Fevereiro de 2020

Crítica | O Preço da Verdade

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019 plano crítico

Como carioca, não deixa de ser meio chocante constatar a óbvia coincidência que é o lançamento de O Preço da Verdade, ao mesmo tempo que acontece este escândalo envolvendo a CEDAE e a contaminação da água. Porém, longe de ser apenas mais um destes filmes protocolares que apontam para a corrupção de grandes empresas ou instituições, o novo longa de Todd Haynes dialoga muito bem com um de seus primeiros trabalhos, o excelente Mal do Século (1995). Além de se assimilarem em sua temática ambientalista, é como se seus protagonistas — Julianne Moore no passado e Mark Ruffalo hoje — estivessem sufocados e doentes deste contato com o sistema no qual eles fazem parte e precisam se descontaminar. E isso é algo que só acontece de uma forma: descobrindo a verdade e saindo da posição de privilégio em que vivem, ou seja, de sua zona de conforto.

Em Mal do Século, a personagem de Moore passa a ficar doente de seu próprio cotidiano: uma dona de casa negligenciada pelo marido e que encontra seu refúgio nas coisas mais banais e consumistas como aulas de ginástica e idas ao salão de beleza. Aquilo que inicialmente era seu prazer efêmero vai se revelando como uma grande vazio que Haynes transformou em, literalmente, uma doença. Já em O Preço da Verdade, Robert Bilott (Ruffalo) é um advogado workaholic que normalmente trabalha defendendo grandes empresas químicas. Contudo, após receber a visita de um fazendeiro de sua cidade local (e que conhecia sua avó), o protagonista descobre que uma das principais companhias que ele defende está despejando produtos químicos na água e matando o gado da região. Posteriormente, ao decidir investigar a situação, ele descobre que ela pode ser muito mais grave e todos podem estar sendo contaminados há anos. 

Logo, Haynes está menos interessado em seguir um sub gênero investigativo no qual seu protagonista vai apenas vomitando milhares de informações através de planos e contraplanos em cenas de reuniões burocráticas. Não que isso também não aconteça em alguns momentos, mas, assim como em Mal do Século, sua principal preocupação reside muito mais em criar uma atmosfera na qual Robert vai percebendo que todo o sistema que ele faz parte está manchado. Neste sentido, toda a fotografia de Edward Lachman acerta ao trazer uma frieza cinzenta que filtra o filme com um tom de desesperança e que remete diretamente a uma sensação de sujeira e poluição generalizada. 

Assim, conforme a narrativa avança, o que parece mover Robert é justamente um expurgo da culpa que ele acredita carregar. Afinal, o roteiro não deixa muito espaço para um maior contexto do seu passado, mas é como se em algum momento da vida ele tivesse se vendido para fazer parte do grande jogo corporativista. Nem ele e nem nós sabemos muito bem o motivo dele ter aceitado ajudar no caso que coloca sua posição em risco, mas é como se, ao ser lembrado de suas origens na cidade pequena, um sentimento adormecido de justiça despertasse nele.

Todavia, mesmo lutando pela “causa certa”, ele ainda não deixa de ser visto como um advogado preocupado com o lucro pela próprio fazendeiro ou como um lunático pela própria mulher, além de parecer cada vez mais perdido em jantares de gala. Até por isso, sua obsessão se torna resolver aquele caso exclusivamente, como sua própria salvação ou redenção. Portanto, é muito indicativo que a montagem do filme decida misturar, através da montagem, o nascimento do filho de Robert com sua narração dos efeitos colaterais com a doença, que não só aumenta sua paranoia mas reforça que essa culpa parece cada vez mais forte nele. 

Ainda em paranoia, não há exatamente um inimigo visível ou personificado em O Preço da Verdade, apenas helicópteros sobrevoando ou uma sombra em um estacionamento. Nada indica que o protagonista pode morrer ao ligar a ignição de seu carro, mas Haynes e um Ruffalo cada vez mais estressado conseguem fazer desta simples cena uma das mais urgentes. De certo modo, isso acontece justamente porque, apesar de sua fotografia fria, o filme nos coloca para dentro da investigação junto com Robert. A atuação de Ruffalo carrega uma raiva impaciente contra o sistema e, simultaneamente, um medo em descobrir quão fundo está enraizada a corrupção que torna plausível uma própria somatização dos sintomas de achar que está sendo envenenado pela água ou sendo perseguido. 

