Festival do Rio 2019

Crítica | Jojo Rabbit

Crianças, é hora de queimar alguns livros!
– Fraulein Rahm

A comparação é inevitável. Creio ser perfeitamente possível afirmar que Taika Waititi conseguiu com seu Jojo Rabbit o mesmo tipo de feito delicado e difícil que Charles Chaplin e Mel Brooks alcançaram com, respectivamente, O Grande Ditador e Primavera para Hitler: trafegar com aparente tranquilidade no fio da navalha que é arriscar-se a satirizar o nazismo, desafiando o limite entre a humanidade e a desumanidade que deve ser o balizador para esse tipo de obra, como meu colega Luiz Santiago bem abordou em sua crítica do citado filme de Brooks. Usar a figura de Adolf Hitler e todas as atrocidades que decorrem daí para extrair risadas dos espectadores vem com o preço de se compreensivelmente pisar em calos e de se afastar alguns, ao mesmo tempo que inafastavelmente cria uma certa hesitação em todos os demais que resolverem encarar a obra até o final, hesitação essa oriunda do mero fato de rir, de até gargalhar em alguns momentos.

Jojo Rabbit conta a história de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis iniciando sua carreira artística), um menino de apenas 10 anos que vive com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson) em uma cidadezinha alemã nos estertores da Segunda Guerra Mundial depois da morte de sua irmã mais velha e da ausência do pai que foi lutar no fronte italiano. Mas Jojo foi completamente impregnado pela propaganda nazista e é um orgulhoso membro da Juventude Hitlerista ao ponto de andar fardado quase que o tempo todo, ter as paredes de seu quarto emplastradas de imagens de idolatria à tudo nazista e, como se isso não bastasse, ter ninguém menos do que o próprio Adolf Hitler (Taika Waititi) – ou uma versão dele, claro – como amigo imaginário. Nesse cenário, que conta ainda com a mentoria do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) na arte da guerra, o jovem descobre a existência de Elsa (Thomasin McKenzie) uma adolescente judia em uma parede falsa no quarto de sua irmã, escondida lá por sua própria mãe.

O que segue daí é uma enternecedora história de amadurecimento em meio a um dos maiores horror que a humanidade já enfrentou e que Waititi costura sempre que pode em todas as linhas de diálogo que escreveu com base no romance Caging Skies, de Christine Leunens. O texto não esconde a lavagem cerebral dos jovens, a hipocrisia nazista e o retrato absurdo que é pintado do povo judeu, com direito a ilustrações detalhadas de como essa “raça” funciona e porque ela é tão “perigosa”, mas a forma como o diretor enfoca sua obra a enquadra, de certa forma, como um conto-de-fadas. Sei que muitos estranharão essa minha correlação em um filme com essa temática, mas é que as cores fortes especialmente do quarto da irmã de Jojo, além dos figurinos do garoto que combinam com o de sua mãe, além de diversos outros elementos cênicos e o fato de que a cidade onde vive permanece intacta quase que por toda a projeção e isso sem contar com o filtro esmaecido da fotografia de Mihai Malaimare Jr. (O MestreO Ódio que Você Semeia) e com a bela trilha sonora de Michael Giacchino, que levou o Oscar na categoria por Up – Altas Aventuras, reiteram essa abordagem do diretor que, volto a repetir, arrisca-se ao fazer isso.

O risco vem do grau de “fofura” que a fita inegavelmente tem se por um momento conseguirmos nos abstrair de toda a ambientação. O pequeno Roman Griffin Davis é em grande parte responsável por isso, com uma atuação mirim que é no mínimo espetacular, mas que aperta em todos os botões corretos para que adoremos o garoto mesmo quando ele fala as maiores barbaridades possíveis. A questão é que alguns poderão concluir – e não estarão errados, adianto logo – que Waititi tenta fazer o espectador esquecer-se momentaneamente dos horrores nazistas ao trabalhar seu filme dessa maneira mais lúdica e diretamente cômica, incluindo um desenvolvimento para Klenzendorf que é inegavelmente hilário. No entanto, tenho para mim que o diretor e roteirista, mesmo marretando algumas situações aqui e ali e fazendo uso de algumas conveniências, mantém o controle e o equilíbrio sobre sua narrativa ao balancear o que ele apresenta na forma de fábula com o estilhaçamento do conto de fadas nos 15 ou 20 minutos finais, afastando a “mera” sátira e o humor negro e recrudescendo a crítica direta, retirando o espectador do conforto que porventura estivesse, algo que até mesmo seu personagem imaginário (por si só um Hitler satírico inesquecível como o de Preacher, ainda que bem diferente) acompanha tematicamente, tornando-se cada vez mais absurdo e histérico.

Há, também, muito coração em Jojo Rabbit. A relação do menino com sua mãe é belíssima e funciona para amplificar o abismo entre a lavagem cerebral nazista e a inocência infantil, com Rosie encarando o fanatismo de seu filho com tristeza, mas sem confrontamentos que poderiam ter o efeito contrário. O mesmo vale para o jogo de aproximação de Jojo e Elsa, com momentos daqueles de rachar o coração, algo com que Giacchino quase que maquiavelicamente joga com sua trilha. Até mesmo a relação de Jojo com o Capitão Klenzendorf – rude no começo – desenvolve-se com fluidez e lógica, com diversas piscadelas importantes para a vida privada do militar caolho.

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.

