Dezembro de 2019

Crítica | Minha Mãe é uma Peça 3: O Filme

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“Siga o caminho do amor.”

Um ‘clássico’ da comédia nacional, Minha Mãe é Uma Peça conquistou o público por representar, de maneira hiperbólica e engraçada, a tradicional mãe brasileira. Nesse terceiro filme, os roteiristas tentaram abranger o símbolo da protagonista para todos os diferentes tipos de mães, utilizando, para isso, a dramaticidade. No entanto, esse é o maior erro que a trama poderia cometer. Em Minha Mãe é Uma Peça 3, Dona Hermínia (Paulo Gustavo) precisa lidar com o amadurecimento dos filhos, que agora seguem a própria vida. Marcelina (Mariana Xavier) está casada e grávida do hippie Sol (Cadu Fávero); e Juliano (Rodrigo Pandolfo) está planejando o casamento com o namorado Tiago (Lucas Cordeiro).

A necessidade de representar todas as mães afeta a protagonista. O roteiro não segue uma linearidade nos sentimentos dela, de modo que o primeiro ato se concentra na Dona Hermínia desleixada e barulhenta, tal qual conhecemos, e os outros dois atos puxam para um lado sentimental, comum a todas as mães. Claro que a protagonista tem seu lado dramático, porém, como vimos nos dois primeiros filmes, ela demonstra de uma forma diferente. O amor que costuma demonstrar é um voltado para o “te bato mas te amo”, e neste filme se concentra no “te amo mas te bato”. Nitidamente isso é um artifício utilizado para que todas as mães se sintam incluídas, desde as caricaturadas, como Dona Hermínia, até as mais “comportadas”. Porém, devemos lembrar que Dona Hermínia é um único personagem (e é uma caricatura!): ela não pode abranger todos os grupos. Terminamos o filme e, enfim, perguntamos: então, qual delas é a oficial? Esse questionamento foi o que mais diminuiu a nota atribuída, visto que a protagonista deveria ser um símbolo estável de referência para a mãe tradicional e exagerada, mas foi corrompida pela necessidade de vender o filme a todos os grupos. Talvez, esse terceiro filme nem mereça carregar o nome do “Minha Mãe é Uma Peça”.

Para sustentar isso, o roteiro quis introduzir uma dramaticidade que até funciona, porém é colocado em momentos inoportunos. Sob o sentimento compartilhado pela maioria das matriarcas, o famoso “amor de mãe”, Dona Hermínia passa a encontrar recordações em tudo que vê. Notadamente, isso é um elemento para representar todas as mães, visto que a maioria têm esse lado sentimental em relação aos filhos, no entanto dissipa grande parte da comicidade do filme. Todas as sequências dramáticas (que, saliento, são bem feitas), são seguidas por cenas que deveriam ser as mais cômicas. O espectador, dessa forma, não sabe se ri ou se chora (literalmente). Seria mais interessante que os produtores tivessem o cuidado de colocar “momentos neutros” depois desses acontecimentos. Precisamos de um tempo para organizar nossos sentimentos, não?

Além disso, há um excesso de Dona Hermínia na trama. Como protagonista, é claro que ela deve aparecer mais, porém a protagonista tapa todos os outros personagens. Como única fonte de comédia do filme, ela está presente em todas as cenas e, com o seu jeito extrapolante, rouba toda a aparição dos outros. Esse é um defeito que acompanha Minha Mãe é Uma Peça desde sua origem no teatro. Porém, é ainda mais marcante neste terceiro filme, pois os filhos movimentam mais a história do que a própria mãe: tudo gira em torno deles e com eles. Mas, mesmo assim, terminamos a película sem lembrar uma palavra ou ação dos filhos. É, enfim, um bombardeamento de Dona Hermínia.

