Hitchcock: Anos 30

Crítica | A Estalagem Maldita

estrelas 3

A Estalagem Maldita foi o último filme de Alfred Hitchcock no Reino Unido, de onde partiria para morar e trabalhar nos Estados Unidos, a convite de David O. Selznick, já no ano seguinte.

O diretor britânico recebeu o convite quando ainda filmava A Dama Oculta, e chegou a fazer uma “visita de reconhecimento” à terra do Tio Sam em agosto de 1938, onde acertou com Selznick a proposta de filmar Titanic, acordo que foi modificado posteriormente. Em vez da famosa tragédia do transatlântico, o cineasta ficou encarregado de filmar Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940), sua estreia em Hollywood que seria a sensação do Oscar, vencendo nas categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia em Preto e Branco, além de receber outras 9 indicações, incluindo a de Melhor Diretor.

Talvez seja em comparação a essa grande diferença de qualidade e recepção das obras que os cinéfilos normalmente tendem a desprezar por completo A Estalagem Maldita. É verdade que se trata de um filme menor de Hitchcock, mas é uma história até certo ponto divertida, mesmo que sua produção não tenha sido de completo agrado do diretor e ele não gostasse do filme de modo algum, a despeito do inesperado sucesso de bilheteria que a obra acabou fazendo.

O drama se passa na Cornualha, no início do século XIX (ou final do século XVIII). Uma jovem irlandesa chega à estalagem maldita do título à procura de sua tia, dona do local. Ela pretende fixar residência ali, já que acabara de se tornar órfã e, sozinha, não podia permanecer na Irlanda. O que a jovem não sabe é que a estalagem é uma faxada para reunião de piratas.

As primeiras sequências do filme marcam muito melhor o ritmo e o tom da obra do que o seu próprio desenvolvimento. Um clima de horror e medo se instala, não só pela bestialidade dos piratas que pilham os navios naufragados nos arrecifes próximos, atraídos por uma falsa luz de farol; mas também pela sinistra chegada de Mary (Maureen O’Hara, em início de carreira) à estalagem, um local de quem todo mundo tem medo, basta vermos as feições horrorizadas das pessoas na carruagem que levava Mary até o lugar.

Esse tom de medo será mantido em quase todo o filme, mas de maneira decrescente, uma vez que a personagem de Charles Laughton, o Juiz de Paz da cidade e pedra angular da história, aparece por tempo demais, fala demais e tem importância dramática demais numa trama que só funcionaria verdadeiramente bem se ele, o mestre por trás das pilhagens, aparecesse apenas no desfecho da fita. Sua personagem, de certo modo, estraga a surpresa e diminui um pouco o poder da revelação que porventura teríamos bem mais para frente.

De alguma forma, o roteiro guia o suspense para outras personagens e ações, como as fugas de Mary e do Oficial de Justiça disfarçado, o destino de sua tia e seu tio, o que acontecerá com os piratas e, principalmente, o que será do Juiz Humphrey Pengallan. Esses pontos de interrogação conjugados acabam por criar uma atmosfera excitante no decorrer da obra, o que prende melhor a atenção do público, mas como o tema do filme não é assim tão interessante ou esses mesmos pontos não sejam de caráter tão inquietantes, é possível que num momento ou outro a gente se distraia ou perca um pouco de interesse pela história. É um paradoxo, mas ele está no filme, não há o que se fazer.

A Estalagem Maldita fecha de forma mediana a fase britânica de Hitchcock. Talvez se Charles Laughton, que também era um dos produtores da obra, aquietasse mais o seu ego e não exigisse diálogos adicionais para seu personagem, Hitchcock conseguisse criar um outro tipo de tensão e fazer desse filme algo mais próximo de uma característica bem sua. De qualquer forma, este não é um filme ruim e certamente deve ser visto por ser um marco importante na carreira de Hitchcock. A partir desse ponto, na fase americana do Mestre, os espectadores poderiam ver de forma mais intensa tudo aquilo que ele acreditava ser cinema e entretenimento, aplicando e aprimorando suas ideias estéticas e narrativas estruturadas em sua terra natal. A Estalagem Maldita é apenas o último capítulo antes desse novo momento e, mesmo que não conste entre os melhores já realizados pelo diretor, tem um quê de especial que só quem o viu saberá definir bem.