Jojo Rabbit (Idem, EUA/República Tcheca/Nova Zelândia – 2019)
Diretor: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi (baseado em romance de Christine Leunens)
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant, Archie Yates, Luke Brandon Field, Sam Haygarth, Stanislav Callas, Joe Weintraub, Brian Caspe, Gabriel Andrews
Duração: 108 min.

Crítica | Um Lindo Dia na Vizinhança

Com tantos filmes, séries e livros lidando com situações e pessoas desagradáveis, chega a ser uma surpresa enorme encontrar uma obra como Um Lindo Dia na Vizinhança que, apesar de ter sua mira voltada para o famoso Mister Rogers, apresentador americano de um programa infantil que foi ao ar de 1968 a 2001. Mas, diferente de cinebiografias comuns, Fred Rogers, vivido por Tom Hanks, não é exatamente o centro das atenções do longa, mas sim o amargo e cínico repórter investigativo Lloyd Vogel (Matthew Rhys), cujo ponto-de-vista é o dominante, com Rogers sendo estudado como um reflexo, como um tubo de ensaio de controle em uma experiência científica, o que afasta a abordagem idólatra simples que é comum encontrar em propostas como essa.

O roteiro de Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster baseou-se no artigo escrito por Tom Junod em 1998 para a revista Esquire e usa a estrutura do articulista como base para a narrativa. O que vemos, portanto, é como a vida de Junod, rebatizado de Lloyd Vogel, é afetada a partir de suas entrevistas com Rogers para escrever um artigo elogioso curto por encomenda de sua editora. Pai recente e casado com Andrea (Susan Kelechi Watson), Lloyd é a encarnação da tristeza, um homem de olhar cabisbaixo e ombros arriados que não consegue perdoar seu pai, Jerry (Chris Cooper), por ter abandonado sua mãe doente e que volta para sua vida durante o terceiro casamento de sua irmã, Lorraine (Tammy Blanchard).

Lloyd é um personagem identificável como real e que qualquer um pode estabelecer conexões – por mais desagradável que ele seja – quase que imediatamente por provavelmente reconhecer traços de si próprio ali. Isso é particularmente importante, com a performance de Rhys capturando muito bem essa tristeza inafastável, pois o que efetivamente importa é o choque que isso gera quando Lloyd é colocado “em oposição” à natureza quase que completamente fabulesca de Mister Rogers que, conforme o filme deixa transparecer, não é um personagem criado por Fred McFeely Rogers, falecido em 2003, para comandar seu programa infantil. Rogers é Rogers, sem máscaras, sem faz de conta, por mais improvável que isso possa ser.

E essa improbabilidade é só amplificada pela forma como a narrativa é iniciada e depois entrecortada por cenas de Rogers em seu programa e com panorâmicas das cidades saindo da cidadezinha-cenário, com a diretora Marielle Heller filmando essas sequências com granulação no filme, além de razão de aspecto 4:3, que é a da televisão clássica. Com isso, Rogers não chega sequer a ser um personagem no sentido cinematográfico da palavra, já que ele não ganha um arco narrativo ou qualquer tipo de desenvolvimento e isso sem dúvida é um risco narrativo. Entretanto, Um Lindo Dia na Vizinhança não pretende ser uma biografia padrão do apresentador, como afirmei, sendo até mesmo possível afirmar que, se esta é mesmo uma cinebiografia, então ela o é de Junod, não de Rogers.

Tenho para mim, porém, que há uma interconexão que torna uma coisa inseparável da outra. De um lado, temos um Fred Rogers já maduro, já vivido e já sendo o que ele é e o que parece que ele “sempre” foi. Ele é a constante, o tubo de ensaio de controle como mencionei mais acima. Quem tem um arco narrativo completo é Lloyd, que aprende quem ele é, quem foi seu pai e quem ele pretende ser a partir de seu contato terapêutico com Rogers. Lloyd encontra um homem que o mundo cínico e frio simplesmente nos diz todos os dias que não existe ou que não poderia existir. Rogers é o que chamamos de clichê, de arquétipo, de agregador de qualidades unilaterais que tornam o personagem raso como um pires.

Mas será que o roteiro o escreveu assim ou será que nosso cinismo, nossa casca não nos permite acreditar que sim, bondade pura e constante é possível. Vejam: não falo aqui de atos de bondade. Isso, se procurarmos, encontraremos corriqueiramente, ainda que a imprensa, no geral, os soterre debaixo de toneladas de atos de maldade. O que falo é de uma vida de bondade, de genuína tentativa de fazer o melhor possível para ajudar os outros. Se Rogers foi mesmo assim, bem… comecem lendo o artigo de Junod (aqui) para terem uma ideia dessa pessoa que parece sim ser fruto de um roteiro mal escrito. E tentem esquecer o tipo de celebridade maior que a vida de hoje em dia, daquelas que precisam voar em aviões particulares, viver de renovados 15 minutos de fama na base de um escândalo por mês e que se entregam dia sim, dia não, aos piores vícios. Não é dessa “celebridade” que o filme fala.

Heller não esconde seu enquadramento do filme como uma fábula, mas a diretora vai além graças ao roteiro inteligente que ela teve para trabalhar. As interações são humanas, verdadeiras, com Hanks como sempre extraordinário no papel, mas com Rhys correndo atrás em uma performance que, diria, é ainda mais desafiadora, porque seu personagem não é exatamente agradável. Além disso, o texto vai além da moral da história mais saliente, que poderia ser resumido com a força do perdão ou algo do gênero. Há mais ali, mas – e aí é que vem a raridade – sem pregações, sem textos expositivos explicando o que está acontecendo e o porquê de isso ser errado ou certo.

