Margot Robbie

Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

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Quando Aves de Rapina (e seu grandioso subtítulo que não será replicado aqui) acabou, fiquei inicialmente em conflito. Afinal, ele funciona constantemente como uma própria extensão da cabeça caótica de Arlequina (Margot Robbie), que enxerga o mundo como um grande parque de diversões colorido. Ao mesmo tempo, o longa nunca se entrega completamente a uma deadpoolzação de sua narrativa. Pelo contrário, a fotografia do excelente Matthew Libatique até se aproxima de um tom mais sombrio (lembrando suas parcerias com Darren Aronofsky), principalmente no terceiro ato do filme. É justamente daí que vem minha frustração inicial, pois eu queria ver mais dessa extrapolação, visualmente falando. 

No entanto, fui percebendo que Aves de Rapina não poderia ser apenas um surto pós-término de sua protagonista. Nem uma grande diversão inconsequente de alguém que está dando o dedo do meio para todo mundo, como eu queria. Por mais que tenha tenha saído de sua posição submissa ao Coringa e finalmente desfrute de uma autonomia, o mundo a volta de Arlequina ainda é dominado por homens. Por isso, existe aqui um equilíbrio coerente entre a comemoração de sua emancipação e um sinal de alerta nunca lhe deixa relaxar completamente. A Gotham que Arlequina vive é extremamente traiçoeira e suja, principalmente quando se trata de homens. 

Assim, é precisamente por isso que o grupo Aves de Rapina é formado. Não por serem mulheres que automaticamente se gostam, o que soaria um tanto simplificador e genérico, mas pela necessidade do momento. Todas estão atrás de um grande mcguffin (objeto desejado por todos e que move a trama): o diamante da família Bertinelli. De início, existe até uma corrida entre elas para ver quem fica com a jóia. Todavia, o que o grupo rapidamente assimila é que mesmo existindo uma grande diferença entre elas, há um inimigo em comum mais urgente. Se aquelas mulheres já são tanto massacradas pelos mafiosos e policiais de Gotham, não há porque elas facilitarem o trabalho deles matando umas as outras. Desta forma, acaba surgindo assim uma sororidade muito natural dentro daquele contexto específico e que depois se expande para um genuíno respeito após lutarem juntas em sincronia.  

Nesta lógica de sororidade, a sequência final (na qual todas estão reunidas) acaba assimilando uma movimentação que se utiliza principalmente de ataques combinados entre o grupo, ressaltando a importância do trabalho em equipe. Não só isso, como toda ação parece se equilibrar muito bem entre uma brutalidade coreografada da franquia John Wick (não à toa, já que Chad Stahelski, criador da franquia, ajudou nas filmagens) com a estética festeira de Arquelina, o que nos leva diretamente para a questão da harmonia entre o exagero e a sobriedade que se propaga pelo longa. Enquanto pernas estão sendo quebradas e rostos estão sendo cortados, confetes rosas explodem e uma trilha sonora pop fazem tudo parecer um grande videoclipe para maiores de idade, o que faz total sentido dentro da cabeça da anti-heroína.

Entre os outros elementos que Aves de Rapina nos remete ao caos mental de Harley, o principal é a maneira como a narrativa se organiza de um modo não linear. Quebrando a quarta parede ao interagir com o público, esta é uma história da protagonista para nós. Assim como alguém que está numa mesa de bar contando seus feitos, é normal uma interrupção para relembrar de algo que havia esquecido de mencionar. Além de servir como uma representação de sua cabeça embaralhada, é até interessante pensar que é a própria Arlequina esteja controlando o filme, podendo fazer o que quiser com sua linearidade e servindo até como uma outra emancipação em um nível metalinguístico. 

Falando em emancipação, além do próprio Coringa, este é um filme que tenta a todo jeito se afastar da imagem sexualizada de Margot Robbie em Esquadrão Suicida. Não há mais os planos do David Ayer que começavam nos pés da atriz e subiam até sua cabeça. Inclusive, em uma cena de assédio envolvendo Roman Sionis (Ewan McGregor alopradíssimo) e uma figurante, a diretora Cathy Yan sabe criar o terror apenas ao focar em suas pernas desnudas ou no rosto da atriz, contrastando bem a diferença que uma direção feminina faz. 

Similarmente, a própria Margot está cada vez mais confortável com o papel, sabendo abusar muito bem da falsa inocência irônica da Arlequina com suas caras e bocas sempre expansivas, além da debochada narração em off. Contudo, o melhor da personagem acaba saindo de suas interações com a jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Em uma relação de tutora e aprendiz, a menina é a primeira que trata a protagonista como alguém que existe por si só, e não intrinsecamente ligada ao Coringa, precisamente porque ela não sabe quem ele é. Nos poucos minutos em que estão juntas sem estarem sendo perseguidas, chegamos mais próximos de ver o que seria Harley como mãe — louca, mas com intenções honestas. Em contraste, todas as subtramas envolvendo as outras protagonistas nunca ganham força por si só, sempre presas a condição de tentar encaixar três mini histórias de origem, que apenas dão o básico de caracterização para que suas personagens não sejam meramente unidimensionais.