  • Crítica originalmente publicada em 11 de março de 2014. Revisada para republicação em 22/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Estalagem Maldita (Jamaica Inn) – Reino Unido, 1939
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Joan Harrison, Alma Reville, J.B. Priestley (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Charles Laughton, Horace Hodges, Maureen O’Hara, Hay Petrie, Frederick Piper, Emlyn Williams, Herbert Lomas, Leslie Banks, Clare Greet, William Devlin, Jeanne De Casalis, Mabel Terry-Lewis, A. Bromley Davenport
Duração: 108 min.

Crítica | A Dama Oculta (1938)

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A história da produção de A Dama Oculta foi bastante agitada. Em 1937, o diretor Roy William Neill foi contratado para guiar uma obra chamada The Lost Lady. Ele e uma parte da equipe viajaram para a (antiga) Iugoslávia para dirigir as cenas de ligação e ambientação da obra (que cobrem o primeiro ato do longa), mas foram expulsos do país assim que as autoridades locais descobriram que a nação não era representada positivamente pelo enredo. A dificuldade de continuar com o projeto a partir dali fez com que a primeira fase de produção fosse engavetada. E assim morreu The Lost Lady.

Um ano depois, o roteiro foi cair no colo de Alfred Hitchcock, que com um orçamento menor, começou a trabalhar com os roteiristas Sidney Gilliat (A Estalagem Maldita) e Frank Launder para alterar detalhes estruturais do início e fim do texto original, mudando também muita coisa do que se tinha adaptado da obra The Wheel Spins, escrita por Ethel Lina White (Silêncio nas Trevas), especialmente em relação à Srta. Froy. No todo, o filme traz para a ficção o complexo e incômodo cenário político pelo qual a Europa passava naquele final de anos 1930, pouco mais de um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha sido filmado em diversos estúdios, linhas férreas e campos militares do Reino Unido, o filme manteve uma identidade visual “exótica” muitíssimo interessante graças ao olhar acurado do diretor para o que deveria ou não colocar na tela, e principalmente à maravilhosa direção de arte e aos figurinos nas dependências do hotel — que fica “em algum lugar da Europa Central”, onde praticamente todo o primeiro ato se passa (o restante é na estação da pequena cidade). Nesses primeiros minutos de projeção, temos a impressão que estamos assistindo a uma comédia despreocupada, com toques culturais e um pouquinho de crítica aos costumes da sociedade da época, com destaque para o papel da mulher. É um início lento (em termos de impacto causado pelas coisas que vemos), mas bem divertido e com pistas que são retomadas com muita inteligência na parte final da película.

O texto cria uma situação leve e incômoda (abrindo as portas para a comédia) colocando passageiros de diferentes nacionalidades esperando o desbloqueio dos trilhos após uma forte nevasca. Parece um filme dos irmãos Marx, para falar a verdade. E é aí que conhecemos a Srta. Froy (May Whitty), Iris (Margaret Lockwood) e o musicólogo Gilbert (Michael Redgrave), personagens que protagonizariam isoladamente o segundo ato do filme. Eu acho a sequência de ligação entre o “acidente” de Iris, ainda na plataforma, e tudo o que acontece depois, dentro do tem, uma excelente sacada do roteiro. Hitchcock, já um Mestre em distrair a atenção do público e fazer joguinhos de suspense em camadas diferentes, brinca com ideias de conspiração e dubiedade em relação à percepção e memórias da jovem protagonista, que é o que verdadeiramente chama a atenção no enredo, muito mais do que a revelação de todo o plano e do que o lado político, ainda bom, mas um tantinho destoante no final.

