esperança no mesmo mundo que não lhe dava atenção, que lhe dizia que fingia doença e que a considerava viva apenas enquanto fosse bonita. Notem que o texto segue existencialista, mas não se furta em visitar a humanidade, a sensibilidade e a partida para a ação de todos, retrabalhando a forma como se percebe o mundo. Se na direção Varda mantinha nossa atenção viva por mudar o tempo inteiro de perspectiva, ângulo, plano, estilo de filmagem e cenários abordados, no fim do filme ela nos dá todo o espaço possível para pensar, respirar e nos reconectar com o ambiente e também com outra pessoa.

A superstição de Cléo e sua obsessão pela própria figura são tratadas na obra como adendos cômicos ou íntimos. A câmera filma inúmeros objetos e momentos onde algo de muita zorte ou azar poderia acontecer e, com a mesma câmera, vemos a protagonista diante de muitos espelhos. Essa multiplicação, quebra ou reflexos de si, porém, vai diminuindo aos poucos, à medida que ela se ocupa com outras coisas (música, cinema — com reprodução em outro corte de Os Amantes da Ponte Mac Donald, filmado um ano antes — e flerte) e vê chegar a hora de entrar em contato com o médico. As emoções e as situações são finalmente defrontadas com um sentimento diferente, via o compartilhamento de um momento ou pela fala honesta a respeito de problemas pessoais e da morte (seja por doença ou por motivos infames, como os da guerra colonial na Argélia). Mas também pela partilha terna da vida com alguém, ao menos por algumas horas, onde a companhia bem-vinda traz saúde para alma.

Há uma certa semelhança com os caminhos de Viver (1952) neste longa, mas Varda se afasta da tragédia esperada e trata a questão como um problema sério, embora não fatal. A honestidade, o realismo e o simbolismo misturados no filme aproximam a narcisista jovem do espectador, que chega ao fim desta hora e meia alcançando fazer aquilo que demoramos muito mais para conseguir na realidade: colocar os nossos problemas em perspectiva e aproveitar tudo aquilo que não faz parte desse problema, as coisas que estão à nossa volta sendo solenemente ignoradas e desperdiçadas enquanto fazemos do nosso medo e dor o ponto central da vida.

Cléo das 5 às 7 (Cléo de 5 à 7) — França, Itália, 1962
Direção: Agnès Varda
Roteiro: Agnès Varda
Elenco: Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blanck, Michel Legrand, José Luis de Vilallonga, Loye Payen, Renée Duchateau, Lucienne Marchand, Serge Korber, Robert Postec, Jean-Luc Godard, Anna Karina, Emilienne Caille, Eddie Constantine, Sami Frey, Danièle Delorme, Yves Robert, Alan Scott, Georges de Beauregard, Arthur Brunet, Jean-Claude Brialy, Raymond Cauchetier
Duração: 90 min.

Crítica | Um Lindo Dia na Vizinhança

Com tantos filmes, séries e livros lidando com situações e pessoas desagradáveis, chega a ser uma surpresa enorme encontrar uma obra como Um Lindo Dia na Vizinhança que, apesar de ter sua mira voltada para o famoso Mister Rogers, apresentador americano de um programa infantil que foi ao ar de 1968 a 2001. Mas, diferente de cinebiografias comuns, Fred Rogers, vivido por Tom Hanks, não é exatamente o centro das atenções do longa, mas sim o amargo e cínico repórter investigativo Lloyd Vogel (Matthew Rhys), cujo ponto-de-vista é o dominante, com Rogers sendo estudado como um reflexo, como um tubo de ensaio de controle em uma experiência científica, o que afasta a abordagem idólatra simples que é comum encontrar em propostas como essa.

O roteiro de Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster baseou-se no artigo escrito por Tom Junod em 1998 para a revista Esquire e usa a estrutura do articulista como base para a narrativa. O que vemos, portanto, é como a vida de Junod, rebatizado de Lloyd Vogel, é afetada a partir de suas entrevistas com Rogers para escrever um artigo elogioso curto por encomenda de sua editora. Pai recente e casado com Andrea (Susan Kelechi Watson), Lloyd é a encarnação da tristeza, um homem de olhar cabisbaixo e ombros arriados que não consegue perdoar seu pai, Jerry (Chris Cooper), por ter abandonado sua mãe doente e que volta para sua vida durante o terceiro casamento de sua irmã, Lorraine (Tammy Blanchard).