Retomando sua temática ambientalista de Mal do Século, há uma principal diferença entre este e O Preço da Verdade. Se Juliane Moore fugia para um acampamento para viver isolada e esquecer da doença da cidade, essa não pode ser mais a solução em 2020. A ideia aqui não é a fuga, mas o enfrentamento, uma mea culpa de que todos nós talvez tenhamos vendidos nossos valores em algum momento. São dois filmes que falam sobre uma contaminação sendo uma psicológica e a outra literal) e que identificam a causa na mentalidade gananciosa do sistema, mas agora Todd Haynes acredita que o homem ainda pode ser salvo caso enfrente as instituições que ele fazia parte.

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Mario Correa, Matthew Michael Carnahan
Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Pullman, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, William Jackson Harper
Duração: 126 min.

Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

plano crítico Aves de Rapina Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa plano crítico

Quando Aves de Rapina (e seu grandioso subtítulo que não será replicado aqui) acabou, fiquei inicialmente em conflito. Afinal, ele funciona constantemente como uma própria extensão da cabeça caótica de Arlequina (Margot Robbie), que enxerga o mundo como um grande parque de diversões colorido. Ao mesmo tempo, o longa nunca se entrega completamente a uma deadpoolzação de sua narrativa. Pelo contrário, a fotografia do excelente Matthew Libatique até se aproxima de um tom mais sombrio (lembrando suas parcerias com Darren Aronofsky), principalmente no terceiro ato do filme. É justamente daí que vem minha frustração inicial, pois eu queria ver mais dessa extrapolação, visualmente falando. 

No entanto, fui percebendo que Aves de Rapina não poderia ser apenas um surto pós-término de sua protagonista. Nem uma grande diversão inconsequente de alguém que está dando o dedo do meio para todo mundo, como eu queria. Por mais que tenha tenha saído de sua posição submissa ao Coringa e finalmente desfrute de uma autonomia, o mundo a volta de Arlequina ainda é dominado por homens. Por isso, existe aqui um equilíbrio coerente entre a comemoração de sua emancipação e um sinal de alerta nunca lhe deixa relaxar completamente. A Gotham que Arlequina vive é extremamente traiçoeira e suja, principalmente quando se trata de homens. 

Assim, é precisamente por isso que o grupo Aves de Rapina é formado. Não por serem mulheres que automaticamente se gostam, o que soaria um tanto simplificador e genérico, mas pela necessidade do momento. Todas estão atrás de um grande mcguffin (objeto desejado por todos e que move a trama): o diamante da família Bertinelli. De início, existe até uma corrida entre elas para ver quem fica com a jóia. Todavia, o que o grupo rapidamente assimila é que mesmo existindo uma grande diferença entre elas, há um inimigo em comum mais urgente. Se aquelas mulheres já são tanto massacradas pelos mafiosos e policiais de Gotham, não há porque elas facilitarem o trabalho deles matando umas as outras. Desta forma, acaba surgindo assim uma sororidade muito natural dentro daquele contexto específico e que depois se expande para um genuíno respeito após lutarem juntas em sincronia.  

Nesta lógica de sororidade, a sequência final (na qual todas estão reunidas) acaba assimilando uma movimentação que se utiliza principalmente de ataques combinados entre o grupo, ressaltando a importância do trabalho em equipe. Não só isso, como toda ação parece se equilibrar muito bem entre uma brutalidade coreografada da franquia John Wick (não à toa, já que Chad Stahelski, criador da franquia, ajudou nas filmagens) com a estética festeira de Arquelina, o que nos leva diretamente para a questão da harmonia entre o exagero e a sobriedade que se propaga pelo longa. Enquanto pernas estão sendo quebradas e rostos estão sendo cortados, confetes rosas explodem e uma trilha sonora pop fazem tudo parecer um grande videoclipe para maiores de idade, o que faz total sentido dentro da cabeça da anti-heroína.