Devo destacar que Minha Mãe é Uma Peça 3 é até mediano como filme independente. Mas fica abaixo da média por conta da perda de essência da protagonista e, então, do projeto inicial. Em outras palavras, se sustenta autonomamente, mas peca quando considerado a falta de ligação com os dois primeiros longas e com a ideia inicial. Por outro lado, ainda tem muitos momentos engraçados. Paulo Gustavo é uma boa opção para a protagonista, conseguindo um efeito cômico em grande parte da narrativa. Além disso, a obra deixa uma mensagem positiva em relação ao conceito de família: siga o caminho do amor. E essa é a mensagem do longa.

Minha Mãe é Uma Peça 3 é o pior, até agora, da franquia. Dona Hermínia quis ser todas, mas no fim esquece de ser ela mesma. Contudo, Paulo Gustavo ainda consegue levantar o humor na maioria das cenas, mas peca pelo excesso de Dona Hermínia durante a trama. No entanto, é indiscutível que o longa é importantíssimo por sua representação dos diferentes tipos de família, tal como meio para a luta contra o preconceito, em especial a homofobia.

Minha Mãe é Uma Peça 3: O Filme – (Brasil, 2019)
Direção: Susana Garcia
Roteiro: Paulo Gustavo, Susana Garcia, Fil Braz, Mônica Martelli, Natalia Piserni, Gabriella Mancini, João Paulo Horta, Andrea Batitucci
Elenco: Paulo Gustavo, Mariana Xavier, Rodrigo Pandolfo, Herson Capri, Samantha Schmütz, Alexandra Richter, Patricya Travassos, Malu Valle, Stella Maria Rodrigues, Cadu Fávero, Lucas Cordeiro, Bruno Bebianno, Edmilson Barros, Giovanna de Toni, Ana Carbatti, Tracy Legal, Eduardo Reyes
Duração: 111 minutos.

Crítica | O Aplicativo (The App)

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Desde o sucesso do jogo Simulacra, que tematiza revolução tecnológica por meio de inteligência artificial em aplicativos, é a segunda vez que a Netflix aposta em algo do gênero. Na primeira, a plataforma produziu o maravilhoso Cam. Agora, esboçou um projeto que acaba quando começa. Mais Simulacra que isso, impossível! Nick (Vincenzo Crea), um ator famoso, fica obcecado por um aplicativo de namoro, ao passo que desperta a desconfiança de sua namorada e dos produtores de seu primeiro filme em Roma.

A trama é a mais arrastada que já vi (e não é uma hipérbole). É a primeira vez que não consigo diferenciar os três atos, ou ao menos dois deles. Os roteiristas nos tratam como idiotas, e escrevem cenas cíclicas que não nos levam a lugar algum. No caso do protagonista, a fama dele como ator é citada trocentas vezes, mas não têm influência alguma: é aproveitada naquela cena em específico mas não impacta em nada depois. Isso também se estende a incrivelmente todos os personagens secundários. O irmão do protagonista, a namorada, a camareira, ninguém tem uma ação que impacte minimamente em algo na trama. Apenas – e em alguns poucos momentos – as ações do protagonista tem alguma relevância. Com isso, é possível condensar os intermináveis 79 minutos em 2 minutos (e ainda acho muito), mantendo apenas o personagem de Crea. 

Junto a isso (e também por causa disso), os personagens são jogados cruelmente na narrativa. Eles simplesmente aparecem, fazem suas falas, saem e, claro, não impactam em nada. Uma cena em específico me chamou muito a atenção negativamente. Na sequência, um garçom atende Nick no restaurante do hotel e, do nada, pede para que ele consiga um emprego para o seu irmão formado em marketing (?). Poxa, se está no começo do filme, vai mudar em algo, né? Spoiler: não! O garçom literalmente some da trama depois dessa sequência. E o irmão dele sequer dá as caras ou é citado novamente.

Sinceramente, se alguém planeja assistir a isso, basta saber que o projeto fala de um aplicativo à la Simulacra e… partir para os 5 minutos finais. Fazendo o teste, realmente descobri que isso é funcional. E nem assim a obra convence. O final é o mais aleatório possível, forçando um plot que a sinopse e a trama simplesmente não suportam. É um final tão arrastado quanto os personagens. E para piorar tudo, a película introduz nos últimos momentos um “6 meses depois” que finalmente parece alavancar algo de interessante na obra. Infelizmente o filme acaba quando, enfim, tenta começar.