Um mistério com uma mescla de humor, distração do público e personagens que enfrentam um interessante teste (como se fosse um processo de amadurecimento que afeta até a vida amorosa dos mais jovens), A Dama Oculta é um dos trabalhos da fase britânica de Hitchcock que mais demonstram a essência da filmografia do diretor. E ainda tem o benefício de poder ser lido por um outro viés, como um filme de espionagem bastante peculiar, não só pela escolha do espião da vez, mas pelo drama intricado (e devo ressaltar mais uma vez, divertido) que o envolve. Embora haja algum exagero no tratamento das cenas dos passageiros isentões que só estavam preocupados com críquete e do advogado com sua querela matrimonial, o filme se mantem solidamente no alto e garante uma baita sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de março de 2014. Revisada para republicação em 20/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Dama Oculta (The Lady Vanishes) — Reino Unido, 1938
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder (baseado na obra de Ethel Lina White)
Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Emile Boreo, Googie Withers, Sally Stewart, Philip Leaver, Selma Vaz Dias, Catherine Lacey
Duração: 96 min.

Crítica | Jovem e Inocente

estrelas 4

Dos filmes de Alfred Hitchcock, Jovem e Inocente talvez seja aquele que tem o elenco mais jovem de todos. Não só os protagonistas são muito jovens como também aparecem algumas crianças e adolescentes com participações de certa importância no filme, não apenas como figurantes. E é interessante ver um suspense do Mestre com personagens de pouca idade. A atmosfera da história é outra, pautada pela pouca experiência de vida dos envolvidos e por atitudes mais impulsivas. Nada muito complexo, nenhuma questão pessoal de grande mota, apenas jovens envolvidos numa trama de assassinato e que acabam se apaixonando um pelo outro, um contexto final que às vezes pode atingir negativamente a história, mas no caso de Jovem e Inocente, funciona muito bem.

A construção inicial do filme é muito mais eficiente que a observada em Sabotagem. Aqui, temos uma discussão inicial entre marido e mulher, cortando para o dia seguinte, onde vemos um corpo morto na praia e em seguida descoberto duas vezes, uma por Robert, que será injustamente acusado de ter cometido o crime e outra por duas jovens banhistas que interpretam errado a correria de Robert do local do crime. Os 15 minutos iniciais da fita são marcados por uma cadência episódica de eventos muito bem interligados, algo que tem um impacto bastante positivo no espectador. Mais do que em qualquer outro filme que dirigira até então, Hitchcock conseguiu um resultado maduro e livre de problemas de concepção, seja no fato gerador de determinadas cenas, seja em sua execução. Tomemos por exemplo a criação do suspense através de cenas de ação e perseguição.

Ora, o exercício do diretor em O Mistério do Número 17 ou Os 39 Degraus é interessante, mas se comparado ao que ele fez em Jovem em Inocente, perde força. A partir desse ponto, Hitchcock passou a aplicar os elementos de linguagem cinematográfica que experimentara nos longas anteriores, diminuindo a sua carga de testes e ampliando o seu fazer artístico, uma postura que melhorará a cada nova obra e já poderá ser vista em plena forma no seu filme seguinte, A Dama Oculta (1938).

A famosa cena do travelling através do salão de dança do Grande Hotel é um dos exemplos mais instigantes dessa criação de uma linguagem própria de suspense. Partindo de um grande campo (a câmera está no teto do salão), onde vemos pessoas dançando e uma banda ao fundo da tela, a câmera faz o seu trajeto, diminuindo o campo de visão e detalhando melhor os rostos dos dançantes. Em seguida, a lente foca nos músicos, e por fim, no baterista, que em um primeiro plano, quase como uma confissão para o espectador, revela o seu tique, o mesmo que havia apresentado desde a primeiríssima cena.

