Documentário

Crítica | Maioria Absoluta

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O tema deste filme não é a alfabetização, mas o anafalbetismo, que marginaliza 40 milhões de irmãos nossos” entoa a poderosa voz de Ferreira Gullar ao início do curta. Por algumas vezes, a narração do poeta chama o problema, por analogia, de uma doença. Justamente por não conhecermos as suas causas, buscamos soluções absurdas e remédios milagrosos. No entanto, o documentário de Leon Hirszman — em seu segundo trabalho como diretor — não se limita a isso, já que para que o seu diagnóstico possa ser dado, é preciso estudar a história do Brasil. Portanto, Maioria Absoluta é passado, presente e futuro. 

Se há alguma coisa que tanto o título do filme quanto sua condução narrativa constantemente nos martelam, é que, no Brasil, a grande maioria, na verdade, é aquela que não possui direitos trabalhistas e políticos resguardados. Para isso, dados estatísticos que vão desde a descoberta do Brasil são puxados e mostram que a distribuição de terra sempre foi injusta, como a criação das capitanias hereditárias, estratégia que concentrou muita terra nas mãos de poucos. Em 1964, éramos 80 milhões de brasileiros, e só 70 mil possuíam a posse de 60% de todas as terras do país. 

Contudo, de nada teria impacto a parte sonora em Maioria Absoluta, se não fosse a sua comunicação com o seu aspecto visual. Com pouco espaço no filme, os minutos iniciais são ocupados por depoimentos da classe média sobre as causas do problema brasileiro. As entrevistas vão de pessoas despreocupadas na praia, passam por uma dona de casa rodeada por sua luxuosa mobília e vão até um homem, aparentemente intelectual de camisa social e óculos. Aqui, a narração de Gullar se silencia e o que fala é, na verdade, a montagem de Nelson Pereira dos Santos. Enquanto absurdos são pronunciados por essas pessoas — “o problema do Brasil é moral!”; “O povo não quer ser ajudado”; “Pessoas que não sabem escrever o nome não podem votar” — surge finalmente o povo em tela. 

A direção de Leon Hirszman mescla muito bem seu foco. A câmera na mão alterna entre close-ups nos rostos marcados pela pobreza e miséria, com uma noção coletivista que, através de planos gerais, preocupa-se com a população como um organismo coletivo. Se este contraste entre as falas alarmantes da classe média — que poderiam muito bem ser proferidas no dia de hoje — com as imagens que vão no coração de estações de trem ou feiras populares ainda não é suficiente, mais uma coisa reforça este jogo de diferenças. Como dito, quando o foco está na minoria burguesa, o ambiente é de paz, relaxamento, silêncio e isolamento. Em contrário, a população está sempre em movimento, vivendo sua rotina, com barulho e, principalmente, trabalhando. 

Posteriormente, Hirszman se dirige ao campo. Imagens bucólicas daquele ambiente rapidamente são trocadas por trabalhos na cana e relatos dos maus-tratos trabalhistas daquela época. A montagem de Nelson Pereira segue um ritmo sem pressa, dando espaço para que cada um exponha sua angústia. Assim, o bom humor do povo se mescla com as denúncias de fome, a alta carga horária e os abusos dos patrões. 

Perto do fim, assim como no início, o foco sai do povo. Agora, filmagens aéreas filmam Brasília e o Congresso Nacional, de maneira afastada, enfatizando a distante relação entre os analfabetos e seus direitos políticos. Paralelamente, Gullar relata quantos não votam por essa condição: 25 milhões. Por que eles não possuem direitos? Se são eles que nos dão tudo, movendo a economia, por qual motivo não damos nada a eles? 

Hirszman não poderia encerrar Maioria Absoluta de maneira mais brilhante. A voz onipresente diz: “O filme acaba aqui. Lá fora, a tua vida, como a desses homens, continua”, enquanto trabalhadores, andando sem rumo, carregam um saco nas costas. Logo, o papel do cinema não deve ser apenas uma denúncia que se limita aos seus 20 minutos de projeção. A revolta, a indignação e a luta não podem se encerrar com o surgimento do vazio preto na tela. Pelo contrário, eles devem continuar, pois a desigualdade social também se manterá, caso nada seja feito. No Cinema Novo, o cinema não é fim, mas apenas o início de uma luta.

Maioria Absoluta – Brasil, 1964
Direção: Leon Hirszman
Roteiro: Leon Hirszman, Aron Abend, Luiz Carlos Saldanha, Arnaldo Jabor
Elenco: Ferreira Gullar
Duração: 20min.

Crítica | Crip Camp: Revolução Pela Inclusão

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Em 2019, a recém-criada produtora Higher Ground, do casal Barack e Michelle Obama, trazia seu primeiro filme, Indústria Americana. O documentário focava no dia-a-dia de uma fábrica automobilística comprada por chineses, mesclando temas como a troca cultural entre os trabalhadores e questões sindicais. Agora, na segunda produção da dupla, Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, os Obamas também apostam em uma história real que aborda direitos sociais e civis. Todavia, a diferença é que se no filme vencedor do Oscar havia uma certa postura distanciada e insegura de suas intenções, o novo filme da Netflix é uma visão totalmente subjetiva, intimista e nostálgica, com o diretor James Lebrecht, um cadeirante, recordando de suas memórias em um acampamento para deficientes na década de 70 e, posteriormente, a luta política pelos direitos dessas pessoas.

Entre as coisas que mais chamam a atenção no filme, é interessante ver como ele opta por uma mudança de tom muita abrupta. Em sua primeira metade, o que temos é a apresentação de toda aquela vida no acampamento. Primeiro, vem uma insegurança no relato de todas aquelas pessoas, sempre acostumadas com a rejeição. Contudo, rapidamente o clima de alegria e contamina o documentário, seja pelo próprio registro do passado ou pela maneira como Lebrecht está sempre entrevistando seus antigos colegas no presente de maneira descontraída. 

Parece um detalhe bobo, mas a condução de muitas dessas conversas para um lado mais amoroso e sexual é fundamental para quebrar um tabu existente quanto a isso. Justamente por não ser uma visão de fora, que talvez se preocupasse em um lado muito mais apelativo e que explorasse a dor daquelas pessoas, mas sim de alguém que vive aquilo, Lebrecht abraça a normalidade e a banalidade, tornando seu documentário incrivelmente humano. Não que mostrar o sofrimento real daquelas pessoas se tornasse um vitimismo barato, algo absurdo de concluir, mas a opção de uma abordagem mais otimista reforça que todas aquelas pessoas também são humanas e possuem sentimentos como todos os outros da sociedade. Neste sentido, Crip Camp é revolucionário.