Mister Rogers passa sua filosofia de vida e ela é fundamentalmente simples: aceite as pessoas como ela é. Essa singela frase fala mais contra o preconceito do que muita retórica politicamente correta que vemos inserida em todo tipo de filme até perder seu significado original. É tão simples, tão óbvio, que a mensagem pode passar despercebida. No entanto, do lado de Lloyd, vemos um casamento em que sua esposa largou o emprego para cuidar do filho, o que abre espaço para um excelente subtexto sobre a igualdade de gêneros, sobre o machismo e novamente sem que o filme pare para explicar os conceitos. Esse é o tipo de roteiro e o tipo de direção que começam uma conversa de igual para igual com os espectadores, sem rotulagem, sem ser condescendente e sem tratá-los como burros que precisam aprender uma lição.

Um Lindo Dia na Vizinhança é um conto de fadas sim, mas um conto de fadas verdadeiro em grande parte que traz uma abordagem refrescante para assuntos atuais e importantes que estão presentes em nosso dia-a-dia e, na mesma toada, lembra-nos de que ser uma pessoa boa é uma escolha de vida, não momentos isolados capturados em câmera e distribuídos pelas redes sociais. Definitivamente um filme para sair sorrindo, mas pensativo da sala de cinema.

  • Crítica originalmente publicada em 15 de dezembro de 2019 como parte da cobertura do Festival do Rio.

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood, EUA/China – 2019)
Direção: Marielle Heller
Roteiro: Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster (inspirado em artigo de Tom Junod)
Elenco: Tom Hanks, Matthew Rhys, Chris Cooper, Susan Kelechi Watson, Maryann Plunkett, Enrico Colantoni, Wendy Makkena, Tammy Blanchard, Noah Harpster, Carmen Cusack, Kelley Davis, Christine Lahti, Maddie Corman
Duração: 109 min.

Crítica | Deerskin – A Jaqueta de Couro de Cervo

Não me pergunte minhas opiniões sobre arte porque eu não tenho nenhuma. Preocupações estéticas tiveram um papel menor em minha vida, e eu tenho que rir quando um crítico fala, por exemplo, de minha ‘paleta’. Eu acho impossível perder horas em galerias analisando e gesticulando.
– Buñuel, Luis (Meu Último Suspiro)

Acho que, em termos de premissa bizarra, Quentix Dupieux jamais conseguirá ultrapassar seu Rubber, o Pneu Assassino, mas Deerskin – A Jaqueta de Couro de Cervo esforça-se para chegar perto e, no final das contas, é mais bem sucedido em sua execução. No filme, um homem compra sua jaqueta de couro de cervo dos sonhos, que não só é de segunda mão, como também tem aquelas franjas à la Davy Crockett, por “meros” sete mil euros e, com a câmera de filmar que ganha de brinde, isola-se em um hotel no meio do nada com lugar nenhum sem um centavo no bolso e começa a usar a desculpa que inventa de ser um cineasta para realizar os sonhos que ele e a jaqueta (sim, ele e a jaqueta…) passam a ter: de aquela ser a única jaqueta do mundo e ele ser o único a vestir a única jaqueta do mundo.

Jean Dujardin vive Georges, o tal homem enamorado com sua jaqueta nova que mal cabe nele e que arregimenta o trabalho de Denise (Adèle Haenel), uma bartender local que diz amar montagem cinematográfica, para produzir sua obra-prima que é o disfarce mal-ajambrado para ele se desfazer de todas as jaquetas do mundo. E, bem ao estilo Dupieux de escrever e filmar, tudo é tratado como se fosse mais um dia qualquer, sem maiores contextualizações ou estranhamentos dentro da narrativa, com a dupla de atores imediatamente funcionando juntos e estabelecendo uma química que, juntamente com a premissa absurdista da obra, carrega o breve filme nas costas.

Um dos aspectos que o longa satiriza é a tentativa de se impor significados à arte, mesmo que em alguns casos não exista nenhum, pelo menos nenhum que possa ser racionalizado. E, curiosa e ironicamente, ao fazer isso, Dupieux desafia o crítico de sua arte a racionalizar seu próprio filme sem cair em sua armadilha espertamente armada. No entanto, a tentativa de racionalizar uma criação de terceiros faz parte da natureza humana e ela é sempre válida, como Denise tenta fazer em relação ao pseudo-filme de Georges. E essa meta-brincadeira é parte do recheio saboroso de A Jaqueta de Couro de Cervo, exatamente na mesma linha que o “no reason” tem em Rubber. Ao colocar o espectador em uma sinuca de bico, Dupieux, sempre de forma jocosa, lança seu desafio e espera reação, transformando seu Georges em uma versão dele mesmo fazendo seu filme de baixíssimo orçamento em um local ermo tendo como figurino, apenas, a tal jaqueta de “estilo matador”.