O que me incomoda em Jovem e Inocente é o colapso nervoso do qual o verdeiro criminoso padece, quando se descobre cercado. Não vejo uma justificativa psicológica ou motivacional para que alguém que tivesse cometido o crime que cometeu se revelasse tão fraco diante de algo do qual poderia escapar com relativa facilidade. E isso também vale para a pista deixada gratuitamente por ele, o que acaba colocando Roger em seu encalço. Vale também citar a estranha e improvável postura da polícia, tão sem utilidade quanto as de outros filmes do diretor, mas que, devido a complexidade da história aqui narrada, parece ter sério déficit de inteligência.

Diante dessas falhas de concepção em alguns pontos, é de se perguntar: Jovem e Inocente é mesmo um filme tão bom? A resposta é simples: sim, é! As tais falhas se destacam principalmente porque todo o restante é muitíssimo bem realizado e, justamente por isso, consegue encobrir as consequências dessas fases menores, resultando em um produto final instigante e divertido, fazendo de Jovem e Inocente um dos filmes memoráveis da fase britânica de Alfred Hitchcock.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 07/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Jovem e Inocente (Young and Innocent) – UK, 1937
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong, Gerald Savory, Alma Reville (baseado na obra A Shilling For Candles, de Josephine Tey).
Elenco: Nova Pilbeam, Derrick De Marney, Percy Marmont, Edward Rigby, Mary Clare, John Longden, George Curzon, Basil Radford, Pamela Carme, George Merritt, J.H. Roberts
Duração: 80min.

Crítica | Sabotagem (O Marido Era o Culpado)

estrelas 3

SPOILERS!

Sabotagem, filme de Alfred Hitchcock que foi lançado originalmente no Brasil com o título estúpido e mega spoiler de O Marido Era o Culpado, tem uma fama em geral tão boa, que o espectador se aventura em sua sessão achando que vai estar diante de uma película grandiosa do Mestre do Suspense. Mas não é exatamente isso que acontece.

Chamado de “cambaleante” pelo próprio diretor nas entrevistas que deu a François Truffaut, Sabotagem apresenta uma história de suspense centrada na expectativa do público sobre o que vai acontecer ao sabotador (Sr. Verloc, interpretado por Oskar Homolka) e qual é a motivação de seu ato. Já nas primeiras cenas, descobrimos que o Sr. Verloc colocou areia em uma das máquinas da central de eletricidade em Londres, causando um blecaute. Essa abertura apresenta de forma competente o motivo dramático da obra, com direito a uma série de pequenas indicações humorísticas do diretor, como os “fósforos Lúcifer” do vendedor ambulante, as freiras que passam na rua, uma risada maléfica, e por fim, a chegada do Sr. Verloc em casa, indo lavar as mãos sujas de areia numa pia.

Partindo de um início cercado de referências metafóricas ao sabotador, caminhamos para uma apresentação mais detalhada de seu meio cotidiano. O Sr. Verloc é, na verdade, dono do Cinema Bijou, que administra juntamente com sua jovem esposa e é ajudado pelo pequeno cunhado, um garotinho que se tornará peça importante do filme, naquela que é a sua melhor parte.

O roteiro procura mostrar o engajamento canhestro do Sr. Verloc, mas a explicação para o seu envolvimento com o grupo de sabotadores (estrangeiros, é claro), não serve de muita coisa porque é vago demais. Mas a essa altura o público já comprou a história, que também mostra um outro lado, a visão dos fatos a partir da jovem Sra. Verloc e do detetive disfarçado da Scotland Yard. O flerte do detetive e o progressivo envolvimento entre ele e a Sra. Verloc constituem um desvio nocivo para o longa e é em torno disso que as coisas cambaleiam, um passo em falso que acaba tendo consequências em toda a película, já que a “relação” entre esses dois personagens é apresentada falha desde o início.

Hitchcock pode não ter conseguido o tal “grande filme” a que muitos críticos e espectadores intitulam Sabotagem, mas certamente conseguiu uma obra interessante e um bom resultado na esfera técnica. Já foi citado aqui o uso dramático e metafórico de elementos do espaço geográfico (a rua, a cidade) que o diretor explorou no início, algo que pode ser visto em todo o restante do filme e provar a nossa visão de apuro na composição de imagem feita pelo Mestre.