Entre os outros elementos que Aves de Rapina nos remete ao caos mental de Harley, o principal é a maneira como a narrativa se organiza de um modo não linear. Quebrando a quarta parede ao interagir com o público, esta é uma história da protagonista para nós. Assim como alguém que está numa mesa de bar contando seus feitos, é normal uma interrupção para relembrar de algo que havia esquecido de mencionar. Além de servir como uma representação de sua cabeça embaralhada, é até interessante pensar que é a própria Arlequina esteja controlando o filme, podendo fazer o que quiser com sua linearidade e servindo até como uma outra emancipação em um nível metalinguístico. 

Falando em emancipação, além do próprio Coringa, este é um filme que tenta a todo jeito se afastar da imagem sexualizada de Margot Robbie em Esquadrão Suicida. Não há mais os planos do David Ayer que começavam nos pés da atriz e subiam até sua cabeça. Inclusive, em uma cena de assédio envolvendo Roman Sionis (Ewan McGregor alopradíssimo) e uma figurante, a diretora Cathy Yan sabe criar o terror apenas ao focar em suas pernas desnudas ou no rosto da atriz, contrastando bem a diferença que uma direção feminina faz. 

Similarmente, a própria Margot está cada vez mais confortável com o papel, sabendo abusar muito bem da falsa inocência irônica da Arlequina com suas caras e bocas sempre expansivas, além da debochada narração em off. Contudo, o melhor da personagem acaba saindo de suas interações com a jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Em uma relação de tutora e aprendiz, a menina é a primeira que trata a protagonista como alguém que existe por si só, e não intrinsecamente ligada ao Coringa, precisamente porque ela não sabe quem ele é. Nos poucos minutos em que estão juntas sem estarem sendo perseguidas, chegamos mais próximos de ver o que seria Harley como mãe — louca, mas com intenções honestas. Em contraste, todas as subtramas envolvendo as outras protagonistas nunca ganham força por si só, sempre presas a condição de tentar encaixar três mini histórias de origem, que apenas dão o básico de caracterização para que suas personagens não sejam meramente unidimensionais.

No fim, eu diria que Aves de Rapina é como ir à uma festa para beber sem moderação, mas acompanhado daquele seu amigo que te lembra de tomar água e de se controlar. Na hora, você sente raiva porque só quer curtir, mas, no dia seguinte, agradece. No meio de um passeio frenético pela mente de Harley Quinn em seu momento de empoderamento, o filme constantemente quebra sua onda lisérgica de alegria para nos lembrar que o mundo ainda é cruel com as mulheres e ainda há muito pela frente. Homens que usam de suas relações de poder para assediarem, padrastos agressores ou profissionais que tomam crédito por um trabalho feito por mulher. Aliás, nada mais irônico do que, no confronto final, todos os capangas estarem mascarados com caras de animais. Resume bem o longa como a união de mulheres que estão tentando sobreviver em ambiente predatório.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn) – USA, 2020
Direção: Cathy Yan
Roteiro: Christina Hodson
Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Chris Messina
Duração: 109 min.

Crítica | Jojo Rabbit

Crianças, é hora de queimar alguns livros!
– Fraulein Rahm

A comparação é inevitável. Creio ser perfeitamente possível afirmar que Taika Waititi conseguiu com seu Jojo Rabbit o mesmo tipo de feito delicado e difícil que Charles Chaplin e Mel Brooks alcançaram com, respectivamente, O Grande Ditador e Primavera para Hitler: trafegar com aparente tranquilidade no fio da navalha que é arriscar-se a satirizar o nazismo, desafiando o limite entre a humanidade e a desumanidade que deve ser o balizador para esse tipo de obra, como meu colega Luiz Santiago bem abordou em sua crítica do citado filme de Brooks. Usar a figura de Adolf Hitler e todas as atrocidades que decorrem daí para extrair risadas dos espectadores vem com o preço de se compreensivelmente pisar em calos e de se afastar alguns, ao mesmo tempo que inafastavelmente cria uma certa hesitação em todos os demais que resolverem encarar a obra até o final, hesitação essa oriunda do mero fato de rir, de até gargalhar em alguns momentos.