Em contrapartida, na segunda metade, a narrativa ruma para caminhos mais sérios. Apesar de ser um tanto quanto anticlimático e contrastante em relação aos acontecimentos do acampamento, a mudança de direção se justifica. Afinal, o filme não é só divertimento e nem teria como ser, pois naquela época era praticamente inexistente o direito daquela minoria. Logo, Crip Camp também não deixa de ser um manifesto. Lebrecht reconhece que sem a existência daquela luta, seu documentário jamais existiria. Assim, nada mais justo do que retribuir aqueles que lutaram fazendo greve de fome por 20 dias durante a luta pelos direitos civis do que postergar a existência dos mesmos no próprio ato de resgatar imagens documentais.

No fim, Revolução Pela Inclusão fica neste meio termo entre mero registro despretensioso eu um documentário político didático típico da Netflix, uma vez que vai se criando a sensação de que talvez o primeiro talvez só exista para reforçar o segundo. Através da estrutura narrativa estabelecida, é precisamente pelos momentos de alegria do início do longa que se aumenta a importância do sacrifício posterior. Se eu falava que Lebrecht agia genuinamente na condução do registro de imagens do acampamento e nas conversas, a espontaneidade dos mesmos acabam perdendo sua força quando são utilizados não como fim em si mesmo, ainda que sejam um meio para uma das causas mais nobres possíveis.  

Crip Camp: Revolução Pela Inclusão (Crip Camp: A Disability Revolution) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicole Newnham, James Lebrecht
Roteiro: Nicole Newnham, James Lebrecht
Elenco: Larry Allison, Dennis Billups, Judith Heumann, James Lebrecht, Evan White
Duração: 107 mins.

Crítica | A Sister (Une Soeur)

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Em seu terceiro curta, a diretora e atriz francesa Delphine Girard tenta abordar uma tensa situação de violência e sequestro usando, apenas, uma ligação telefônica entre a vítima e uma operadora da polícia encoberta como uma ligação da vítima para sua “irmã” para falar de sua filha, já que o criminoso está ao seu lado no carro. É sem dúvida uma premissa interessante — embora não exatamente original –, mas que Girard executa como um pedaço de uma história.

Não é que não haja um começo (ou quase), meio e fim no curta, ou que Girard não saiba criar tensão na conversa entre Alie (Selma Alaoui), a vítima, e a operadora (Veerle Baetens), mas esse deveria ser o artifício que impulsiona a narrativa e não toda a narrativa. No entanto, aqui, uma coisa se confunde com a outra e, mais do que isso, a premissa se torna tudo o que a diretora tem a apresentar. 

É sem dúvida interessante como a fotografia escurecida e desfocada no lado de Alie evita mostrar rostos ou mesmo a estrada em detalhes, mantendo o espectador razoavelmente desorientado, emulando, com isso, os sentimentos da vítima. E é também interessante como, na outra ponta, a da operadora, as imagens são claras e seu rosto tenso, mas frio, é sempre mantido em foco e tomando quase toda a lente. O problema é que A Sister fica parecendo um experimento, um fragmento de uma ideia bacana que não ganha nenhum desenvolvimento para além da estrutura narrativa em si.

E, muito em razão disso, por mais que o espectador consiga conectar-se com a situação de tensão e, em razão dela, também com a vítima e a operadora, Girard não consegue ir além e tornar as personagens interessantes por elas mesmas. Não há sequer um semblante de arco narrativo, aliás, pois a técnica audiovisual da diretora é um fim em si mesma. 

A Sister é um filme de “treinamento” para Girard, como um TCC, mal comparando. E o resultado é que ela passou raspando.

A Sister (Une Soeur) — Bélgica, 2018
Direção: Delphine Girard
Roteiro: Delphine Girard
Elenco: Veerle Baetens, Selma Alaoui, Guillaume Duhesme
Duração: 16 min.

Crítica | Sonata Para Viola – Dmitri Shostakovitch

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Depois de três documentários estreantes para a TV entre 1974 e 1975 (Os Empregos Mais Mundanos, O Carro Adquire Confiabilidade e Prefixo R1NN) e mais dois curtas-metragens entre 1979 e 1980 — um documentário (Último Dia de um Verão Chuvoso) e uma ficção (O Degradado) — Aleksandr Sokúrov passou a chamar atenção dentro do tardio cinema soviético, o que não é exatamente comum para um diretor que mal saiu da escola de cinema (no caso dele, a VGIK), onde entrou em 1975, após se formar em História pela Universidade de Nijni Novgorod, em 1974.

Amigo pessoal de Andrei Tarkóvski e assumidamente influenciado pro ele, especialmente pelo longa O Espelho (1975), Sokúrov teve a sua primeira grande oportunidade em 1980, quando começou a produção para um documentário sobre o grande compositor russo Dmitri Shostakovitch, que havia falecido cinco anos antes. Sua formação como historiador o colocou facilitou a sua colocação em um projeto com tanto material de arquivo para ser selecionado, e sua posição inicial estava mais como assistente do editor Sergei Ivanov. No entanto, ao conversar com o diretor responsável pelo projeto, Semyon Aranovich, Sokúrov apresentou inúmeras ideias para o andamento do filme, convencendo a produção de suas propostas, propondo novos caminhos para o roteirista Boris Dobrodeyev e claro, assumindo o comando do documentário ao lado de Aranovich. Uma rápida escalada.

Embora não tenha imprimido aqui nenhum verdadeiro ingrediente de sua identidade como diretor (pinturas reais ou criadas na tela — pela manipulação da fotografia ou através de lentes especiais e longos planos oníricos), Sokúrov encaminhou Sonata Para Viola para uma abordagem ao mesmo tempo lírica, social e política, transformando o didatismo de uma “saga da vida” numa jornada onde os acontecimentos não são todos vistos de forma cronológica e onde o mundo ao redor do biografado muitas vezes ganha mais destaque do que o próprio protagonista, a fim de preparar um entendimento geral do público para uma nova fase do artista.

A quantidade de material produzido exclusivamente para este documentário foi muitíssimo pequena. A maior parte do projeto é composto de documentários, filmagens governamentais, filmagens pessoais do compositor e amigos ou gravações em áudio que mostram diversos momentos da vida do músico através das movimentações sociais na URSS (a maioria sem nenhuma explicação adicional para o público, apenas música e vídeo se entrelaçando e formando um todo), criando uma abordagem capaz de nos fazer mergulhar no tempo e entender o artista como se vivêssemos no tempo em que ele viveu. E em meio ao largo material entre vídeos, áudios e fotos que a obra nos traz, há que se destacar o contraponto de Yevgeny Mravinsky regendo o final da 5ª Sinfonia, com Leonard Bernstein regendo o mesmo trecho à frente da Filarmônica de Nova York em Moscou, em 1959, tendo o próprio Shostakovich na plateia.