Tendo isso como base, podemos destacar facilmente a cena do zoológico, onde o Sr. Verloc tem uma alucinação através de um grande aquário, onde imagina ver uma parte da cidade de Londres, e, no momento seguinte, a cidade indo abaixo, como se estivesse derretendo ou caindo devido a uma grande explosão, o que era o caso; ou a cena do almoço após o que acontece com Stevie, onde o Sr. Verloc se dá conta do que a esposa queria fazer com a faca e acaba se entregando facilmente para que ela fizesse o que estava pensando (François Truffaut chegou a dizer que via nessa cena mais um suicídio que um assassinato, opinião da qual também compartilho). O próprio Verloc faz de tudo para ser odioso e odiado depois da morte de Stevie, provocando a esposa com falas que incomodam bastante o espectador.

Hitchcock nunca fez segredo de que não gostava da cena da bomba no ônibus, algo que ele sempre chamava de “um erro terrível”. É claro que a cena é bastante forte e chacoalha o espectador na cadeira, mas não há dúvidas de que ela faz parte da melhor sequência de eventos do filme, por mais trágica que seja. Desde a saída de Stevie do Cinema Bijou até a explosão da bomba-relógio no ônibus, há uma criação de tensão sem igual no filme e, de certa forma, toda a obra só faz sentido porque existe esse sacrifício, algo a que o diretor chega em seu raciocínio final e é prontamente compreendido pelo público. É uma pena que o romance e a conveniente explosão do cinema ao final de Sabotagem manchem a sua qualidade geral – afinal, não há quem segure romance desnecessário e Deus ex Machina como ingredientes marcantes de um filme.

Não se trata, todavia, de uma obra ruim. Há muitos elementos tipicamente hitchcockianos na fita que lhe dão um charme e uma atmosfera toda especial, contando até com uma contrastante cena do desenho A Flecha do Amor (1935), de David Hand, produzido pelos estúdios Walt Disney. Essa cena, apesar de aparentemente alegre, dá um significado ainda mais pesado à morte de Stevie e deixa claro o estado de choque em que a Sra. Verloc se encontrava após receber da notícia. Num primeiro momento, ela tenta “fugir” ou esquecer a situação através do cinema, mas o que está na tela remete não só ao personagem mas também o público à tragédia que acabara de acontecer… Sabotagem é uma daquelas produções em que temos as melhores características de um diretor em um filme cuja história se auto-boicota.

  • Crítica originalmente publicada em 17 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 03/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Sabotagem / O Marido Era o Culpado (Sabotage) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Helen Simpson, Alma Reville, E.V.H. Emmett (baseado na obra de Joseph Conrad).
Elenco: Sylvia Sidney, Oskar Homolka, Desmond Tester, John Loder, Joyce Barbour, Matthew Boulton, S.J. Warmington, William Dewhurst
Duração: 76 min.

Crítica | Agente Secreto

estrelas 2,5

Em um resumo de leitura simples: Agente Secreto (1936) é um filme vago de motivação dramática e absurdamente insistente em situações que não ajudam a desenvolver a história, apenas desviam o espectador para coisas que o vão chateando cada vez mais, resultando em um produto final que tem momentos isolados de brilhantismo técnico de Alfred Hitchcock na direção e muita coisa que deveria ter sido cortada durante a edição.

A história que vemos na tela é adaptada de duas fontes literárias; a primeira, dos romances muito populares escritos por W. Somerset Maugham, tendo o personagem Ashenden como protagonista. A segunda, da peça escrita por Campbell Dixon, de onde saiu o ponto romântico da película. A junção entre literatura, teatro e cinema não poderia passar incólume a estranhezas narrativas, e este é o ponto que temos de sobra em Agente Secreto.

