Dominic Reymond

Crítica | Curtas do Oscar 2020: Animação

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Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Animação em Curta Metragem em 2020 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia, com as traduções em português ao lado quando existirem). Os textos desse compilado são de Davi Lima e Iann Jeliel.

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Kitbull 

EUA, 2019

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por  Davi Lima

As produções da Pixar em geral têm suas obras pautadas em emocionalismo, o que não é um ponto negativo quando se faz boas histórias que comovem. Com o curta animado Kitbull não é diferente.

A oportunidade que o projeto SparkShorts deu para estagiários da Pixar permitiu que uma modelagem 2D dos animais com um cenário praticamente estático, colorizado e com pouca textura tivesse pulsão emotiva bem representativa do estúdio. Circunstâncias adversas e diferenças biológicas entre um cachorro e um gato são a ponte para a formação de uma amizade e encontro com uma vida melhor para os caracterizados animais domésticos aqui.

Em geral, o gatinho preto é acostumado a viver na rua, tem seu canto escondido, embora frágil, como sua caixa de papelão aponta. A personalidade dele é forte o suficiente para encarar um cachorro. Quando chega um para viver perto de sua moradia, há uma interação de casualidades. Com uma edição de som muito viva, assim como a trilha, os momentos se tornam críveis, mesmo com o 2D explícito. Assim, de maneira natural, os dois rivalizam por instinto, porém com atitudes lúdicas diante das circunstâncias em que se encontram. O cachorro permanece preso na coleira e o gato livre no seu lixo.

Diante desse cenário, o que pode usurpar esse naturalismo captado no curta, ou elevar a qualidade da experiência, é a influência proposital do ser humano na narrativa. O maltrato marcado no corpo do cachorro determina um momento dramático importante que influencia tanto a aproximação final do gatinho quanto a conclusão esperançosa do curta.

Direção: Rosana Sullivan
Roteiro: Rosana Sullivan
Duração: 9 min.

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Memorable (Mémorable)

França, 2019

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por Davi Lima

Para muitas obras artísticas, a máxima é não ser óbvio de maneira alguma. Mas ser compreensível em sua inteligência de abordar o tema com um personagem é essencial. Em um curta de animação, em que a habilidade artística do protagonista representa o auge e a sua grande depressão, nada mais justo que usar a pintura como a própria forma de expressão na obra.

O uso de papel machê, pintado no estilo pós-impressionista de Van Gogh, é mais que uma percepção, é quase metalinguístico dentro do universo criado na mente de um protagonista idoso e pintor, ou um pintor idoso. O não se reconhecer no espelho do personagem parte desse princípio de comentário, em que o divã oficial não é o médico, esse já virou conceito surrealista em deformação representativa de imagem. O divã é a esposa.

Ela é que exercita o que resta, e não se deforma ou muda suas cores, até nisso há uma diferença em como a memória pincelada se mostra. Por aí que o amor do curta se mostra. O que é “desprezível”, até mesmo nas falas de anos retrógrados, são os objetos tecnológicos. A preciosidade é o que ainda pode ser pintado.

E logo esse amor conjunto, pintura e esposa se juntam em ação e imagem. O pintor pinta agora com o dedo e a esposa tem seus traços mais meticulosos que só um esposo pode perceber, mesmo na perda da memória. Só que não é qualquer memória que se degenera, é a de um pintor.

Direção: Bruno Collet
Roteiro: Bruno Collet
Elenco: Dominic Reymond, André Wilms
Duração: 12 min.

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Sister (妹妹)

China, 2018

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por Davi Lima

Como vários curtas-metragens, qualquer intenção emocional tem que ser passada com voracidade devido ao tamanho da produção, apesar que a diversidade artística permite tudo do mais variado, em que a emoção ou a relação sentimental pode surgir após uma reflexão pessoal ou política.

Aqui, nesse curta chinês, encontra-se uma carga de mutação muito significativa dentro da linguagem de stop motion, para que a perda da presença depois seja muito sentida visualmente. De maneira bem simples, a narração parece ter um tom imutável: apenas os bonecos feitos de feltro que constantemente parecem permissíveis em agregar a um contexto de uma foto ou uma imaginação surrealista. Estão sempre em mudança, seja em proporção de tamanho ou em atividades comuns dentro de uma casa.

Então, por essa relação visual tão cristalizada com o meio é que a perda tratada na história não é só sentida pela perspectiva do aborto ou por uma questão cultural – que com certeza influencia até na escolha do curta no Oscar -, existe também dentro da escolha do preto e branco a busca por remeter ao antigo e ao conflito presencial, captado pelo som e pelos movimentos como são do stop motion, a perda mais física na escolha da animação.