Para ajudar nessa sensação de que estamos mesmo vendo um filme aleatoriamente tirado da cachola de seu diretor, a escolha da câmera na mão (como é a câmera na mão de Georges) é perfeita, mas com Dupieux tendo o cuidado de não tremer além do estritamente necessário para emular os movimentos desengonçados de seu protagonista que não faz ideia sobre o que é ser cineasta, algo que é revelado em diálogos construídos para serem constrangedores ao limite e que dão a impressão de serem parte roteiro, parte improviso e tudo capturado em um único take, sem ensaios. E a premissa surreal vai ganhando mais camadas estranhas na medida em que a fixação de Georges por couro de cervo se intensifica até sua metafórica transformação que leva ao final perfeito, irretocável mesmo (e doido varrido, mas com sentido na doideira).

Mais uma vez responsável pela montagem de seu próprio filme, Dupieux, aqui, acerta em cheio nesse quesito. Se sentimos uma barriga em Rubber e um completo descontrole em Os Maus Policiais, aqui nada disso acontece. A cadência é constante e os cortes suaves e lógicos que seguram o ritmo e fazem o longa avançar constantemente em uma espiral cada vez mais explícita e louca, com um humor negro de se tirar o chapéu (de couro de cervo, claro), especialmente considerando que Dujardin consegue chegar a um excelente equilíbrio entre seriedade, paródia e auto-consciência do quão ridículo – e triste – é seu personagem. Nunca considerei o ator particularmente brilhante, nem mesmo no badalado O Artista, mas, aqui, Dupieux tira o melhor dele deixando-o criar um personagem memorável em seu silêncio e seu narcisismo.

A Jaqueta de Couro de Cervo, com toda sua bizarrice, é um prato cheio para a caça de significados em conversas de bar. E olha, eles estão lá, mesmo que a busca pelos significados em si seja um dos significados possíveis. Mas uma coisa é certa: o espectador nunca mais encarará uma jaqueta de camurça da mesma maneira depois dessa experiência. E nem pás de ventiladores, claro…

Deerskin – A Jaqueta de Couro de Cervo (Le Daim, França – 2019)
Direção: Quentin Dupieux
Roteiro: Quentin Dupieux
Elenco: Jean Dujardin, Adèle Haenel, Albert Delpy, Coralie Russier, Laurent Nicolas, Marie Bunel,  Pierre Gommé, Caroline Piette
Duração: 77 min.

Crítica | The Lodge (2019)

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Primeiramente, eu confesso — preste atenção nesta palavra — que não assisti a Boa Noite, Mamãe, filme anterior de maior sucesso da dupla Veronika Franz e Severin Fiala. Contudo, ao ler a crítica do Luiz Santiago, disponível aqui no site, fiquei assustado. Isso porque, The Lodge, ao que parece, é quase como uma repetição do mesmo exercício de gênero com algumas alterações pontuais no roteiro.

No longa de 2014, a trama acompanha dois irmãos que vivem em uma casa isolada e passam a acontecer coisas estranhas envolvendo a mãe daqueles garotos. Agora, em The Lodge, os irmãos Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) são obrigados a passar alguns dias com a madrasta, Grace (Riley Keough), em uma casa isolada no meio do nada. Bem, e o que tem de tão ruim nisso? 

Logo no começo da história, Laura (Alicia Silverstone), a mãe biológica, comete suicídio após não aceitar o divórcio com o pai das crianças, Richard (Richard Armigate). Mostrando uma incrível sensibilidade (contém ironia), o recém-viúvo anuncia o casamento com Grace, menos de 6 meses depois do acontecido. Portanto, tal estadia no meio do nada — a não ser por gelo e neve — seria para aproximar todos. E para completar, os enteados descobrem que a madrasta esteve envolvida com um culto religioso suicida no passado, no qual ela foi a única sobrevivente.     

Voltando a uma das primeiras palavras deste texto, a culpa católica é um sentimento que rege todo o andamento da trama. The Lodge é como uma grande expiação para a personagem de Keough, que ainda é assombrada pelo passado, mas busca seguir em frente. Para isso, a dupla Franz e Fiala recorre a diversos simbolismos remetendo a ideia de que há uma força maior regendo e controlando a história. 

Insistentemente, a câmera busca uma pintura da Virgem Maria que, com seus olhos, parece estar sempre julgando Grace. Mais do que isso, pois a protagonista sente a presença daquele quadro. Seria como se ela sentisse a obrigação de ser aquela mulher santa e incólume para os filhos de seu marido, ao passo que eles lhe culpam pela morte da mãe. No mesmo sentido — e similarmente ao filme Hereditário — a narrativa principal vai sendo interrompida para mostrar a casa de bonecos de Mia, que remete a essa ideia de que eles são peões de um jogo maior. Já em uma sequência onírica, Grace encontra uma casa em formato de cruz. A culpa católica está por todo lado.

É interessante como The Lodge usa seu visual gélido e vazio para criar esse senso de purgatório no qual a personagem deve pagar por seus pecados, com uma cinematografia desoladora que se perde em um horizonte branco de neve. Todavia, de nada adianta esse vasto ambiente e a boa noção espacial dos cômodos da casa que Franz e Fiala possuem, se eles não exploram tais possibilidades. A principal tática do filme se limita a um exercício mental do público, que passa a questionar se a personagem de Keough está ficando louca ou de fato há algo sobrenatural acontecendo, através de acontecimentos em pequena escala. 

Assim, The Lodge insiste neste jogo dúbio entre madrasta e as crianças, mas acaba se perdendo em uma repetição exaustiva. Por mais que Riley Keough faça o possível, o tédio toma conta diante da passividade do filme e sua própria covardia em potencializar seus elementos de terror. Afinal, há uma cena em que os protagonistas chegam a assistir The Thing. Obviamente, não há como comparar os dois filmes que só possuem em comum o fato de se passarem na neve. 