Jojo Rabbit conta a história de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis iniciando sua carreira artística), um menino de apenas 10 anos que vive com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson) em uma cidadezinha alemã nos estertores da Segunda Guerra Mundial depois da morte de sua irmã mais velha e da ausência do pai que foi lutar no fronte italiano. Mas Jojo foi completamente impregnado pela propaganda nazista e é um orgulhoso membro da Juventude Hitlerista ao ponto de andar fardado quase que o tempo todo, ter as paredes de seu quarto emplastradas de imagens de idolatria à tudo nazista e, como se isso não bastasse, ter ninguém menos do que o próprio Adolf Hitler (Taika Waititi) – ou uma versão dele, claro – como amigo imaginário. Nesse cenário, que conta ainda com a mentoria do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) na arte da guerra, o jovem descobre a existência de Elsa (Thomasin McKenzie) uma adolescente judia em uma parede falsa no quarto de sua irmã, escondida lá por sua própria mãe.

O que segue daí é uma enternecedora história de amadurecimento em meio a um dos maiores horror que a humanidade já enfrentou e que Waititi costura sempre que pode em todas as linhas de diálogo que escreveu com base no romance Caging Skies, de Christine Leunens. O texto não esconde a lavagem cerebral dos jovens, a hipocrisia nazista e o retrato absurdo que é pintado do povo judeu, com direito a ilustrações detalhadas de como essa “raça” funciona e porque ela é tão “perigosa”, mas a forma como o diretor enfoca sua obra a enquadra, de certa forma, como um conto-de-fadas. Sei que muitos estranharão essa minha correlação em um filme com essa temática, mas é que as cores fortes especialmente do quarto da irmã de Jojo, além dos figurinos do garoto que combinam com o de sua mãe, além de diversos outros elementos cênicos e o fato de que a cidade onde vive permanece intacta quase que por toda a projeção e isso sem contar com o filtro esmaecido da fotografia de Mihai Malaimare Jr. (O MestreO Ódio que Você Semeia) e com a bela trilha sonora de Michael Giacchino, que levou o Oscar na categoria por Up – Altas Aventuras, reiteram essa abordagem do diretor que, volto a repetir, arrisca-se ao fazer isso.

O risco vem do grau de “fofura” que a fita inegavelmente tem se por um momento conseguirmos nos abstrair de toda a ambientação. O pequeno Roman Griffin Davis é em grande parte responsável por isso, com uma atuação mirim que é no mínimo espetacular, mas que aperta em todos os botões corretos para que adoremos o garoto mesmo quando ele fala as maiores barbaridades possíveis. A questão é que alguns poderão concluir – e não estarão errados, adianto logo – que Waititi tenta fazer o espectador esquecer-se momentaneamente dos horrores nazistas ao trabalhar seu filme dessa maneira mais lúdica e diretamente cômica, incluindo um desenvolvimento para Klenzendorf que é inegavelmente hilário. No entanto, tenho para mim que o diretor e roteirista, mesmo marretando algumas situações aqui e ali e fazendo uso de algumas conveniências, mantém o controle e o equilíbrio sobre sua narrativa ao balancear o que ele apresenta na forma de fábula com o estilhaçamento do conto de fadas nos 15 ou 20 minutos finais, afastando a “mera” sátira e o humor negro e recrudescendo a crítica direta, retirando o espectador do conforto que porventura estivesse, algo que até mesmo seu personagem imaginário (por si só um Hitler satírico inesquecível como o de Preacher, ainda que bem diferente) acompanha tematicamente, tornando-se cada vez mais absurdo e histérico.

Há, também, muito coração em Jojo Rabbit. A relação do menino com sua mãe é belíssima e funciona para amplificar o abismo entre a lavagem cerebral nazista e a inocência infantil, com Rosie encarando o fanatismo de seu filho com tristeza, mas sem confrontamentos que poderiam ter o efeito contrário. O mesmo vale para o jogo de aproximação de Jojo e Elsa, com momentos daqueles de rachar o coração, algo com que Giacchino quase que maquiavelicamente joga com sua trilha. Até mesmo a relação de Jojo com o Capitão Klenzendorf – rude no começo – desenvolve-se com fluidez e lógica, com diversas piscadelas importantes para a vida privada do militar caolho.

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.

Jojo Rabbit (Idem, EUA/República Tcheca/Nova Zelândia – 2019)
Diretor: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi (baseado em romance de Christine Leunens)
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant, Archie Yates, Luke Brandon Field, Sam Haygarth, Stanislav Callas, Joe Weintraub, Brian Caspe, Gabriel Andrews
Duração: 108 min.