Lloyd é um personagem identificável como real e que qualquer um pode estabelecer conexões – por mais desagradável que ele seja – quase que imediatamente por provavelmente reconhecer traços de si próprio ali. Isso é particularmente importante, com a performance de Rhys capturando muito bem essa tristeza inafastável, pois o que efetivamente importa é o choque que isso gera quando Lloyd é colocado “em oposição” à natureza quase que completamente fabulesca de Mister Rogers que, conforme o filme deixa transparecer, não é um personagem criado por Fred McFeely Rogers, falecido em 2003, para comandar seu programa infantil. Rogers é Rogers, sem máscaras, sem faz de conta, por mais improvável que isso possa ser.

E essa improbabilidade é só amplificada pela forma como a narrativa é iniciada e depois entrecortada por cenas de Rogers em seu programa e com panorâmicas das cidades saindo da cidadezinha-cenário, com a diretora Marielle Heller filmando essas sequências com granulação no filme, além de razão de aspecto 4:3, que é a da televisão clássica. Com isso, Rogers não chega sequer a ser um personagem no sentido cinematográfico da palavra, já que ele não ganha um arco narrativo ou qualquer tipo de desenvolvimento e isso sem dúvida é um risco narrativo. Entretanto, Um Lindo Dia na Vizinhança não pretende ser uma biografia padrão do apresentador, como afirmei, sendo até mesmo possível afirmar que, se esta é mesmo uma cinebiografia, então ela o é de Junod, não de Rogers.

Tenho para mim, porém, que há uma interconexão que torna uma coisa inseparável da outra. De um lado, temos um Fred Rogers já maduro, já vivido e já sendo o que ele é e o que parece que ele “sempre” foi. Ele é a constante, o tubo de ensaio de controle como mencionei mais acima. Quem tem um arco narrativo completo é Lloyd, que aprende quem ele é, quem foi seu pai e quem ele pretende ser a partir de seu contato terapêutico com Rogers. Lloyd encontra um homem que o mundo cínico e frio simplesmente nos diz todos os dias que não existe ou que não poderia existir. Rogers é o que chamamos de clichê, de arquétipo, de agregador de qualidades unilaterais que tornam o personagem raso como um pires.

Mas será que o roteiro o escreveu assim ou será que nosso cinismo, nossa casca não nos permite acreditar que sim, bondade pura e constante é possível. Vejam: não falo aqui de atos de bondade. Isso, se procurarmos, encontraremos corriqueiramente, ainda que a imprensa, no geral, os soterre debaixo de toneladas de atos de maldade. O que falo é de uma vida de bondade, de genuína tentativa de fazer o melhor possível para ajudar os outros. Se Rogers foi mesmo assim, bem… comecem lendo o artigo de Junod (aqui) para terem uma ideia dessa pessoa que parece sim ser fruto de um roteiro mal escrito. E tentem esquecer o tipo de celebridade maior que a vida de hoje em dia, daquelas que precisam voar em aviões particulares, viver de renovados 15 minutos de fama na base de um escândalo por mês e que se entregam dia sim, dia não, aos piores vícios. Não é dessa “celebridade” que o filme fala.

Heller não esconde seu enquadramento do filme como uma fábula, mas a diretora vai além graças ao roteiro inteligente que ela teve para trabalhar. As interações são humanas, verdadeiras, com Hanks como sempre extraordinário no papel, mas com Rhys correndo atrás em uma performance que, diria, é ainda mais desafiadora, porque seu personagem não é exatamente agradável. Além disso, o texto vai além da moral da história mais saliente, que poderia ser resumido com a força do perdão ou algo do gênero. Há mais ali, mas – e aí é que vem a raridade – sem pregações, sem textos expositivos explicando o que está acontecendo e o porquê de isso ser errado ou certo.