Para piorar, o longa recorre a uma reviravolta que expõe sua contradição. Em um filme que a mise-en-scène remete ao sobrenatural e uma conexão com o divino, como pode tudo ter uma explicação bem racional? Aliás, é revelador como os pontos fortes do longa estão tanto no início quanto no final, quando a dupla de diretores parece abraçar, sem medo, um caminho mais sombrio e explícito. Uma pena que boa parte do tempo fica no campo da sugestividade, no qual belos enquadramentos não significam nada.

Pelo menos, acho interessante que The Lodge vá na direção de um certo sadismo punitivista em seu terceiro ato. Nesta história, não há um indivíduo que carregue a cruz pelo pecado de todos. No fim, todos são pecadores, e todos pagam por isso. Até nós, espectadores, que precisamos assistir a um tedioso filme por boa parte do tempo.

The Lodge (The Lodge) – Estados Unidos, Canadá e Inglaterra,  2019
Direção: Veronika Franz, Severin Fiala
Roteiro: Sergio Casci, Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Jaeden Martell, Riley Keough, Richard Armitage, Alicia Silverstone, Lia McHugh
Duração: 100 min.

Crítica | O Escândalo (2019)

bombshell o escandalo 2019 plano crítico

Entendo que, à primeira vista, o simples fato de um filme ter alguma mensagem negativa contra algum tipo de descriminação já seja o suficiente para muitos. Todavia, um crítico jamais pode esquecer que no cinema, juntamente com o conteúdo, a forma na qual uma história é contada é essencial. Infelizmente, O Escândalo (Bombshell) possui um problema incurável de forma.

O filme dirigido por Jay Roach (franquia Austin Powers) dramatiza os acontecimentos reais que levaram à demissão de Roger Ailes (John Lithgow, Pet Sematary), CEO da Fox News, após a denúncia de abuso sexual por diversas funcionárias. Assim, O Escândalo é contado a partir de 3 pontos de vista: o de Megyn Kelly (Charlize Theron, Mad Max – Estrada da Fúria) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman, Aquaman), jornalistas reais; e o de Kayla Pospisil (Margot Robbie, Esquadrão Suicida), personagem inventada para a história.

O primeiro (e grande) problema do filme é que ele opta por seguir a cartilha de direção Adam McKay — que fez sucesso com A Grande Aposta e Vice além de pegar elementos de O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Com quebras de quarta parede, narrações em off didáticas, uma montagem frenética e zooms aleatórios, percebe-se esta tentativa de aproximar a abordagem de um caráter documental descontraído. 

Todavia, fico com a impressão que as pessoas envolvidas no processo criativo de O Escândalo simplesmente olharam um método que estava fazendo sucesso e resolveram fazer uma emulação automática, sem ao menos se questionar como isso se encaixaria dentro da história que eles queriam contar. 

Afinal, nos filmes anteriores vemos a ascensão de figuras polêmicas (Dick Cheney e Jordan Belfort) e o surgimento de um fenômeno como o crash da Bolsa, a partir de um humor absurdista. Todavia, o que aconteceu com Megyn Kelly, Gretchen Carlson e outras dezenas de mulheres não é uma comédia. Tampouco, Roger Ailes é apenas um homem “polêmico”.

Não só estamos falando de uma abordagem equivocada, como ela é mais do que isso. Ela é desrespeitosa e anula qualquer potencial dramático que o filme busca ter. Com aquelas aproximações da câmera enquanto as personagens discursavam, um efeito cômico-visual é gerado e parecia que eu estava assistindo a um episódio de The Office. Logo, não há menor harmonia entre o conteúdo sendo exposto e aquele formato de paródia, gerando uma grande contradição.

O Escândalo possui sérios problemas desde o momento em que foi concebido. Ao longo do filme, o fato de que o roteiro foi escrito (Charles Randolph) e dirigido (Jay Roach) por homens vai ficando claro. Existe uma certa satirização no modo como Roger Alies é retratado que faz com que ele pareça uma figura extremamente caricata. Existem até momentos cômicos no qual o personagem é extremamente paranoico com conspirações e também está sempre comendo. Essa simplificação do personagem acaba dando a entender que suas atitudes sexualmente abusivas são apenas mais uma maluquice sua, tratamento que é extremamente perigoso e problemático.

De mesma maneira, em uma cena crucial para o longa, a personagem de Margot é coagida por Alies para que mostre sua calcinha. Este momento acaba sendo muito revelador da enorme contradição que é esse filme. A própria figura da atriz no meio de Hollywood sempre foi vista, infelizmente, com muita sexualização, e Roach continua este estigma. Suas lentes nos colocam no ponto-de-vista do abusador e vemos aquele assédio de uma maneira quase voyeurística.

Aliás, não sou de comentar experiências que ocorrem dentro de uma sessão de cinema, como a crítica Pauline Kael tinha costume. No entanto, é muito curioso que, em uma cena que deveria ser a mais tocante do longa, toda a sua condução é sugerida inadequadamente como uma comédia. Assim, o público, que se vê envolvido e manipulado pela comédia de O Escândalo, dá uma enorme gargalhada quando duas personagens estão conversando sobre o abuso sexual.