A nota só não foi mínima porque a obra se salva minimamente pelo tema. Levantar a questão do avanço tecnológico desenfreado no mundo atual é importante e necessário. Além disso, lembra um pouco algum episódio de Black Mirror, mas é claro que o pior episódio possível. 

O Aplicativo é uma das piores produções da Netflix. Com roteiro, personagens e direção cuspidos aleatoriamente na tela, a obra não é digna de ser vista por ninguém. A sensação ao terminar é de assistirmos a uma produção escolar sem orçamento de alunos do sexto ano do Ensino Fundamental.

O Aplicativo (The App) – Itália, 2019
Direção: Elisa Fuksas
Roteiro: Elisa Fuksas, Lucio Pellegrini
Elenco: Vincenzo Crea, Jessica Cressy, Greta Scarano, Maya Sansa, Abel Ferrara, Anita Kravos
Duração: 79 minutos.

Crítica | O Último Amor de Casanova

Casanova não é o tipo de personagem histórico que aceita qualquer base de enredo. Mesmo que o roteirista pense ou queira adaptar algo da vida e obra do homem, focando em sua velhice ou num pitoresco episódio de sua vida, a questão vai muito além de uma simples retratação do grande aventureiro com as mulheres que ele foi, dentre muitas outras cosias. Mas parece que Benoît Jacquot não pensa assim. E tanto sua direção quando seu roteiro escrito em parceria com Jérôme Beaujour e Chantal Thomas não conseguem nem capturar o espírito da época e do personagem, nem transmitir o que quer que tenham pensado neste terrível O Último Amor de Casanova (2019).

A obra se passa no final do século XVIII, com Casanova já velho, escrevendo e narrando uma de suas aventuras mais marcantes, a “última”, que vivera 30 anos antes, em Londres, onde se refugiou depois de ter sido exilado. E o primeiro grande problema do filme foi caracterizar o ator Vincent Lindon da pior maneira possível, numa espécie de anti-Casanova desde a escolha das perucas (uma pior e mais bagunçada que a outra) e da maquiagem também horrível — se bem que o diretor que fotografia resolveu escurecer tanto o filme e colocar tanto filtro desnecessário nas cenas, que a maquiagem acaba sendo um problema menor. Lindon também não é o tipo de homem lindão que se espera de um ator representando Casanova, mas isso não teria problema se sua caracterização fosse cheia de classe, garbo e bastante cuidado, mostrando ao menos em público um lado mais asseado do famoso escritor e aventureiro italiano. Só que esta está longe de ser a realidade aqui.

O público espera uma acomodação mais rápida do exilado em Londres e imagina que sua última aventura seja qualquer coisa, menos o produto de um melodrama que descaracteriza tudo o que conhecemos do personagem. E sim, estamos falando de uma ficção, logo, o diretor e os roteiristas poderiam fazer qualquer coisa aqui, desde que obedecessem a um princípio narrativo coerente. Se eu quero desconstruir uma figura qualquer da História (real ou fictícia), minha proposta geral deve girar em torno dessa desconstrução e não começar aludindo a absolutamente todo o escopo “mítico” que se tem diante de tal indivíduo, para depois fazê-lo se comportar como alguém completamente diferente. Falta coerência, falta foco no estabelecimento e desenvolvimento do romance e falta… Casanova.

Um dos setores com o qual não temos nenhum problema no decorrer da obra é a trilha sonora. O compositor Bruno Coulais (Coraline, O Diário de uma Camareira, versão de 2015) alterna bem o uso das peças para cravo com belíssimas (e bastante sombrias) linhas para orquestra. Através da música, a sensação de deslocamento e falta de rumo do personagem consegue ser passada de maneira clara, justamente pelo contraste no uso dos instrumentos, mas essa ambientação é algo que o roteiro não consegue acompanhar. O Último Amor de Casanova é uma história de amor que não funciona com personagens comuns e muito menos com o seu personagem-título. Os ótimos figurinos e a direção de arte são outros aspectos que ajudam a nos segurar um pouco mais na sessão, e a cena do baile tem uma estranha e ao mesmo tempo interessante dinâmica na direção de Jacquot. Todo o restante é uma confusão insossa coberta por uma calda de melodrama cuja missão principal parece ser irritar o público. A tirar pela qualidade do filme e aquilo que pretende retratar, não é espantoso que este tenha sido o último amor de um dos homens mais sedutores da História.