Abordagens mais experimentais e marcadas por elementos fantasiosos ou oníricos em documentários não são muito bem aceitas pelos que entendem o gênero engessado em apenas uma escola: a jornalística-realista, onde o real supostamente só pode ser capturado como imitação do real, sem interferências, especialmente na pós-produção. Aqui em Sonata Para Viola, não essa visão é risível em toda a sua extensão é colocada de lado, como também a manipulação feita pelos diretores adiciona uma carga emocional que se une ao poder da música de Shostakovitch e termina por dar suporte ainda maior às conclusões a que o filme chega, sobre a grandeza e legado do compositor. Superados alguns exageros de duração de sequências de ligação entre os blocos no primeiro e segundo atos, estamos diante de um documentário que procura abraçar fatos e sensações, mantendo em foco aquilo que deve nos informar, mas jamais retirando a alma que um projeto sobre a vida de Shostakovitch deveria ter.

Sonata Para Viola – Dmitri Shostakovitch (Altovaya Sonata. Dmitriy Shostakovich) — URSS, 1981
Direção: Semyon Aranovich, Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Boris Dobrodeyev
Duração: 77 min.

Crítica | For Sama

Passado proeminentemente em um hospital improvisado durante o cerco de Aleppo pelas tropas do regime de Bashar Al-Assad, as comparações de For Sama com The Cave, documentário que também concorre ao Oscar 2020 nessa categoria, é inevitável. Em essência, temos duas obras com a mesma mensagem e compostas de imagens obtidas no fronte por quem vive na região e em um mesmo tipo de local, diferenciando-se apenas pela estrutura narrativa e pela abordagem estilística.

For Sama é montado como um diário da jornalista síria Waad Al-Kateab para sua filha Sama, nascida durante a guerra civil por que passa seu país, com uma pegada não completamente linear que nos leva do presente da fita – o ano de 2016 – para o início da tentativa da população, pegando carona na Primavera Árabe, de derrubar a ditadura da linhagem de Assad. Além disso, Waad e seu co-diretor Edward Watts, não economizam na inserção de filmagens extremamente gráficas, talvez a principal diferença em relação a The Cave, que tenta ser mais sutil. Apesar de nenhum documentário sobre essa guerra ser exatamente fácil de assistir, For Sama é particularmente difícil pela forma gráfica em que as mortes são efetivamente encaradas, sem filtros e sem nenhuma tentativa de atenuar seus impactos.

As idas e vindas temporais – a cada vez que voltamos para 2016, o documentário avança um mês no cerco de Aleppo – são muito bem-vindas e muito bem trabalhadas como forma de se contextualizar a história sendo contada, até porque, como o título deixa claro, trata-se de uma forma de Waad e de seu marido, o médico Hamza, diretor do mencionado hospital improvisado, de “conversar” com a Sama do futuro e de justificar suas escolhas pessoais de não abandonar a cidade e de manter a menina sempre junto com eles. Se pessoalmente é possível que o espectador tenha dúvidas da prudência de se fazer o que o casal fez com Sama, expondo-a aos bombardeios aéreos diários ao local tanto com mísseis comuns quanto com bombas “sujas” enquanto havia alternativas a isso que eles propositalmente não exerceram, sob o ponto-de-vista puramente narrativo – o que exige uma certa frieza de análise, não tenham dúvida – é a presença constante da bebezinha e seu futuro incerto que dão o recheio de tensão e medo que diferencia esse documentário de outros sobre a mesma temática.

Há, também, a riqueza das imagens capturadas por Waad. Ela não tem o gabarito técnico para oferecer material que não seja a “filmagem tremida de câmera na mão”, mas isso não é empecilho algum para que seu vasto material – foram mais de 400 horas desde 2011 – não resulte em uma obra que entrega uma panorama ao mesmo tempo macro e micro da história dessa terrível e criminosa guerra civil que assola o país, com um desenvolvimento digno de filme de suspense (de terror, na verdade) que a filmagem em estilo de guerrilha só amplifica. E é refrescante ver a preocupação em voltar no tempo diversas vezes para enfocar no sentimento de revolta crescente da população jovem local iniciando um movimento cheio de esperanças, somente para ver tudo desabar na medida em que os anos passam. Triste, sem dúvida, mas essa rica contextualização é muito interessante, ainda que por algumas vezes o sentimentalismo que descamba para “ah, minha casinha” e “minhas plantinhas morreram” seja um pouco demais dentro do esquema geral do que já fica sobejamente claro.

Teria sido talvez mais interessante trabalhar ainda mais com as sequências brutais do passado, com elipses menores para a crescente destruição da cidade. Há um vazio temporal razoavelmente grande que fica sem preenchimento com imagens sem razão aparente que não seja escolha dos diretores, talvez mais interessados em focar o presente da fita. No entanto, esses possíveis enxertos, que certamente alongariam o documentário – que é razoavelmente curto e, portanto, poderia se dar ao luxo de ganhar extensões – teriam o condão de criar transições mais suaves entre a Aleppo do começo da revolta e a Aleppo de 2016, basicamente terra arrasada.

Mesmo sem isso, porém, For Sama é um retrato poderoso da crueldade de uma guerra que faz vítimas indiscriminadamente e usando os mais sujos expedientes e de um povo que não se acovarda diante de um prognóstico sombrio sobre suas chances de sobrevivência. Não é somente uma lição para Sama e sim para todos nós, mesmo tão distante de um conflito dessas dimensões.

For Sama (Reino Unido, Síria – 2019)
Direção: Waad Al-Kateab, Edward Watts
Com: Waad Al-Kateab, Hamza Al-Kateab, Sama Al-Kateab
Duração: 100 min.

Crítica | In the Absence

Em 2014, o ferry Sewol, que fazia o transporte de 476 pessoas, a maioria alunos de uma escola secundária, de Incheon até a ilha de Jeju, na Coréia do Sul, naufragou. Na verdade, ele adernou lentamente até, horas depois, afundar quase que completamente. Essa tragédia, como tantas outras que, como brasileiros, testemunhamos em nosso dia-a-dia em menor ou maior proporção, poderia ter sido evitada. Não necessariamente o naufrágio em si, mas sim a perda de vidas, já que somente 164 pessoas foram resgatadas.