De todos os personagens, os de Margot Robbie e John Lithgow são os mais prejudicados pelo tom do filme, indo muitas vezes para o tom caricatural e unidimensional. Por outro lado, até que a dupla se sai muito bem dentro desta dinâmica antagônica entre a inocência e a perversão, algo que fica contrastado muito bem na cena do assédio. Já Charlize Theron e Nicole Kidman estão muito mais sóbrias e parecem ser as únicas abordadas de um jeito mais sério. Uma sororidade invisível muito forte é sentida em suas personagens.

No fim, não deixa de ser irônico que enquanto O Escândalo fala sobre mulheres que são reféns do silêncio com o receio de perderem seu emprego, acaba sendo um filme que é um próprio refém de um sub-gênero de sucesso hollywoodiano.

O Escândalo (Bombshell) – Estados Unidos, 2019
Direção: Jay Roach
Roteiro: Charles Randolph
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Malcolm McDowell, Kate McKinnon, Connie Britton, Liv Hewson, Brigette Lundy-Paine, Rob Delaney, Mark Duplass, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, D’Arcy Carden
Duração: 108 min.

Crítica | Os Miseráveis (2019)

Pegando emprestado o título do clássico imortal de Victor Hugo e empregando-o em um contexto atual inspirado nas manifestações e tumultos que marcaram Paris e outras cidades da França em 2005, o cineasta malinês Ladj Ly debuta triunfalmente na direção de longas, amealhando o prêmio do júri em Cannes em 2019, que dividiu com Bacurau. Baseado em curta de dois anos atrás que ele mesmo dirigiu, Ly expande seus conceitos e sua narrativa, entregando uma obra de aspecto documental que ficcionaliza, mas de maneira extremamente realista, a proverbial gota d’água para demonstrações populares de insatisfação generalizada.

Passado ao longo de algo como 24 horas, a obra não perde tempo com contextualizações independentes da narrativa principal, usando o recém-transferido policial Stéphane Ruiz (Damien Bonnard), logo apelidado de Gel por seus colegas Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djibril Zonga), com quem forma uma brigada anti-crime na empobrecida periferia parisiense, como veículo para o espectador compreender as tensões sociais que transformam a região em um caldeirão efervescente de etnias, facções e descaso do governo. É em razão de Gel e para o nosso benefício que aprendemos muito rapidamente sobre os líderes locais Prefeito (Steve Tientcheu) e Salah (Almamy Kanoute) e o costumeiramente desordeiro jovem Issa (Issa Perica) que logo arruma confusão ao literalmente roubar um filhote de leão de um circo local comandado por ciganos.

A câmera nos faz seguir Gel de maneira inclemente, só deixando o assustado policial para lidar brevemente com Buzz (Al-Hassan), outro jovem local que adora filmar as meninas trocando de roupa com seu drone que, claro, como a “arma de Tchekhov”, terá importância narrativa mais para a frente. O ritmo é insano e sem concessões, sem paradas explicativas, quase parecendo um plano-sequência só de tão fluido e bem ritmada que é narrativa, com uma câmera por vezes intrusiva, por vezes na mão, mas sem jamais desnortear o espectador quando esse não é o objetivo explícito de determinada cena. É, na falta de uma comparação melhor, como se fôssemos o quarto policial na equipe de Gel, aprendendo na medida em que ele aprende em seu primeiro dia bombástico na nova delegacia.

Mas quem espera um filme que condena irrestritamente a polícia por descaso ou atos violentos contra a população não encontrará algo tão óbvio e direto aqui. O roteiro é cuidadoso ao trabalhar todo mundo de maneira orgânica, fugindo do maniqueísmo irresponsavelmente perigoso – e simplista às raias do infantil – que assemelha policial à força opressora. Sim, há violência policial, não tenham dúvida, mas ela não existe fora de contexto ou “porque sim” em Os Miseráveis. Muito ao contrário, na mesma medida em que gangues e milícias são formadas nesse subúrbio bem diferente do que estamos acostumados a ver quando se fala de Paris, os policiais são moldados de acordo com seu ambiente. Eles são inevitáveis frutos estragados de uma região esquecida, formada de miseráveis que tentam viver cada dia da melhor forma possível, mas sem esperança de conseguir. Em uma selva como essa, ou você é predador ou presa, não há meio termo e Gel, que aparentemente vem de região bem menos complicada, não demora a perceber o tamanho do problema e como é impossível, nesse recorte micro, mudar alguma coisa. É quase que literalmente como jogar-se em um trem em alta velocidade indo em direção a uma parede de concreto.

Mesmo com muitas sequências em ambientes abertos, a fotografia de cores áridas de Julien Poulard, a montagem de Flora Volpelière e a câmera cirúrgica de Ladj Ly estabelecem uma atmosfera claustrofóbica e desesperadora que torna o filme extremamente incômodo, como realmente deveria ser, em um efeito que faz com que o final da sessão seja um alívio no melhor sentido da palavra. É como se inspirássemos quando Gel é apresentado à equipe e expirássemos somente quando os créditos finais começam a correr, o que tornam os 102 minutos mais parecidos com dois, algo que muito filme puro de ação não consegue fazer em até menos tempo e com orçamento infinitamente maior. Simultaneamente, a forte crítica social é passada sem solavancos e sem pregação desnecessária, com os dois ou três minutos finais sendo um dos melhores que vi em muitos anos.