O Último Amor de Casanova (Dernier amour) — França, 2019
Direção: Benoît Jacquot
Roteiro: Benoît Jacquot, Jérôme Beaujour, Chantal Thomas (baseado na obra de Giacomo Casanova)
Elenco: Vincent Lindon, Stacy Martin, Valeria Golino, Julia Roy, Nancy Tate, Anna Cottis, Hayley Carmichael, Christian Erickson, Nathan Willcocks, Jesuthasan Antonythasan, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, Lionel Robert, Wolfgang Pissors, Catherine Bailey, David Tudor-Glover
Duração: 98 min.

Crítica | Playmobil – O Filme

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A popular linha de bonecos e cenários Playmobil foi criada na Alemanha em 1974, de modo que este longa de 2019, dirigido pelo estreante Lino DiSalvo, veio como uma comemoração em grande estilo para os 45 anos de existência da marca. Vindo dez anos depois da primeira incursão dos bonecos em um longa de animação (Playmobil: The Secret of Pirate Island, 2009) o presente filme até que consegue capturar o espírito da brincadeira e ao menos na parte visual consegue sustentar alguns bons momentos. Mas tudo isso é impiedosamente pisoteado pelo tenebroso roteiro da fita.

Filmes com bonecos ou baseados em um tipo/marca de brinquedos específica tem dois principais ingredientes em sua construção narrativa: a base familiar e a aventura. Na maioria das vezes, esta última apresenta uma situação bonita no início, seguida de uma divergência, uma separação, uma adaptação da jornada do herói e um final parcialmente moral, majoritariamente feliz e com um gancho para uma possível continuação. Até aí, nada de novo no front. Fórmulas e clichês em qualquer arte não as melhores coisas que a gente pode ter, mas certamente podem garantir um excelente produto final se forem bem utilizadas pelo roteiro (no caso do cinema) e aplicadas de modo coerente através de todas as camadas da forma. Spoilers: não é isso o que acontece aqui.

O texto se desenvolve em torno dos irmãos Marla (Anya Taylor-Joy) e Charlie (Ryan S. Hill, aos 6 anos e Gabriel Bateman, aos 10 anos), que após uma tragédia familiar, entram em conflito porque… bem… porque o irmão mais novo quer se divertir e a irmã mais velha precisa tomar conta da casa e criar o menino. Absolutamente tudo no início de Playmobil: The Movie está errado, a começar pelo estranho princípio visual que o diretor usa, misturando live-action e animação sem ter um verdadeiro bom motivo para isso. Mesmo que o roteiro faça a ligação entre o desejo de Marla por explorar o mundo, o caminho de passagem entre um estilo e outro começa frágil e piora continuamente. Em pouco tempo, o espectador entende a intenção principal disso — criar o laço fraterno no mundo real para fortalecer o impacto moral e puxar uma possível sequência em um mundo que evolui com a idade dos protagonistas –, mas as duas pontas da obra não deixam de ser desengonçadas por isso.