Um soldado tem a sua morte forjada e é enviado à Suíça pelo alto escalão do Exército para matar um espião alemão. Já em seu destino, ele se encontra com uma esposa arranjada — também espiã — e um parceiro, o curioso General Pompellio Montezuma De La Vilia De Conde De La Rue (que nome fantástico, não?), um alívio cômico interpretado maravilhosamente por Peter Lorre. A trama se passa durante a I Guerra Mundial e ressalta a forte inimizade entre britânicos e germânicos neste momento da História, uma situação que voltaria a se repetir em pouco mais de duas décadas, e de forma bem mais bruta.

Já no início do filme, ficamos às voltas com os motivos escolhidos pelos roteiristas para a criação do pseudo-suspense. Temos uma introdução que nos dá a atender uma rede notadamente intricada de espionagem militar, todavia, o restante da trama é conduzido como sendo o trabalho de um homem só — ou de um homem com dois parceiros — voltando à conexão com o QG apenas no desfecho da obra, cenário que reafirma a questionável ligação amorosa entre os “Ashenden”, piorando ainda mais o problema de foco e sentido do filme.

Depois, não entendemos muito bem o critério de escolha do Exército e que planos tão importantes eram esses. Uma pequena sequência de sobreposições geográficas e jornalísticas é usada por Hitchcock para contornar o problema e adicionar um pouco de contexto à Guerra e ao plano em si, mas isso se perde completamente se levarmos em consideração todo o restante da película. O mais curioso é que no caso da espiã Elsa Carrington (numa interpretação bipolar de Madeleine Carroll), temos uma pessoa completamente desequilibrada, que dá espetáculos sentimentais e surtos nervosos quando se vê próxima a uma situação que envolve assassinato. Que tipo de espiã é essa?

As coisas pioram, quando vemos que um personagem tão duro e apático como Richard Ashenden (um John Gielgud bastante sério e com cara de quem não se importa, mas mesmo assim, ótimo) se enamorar dessa espiã sem preparo psicológico e levar adiante o romance, pondo em riso o próprio objeto de sua missão. O próprio Ashenden tem dúvidas sobre seu papel em toda a história e não quer cometer o tal assassinato, mostrando ele mesmo um grande despreparo. O único relativamente convincente, em especial porque nunca se leva a sério, é o Genal Pompellio. Peter Lorre não deixa escapar o momento de seus olhares sérios, olhos esbugalhados ou revirados, mas também deixa espaço para falas e atitudes bastante irônicas e cínicas, o que gera uma ótima construção geral de sua persona no filme.

A linha de investigação, a rigor, nunca é deixada de lado, mas é interrompida ou pouco trabalhada em detrimento de pequenos caprichos inúteis para o enredo, como o já citado romance, as cenas do cachorro que sente a morte do dono, a festa folclórica suíça, a fábrica de chocolates e por aí vai. Fica claro para o espectador que Hitchcock quis trazer o máximo de elementos tipicamente suíços para o filme, mas acabou exagerando na dose e se perdendo nas entrelinhas que todos esses elementos criaram, numa sequência de ações contendo começo, meio e fim errôneos.

Em meio a tudo isso, salvam-se as pontuais e fantásticas experimentações imagéticas do diretor, com direito a efeitos Kuleshov, contrapontos sonoros e metáforas entre paisagens, objetos, animais e pessoas, uma admirável concepção dramática e estética para um filme com tantos problemas de concepção de enredo.

Agente Secreto não é uma obra memorável de Hitchcock, apesar de já trazer características muito próprias de sua fase maestra dos anos posteriores. Trata-se de uma obra menor, mediana, mas que num momento ou outro garante uma animada erguida de sobrancelha para closes e cenas realmente muito boas, os únicos momentos que irão garantir a validade da sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 10 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 29/12/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Agente Secreto (Secret Agent) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Alma Reville, Jesse Lasky Jr. (baseado na peça de Campbell Dixon e no romance de W. Somerset Maugham).
Elenco: John Gielgud, Peter Lorre, Madeleine Carroll, Robert Young, Percy Marmont, Florence Kahn, Charles Carson, Lilli Palmer
Duração: 86 min.