Se há um problema detectável é que, na virada de um dia para o outro, a projeção “esfria” um pouco, quebrando o ritmo narrativo alucinante que o diretor vinha imprimindo. Não é algo sério, pois dura muito pouco tempo e eu confesso que não tenho ideia de como isso poderia ser remediado já que fazer toda a ação se passar apenas em algumas horas do primeiro dia talvez tornasse o encerramento improvável e, portanto, irreal. Talvez a transição pudesse ter acontecido em forma de elipse pura, sem sequências à noite voltadas ao trio policial fora do contexto da ação policial. Mas a grande verdade é que, diante do que Ladj Ly coloca nas telonas, esses minutos externos ao cerne da narrativa não são nada, apenas, talvez, um preciosismo meu.

Os Miseráveis é ficção tão real que parece um documentário em meio a uma guerrilha. Quando seu final chega, a vontade que dá, lá no fundo do coração, é assistir um desenho animado bem bobo para simplesmente esquecer o que foi visto, para não ter que enfrentar a dura realidade que – para a maioria dos espectadores de cinema – existe apenas ao longo do tempo de projeção, mas que está ao nosso redor e que deveríamos atentar para além de comentários derrisórios sobre os miseráveis que não têm o mesmo tipo de chance que nós.

Os Miseráveis (Les Misérables, França – 2019)
Direção: Ladj Ly
Roteiro: Ladj Ly, Giordano Gederlini, Alexis Manenti
Elenco: Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga, Issa Perica, Al-Hassan Ly, Steve Tientcheu, Almamy Kanoute, Jeanne Balibar, Raymond Lopez, Omar Soumare, Sana Joachaim, Lucas Omiri
Duração: 102 min.

Crítica | Uma Vida Oculta

Franz Jägerstätter, um fazendeiro austríaco profundamente católico do vilarejo alpino de Sankt Radegund, recusou-se a fazer o juramento à Hitler e a lutar na Segunda Guerra Mundial, o que o levou a ser preso e executado. A história verdadeira, porém, tem muito mais, já que ele não só fora o único a votar contra a unificação – ou Anschluss – ocorrido em 1938 como também foi um cidadão vocalmente contra o nazismo. Terrence Malick, de certa forma, simplifica os fatos e foca especificamente em sua recusa em fazer o juramento e nas consequências para ele e para sua família, colocando nas telonas mais um de seus visualmente belíssimos filmes espirituais que dificilmente agradará quem não está acostumado e gosta do tipo de obra que o cineasta mais diretamente passou a fazer a partir de A Árvore da Vida.

Não há pressa e o fio narrativo não é repleto de acontecimentos que impulsionam a história de maneira tradicional. As imagens, como é comum na filmografia de Malick, comandam a progressão narrativa, mas Uma Vida Oculta é, muito provavelmente, pelo menos em termos comparativos, seu mais convencionalmente estruturado filme em muitos anos. E não afirmo isso de maneira negativa, mas sim neutra, como um constatação que me deixou surpreso. Há uma evidente linearidade no que vemos ao longo das quase três horas de projeção que, como de costume, exigem muito do espectador não pela complexidade, mas sim pela reflexão que a fita inevitavelmente nos obriga a fazer, independente da crença religiosa que se tem.

O cerne, claro, é a fé católica fervorosa de Franz, vivido de maneira angustiante e fantasmagórica por August Diehl. Sua posição é inamovível: ele até poderia se recusar a pegar em armas, aceitando uma posição em hospital de guerra, mas a questão mais importante para ele é a necessidade prévia de se fazer o tal juramento do soldado que era conhecido como o juramento a Hitler. Sua moral e sua fé não permitem que ele assim o faça, seja qual for a consequência direta para ele e indireta para sua esposa Fani, vivida por Valerie Pachner em outra atuação arrebatadora, e para suas três filhas pequenas. Mas Franz não é passivo exatamente. Antes que o pior aconteça, ele faz de tudo para encarar e estudar seu posicionamento, conversando diretamente com seu padre local e também com o Bispo da região.

O verdadeiro teste que Malick nos propõe é compreender o que se passa na cabeça de alguém como Franz. Um herói, sem dúvida, mas um herói entendido assim em retrospecto, considerando os horrores da Alemanha nazista. Mas nossa visão sobre ele seria a mesma em circunstâncias, hummm, normais? Em uma guerra “justa? Ou ele é covarde, egoísta e insensível ao sofrimento de sua família? E mais: como manter a fé em uma religião que, para todos os efeitos, se não se mostra – pelo menos ali em sua realidade – contra o nazismo em particular e a guerra em geral, no mínimo permanece passiva, condenando indiretamente atos de desobediência como esse de Franz? E seus amigos e concidadãos em Radegund, todos igualmente católicos, que transformam sua esposa – que fica quase que completamente sozinha trabalhando pesado no campo para alimentar suas filhas e sua sogra – em persona non grata?

Em sua proposta, o cineasta faz uso de imagens belíssimas, mas ao mesmo tempo assustadoras de um paraíso idílico transformando-se em um inferno. O trabalho de pós-produção demorou mais de dois anos e muito desse tempo foi dedicado à escolha das imagens e à montagem, com um efeito que muitas vezes descorporifica as vozes, deixando-as no ar quase que como uma narração descompassada, além do uso de lentes largas, quase grande angulares, com a manutenção de uma razão de aspecto esticada mesmo quando ele trabalha close-ups ou planos americanos, o que exige muito da composição cenográfica. Há uma tendência ao desnorteamento e ao estilo documental que emula a câmera na mão que por vezes leva a enquadramentos estranhos que cortam cabeças ou estruturas de maneira aparentemente aleatória e que, particularmente, me desagrada por não ter uma função maior na narrativa que não a estilística. É como se o diretor quisesse afastar o espectador ou pelo menos nos testar, ainda que o resultado de “pesadelo” funcione muitas vezes.