Como se não bastasse, Ryan S. Hill, o Charlie de 6 anos, tem algumas das piores cenas do filme (e olhem que ele aparece pouco!). Eu não sei se não havia dinheiro para repetir cenas ou se essas reveladas foram as melhores que o diretor conseguiu extrair do garoto, mas o pequeno ator está absolutamente terrível em praticamente cada momento, com caras e bocas risíveis e completamente perdido no meio de um musical que brota aleatoriamente no meio da introdução, fazendo toda a sequência entortar ainda mais e gastando muito cedo um elemento básico de incremento da fantasia: o musical. Pode-se argumentar que o público-alvo do filme é o menor possível e que o ambiente inicial já é fantasioso, mas pelo menos em relação à segunda afirmação, isso não é verdade. O roteiro deixa bem claro justamente o oposto: a realidade é a mais comum, cruel e crua possível, enquanto o mundo para o qual os dois irmãos viajam é o lugar das referências aos filmes (007, Star Wars, Os Caça-Fantasmas, etc.) e gêneros cinematográficos (faroeste, máfia, épico, pirata); o local da diversão e dos perigos legais de se enfrentar. A questão é que o roteiro, mais uma vez, se perde em suas intenções e não consegue passar uma visão sólida de cada uma dessas fases.

Existem cenas na obra que são visualmente muito boas e toda a equipe de produção faz um excelente trabalho na construção de mundos e gêneros específicos. Os personagens passam de um cenário para outro rapidamente, como se estivessem sendo manipulados por uma criança, durante uma brincadeira, o que é bem interessante de se ver. Mas falta à obra uma unidade. Por mais que a gente se una aos irmãos pelo laço que o texto conseguiu sugerir no início, e posteriormente tenhamos um robozinho muito simpático e o interessante Del (Jim Gaffigan), tudo termina isolado. As cenas não parecem servir à narração de uma história e só em alguns momentos finais é que o texto parece se encontrar, até descambar de novo para escolhas aleatórias e, mesmo no Universo de Playmobil, sem sentido.

Por ser bem colorido e ter muitos cenários, eu indicaria o filme para crianças muito pequenas, até uns 3 ou 4 anos, mas não mais do que isso. Não foi dessa vez, não é, Playmobil? Importante lembrar que só o nome e o estilo dos bonequinhos não garantem a qualidade da obra. É preciso que a história a ser contada faça sentido e consiga entreter um público para além da primeira infância, caso contrário, é passaporte direto para a lista de piores filmes do ano.

Em tempo: Adam Lambert tem uma cena musical bem legal e seu personagem é todo cheio de nuances malignas e exageradas que eu gostei demais! Já Daniel Radcliffe não teve a mesma sorte e pegou um personagem que em si só é interessante — pelos truques de espião e tudo mais –, mas tem no texto piadas sem graça, atitudes sem graça, tentativas de fazer comédia física sem graça e repetição de um jargão (com backing vocals!) absolutamente sem graça.

Playmobil – O Filme (Playmobil: The Movie) — EUA, França, 2019
Direção: Lino DiSalvo
Roteiro: Lino DiSalvo, Blaise Hemingway, Greg Erb, Jason Oremland
Elenco: Anya Taylor-Joy, Gabriel Bateman, Jim Gaffigan, Daniel Radcliffe, Meghan Trainor, Adam Lambert, Kenan Thompson, Kirk Thornton, Dan Navarro, Maddie Taylor, Cindy Robinson, Mariah Inger, Ian James Corlett, Christopher Corey Smith, Karen Strassman
Duração: 99 min.

Crítica | Dois Papas

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Duas visões muito distintas do que é a igreja e de como ela deve ser gerida encontram-se neste Dois Papas (2019), filme dirigido por Fernando Meirelles para a Netflix. No centro da obra, dois religiosos católicos — Joseph Ratzinger (Bento XVI, interpretado por Anthony Hopkins) e Jorge Bergoglio (Francisco, interpretado por Jonathan Pryce) — em um momento bastante conturbado para a igreja, com diversas investigações acontecendo em torno do líder religioso e uma visão geral de que para se manter viva, a igreja precisava de reformas. E é justamente nesse tablado de crise que o roteiro de Anthony McCarten começa a sua jornada, centrando a história nos diálogos entre o Papa e o Cardeal.