Dessa maneira, o objetivo emocional e catártico, junto à voz monotônica, prevalece de forma bem efetiva. A irmã é retratada na narração com tanta realidade pelo irmão que o conflito com a imagem imaginária alavanca ainda mais a descoberta do que realmente significa a proposta emocional da diretora Siqi Song.

Direção: Siqi Song
Roteiro: Siqi Song
Elenco: Bingyang Liu
Duração: 8 min.

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Daughter (Dcera) 

República Tcheca, 2019

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Iann Jeliel

O conflito de ego acumulado é uma maldição que só pode ser quebrada no rito de passagem para uma nova vida. A premissa do curta parte de uma filha tentando se reconectar com o pai que se vê à beira da morte, recuperando memórias, boas e ruins, sobre sua convivência passada. A grande proeza é em como a execução é habilidosa e didática sem parecer óbvia nas idas e vindas dos flashbacks, para especificar o porquê da relação dos dois ser conturbada e principalmente por que tem que ser reconquistada.

Nesse contexto, a montagem aliada à fotografia intercala o dinamismo de acontecimentos em constante desconforto, fechando muito os planos na teoria pela busca de extrair a maior quantidade de sentimentos possível dos personagens, mas quando esses são os bonecos stop motion deformados, o desafio emocional transita no campo surrealista para amplificar a fragilidade daqueles rostos naturalmente pesados diante do acúmulo dramático. Na falta de falas, a própria técnica se comunica, seja através dos sons ou imagens, a ambientação molda a animação conforme a construção dos dois pólos sentimentais mencionados, aliando-os meticulosamente na lírica dos momentos-chave.

A experiência animada predominante é plenamente sensorial e subjetiva, mas estabelece seu vínculo com o público, como todo bom curta, na correlação com sua temática principal de forma realista. Seja um pai, filha, amigo, todos nós temos desentendimentos com alguém importante que pesam quando possivelmente essa pessoa irá deixar o campo físico. Buscamos no fim, e muitas vezes nem dá tempo, uma forma de nos redimirmos com elas para dar o abraço final. Assim, surge a figura do pássaro, no melhor semblante de paz possível, saindo de um mero observador dessa relação e partindo a fazer parte dela, é o contato que os dois nunca tiveram e que a gente não tinha até então com o curta. No belíssimo final, as luzes se acendem no foco e desfoco, e o pássaro encontra o voo para novos horizontes.

Direção: Daria Kashcheeva
Roteiro: Daria Kashcheeva
Duração: 15 min.

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Hair Love

EUA, 2019

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por Iann Jeliel

Possivelmente a vencedora da categoria no Oscar, por trazer à tona uma temática pouco falada, mas de ampla representatividade e importância, a lírica ultrarrelacionável e “fofa” de uma animação com grande alcance distributivo e que possivelmente irá alcançar mais pessoas depois de ser premiada. O mais bacana é que em uma primeira camada, Hair, Love é sobre a desconstrução de uma opressão histórica específica, de que as negras não têm cabelo “ruim”, mas no fundo, no fundo, é uma carta de incentivo ao amor próprio, que deve ser criado desde cedo pelos olhares infantis e principalmente compreendido por suas figuras paternas, para que um novo ciclo de desconstrução identitária não se forme, e a partir da atual, já seja possível se desvincular totalmente desses estereótipos.

Desse modo, o curta atinge um ponto de vista muito mais amplo e universal de uma problemática simples, mas extremamente realista e particular. Diante do mal do século, a iniciativa publicitária da Sony é fantástica e recheada de bom coração, mas como lírica, acaba limitando e tornando a articulação do tema um tanto superficial. As ilustrações mais exageradas, como a do pai lutando boxe contra um cabelo indestrutível, ou os ensinamentos via internet, buscam criar um clima de divertimento que soa muito bobinho, mesmo com a intenção do didatismo e linguagem mais reconhecível com todas as idades, é pouco sutil e poderia ser preenchido com facetas menos manipulativas.

É um curta para fazer chorar, e isso fica bem claro em todo o visual colorido, e é bom que faça mesmo, as lágrimas da representatividade em tela são lindas de se ver. Contudo, a temática fala mais alto que sua execução animada de modo arbitrário, mesmo com as diversas camadas do problema expostas, elas só ficam no primeiro comentário. Que bom e tomara que ele seja suficiente para todo o início de uma mudança social.

Direção: Bruce W. Smith, Matthew A. Cherry, Everett Downing Jr.
Roteiro: Matthew A. Cherry
Elenco: Issae Rae
Duração: 7 min.