Mister Rogers passa sua filosofia de vida e ela é fundamentalmente simples: aceite as pessoas como ela é. Essa singela frase fala mais contra o preconceito do que muita retórica politicamente correta que vemos inserida em todo tipo de filme até perder seu significado original. É tão simples, tão óbvio, que a mensagem pode passar despercebida. No entanto, do lado de Lloyd, vemos um casamento em que sua esposa largou o emprego para cuidar do filho, o que abre espaço para um excelente subtexto sobre a igualdade de gêneros, sobre o machismo e novamente sem que o filme pare para explicar os conceitos. Esse é o tipo de roteiro e o tipo de direção que começam uma conversa de igual para igual com os espectadores, sem rotulagem, sem ser condescendente e sem tratá-los como burros que precisam aprender uma lição.

Um Lindo Dia na Vizinhança é um conto de fadas sim, mas um conto de fadas verdadeiro em grande parte que traz uma abordagem refrescante para assuntos atuais e importantes que estão presentes em nosso dia-a-dia e, na mesma toada, lembra-nos de que ser uma pessoa boa é uma escolha de vida, não momentos isolados capturados em câmera e distribuídos pelas redes sociais. Definitivamente um filme para sair sorrindo, mas pensativo da sala de cinema.

  • Crítica originalmente publicada em 15 de dezembro de 2019 como parte da cobertura do Festival do Rio.

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood, EUA/China – 2019)
Direção: Marielle Heller
Roteiro: Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster (inspirado em artigo de Tom Junod)
Elenco: Tom Hanks, Matthew Rhys, Chris Cooper, Susan Kelechi Watson, Maryann Plunkett, Enrico Colantoni, Wendy Makkena, Tammy Blanchard, Noah Harpster, Carmen Cusack, Kelley Davis, Christine Lahti, Maddie Corman
Duração: 109 min.

Crítica | Adoráveis Mulheres

“Cansei de ouvir que, à mulher, cabe somente o amor.”

Apesar de ter marcado presença em seis categorias do Oscar 2020, a nomeação de Adoráveis Mulheres para Melhor Filme acabou pegando muita gente de surpresa, visto que a obra não apareceu em outras premiações. Entretanto, isso de maneira alguma é um demérito ou diminui sua qualidade, já que a nova adaptação do romance escrito por Louisa May Alcott é uma encantadora história de luta e amor, nos mais diversos significados possíveis dessas palavras.

Dirigido por Greta Gerwig, a fita gira em torno, essencialmente, de quatro irmãs: Josephine “Jo” March (Saoirse Ronan), Margaret “Meg” March (Emma Watson), Elizabeth “Beth” March (Eliza Scanlen) e Amy March (Florence Pugh). Filhas de Marmee March (Laura Dern), vivem suas vidas normais e sem grandes luxos enquanto os Estados Unidos passam pela Guerra da Secessão, cuja qual seu pai (Bob Odenkirk) é um dos combatentes. Enquanto aguardam o retorno do único homem da casa, as jovens, todas ligadas ao mundo artístico de alguma forma, precisam lidar com o adoecimento de Beth, que enfrenta uma doença que havia superado mas retornou ainda mais forte.

Os acontecimentos da película se desenrolam num período de sete anos, entre o final e os primeiros anos após o fim da guerra. Para contar os fatos ocorridos ao longo dos anos, a diretora opta por uma narrativa que viaja constantemente entre o presente e o passado. Ainda que logo no início do filme isso cause certa confusão, até pelo uso exagerado de cortes, fazendo a direção apresentar informações demais ao público, Gerwig não demora em acertar a mão e torna essa variação de tempo uma das principais qualidades de sua obra.

Para marcar o passado, onde a família, apesar de apreensiva pela presença do pai na guerra, vive momentos majoritariamente felizes, com as garotas cheias de energia em sua adolescência e com Beth saudável, a direção opta pelo uso de cores extremamente vibrantes tanto no figurino das personagens quanto em toda a mise-en-scène. Além disso, também há o uso bastante alto da saturação, causando uma forte impressão de vivacidade em todas as cenas.