In the Absence é um documentário em curta metragem dirigido por Yi Seung-jun que perfeitamente documenta o acidente e a mais absoluta incompetência das autoridades em fazer alguma coisa – qualquer coisa! – de útil para as vítimas, apenas uma das infindáveis atrocidades da presidência de Park Geun-hye, que foi alvo de um bem-sucedido processo de impeachment entre 2016 e 2017. Quando digo perfeitamente, quero dizer exatamente isso: em apenas 28 minutos, o cineasta, fazendo apenas uso de imagens e gravações da tragédia e da investigação parlamentar, além de depoimentos de sobreviventes, mergulhadores e parentes das vítimas, conta a história e suas consequências detalhadamente em uma narrativa forte, assustadora e emocionante.

O cineasta não tenta florear sua obra e cria um documento didático no melhor sentido possível, sem recorrer a explicações cansativas, mas, ao mesmo tempo, indo a fundo nos detalhes do ocorrido, com imagens e áudios realmente destruidores. Com muito material ao seu dispor em razão dos anos decorridos e das investigações que se seguiram, Yi Seung-jun foi capaz de brilhantemente parear as imagens do naufrágio em si com o áudio do que estava ocorrendo no mesmo momento no gabinete da presidente, revelando a inacreditável “bateção de cabeça” das autoridades que se mostram muito mais preocupadas em ter câmeras apontadas para o navio do que efetivamente resgatar alguém.

É exasperante assistir In the Absence, especialmente quando transpomos esse tipo de absurdo completamente evitável para situações que acontecem todos os dias no Brasil há décadas. Se imaginamos que esse tipo de coisa só pode acontecer aqui e outros países subdesenvolvidos, chega a ser uma surpresa completa o nível de incompetência demonstrado no documentário, além da gigantesca covardia do capitão do navio que, assim o do Costa Concordia, na Itália, em 2012, foi o primeiro a abandonar o navio.

Mas o que realmente impressiona é o timing do cineasta em mostrar exatamente o que é necessário para tornar In the Absence uma obra que faz tudo o que um documentário dessa natureza deve fazer: apresentar o caso e abordar suas consequências. Claro que ele toma posicionamento sobre o ocorrido – e que outro posicionamento alguém em sã consciência poderia tomar -, mas até isso ocorre organicamente, a partir da mencionada sincronização de imagens e áudio e pelo uso de depoimentos duros e tristes, mas que não se alongam e vão diretamente ao ponto.

In the Absence é a magistral documentação de uma tragédia e, mais do que isso, uma sóbria, respeitosa e elegante homenagem audiovisual para as vítimas do naufrágio e seus parentes, além de uma condenação furiosa de um governo perdido. Sem dúvida alguma, uma aula de cinema documental que muitos documentaristas não conseguem repetir com muito mais tempo e orçamento.

In the Absence (Coréia do Sul, 2018)
Direção: Yi Seung-jun
Com:
Duração: 28 min.

Crítica | The Cave (2019)

Entre 2013 e 2018, a cidade de Al Ghouta, subúrbio de Damasco, na Síria, viveu uma terrível situação de sítio durante a Guerra Civil Síria, sendo bombardeada quase que diariamente pelas forças aliadas a Bashar al-Assad. É de dentro dessa situação impossível que o novo documentário de Feras Fayyad, responsável pelo igualmente importante Últimos Homens em Aleppo, traz uma narrativa dolorosa, difícil de assistir e mais difícil ainda de analisar sem deixar que os sentimentos sobre o que vemos na tela transbordem para o texto.

O foco é na jovem pediatra síria Amani Ballour que é também a diretora do hospital improvisado conhecido como “A Caverna”, ligado a diversas partes da cidade por um emaranhado de túneis construídos ao longo dos anos como a única forma razoavelmente segura de locomoção pela região devastada. Determinada e extremamente corajosa, Amani é amada por todos no hospital, inclusive o cirurgião bem mais velho Alaa, que defere a ela todo o respeito possível mesmo quando outros homens se espantam que uma mulher seja algo mais do que uma esposa que deve ficar em casa cozinhando e cuidando dos filhos. O preconceito causado pela religião intolerante perpassa toda a narrativa e, ainda que não seja o foco do documentário, é mais um elemento que torna ainda mais complexa a atuação de Amani.

As imagens são impressionantes. Duras, mas não explícitas – Fayyad talvez acertadamente tenha evitado manter na fita as cenas mais pesadas em um esforço para universalizar sua obra -, elas ao mesmo tempo destroem e reconstroem nossas esperanças na humanidade. De um lado, os bombardeios incessantes, as mortes desnecessárias de crianças, o ataque com armas químicas e a falta de comida e medicamentos desnudam a crueldade de uma guerra criminosa e particularmente destruidora para a população civil e, pior, sem indicação de algum tipo de resolução. De outro lado, o incansável trabalho de Amani e de toda a equipe do hospital, que fazem absolutamente de tudo para trazer um semblante de esperança para a população massacrada, inevitavelmente, mesmo diante dos horrores, transmitem a resiliência da humanidade diante do pior. É impossível não sorrir com Amani e com a quase sempre alegre Samaher, responsável, dentre outros, pela comida da equipe, nos momentos singelos de felicidade quando uma vida é salva ou quando um aniversário é comemorado com pipoca e muita imaginação.

Ao mesmo tempo, é impossível não sentir um profundo incômodo por termos o privilégio de ficarmos revoltados no conforto de nosso sofá, olhando para uma tela de TV. Entra ano e sai ano, documentários dessa natureza são lançados, apreciados e premiados e as situações que denunciam não só não melhoram, como pioram e nós, do lado de cá, nada de efetivo fazemos. Claro que cada um de nós vê outros problemas mais sérios e imediatos ao nosso redor imediato e a preocupação sobre a tragédia Síria, de repente, parece menor. Mas é assustador testemunhar a magnitude de tudo e, por consequência, nossa completa passividade ou, na grande maioria dos casos, nossa “revolta de rede social”. O que fazer? Não tenho essa resposta e talvez apreciar obras como The Cave seja sim parte de uma solução de longo prazo. Pelo menos é essa a esperança.

Mas, retornando às imagens selecionadas por Fayyad a partir de filmagens com celular e câmeras fotográficas, é assombroso notar sua qualidade, com um trabalho de fotografia excepcional diante das circunstâncias. Há um zelo visual que é raro de se ver em obras semelhantes, o que me faz imediatamente imaginar quantas horas (dias!) de filmagem não foram cortadas na ilha de edição, o que torna a técnica de Fayyad ainda mais apurada e digna de apreciação e agradecimento.