Jonathan Pryce e Anthony Hopkins estão absolutamente fascinantes em seus papéis. A semelhança física dos dois atores com os personagens históricos que representam já é algo notável (palmas para a equipe de maquiagem!), mas a coisa vai muito além das aparências. Os dois atores assumem a seriedade e o pensamento desses dois religiosos e recebem um texto forte, respeitoso e muito verdadeiro sobre aquilo que o mundo pensa a respeito da igreja como um todo, tando o lado daqueles que não possuem religião, quanto o lado dos religiosos. Os dilemas de fé e de vida aqui representados podem ser compreendidos por qualquer um.

O fascínio em torno do ritual religioso começa cedo no filme, com a morte de João Paulo II e o início do Conclave que elegeria Bento XVI. O texto se constrói através de um paralelismo entre trajetórias, com Ratzinger assumindo o cargo em Roma e Bergoglio iniciando o processo de sua aposentadoria, para a qual precisava da aprovação do novo pontífice. Fernando Meirelles sabe separar muito bem as diferentes abordagens visuais para as cenas na Argentina (mais documentais, com fotografia sem grande garbo e montagem mais rápida) e para as cenas na Itália, especialmente nos espaços religiosos. Como os figurinos “oficiais” já possuem um grande impacto e beleza por si só, coube à fotografia e à direção aproveitar ao máximo as locações e a presença de dois grandes atores levando adiante uma conversa teológica, mostrando que a visão da Bíblia e a própria tradição eclesiástica são mutáveis e ajustáveis, abraçando as necessidades dos fiéis em novos tempos à luz dos mandamentos divinos.

Este, aliás, é o grande ponto de separação entre os dois religiosos e, apesar da mensagem de amizade e proximidade que o filme nos traz, o fato é que a cisão religiosa (dentro e fora da alta cúpula) prossegue firme e forme durante todo o papado de Francisco, especialmente pelas declarações de maior acolhimento, assistência, amor ao próximo e a Deus… basicamente a reafirmação do Evangelho proposto por Cristo e que, por um motivo bastante incompreensível, tem gerado um inconformismo notável em certos grupos. Essa tendência já é possível ver no filme como uma parte da oposição de ideias entre os protagonistas, condição que gera, de maneira bastante orgânica, uma aproximação fraterna (e espiritual, claro) entre eles. A câmera adota excelentes ângulos para mostrar a visão do espaço pelos olhos desses indivíduos, o que também reflete a maneira como eles se comportam, cabendo ao roteiro inserir muitos pontos de humor (todos bem pensados) e alguns momentos ternos e inesquecíveis entre os dois homens.

A coisa muda bastante quando chega o flashback e, posteriormente, as “imagens reais”. Esse momento de distanciamento não é ruim em si mesmo, mas se torna um pequeno estorvo para o filme. Primeiro, as cenas curtas que apresentam o passado de Bergoglio são um bom aperitivo. Mas o roteiro aumenta muitíssimo esse bloco, dando-nos praticamente um outro filme, deslocando a trama daquilo que ela tem de melhor (os diálogos, debates e quaisquer interações entre os dois atores principais) para um ato que age como grande distração, embora seja isoladamente interessante e com um grande peso para o discurso de mudança, perdão e reafirmação da fé que o longa trará no final, agora dentro da esfera confessional onde as fragilidades de cada um vêm à tona. O flashback para o passado do Papa Francisco mostra seus terríveis erros, assim como alguns breves momentos indicam os erros terríveis do Papa Bento XVI. Por mais nuances de propaganda que a obra tenha (e que obra não tem, não é mesmo?), o roteiro não permite uma visão totalmente defensora ou condenatória dos Papas, mostrando-os como líderes, mas também humanizando-os o bastante para indicar que todos precisam lutar para se tornar alguém melhor.