Com relação ao presente, porém, acontece o contrário. A tela fica tomada por cores frias e tons escuros, assim como uma saturação baixa, trazendo tristeza e frieza ao filme, que ficam ainda maiores com as diversas cenas em meio às grandes quantidades de neve.

Essas idas e vindas no tempo também dialogam com os eventos da história. Por exemplo, a relação de Theodore “Laurie” Laurence (Timothée Chalamet) com as irmãs March poderia tranquilamente ser definida dessa forma. Por ter o ar galanteador e ser um jovem abastado, Laurie, mesmo tendo em Jo sua grande paixão, tenta, em maior ou menor grau, alguma investida com todas as March, com exceção de Beth.

Também é interessante perceber como cada área artística influencia na construção das personalidades de cada um. Peguemos a personagem de Ronan, por exemplo. Árdua leitora, Jo March escreve contos e romances e tem o sonho de tornar-se uma grande escritora. Dona de uma personalidade forte e até referida, após determinado incidente, como garoto, ela vai à Nova Iorque com objetivo de conseguir publicar seus escritos. No entanto, esbarra no machismo gritante da época, em que nada do que escreve é bom o suficiente, já que suas histórias possuem personagens femininas fortes e protagonistas e “isso não vende” porque “é heróico demais” e “falta romance”. Mesmo com essas adversidades, seu ímpeto questionador e irrefreável a fazem seguir em frente, demonstrando a influência dos livros em sua formação e sua enorme determinação.

Outro ponto de extrema importância na fita é a trilha sonora. Presente praticamente ao longo de toda a projeção, a composição de Alexandre Desplat é essencial para transmitir toda a emoção da narrativa. Por vezes crescendo gradativamente e em outros casos aparecendo com grande furor, Desplat transforma pequenos momentos em grandes acontecimentos, justificando por completo sua indicação para Melhor Trilha Sonora.

E impossível não comentar sobre o figurino, tão importante para um filme de época. Ainda que sejam absolutamente belas, as peças de roupas criadas por Jacqueline Durran se destacam, de fato, pelas cores. Trabalhando em perfeita harmonia com a paleta de cores, o figurino ajuda a identificar sentimentos e personalidades, como após um triste evento vemos Marmee March completamente de preto a não ser por um lenço vermelho em seu pescoço, marcando não somente seu amor pela pessoa mas também seu amoroso caráter.

Adoráveis Mulheres é uma obra visualmente encantadora e com uma ótima narrativa, que expõe as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no século XIX, criadas com o único propósito de casar, sem abrir mão do romance. Uma mescla de muita qualidade de Greta Gerwig entre a luta e o amor.

Adoráveis Mulheres (Little Women) — Estados Unidos, 2019
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Jayne Houdyshell, Chris Cooper, Meryl Streep
Duração: 135 minutos

Crítica | Algie, the Miner

estrelas 4,5

Algie, the Miner (1912) é um dos mais curiosos westerns que eu já assisti. Ele conta a história de um rapaz chamado Algernon que, para poder provar-se merecedor da mão de uma garota, aceita o desafio de ir para o “Oeste selvagem” e provar sua masculinidade. E por quê ele precisava fazer isso? Bem… porque ele é bastante afeminado e tem uma postura que faz com que quase todos os espectadores o caracterize como gay, embora essa classificação seja apenas um julgamento não muito louvável a partir da expressão de gênero do rapaz. O fato é que o leitor encontrará em muitas fontes históricas a informação de que Algie foi o primeiro protagonista gay da 7ª Arte.

Tecnicamente falando, o personagem interpretado por Billy Quirk não é gay. Ele tem uma noiva e se arrisca indo para o Oeste a fim de merecê-la, mas… ei!, estamos falando de um filme foi realizado em 1912 e só o fato de Algie tentar beijar os cowboys, fazer caras e bicos, andar rebolando pela cidade e se vestir e portar-se como um dândi bastante afetado deixa, no mínimo, a dúvida sobre sua pulsão heterossexual. E é nessa dualidade (entre julgamento e observação da realidade) que a diretora constrói esta pioneira obra.