Além disso, o cineasta sírio sabe contar uma história. Ele não é didático e parte da premissa que o espectador já tem um conhecimento mínimo sobre a história recente de seu país. Seu foco é ser um observador da tragédia e da força de vontade dos funcionários do hospital tendo Amani como uma espécie de guia para não permitir qualquer desvio narrativo significativo. E ele é bem sucedido em até mesmo criar suspense sobre o que acontecerá ou deixará de acontecer com todos ali, mas sem “baratear” seu enfoque. Muito ao contrário, a abordagem de Fayyad é constantemente digna e sofisticada, mantendo a solenidade que a gravíssima situação exige.

The Cave é mais um documentário que é um retrato de nosso tempo: um mundo conectado, mas fraturado em que horrores acontecem ali, bem ao lado. E, na grande maioria das vezes, tudo o que podemos fazer é observar, passivos, a desgraça alheia. Sempre foi assim na História da Humanidade, não tenham dúvida, mas o nosso acesso a imagens é sem precedentes. O cuidado que temos que ter é não deixar que o “acesso confortável” aos horrores nos deixe entorpecidos.

The Cave (Idem, Síria/Dinamarca/Alemanha/Catar/EUA – 2019)
Direção: Feras Fayyad
Roteiro: Alisar Hasan, Feras Fayyad
Com: Amani Ballour, Samaher, Alaa
Duração: 107 min.

Crítica | Indústria Americana

Indústria Americana, de certa forma uma continuação de The Last Truck: Closing of a GM Plant, de 2009, é o primeiro filme da Higher Ground Productions, produtora nascente de ninguém menos do que Barack e Michelle Obama. E isso é o que de melhor posso dizer sobre esse documentário dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert, focado na entrada da Fuyao, empresa chinesa fabricantes de vidros automobilísticos, em território americano, ocupando a fábrica da GM fechada em 2008 e que fora objeto do documentário anteriormente citado.

Diferente do que muitos podem imaginar, documentários não são documentos assépticos e sem opiniões que precisam analisar cada lado da história de maneria isenta e equilibrada. A “contaminação” dessas obras por ideologias, posicionamentos políticos, religiosos, sócio-culturais e tudo mais fazem parte do jogo e, muito francamente, é o que dá o sabor para a grande maioria delas, especialmente quando o espectador discorda da abordagem assumida, já que é isso que gera o debate sadio e, nessa esteira, o aprendizado. A questão é que, para que isso ocorra, é necessário que o documentário tenha um objetivo e um caminho claro a ser trilhado, sob pena de os assuntos que aborda ou ficarem incompletos ou, no final das contas, parecerem uma compilação de informações soltas sobre determinada situação.

E é exatamente isso o que acontece em Indústria America. Se o curta documental The Last Truck – que concorreu ao Oscar em sua categoria em 2006 – tinha um objetivo claro, que era documentar o fechamento da fábrica da GM e a demissão de três mil funcionários em Moraine, Ohio, o novo longa da dupla de diretores atira para todos os lados sem parar para mirar e, portanto, acaba não acertando em nada, pelo menos não de maneira significativa e duradoura. E olha que não é por falta de questões interessantes para abordar.

Se inicialmente os conflitos culturais entre americanos e chineses – a visão que cada “lado” tem do outro trafega por todos os estereótipos que podemos imaginar – ganha relevo e parece sedimentar as bases da narrativa, isso logo é deixado de lado para que a formação ou não de um sindicato de trabalhadores passe a ser o foco por algum tempo, somente para novamente abrir espaço para outros assuntos paralelos como a viagem de um grupo de americanos para a sede chinesa da empresa e a mudança de postura corporativa em relação ao comando da filial americana. Ainda que seja perfeitamente possível concatenar as narrativas soltas em uma linha temporal lógica, esse não é um trabalho que deve ser jogado no colo do espectador, especialmente considerando que as questões não são abraçadas de verdade pela narrativa e sim salpicadas aqui e ali na medida em que há imagens ou sons gravados clandestinamente para apimentar o documentário.

Com isso, não fica exatamente claro se Bognat e Reichert estão criticando o sistema capitalista como responsáveis por todas as mazelas do mundo (se você ouviu um som agora, foram meus olhos revirando) ou se o objetivo é mostrar o quão inconciliáveis são as posturas americana e chinesa em termos corporativos e sociais ou se o foco está mesmo nas questões de aproximação cultural entre os dois países ou, ainda, se a questão fica restrita às vantagens e desvantagens do sindicalismo. Ao tentar abordar tudo, os diretores não abordam nada com profundidade e coesão e sequer conseguem transmitir seu posicionamento sobre determinado assunto. É como se Indústria Americana fosse a costura mal feita de dois ou três potencialmente interessantes documentários em curta-metragem que a produção tinha em mãos.

Os Obamas poderiam ter escolhido material melhor para fazer sua estreia no audiovisual. Indústria Americana sofre de falta de foco e de sofreguidão narrativa que, porém, por levarem o carimbo do querido casal presidencial americano, provavelmente terá todos os seus defeitos convenientemente esquecidos para continuar ganhando todas as láureas possíveis.

Indústria Americana (American Factory, EUA – 2019)
Direção: Steven Bognar, Julia Reichert
Com: Junming ‘Jimmy’ Wang, Robert Allen, Sherrod Brown, Dave Burrows, Austin Cole, John Crane, John Gauthier, Rob Haerr, Cynthia Harper, Wong He, Timi Jernigan, Jill Lamantia, Jeff Daochuan Liu, Shawnea Rosser, Rebecca Ruan-O’Shaughnessy
Duração: 110 min.

Crítica | Cantoras do Rádio

As cantoras do rádio eram artistas de uma geração que tinha no tratamento vocal o caminho ideal para seduzir os seus respectivos públicos. Isso não significa que a elegância estivesse distante dessas figuras que fizeram bonito, artisticamente, na cena da primeira metade do século XX. Hoje, eclipsadas pela cultura da mídia frenética, do videoclipe e das novas maneiras de se consumir arte, tais cantoras perderam espaço, haja vista o interesse das rádios atuais em fornecer cultura para o público jovem, algo que não é novidade em nenhum meio de comunicação que precisou se adaptar às demandas da indústria cultural, capitalista, focada no lucro não apenas como estratégia de enriquecimento, mas também como uma maneira de sobrevivência.