No fim, eu diria que Aves de Rapina é como ir à uma festa para beber sem moderação, mas acompanhado daquele seu amigo que te lembra de tomar água e de se controlar. Na hora, você sente raiva porque só quer curtir, mas, no dia seguinte, agradece. No meio de um passeio frenético pela mente de Harley Quinn em seu momento de empoderamento, o filme constantemente quebra sua onda lisérgica de alegria para nos lembrar que o mundo ainda é cruel com as mulheres e ainda há muito pela frente. Homens que usam de suas relações de poder para assediarem, padrastos agressores ou profissionais que tomam crédito por um trabalho feito por mulher. Aliás, nada mais irônico do que, no confronto final, todos os capangas estarem mascarados com caras de animais. Resume bem o longa como a união de mulheres que estão tentando sobreviver em ambiente predatório.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn) – USA, 2020
Direção: Cathy Yan
Roteiro: Christina Hodson
Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Chris Messina
Duração: 109 min.

Crítica | O Escândalo (2019)

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Entendo que, à primeira vista, o simples fato de um filme ter alguma mensagem negativa contra algum tipo de descriminação já seja o suficiente para muitos. Todavia, um crítico jamais pode esquecer que no cinema, juntamente com o conteúdo, a forma na qual uma história é contada é essencial. Infelizmente, O Escândalo (Bombshell) possui um problema incurável de forma.

O filme dirigido por Jay Roach (franquia Austin Powers) dramatiza os acontecimentos reais que levaram à demissão de Roger Ailes (John Lithgow, Pet Sematary), CEO da Fox News, após a denúncia de abuso sexual por diversas funcionárias. Assim, O Escândalo é contado a partir de 3 pontos de vista: o de Megyn Kelly (Charlize Theron, Mad Max – Estrada da Fúria) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman, Aquaman), jornalistas reais; e o de Kayla Pospisil (Margot Robbie, Esquadrão Suicida), personagem inventada para a história.

O primeiro (e grande) problema do filme é que ele opta por seguir a cartilha de direção Adam McKay — que fez sucesso com A Grande Aposta e Vice além de pegar elementos de O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Com quebras de quarta parede, narrações em off didáticas, uma montagem frenética e zooms aleatórios, percebe-se esta tentativa de aproximar a abordagem de um caráter documental descontraído. 

Todavia, fico com a impressão que as pessoas envolvidas no processo criativo de O Escândalo simplesmente olharam um método que estava fazendo sucesso e resolveram fazer uma emulação automática, sem ao menos se questionar como isso se encaixaria dentro da história que eles queriam contar. 

Afinal, nos filmes anteriores vemos a ascensão de figuras polêmicas (Dick Cheney e Jordan Belfort) e o surgimento de um fenômeno como o crash da Bolsa, a partir de um humor absurdista. Todavia, o que aconteceu com Megyn Kelly, Gretchen Carlson e outras dezenas de mulheres não é uma comédia. Tampouco, Roger Ailes é apenas um homem “polêmico”.

Não só estamos falando de uma abordagem equivocada, como ela é mais do que isso. Ela é desrespeitosa e anula qualquer potencial dramático que o filme busca ter. Com aquelas aproximações da câmera enquanto as personagens discursavam, um efeito cômico-visual é gerado e parecia que eu estava assistindo a um episódio de The Office. Logo, não há menor harmonia entre o conteúdo sendo exposto e aquele formato de paródia, gerando uma grande contradição.

O Escândalo possui sérios problemas desde o momento em que foi concebido. Ao longo do filme, o fato de que o roteiro foi escrito (Charles Randolph) e dirigido (Jay Roach) por homens vai ficando claro. Existe uma certa satirização no modo como Roger Alies é retratado que faz com que ele pareça uma figura extremamente caricata. Existem até momentos cômicos no qual o personagem é extremamente paranoico com conspirações e também está sempre comendo. Essa simplificação do personagem acaba dando a entender que suas atitudes sexualmente abusivas são apenas mais uma maluquice sua, tratamento que é extremamente perigoso e problemático.

De mesma maneira, em uma cena crucial para o longa, a personagem de Margot é coagida por Alies para que mostre sua calcinha. Este momento acaba sendo muito revelador da enorme contradição que é esse filme. A própria figura da atriz no meio de Hollywood sempre foi vista, infelizmente, com muita sexualização, e Roach continua este estigma. Suas lentes nos colocam no ponto-de-vista do abusador e vemos aquele assédio de uma maneira quase voyeurística.

Aliás, não sou de comentar experiências que ocorrem dentro de uma sessão de cinema, como a crítica Pauline Kael tinha costume. No entanto, é muito curioso que, em uma cena que deveria ser a mais tocante do longa, toda a sua condução é sugerida inadequadamente como uma comédia. Assim, o público, que se vê envolvido e manipulado pela comédia de O Escândalo, dá uma enorme gargalhada quando duas personagens estão conversando sobre o abuso sexual.

De todos os personagens, os de Margot Robbie e John Lithgow são os mais prejudicados pelo tom do filme, indo muitas vezes para o tom caricatural e unidimensional. Por outro lado, até que a dupla se sai muito bem dentro desta dinâmica antagônica entre a inocência e a perversão, algo que fica contrastado muito bem na cena do assédio. Já Charlize Theron e Nicole Kidman estão muito mais sóbrias e parecem ser as únicas abordadas de um jeito mais sério. Uma sororidade invisível muito forte é sentida em suas personagens.

No fim, não deixa de ser irônico que enquanto O Escândalo fala sobre mulheres que são reféns do silêncio com o receio de perderem seu emprego, acaba sendo um filme que é um próprio refém de um sub-gênero de sucesso hollywoodiano.

O Escândalo (Bombshell) – Estados Unidos, 2019
Direção: Jay Roach
Roteiro: Charles Randolph
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Malcolm McDowell, Kate McKinnon, Connie Britton, Liv Hewson, Brigette Lundy-Paine, Rob Delaney, Mark Duplass, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, D’Arcy Carden
Duração: 108 min.