O filme é raramente creditado à pessoa que o dirigiu de fato, a diretora francesa Alice Guy-Blaché, primeira mulher cineasta da História. É normal encontrarmos filmes do Primeiro Cinema que foram dirigidos por mulheres mas os homens que levaram os créditos (vide alguns filmes de D.W. Griffith, por exemplo) e Algie, the Miner é um dos casos. Em outras ocasiões, o curta aparece assinado por 3 diretores, com Alice Guy dentre eles, mas há registros bem claros de que ela dirigiu a obra sozinha e também a produziu, tendo, como é comum no cinema, assistentes de direção.

Só o fato de trazer para o western dos anos 1910 um personagem gay, Algie, the Miner já deveria ter maior notabilidade. E a coisa fica ainda mais impressionante quando notamos que existem questões internas que levam a trama para caminhos ainda mais complexos. Citemos um estético, por exemplo, a metáfora que a diretora faz em relação à masculinidade de Algie versus a dos outros homens do Oeste, com a pistola do jovem afeminado pequena e brilhante e a do restante dos cowboys grandes e enferrujadas.

Para completar o ciclo, existe ainda um subtexto para Big Jim, o “colega de quarto” de Algie, que o ensina a se tornar um “verdadeiro cowboy“. Quando o rapaz perde os trejeitos afeminados e passa a agir de forma socialmente aceita, parece-nos que um bromance existe entre os dois, relação vista fortemente em dois momentos, o primeiro, quando Algie impede de Big Jim volte a beber e o segundo, quando Algie conta ao amigo e professor que está voltando para Nova York afim de pedir a mão da noiva em casamento.

Mesmo com alguns acavalamentos de montagem, Algie, the Miner é um curta-metragem interessantíssimo, com um foco bastante raro no cinema da época e, evidentemente, muito engraçado. Um notável exemplo da fase americana da cineasta Alice Guy-Blaché, que infelizmente não recebeu os créditos ou o amplo conhecimento que merecia na História do Cinema.

Algie, the Miner (EUA, 1912)
Direção:
Alice Guy-Blaché
Roteiro: Alice Guy-Blaché
Elenco: Billy Quirk, Mary Foy
Duração: 10 min.

Crítica | Atlantique (2019)

atlantique- 2019 plano crítico

Ganhador do Grand Prix, o segundo troféu mais respeitado do Festival de Cannes, Atlantique é sustentado por um roteiro com pauta simples, que infelizmente é confuso, mas que ganha força na inovação e coragem da diretora Mati Diop. Na história, um grupo de construtores senegaleses que não recebem o salário há meses parte para a Espanha em busca de melhores condições de vida. Dentre eles, se encontra o jovem Souleiman (Traore), que está apaixonado por Ada (Mame Bineta Sane). A paixão é recíproca, no entanto a garota está prometida pelos pais a casar com o rico Omar (Babacar Sylla).

O roteiro notoriamente quis introduzir conceitos metafóricos em todos os diálogos. Claro que isso poderia ser um elemento positivo, visto que obras de baixo orçamento precisam se sustentar em algo interessante e a metáfora é uma boa saída. Contudo, o excesso desse recurso deixou o roteiro angustiante e completamente subjetivo. Destaco que subjetividade nunca é um defeito cinematográfico, porém a intenção inicial de Atlantique não suporta isso. Tanto que o primeiro ato é o mais objetivo de todos e realmente levanta o questionamento principal que a película queria abordar: a injustiça diante da liberdade humana, seja ela amorosa (como no caso da protagonista) ou capitalista (representada pelos trabalhadores). A partir do segundo ato, porém, essa ideia é enterrada pelas metáforas que parecem esconder a ideia inicial e encaminhar a história a uma reflexão pessoal do espectador. O filme, enfim, deixou de ser moralista para se tornar, desnecessariamente, individual, ou seja, baseada na experiência de cada um.