Assim, Cantoras do Rádio faz uma radiografia com fotografias e as vozes de arquivo de nomes como Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Nora Ney, Carmélia Alves, Ellen de Lima, Violeta Cavalcante, Aurora Miranda, Aracy de Almeida, Isaura Garcia, Linda Batista, Dircinha Batista e Elizeth Cardoso, entrecortados com os depoimentos de quatro delas, ainda atuantes e com um lastro extenso de memória para narrar, com informações valiosas sobre a Era de Ouro do Rádio, a importância da Rádio Nacional para os seus trabalhos, histórias sobre composições famosas, etc. Chico Anysio e Ricardo Cravo Albim, este último, um respeitado pesquisador sobre a MPB, também depõem e analisam a situação destas artistas, esquecidas no contemporâneo.

Dirigido por Gil Baroni, realizador que teve como guia o roteiro que escreveu em parceria com Mônica Rischbieter, Cantoras do Rádio é um documentário com importantes considerações históricas e sociológicas sobre o consumo de cultura no Brasil, em específico no esquema radiofônico, rentável até o processo de massificação mais intensa de outras mídias, tais como o cinema e a televisão. Delineio essa importância temática porque na seara estética, a produção deixa muito a desejar. Não é incômoda, mas poderia ser mais caprichosa, haja vista os picos altíssimos entre as boas imagens e as captações medianas. O roteiro também não organiza adequadamente os depoimentos para alcançar o tom didático que a produção se propõe, afinal, trata-se de um filme, mas também há a preocupação em “informar” e “intervir”.

A intervenção está nas constantes incursões das artistas e de pessoas que viveram a cultura radiofônica, insistentes em levantar tópicos sobre a perda de espaço para mulheres tão talentosas, bem como a falta de busca por uma música contemporânea que seja “essencialmente brasileira”. É uma crítica aberta ao consumo de enlatados estrangeiros, presentes massivamente em nossa cultura, numa espécie de comportamento que abandona os elementos que fazem parte do que se convencionou de cultura brasileira. Neste ponto, os realizadores estão cobertos de razão, no entanto, criticam e esquecem de refletir o processo de globalização que envolve tais demandas. Partindo do pressuposto de que é um documentário que atravessa um considerável período histórico, era preciso trazer tais tópicos para refletir, ou então, tratar apenas do outro lado da produção, isto é, a biografia e as homenagens às cantoras do rádio, numa análise da importância de seus trabalhos para o engrossar do caldo da Música Popular Brasileira.

Dentre tantos tópicos, as depoentes colocam que diante da ausência de suas vozes nas rádios, elas precisam ocupar espaços como o teatro. É uma maneira de garantir a sobrevivência e ter as suas vozes ainda a ecoar para o público que admira este tipo de trabalho, numa era de explosão pop, período em que na maioria dos casos, as performances são mais importantes que a qualidade das composições e contemplação de seus respectivos interpretes. Nesta seara, o documentário é falho ao não esboçar alguma reflexão sobre a possibilidade destas artistas se reinventarem na era das redes sociais e aplicativos. Será que mesmo diante de uma pergunta quase retórica, haja vista o tipo de trabalho e a geração a que elas se destinam, as cantoras do rádio de fato não conseguiriam alcançar sucesso ou visibilidade ao perfurar as camadas que as delimitam nos circuitos tradicionais de transmissão? Era uma questão interessante para debate.

Ademais, Cantoras do Rádio é um documentário que serve como introdução para os interessados no assunto. Peca pela dispersão em sua montagem, com depoimentos muito curtos, abruptamente editados enquanto os entrevistados aparentemente tinham algo a dizer. Salvas as devidas proporções, o que temos é uma alegoria do trabalho científico, pois a produção parece um artigo cheio de potencial e com resultados importantes interessantes para os tópicos reflexivos que empreende, mas falta o uso das regras da ABNT, para tornar as informações bem organizadas no “corpo do texto”. Produzido durante a realização dos espetáculos da turnê Estão Voltando as Flores, de 2005, o documentário de 81 minutos, lançado em 2009, é uma tarefa dedicada no que diz respeito ao processo de interpretação de parte da nossa história radiofônica. Faltou apenas melhoras na revisão e na apresentação dos dados.

Pra Frente, Brasil — (Brasil, 2009)
Direção: Gil Baroni
Roteiro: Gil Baroni, Mônica Rischbieter
Elenco: Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Nora Ney, Carmélia Alves, Ellen de Lima, Violeta Cavalcante, Aurora Miranda, Aracy de Almeida, Isaura Garcia, Linda Batista, Dircinha Batista, Elizeth Cardoso, Chico Anysio, Ricardo Cravo
Duração: 81 min.

Crítica | Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

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A História é uma disciplina que lida com a memória, o impacto e as implicações contextualizadas (antes e depois dos fatos) das realizações humanas. É através dela que diversos recortes e interpretações da realidade são possíveis, dependendo de quem e com qual intenção ou a partir de quais fontes a registra. Com isso em mente, fica fácil entender o por quê indivíduos que estudaram e pesquisaram para registrar momentos históricos podem excluir ou modificar — dependendo de sua base de informações e contexto na produção do documento — o protagonismo de uma grande realização. Exatamente como os primeiros historiadores do cinema fizeram com a pioneira Alice Guy Blaché, considerada a primeira mulher cineasta do mundo, diretora de centenas de filmes (447, segundo o IMDB) dos quais, por muitos anos, ela não recebeu os devidos créditos.

Em Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (2018), a diretora Pamela B. Green e sua co-roteirista Joan Simon fazem um belíssimo exercício de retomada histórica, indo diretamente nas fontes originais (fontes orais, escritas, filmadas ou gravadas) para contar a trajetória cinematográfica de Guy Blaché, indo de seu trabalho inicial como secretária de Léon Gaumont até a luta, nos anos finais de sua vida, para reaver os filmes perdidos com o tempo e conseguir a justa indicação dos créditos nos filmes que dirigiu e que constantemente foram atribuídos aos seus assistentes de direção ou cineastas que nem estavam no local das filmagens no dia em que Alice rodou a obra.

Mesmo que outras mulheres pioneiras sejam citadas com a devida importância para os primeiros passos do cinema, como Lois Weber (Mrs. Smalley) — a primeira diretora americana –, Germaine Dulac e Dorothy Arzner, o documentário não se perde e está sempre retornando ao seu tema principal, que é a diretora francesa. A narração que nos guia por diversos lugares e tempos é realizada por Jodie Foster, que igualmente assina como uma das produtoras executivas da fita.