A trilha sonora original de James Newton Howard foi reunida à peças clássicas de compositores com Bach, Handel, Dvorak e outros, amplificando a abordagem espiritual quase sobrenatural que opõe o amor à fé na mesma proporção que torna patente que um é substancialmente o mesmo que o outro. As entradas e saídas para a trilha original são brilhantemente trabalhadas por Malick e seu trio de editores, mantendo uma suavidade perturbadora que incomoda na mesma proporção que afaga, mas sem jamais nos deixar esquecer do drama e das dúvidas de Franz e o que elas trazem para sua tão amada família.

Uma Vida Oculta não é um filme fácil, que pode ser visto de maneira corriqueira ou descompromissada. Nenhum filme de Malick é assim na verdade, já que todos exigem mais foco e atenção do que o convencional. Mas, se ele se perdeu razoavelmente em suas duas ou três obras imediatamente anteriores, ele voltou a se encontrar na significativa espiritualidade de um homem solitário tentando entender até que ponto deve manter-se convicto em sua moral e fé.

Uma Vida Oculta (A Hidden Life, EUA/Alemanha – 2019)
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Maria Simon, Karin Neuhäuser, Tobias Moretti, Ulrich Matthes, Matthias Schoenaerts, Franz Rogowski, Karl Markovics, Bruno Ganz, Michael Nyqvist, Jürgen Prochnow, Joel Basman, Mark Waschke, Alexander Fehling, Martin Wuttke, Karl Markovics, Franz Rogowski, Max Mauff
Duração: 173 min.

Crítica | Retrato de uma Jovem em Chamas

plano crítico filme Retrato de uma Jovem em Chamas

A experiência que a diretora Céline Sciamma nos propõe em Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) é a de provar um momento específico da vida em seu maior número de camadas, passando por atos, palavras, sentimentos, até chegar à imagem. Estamos na França, em 1760 ou 70. Marianne (Noémie Merlant) é contratada para pintar o retrato de casamento da jovem Héloïse (Adèle Haenel), que acabou de sair do convento e que não está feliz com a ideia do noivado, por isso se recusa a posar para uma pintura. Com um pequeno mistério familiar estabelecido já nas primeiras cenas e o desafio de Marianne, que deve pintar um retrato “de memória”, temos estabelecida a base do longa. Primeiro, a resistência de se eternizar pela imagem, produto de cicatrizes emocionais que descobriremos com o passar do tempo; depois, a mudança que a convivência e a própria imagem terão aos olhos das duas mulheres envolvidas.

Numa medida simplesmente de representação e sentimentos envoltos em um processo criativo frente à imagem de uma mulher, este longa francês me trouxe à memória O Estranho Caso de Angélica (2010) com a diferença de que para Sciamma, que escreve e dirige a presente obra, a carga sentimental e mesmo a experiência ocorre de fato e paralelamente à produção do retrato. O filme tem uma primeira camada simples, mostrando a história de uma pintura e a mudança no relacionamento entre artista e modelo ao longo do tempo, mas para além dessa simplicidade há o desafio de convenções sociais, a vivência de um amor proibido e o produto final dessa relação impossível, que gera também os seus próprios frutos, alguns deles expostos em paredes ou imortalizados em cores e formas que por si só valem mais do que mil palavras — chegando a abrir as portas para a história do filme, por sinal.

Merlant e Haenel possuem uma conexão belíssima em tela, fazendo com que o público também as vejam como produtos artísticos, modelos, representação de vidas que se diferenciam pela trajetória; que têm personalidades diferenciadas pelos figurinos (a mais introspectiva vestido azul e verde, a mais expansiva vestido vermelho) e que trazem novas formas de ver o mundo, uma para outra, parte da relação que termina de modo tocante, como uma daquelas histórias de amor a que estamos acostumados — com uma separação a contragosto — mas com um contexto e um peso dramático imensos. O trecho do Verão de Vivaldi (segundo concerto da série As Quatro Estações) delineia esse sentimento no fim, puxando um dos ganchos mais sutis e belos do longa, apresentado de modo descompromissado e que termina por valorizar ainda mais a trajetória das duas mulheres, não apenas pelo que se vê, mas também pelo que se ouve. A música, aqui, também é imagem, pois suscita a memória.

Claire Mathon (Um Estranho no Lago, Atlantique) procura manter uma base de iluminação e cores que o tempo inteiro nos sugerem poses para um quadro, mesmo quando não imaginamos isso à primeira vista, já que o filme não assume a postura de tableau vivant, mas nos leva a entender isso simbolicamente. A direção cuida perfeitamente dessa dinâmica, medindo com muito escrúpulo o que fazer a seguir, dialogando cuidadosamente com a representação imagética dos personagens (os quadros dentro do quadro), de modo que eles não estão lá apenas para constar, para didaticamente provar que Marianne é uma boa pintora, mas também para contar uma história.

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dado… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.

Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu) — França, 2019
Direção: Céline Sciamma
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami, Valeria Golino, Christel Baras, Armande Boulanger, Guy Delamarche, Clément Bouyssou
Duração: 121 min.