Além disso, a narrativa inexplicavelmente desenvolveu o arco do detetive que não parece conversar com o arco da protagonista. Durante a trama eles se encontram, porém é algo forçado e sem sentido. O detetive não acrescenta em quase nada na história, sendo sua influência baseada apenas em uma única informação. Apesar disso, ele rouba quase metade do filme. Seria mais interessante que reservassem esse tempo para as cenas com Ada pois, assim, aumentaria a chance de o roteiro ficar mais claro.

Mas essa subjetividade dá certo fora do roteiro. As cenas escolhidas não acompanham o tradicional: os enquadramentos não necessariamente focam em quem está falando e, vez ou outra, o visual se estabelece no mar enquanto o diálogo flui normalmente na parte sonora. Esse artifício poderia confundir o público porque eventualmente não é possível ao menos identificar quem está falando, porém, isso não acontece. As sequências, apesar de teoricamente confusas, funcionam eficientemente na técnica e trazem um clima único e inovador à obra. Além disso, levanta o ar subjetivo que os roteiristas quiseram trazer. A diferença é que, neste aspecto, funciona. Dessa forma, seria melhor que tentassem o “meio termo”, de modo que o roteiro fosse a parte objetiva; e o visual, a subjetiva.

Apesar das críticas negativas superarem as positivas, o filme ainda se mantém como mediano. A inovação na construção das imagens deixa o projeto interessante e todo “interessante” já é meio caminho andado. No entanto, um roteiro que se perde a partir do segundo ato e não cativa o espectador deixa o filme apenas assim: interessante. 

Atlantique é uma obra que ganha força apenas na direção. Infelizmente possui um roteiro fraquíssimo, com excesso desnecessário de metáforas que já seriam supridas suficientemente pela inovação na parte visual. Interessante de se assistir apenas pela coragem da diretora, a obra talvez não merecesse o segundo prêmio mais respeitado do Festival de Cannes.

Atlantique – França, Senegal, Bélgica, 2019
Direção: Mati Diop
Roteiro: Mati Diop, Olivier Demangel
Elenco: Mame Bineta Sane, Amadou Mbow, Traore, Nicole Sougou, Aminata Kane, Coumba Dieng, Ibrahima Mbaye, Diankou Sembene, Abdou Balde, Babacar Sylla, Arame Fall Faye, Ya Arame Mousse Sene, Babacar Samba, Astou N’Diaye, Khouda Fall
Duração: 106 minutos.

Crítica | Minha Mãe é uma Peça 3: O Filme

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“Siga o caminho do amor.”

Um ‘clássico’ da comédia nacional, Minha Mãe é Uma Peça conquistou o público por representar, de maneira hiperbólica e engraçada, a tradicional mãe brasileira. Nesse terceiro filme, os roteiristas tentaram abranger o símbolo da protagonista para todos os diferentes tipos de mães, utilizando, para isso, a dramaticidade. No entanto, esse é o maior erro que a trama poderia cometer. Em Minha Mãe é Uma Peça 3, Dona Hermínia (Paulo Gustavo) precisa lidar com o amadurecimento dos filhos, que agora seguem a própria vida. Marcelina (Mariana Xavier) está casada e grávida do hippie Sol (Cadu Fávero); e Juliano (Rodrigo Pandolfo) está planejando o casamento com o namorado Tiago (Lucas Cordeiro).

A necessidade de representar todas as mães afeta a protagonista. O roteiro não segue uma linearidade nos sentimentos dela, de modo que o primeiro ato se concentra na Dona Hermínia desleixada e barulhenta, tal qual conhecemos, e os outros dois atos puxam para um lado sentimental, comum a todas as mães. Claro que a protagonista tem seu lado dramático, porém, como vimos nos dois primeiros filmes, ela demonstra de uma forma diferente. O amor que costuma demonstrar é um voltado para o “te bato mas te amo”, e neste filme se concentra no “te amo mas te bato”. Nitidamente isso é um artifício utilizado para que todas as mães se sintam incluídas, desde as caricaturadas, como Dona Hermínia, até as mais “comportadas”. Porém, devemos lembrar que Dona Hermínia é um único personagem (e é uma caricatura!): ela não pode abranger todos os grupos. Terminamos o filme e, enfim, perguntamos: então, qual delas é a oficial? Esse questionamento foi o que mais diminuiu a nota atribuída, visto que a protagonista deveria ser um símbolo estável de referência para a mãe tradicional e exagerada, mas foi corrompida pela necessidade de vender o filme a todos os grupos. Talvez, esse terceiro filme nem mereça carregar o nome do “Minha Mãe é Uma Peça”.