Pamela Green adota um estilo extremamente dinâmico, rico em imagens, vídeos, áudios, fotografias, documentos e trechos de filmes da homenageada (até cenas do excelente Algie, the Miner aparecem aqui), mas não toma tempo demais com esses filmes na tela, como muitas vezes acontecem em documentários, onde até mais de 5 minutos por vez são consumidos com a exibição de cenas de um outro filme, o que é um grande absurdo. Há aqui em Be Natural um grande equilíbrio entre material de arquivo e a própria construção do filme, com registro da busca por informações sobre Alice, colocando Green em contato com diversos parentes próximos e distantes e algumas belas surpresas e descobertas no meio do caminho.

Se olharmos com atenção para o final do filme, perceberemos uma corrida maior e uma ausência de toda a elegância na demonstração de informações que tivemos ao longo de toda a sessão, o que impede que o longa alcance uma nota máxima. Esse aspecto técnico, todavia, em nada interfere na relevância e necessidade do tipo de informação que temos aqui. Aspectos da História do Primeiro Cinema na França e nos Estados Unidos são explorados, assim como a descoberta de diretores que foram marcados e até influenciados por Alice, como Eisenstein e Hitchcock; completando com mudanças e criações tecnológicas da indústria com o passar do tempo, o escanteamento das mulheres no papel criativo do cinema a partir dos anos 30 e o registro ou apagamento de seus feitos em livros, artigos, reportagens, aulas e discursos… tudo isso é discutido aqui, trazendo-nos no fim a felicidade de ver um nome como o de Alice Guy Blaché finalmente ser conhecido e reconhecido pelo que representou para a Sétima Arte.

Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché) — EUA, 2018
Direção: Pamela B. Green
Roteiro: Pamela B. Green, Joan Simon
Elenco: Richard Abel, Marc Abraham, Stephanie Allain, Gillian Armstrong, John Bailey, Cari Beauchamp, Lake Bell, Peter Billingsley, James Bobin, Serge Bromberg, Kevin Brownlow, Jon M. Chu, Diablo Cody, Bobby Cohen, Julie Corman, Geena Davis, Julie Delpy, Lorenzo di Bonaventura, Ava DuVernay, Jodie Foster, Michel Hazanavicius, Patty Jenkins, Ben Kingsley, Andy Samberg, Marjane Satrapi, Julie Taymor, Agnès Varda, Evan Rachel Wood
Duração: 103 min.

Crítica | Movimento Consumerista Brasileiro

Imagine a sua ida ao supermercado. As filas já são um dos grandes problemas, somadas ao trânsito para chegar e os transtornos da volta. Nas seções dos produtos de sua necessidade, diversos itens estão com prazo de validade vencido e os rótulos não apresentam detalhes sobre os ingredientes que compõem o produto que você precisa levar para consumir. Como lidar com tais conflitos? Como fica isso diante da relação entre consumidor, fornecedor, serviço e produto? Quem regulamenta esta seara de interações? No Brasil, antes de 1991, não havia um movimento organizado. Assim, nessa época, algumas necessidades dos cidadãos foram atendidas com o surgimento do Código de Defesa do Consumidor, em voga até os dias atuais.

Sob a direção de Deisi Fanfa, o documentário Movimento Consumerista Brasileiro apresenta aos espectadores os entraves, as discussões mais importantes, os entraves e polêmicas, bem como as batalhas diante dos obstáculos. Foi um processo longo e regido por muitas forças contrastantes, cada uma em busca da defesa de seus respectivos pontos de vista. Demasiadamente longo, a produção de 145 minutos aposta nos depoimentos tradicionais, captados em plano médio, tendo como plano de fundo elementos que coadunam com a profissão ou posição social do entrevistado.

Preocupada com a legitimação das questões abordadas, a produção investiu em imagens de arquivo, sendo as emissoras Globo, Bandeirantes e a TV Senado, as principais fontes de informação disseminadas nas partes expositivas, acompanhadas pela narração eficiente de Nelson Ribas. Movimento Consumerista Brasileiro não é o tipo de documentário que funcione como entretenimento. Creio que a produção seja mais o resultado de uma extensa pesquisa e um material de cunho didático para os interessados em aprofundamento acerca de suas questões. Ademais, alguns depoimentos se alongam demais, outros são breves, num descompasso que não atrapalha a missão do produto.

Financiado pelo Fundo de Defesa de Direitos Difusos do Ministério da Justiça, o documentário traz 87 depoimentos de diversas pessoas conectadas com a evolução do Código de Defesa do Consumidor, conjunto de regras que, por sinal, serviu de modelo para diversos documentos regidos pelo Direito em outras localidades do planeta. Numa parceria entre o Ministério da Justiça e a Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo, em Minas Gerais, a produção traz depoimentos de funcionários atuais e antigos de setores como a Defensoria Pública, SENACON, PROCONS (diversos estados), agências reguladoras, Poder Judiciário, dentre outros.

Antes de dar continuidade aos detalhes do documentário e do próprio CDC, é importante que as pessoas que dialogam sobre o assunto entendam as definições e o “lugar” de cada agente em nossas relações de consumo. O consumidor, como se sabe, é toda pessoa física ou jurídica que passa a adquirir um produto ou serviço como destinatário final do processo. O fornecedor, importante ressaltar, é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou de origem estrangeira, a desenvolver atividades que envolvam produção, criação, montagem, comercialização de produtos ou prestação de serviços. Por fim, o produto, qualquer bem móvel ou imóvel, material ou imaterial, oriundo de um serviço, isto é, qualquer atividade no mercado de consumo.

Entendida estas definições basilares, tal como exposto no parágrafo introdutório, o nosso CDC inspirou diversas normas em outros países, o que culminou num conjunto de tópicos voltados ao processo de transparência e respeito mútuo nas relações de consumo. Em sintonia com os parâmetros da Constituição de 1988, os tópicos legais da Lei 8.078/90, isto é, o CDC, em vigor desde 11 de março de 1991, regulamentou tópicos que preconizam, pormenorizadamente, normas protetivas ao consumidor, algo que colaborou com o resgate da cidadania de muitas pessoas, dando suporte, como uma bússola, para as suas práticas consumidoras.

Ademais, uma produção necessária para todos nós, pessoas que nas palavras de Canclini, são definidas como “consumidores e cidadãos”.

Movimento Consumerista no Brasil — (Brasil, 2016)
Direção: Deisi Fanfa
Roteiro: Deisi Fanfa
Elenco: Edila de Araújo, Daniel Roberto Fink, Cristiano Rodrigues Aquino, Eduardo Sanovicz, Eli Correa Filho, Flávio Citro, Francisco Moesch, Gisele Garuzi, José Eduardo Cardozo
Duração: 145 min.