Belas imagens, trilha sonora e atuações soberbas fazem de Dois Papas um drama que fala ao coração de qualquer espectador. Claro que para os religiosos há um significado maior em tudo o que está aqui, mas aquilo que se debate, a trajetória e mesmo o conflito interno à instituição desses indivíduos podem falar a todos, porque constituem um bom drama. Dando espaço demais às cenas do passado e perdendo a mão na miríade de imagens sobre as viagens do Papa Francisco (das quais a única bem utilizada e necessária é aquela com o discurso sobre os imigrantes e refugiados), o filme é minado por uma estranha ambição documental ou de fechamento de um ciclo com profundo realismo. Mas não deixa de ser uma boa produção. E uma porta de entrada para a discussão sobre a igreja e a fé em tempos onde alguns milhares de cristãos são verdadeiras máquinas de odiar e reproduzir mentiras, supostamente em nome de Deus e em defesa do Cristianismo…

Dois Papas (The Two Popes) — Reino Unido, Itália, Argentina, EUA, 2019
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Sidney Cole, Thomas D Williams, Federico Torre, Pablo Trimarchi, Walter Andrade, Juan Miguel Arias, Lisandro Fiks, Fabricio Martin, Matthew T. Reynolds, María Ucedo
Duração: 125 min.

Crítica | O Paraíso Deve Ser Aqui

O cinema é capaz de proporcionar fenômenos curiosos. Em 2019, tivemos dois filmes que falam, basicamente, sobre o mesmo assunto, mas de uma forma diametralmente oposta. Em Sinônimos, Nadav Lapid conta a história de um homem que busca fugir de seu passado israelense em Paris. Já O Paraíso Deve Ser Aqui acompanha seu próprio diretor, Elia Suleiman, um palestino que viaja por diferentes metrópoles (Paris e New York) e acha um pouco de sua situação de não-pertencimento em cada situação cotidiana.

O metafilme de Suleiman segue uma estrutura na qual várias situações cômicas vão se sucedendo individualmente, recheadas de sátiras políticas. No entanto, se aqui não há uma cronologia narrativa, a unidade que une tudo é a própria figura do diretor palestino. Ele é uma figura silenciosa que não participa diretamente da história, mas observa e julga tudo com seus olhos e sobrancelhas, que vão sempre se arregalando.

Sempre centralizado e com uma mise-en-scène rigorosa, Elia é quase como uma figura divina onipresente. Afinal, o que é um diretor de cinema, senão o Deus e criador de seu próprio universo? E é justamente isso que o palestino faz, criando um paradoxo. Ao mesmo tempo que o palestino é, literalmente, ignorado pelos outros, Suleiman usa seu novo filme para ser escutado e visto.

O Paraíso Deve Ser Aqui não está preocupado em dificultar a compreensão de suas metáforas visuais. Por exemplo, há no filme uma gag recorrente na qual o vizinho israelense do protagonista vai, cada vez mais, se ocupando e apropriando de seu quintal. Este é apenas uma das inúmeras vezes que uma situação de ínfima importância é usada para falar de um assunto muito maior — neste caso, a questão territorial entre Israel e Palestina. Visualmente, isto gera um interessante contraste ao banalizar certas situações absurdas. O que, de certo modo, é o que acontece no mundo atual.

No entanto, este é um exercício que se torna um pouco cansativo. Felizmente, Suleiman cria um humor tão peculiar e incômodo que esta sequência do absurdo vai se inovando cada vez mais. Como o próprio nome indica, O Paraíso Deve Ser Aqui, assim como Sinônimos, desconstrói uma visão deslumbrada com mundo ocidental. Não estamos diante de uma Paris ou Nova York paradisíacas, apesar do diretor tentar causar esta falsa impressão com ruas vazias. 

Na verdade, essas cidades se revelam como um antro de pobrezas, forças estatais abusivas e intolerância. No fim, Suleiman parece entender que ele não achará o  Paraíso em nenhum lugar, mas no sentimento de união — representado pela dança — de seu próprio povo que, um dia, estará organizado novamente.

O Paraíso Deve Ser Aqui  (It Must Be Heaven) – França, Qatar, Alemanha, Canadá, Turquia e Palestina, 2019
Direção: Elia Suleiman
Roteiro: Elia Suleiman
Elenco: Elia Suleiman, Tarik Kopty, Ali Suliman, Grégoire Colin, Vincent Maraval, Claire Dumas, Antoine Cholet,Stephen McHattie, Kwasi Songui, Nancy Grant, Gael García Bernal
Duração: 97 mins.