Para sustentar isso, o roteiro quis introduzir uma dramaticidade que até funciona, porém é colocado em momentos inoportunos. Sob o sentimento compartilhado pela maioria das matriarcas, o famoso “amor de mãe”, Dona Hermínia passa a encontrar recordações em tudo que vê. Notadamente, isso é um elemento para representar todas as mães, visto que a maioria têm esse lado sentimental em relação aos filhos, no entanto dissipa grande parte da comicidade do filme. Todas as sequências dramáticas (que, saliento, são bem feitas), são seguidas por cenas que deveriam ser as mais cômicas. O espectador, dessa forma, não sabe se ri ou se chora (literalmente). Seria mais interessante que os produtores tivessem o cuidado de colocar “momentos neutros” depois desses acontecimentos. Precisamos de um tempo para organizar nossos sentimentos, não?

Além disso, há um excesso de Dona Hermínia na trama. Como protagonista, é claro que ela deve aparecer mais, porém a protagonista tapa todos os outros personagens. Como única fonte de comédia do filme, ela está presente em todas as cenas e, com o seu jeito extrapolante, rouba toda a aparição dos outros. Esse é um defeito que acompanha Minha Mãe é Uma Peça desde sua origem no teatro. Porém, é ainda mais marcante neste terceiro filme, pois os filhos movimentam mais a história do que a própria mãe: tudo gira em torno deles e com eles. Mas, mesmo assim, terminamos a película sem lembrar uma palavra ou ação dos filhos. É, enfim, um bombardeamento de Dona Hermínia.

Devo destacar que Minha Mãe é Uma Peça 3 é até mediano como filme independente. Mas fica abaixo da média por conta da perda de essência da protagonista e, então, do projeto inicial. Em outras palavras, se sustenta autonomamente, mas peca quando considerado a falta de ligação com os dois primeiros longas e com a ideia inicial. Por outro lado, ainda tem muitos momentos engraçados. Paulo Gustavo é uma boa opção para a protagonista, conseguindo um efeito cômico em grande parte da narrativa. Além disso, a obra deixa uma mensagem positiva em relação ao conceito de família: siga o caminho do amor. E essa é a mensagem do longa.

Minha Mãe é Uma Peça 3 é o pior, até agora, da franquia. Dona Hermínia quis ser todas, mas no fim esquece de ser ela mesma. Contudo, Paulo Gustavo ainda consegue levantar o humor na maioria das cenas, mas peca pelo excesso de Dona Hermínia durante a trama. No entanto, é indiscutível que o longa é importantíssimo por sua representação dos diferentes tipos de família, tal como meio para a luta contra o preconceito, em especial a homofobia.

Minha Mãe é Uma Peça 3: O Filme – (Brasil, 2019)
Direção: Susana Garcia
Roteiro: Paulo Gustavo, Susana Garcia, Fil Braz, Mônica Martelli, Natalia Piserni, Gabriella Mancini, João Paulo Horta, Andrea Batitucci
Elenco: Paulo Gustavo, Mariana Xavier, Rodrigo Pandolfo, Herson Capri, Samantha Schmütz, Alexandra Richter, Patricya Travassos, Malu Valle, Stella Maria Rodrigues, Cadu Fávero, Lucas Cordeiro, Bruno Bebianno, Edmilson Barros, Giovanna de Toni, Ana Carbatti, Tracy Legal, Eduardo Reyes
Duração: 111 minutos.