Crítica | Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha

Não são só 20 centavos. Também chamados de Manifestações dos 20 Centavos e Jornadas de Junho, os movimentos em prol da contestação do aumento da tarifa do transporte público em diversas cidades brasileiras demarcam a insatisfação popular diante desse estopim que também revelou a insatisfação das pessoas diante da corrupção política no país, os gastos públicos para eventos esportivos internacionais, etc. O auge do movimento, no entanto, foi a repressão policial contra os manifestantes, polêmica que ganhou dimensão internacional e permeou os debates sobre liberdade de expressão no Brasil. É neste ponto que entram as reflexões no documentário Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha, produção focada nestes movimentos sociais para discutir o papel do fotojornalista na sociedade contemporânea. Mídia alternativa, blackblocks, fotógrafos mortos por posturas irresponsáveis de grupos isolados de manifestantes e outros acontecimentos fizeram deste momento histórico brasileiro um período de fortes tensões.

No desenvolvimento do documentário Abaixando a Máquina – Dor e Ética no Fotojornalismo Carioca, nós pudemos acompanhar os desdobramentos da tarefa dos fotojornalistas na dinâmica da captação de imagens no cenário urbano do Rio de Janeiro, abordagem crítica para a função de fotógrafo que representa bem a trajetória deste segmento profissional em qualquer região urbana do nosso planeta, espaços de interações humanas permeadas por tensões e outros tópicos da nossa existência em sociedade. Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha é a continuação dentro da temática, desta vez, menos intensa e interessante, mas num diálogo importante sobre tais manifestações populares que demarcaram as insatisfações de muitos cidadãos brasileiros diante das crises enfrentadas pelos brasileiros em vários setores.

Desde o primeiro filme, “Abaixando a Máquina” busca refletir sobre o “lugar” do fotojornalista na sociedade contemporânea, constantemente em diálogos mediados pela imagem. Com os smartphones cada vez mais avançados, o cidadão repórter tem ganhado espaço e a formalidade do diploma e da certificação perdeu bastante espaço. Diante do cenário, ao longo de seus 90 minutos, questiona-se: o estado brasileiro incitou a violência nas manifestações de rua? Essa pergunta guia e conduz os espectadores diante da radiografia dos movimentos e da forma como a mídia hegemônica trabalhou na divulgação de informações, bem diferente do que foi realizado pelos grupos alternativos, munidos de equipamentos próprios e em constante disputa no que podemos chamar de guerra das imagens, incitados e acusados de agir com violência.

A condução do documentário segue o padrão do filme anterior, tendo a linguagem jornalística acadêmica como fio narrativo para os depoimentos e imagens amadoras, mais volumosas nesta continuação que em seu antecessor, algo interessante contextualmente, mas prejudicial no que tange aos aspectos estéticos. Dentre os temas debatidos, temos a preocupação de determinados grupos hegemônicos na tarefa exercida pela imprensa em sociedade, haja vista o poder de denúncia do jornalismo, em especial, do fotojornalista, afinal, uma imagem às vezes vale mais que mil palavras, não é isso que o ditado popular diz? No entanto, preocupações com a manipulação da imagem se estabeleceram dentro deste campo de atuação, um dentre tantos ameaçados pela ditadura imposta pela cibercultura e suas possibilidades comunicacionais.

Adiante, outros temas são abordados, alguns com afirmativas, outros com questionamentos. Existe foto chocante ou feio é mesmo o nosso dia-a-dia? Como o trabalho em fotojornalismo pode afetar na opinião pública? Quais os impactos do repórter cidadão na transmissão da notícia em tempos de redes sociais e aplicativos? Como o modo de operação horizontal mudou a forma de enviarmos e recebermos mensagens? Por que a mídia independente precisa conviver com a tradicional? O que se ganha ou se perde com isso? Conviver é mesmo preciso? Quais os impactos de matérias sem respaldo, divulgadas por meios de comunicação bem estabelecidos na sociedade? Os oligopólios midiáticos, de fato, atrapalham ou colaboram na transmissão da mensagem diária exercida pelo jornalismo? Sindicatos importam? Essas são algumas das questões levantadas e respondidas pelos depoentes no documentário.

Com roteiro escrito por Guillermo Planel, acompanhamos muitas imagens amadora em paralelo aos depoimentos registrados pela direção de fotografia de Daniel Planel, editadas de maneira dinâmica por César Trindade, também responsável pelas animações e outros efeitos visuais. Desta vez, temos como destaque o uso constante de imagens aéreas, captadas com drones por meio do trabalho de Urbano Trindade. Funcionais, mas estressantes, as imagens externas carecem de qualquer apuro estético, sendo apenas instrumento informativo para os espectadores. Captadas no “calor” de um movimento que infelizmente perdeu o seu foco, muito graças à maneira como os seus participantes foram retratados, em alguns casos, comparados à terroristas, as imagens em Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha são sociológicas, mas não funcionam esteticamente, tampouco recebem alguma compensação nos trechos com depoimentos, captados por meio do tradicional plano médio, mais preocupado mesmo em informar do que necessariamente exercer a linguagem cinematográfica na produção.

Os depoimentos tomam como direcionamento a máxima “fotojornalista não faz demagogia, faz fotografia”, algo aparentemente simples, mas que desde o filme anterior, tornou-se, digamos, o lema da produção, uma crítica ao status de um importante profissional da informação no bojo de uma sociedade que constantemente desvaloriza o exercício do jornalismo, setor transformado diante das mudanças em nossa dinâmica comunicativa diária. Acusado de tornar a troca de informações precária, o whatsapp é apontado no documentário como um espaço para não aprofundamento, algo que podemos aceitar como possibilidade depois dos resultados as eleições de 2016 e 2018 nos Estados Unidos e Brasil, respectivamente, acontecimentos mediados pela propagação de fake news de grupos desesperados. No geral, o que se põe em debate é a importância do jornalismo participativo, mas sem a desvalorização de quem é profissional.

Abaixando a Máquina – No Limite da Linha — (Brasil, 2016)
Direção: Guillermo Planel
Roteiro: Guillermo Planel
Elenco: Alex Ferro, Alexandre Brum, Ana Branco, Berg Silva, Custódio Coimbra, Daniel Ramalho, Domingos Peixoto, Flávio Damn, Marcelo Carnaval, Márcia Foletto, Orlando Abrunhosa, Severino Silva, Evandro Teixeira, João Baet, Luis Alvarenga, Ivo Gonzalez, Luiz Morier, Guillermo Pinto, Ignácio Ferreira, Vânia Corredo
Duração: 90 min.