Crítica | Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

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A História é uma disciplina que lida com a memória, o impacto e as implicações contextualizadas (antes e depois dos fatos) das realizações humanas. É através dela que diversos recortes e interpretações da realidade são possíveis, dependendo de quem e com qual intenção ou a partir de quais fontes a registra. Com isso em mente, fica fácil entender o por quê indivíduos que estudaram e pesquisaram para registrar momentos históricos podem excluir ou modificar — dependendo de sua base de informações e contexto na produção do documento — o protagonismo de uma grande realização. Exatamente como os primeiros historiadores do cinema fizeram com a pioneira Alice Guy Blaché, considerada a primeira mulher cineasta do mundo, diretora de centenas de filmes (447, segundo o IMDB) dos quais, por muitos anos, ela não recebeu os devidos créditos.

Em Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (2018), a diretora Pamela B. Green e sua co-roteirista Joan Simon fazem um belíssimo exercício de retomada histórica, indo diretamente nas fontes originais (fontes orais, escritas, filmadas ou gravadas) para contar a trajetória cinematográfica de Guy Blaché, indo de seu trabalho inicial como secretária de Léon Gaumont até a luta, nos anos finais de sua vida, para reaver os filmes perdidos com o tempo e conseguir a justa indicação dos créditos nos filmes que dirigiu e que constantemente foram atribuídos aos seus assistentes de direção ou cineastas que nem estavam no local das filmagens no dia em que Alice rodou a obra.

Mesmo que outras mulheres pioneiras sejam citadas com a devida importância para os primeiros passos do cinema, como Lois Weber (Mrs. Smalley) — a primeira diretora americana –, Germaine Dulac e Dorothy Arzner, o documentário não se perde e está sempre retornando ao seu tema principal, que é a diretora francesa. A narração que nos guia por diversos lugares e tempos é realizada por Jodie Foster, que igualmente assina como uma das produtoras executivas da fita.

Pamela Green adota um estilo extremamente dinâmico, rico em imagens, vídeos, áudios, fotografias, documentos e trechos de filmes da homenageada (até cenas do excelente Algie, the Miner aparecem aqui), mas não toma tempo demais com esses filmes na tela, como muitas vezes acontecem em documentários, onde até mais de 5 minutos por vez são consumidos com a exibição de cenas de um outro filme, o que é um grande absurdo. Há aqui em Be Natural um grande equilíbrio entre material de arquivo e a própria construção do filme, com registro da busca por informações sobre Alice, colocando Green em contato com diversos parentes próximos e distantes e algumas belas surpresas e descobertas no meio do caminho.

Se olharmos com atenção para o final do filme, perceberemos uma corrida maior e uma ausência de toda a elegância na demonstração de informações que tivemos ao longo de toda a sessão, o que impede que o longa alcance uma nota máxima. Esse aspecto técnico, todavia, em nada interfere na relevância e necessidade do tipo de informação que temos aqui. Aspectos da História do Primeiro Cinema na França e nos Estados Unidos são explorados, assim como a descoberta de diretores que foram marcados e até influenciados por Alice, como Eisenstein e Hitchcock; completando com mudanças e criações tecnológicas da indústria com o passar do tempo, o escanteamento das mulheres no papel criativo do cinema a partir dos anos 30 e o registro ou apagamento de seus feitos em livros, artigos, reportagens, aulas e discursos… tudo isso é discutido aqui, trazendo-nos no fim a felicidade de ver um nome como o de Alice Guy Blaché finalmente ser conhecido e reconhecido pelo que representou para a Sétima Arte.

Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché) — EUA, 2018
Direção: Pamela B. Green
Roteiro: Pamela B. Green, Joan Simon
Elenco: Richard Abel, Marc Abraham, Stephanie Allain, Gillian Armstrong, John Bailey, Cari Beauchamp, Lake Bell, Peter Billingsley, James Bobin, Serge Bromberg, Kevin Brownlow, Jon M. Chu, Diablo Cody, Bobby Cohen, Julie Corman, Geena Davis, Julie Delpy, Lorenzo di Bonaventura, Ava DuVernay, Jodie Foster, Michel Hazanavicius, Patty Jenkins, Ben Kingsley, Andy Samberg, Marjane Satrapi, Julie Taymor, Agnès Varda, Evan Rachel Wood
Duração: 103 min.