Charles Halton

Crítica | Um Casal do Barulho (Sr. e Sra. Smith)

estrelas 3,5

Hitchcock lançou dois filmes em 1941. O primeiro, Um Casal do Barulho, no final do mês de janeiro, e o segundo, Suspeita, no início de novembro. Filmes completamente diferentes. O segundo, um ótimo suspense. O primeiro, uma comédia clássica com todos os ingredientes e toda a graça comum a esse tipo de obra.

Segundo o próprio diretor, nas entrevistas que deu a François Truffaut, Um Casal do Barulho (que título nacional mais Sessão da Tarde esse, hein!) nasceu de sua amizade com Carole Lombard. A atriz perguntou ao cineasta se ele aceitaria juntar-se a ela para realizar um filme e, sem saber exatamente por quê, ele acabou aceitando. O resultado foi uma obra completamente diferente de tudo quanto o cineasta já havia feito e faria, sendo, portanto a única comédia (pura) de sua carreira.

A história é basicamente a relação de Ann e David Smith (Carole Lombard e Robert Montgomery) após descobrirem que seu casamento no civil não era mais válido. Partindo de uma premissa bem construída no início do filme, o roteiro de Norman Krasna brinca com o ego do casal, passando de um para outro a força do discurso de raiva e a recusa de assinar novamente os papéis do casamento. É um exemplar das comédias de “gato-e-rato”, onde o homem ou a mulher perseguem seus parceiros disfarçadamente, recusando-se a se assumirem apaixonados mas querendo que a paixão logo se concretize.

Se há alguma coisa que nos faça pensar em Hitchcock (como estilo) durante a projeção, são as indicações estéticas aprimoradas, especialmente no início da obra. O filme é fotografado de uma forma muito bela por Harry Stradling Sr., que também trabalharia em Suspeita; mas da sua primeira metade para frente se torna pouco ousado, sem as famosas indicações metafóricas na imagem, ponto recorrente nos filmes de Hitchcock. Um melhor uso dos símbolos e angulação voltam a aparecer na reta final, durante a estadia dos Smith e da família Custer no chalé de inverno.

Há um ritmo constante de amor e fuga que sustenta o filme de maneira bastante eficiente. O que aparece para quebrar um pouco essa satisfatória linha é a concepção do roteiro para o final. Depois da via crucis até chegar a um acordo entre os orgulhosos pombinhos, era de se esperar um ponto final de maior peso, mesmo que também seguisse o modelo de sugestão sexual. A rapidez com que a sequência final acontece talvez tenha contribuído para isso, e o filme termina um pouco vago para o público, não necessariamente ruim, mas insatisfatório.

Todavia, é possível se divertir bastante durante a sessão. Aliás, essa impressão de diversão é a que temos quando vemos a atuação da dupla Lombard e Montgomery e depois do amigo que vai apimentar a relação entre o casal “separado”, personagem interpretado com muita competência por Gene Raymond. Hitchcock disse várias vezes que as filmagens transcorreram de modo bastante tranquilo e agradável, o único problema é que ele se sentia perdido na direção porque “não conhecia aquele tipo de personagem“, então seguiu à risca o que estava decupado no roteiro, sem intervir de outras maneiras.

Essa relação de amizade nos sets culminou com a anedota contada pelo próprio Hitchcock a Truffaut, dizendo que no primeiro dia das filmagens teve uma grande surpresa vinda de Carole Lombard, uma brincadeira tirada da famosa frase do cineasta de que os atores eram gado — ou deveriam ser tratados como gado. Faço questão de citar o trecho da entrevista:

_ […] Carole Lombard tinha mandado construir uma jaula com 3 compartimentos, e dentro havia três vacas vivas, de tenra idade, cada uma exibindo, em volta do pescoço, uma grande rodela branca pendurada, com um nome: Carole Lombard, Robert Montgomery e Gene Raymond. […] Minha observação era apenas uma generalização, mas Carole Lombard me deu essa resposta espetacular, a fim de fazer uma brincadeira. Acho que ela concordava bastante comigo nesse assunto.

Mesmo não sendo uma obra-prima, Um Casal do Barulho é daqueles filmes dos anos 40 simplesmente deliciosos de se assistir. E ainda tem o bônus de ser um adorável elefante branco na filmografia do Mestre do Suspense.

  • Crítica originalmente publicada em 1º de abril de 2014. Revisada para republicação em 04/02/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Um Casal do Barulho / Sr. e Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith) – EUA, 1941
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Norman Krasna
Elenco: Carole Lombard, Robert Montgomery, Gene Raymond, Jack Carson, Philip Merivale, Lucile Watson, William Tracy, Charles Halton, Esther Dale, Emma Dunn, Betty Compson
Duração: 95 min.

Crítica | A Loja da Esquina

Nos primeiros instantes do drama A Loja da Esquina, dirigido por Ernst Lubitsch, tendo como direcionamento, o roteiro de Samson Raphaelson, baseado na peça homônima de Miklós Laszló, percebemos que estamos diante de uma produção sobre a solidão, sentimento que não possui período específico para se manifestar, mas atenua-se nos festejos natalinos, principalmente para aqueles que vivem sem as configurações de família apresentadas pelo cinema hollywoodiano clássico, geralmente com um grupo de pessoas a dividir a ceia natalina farta diante da troca de afetos e presentes.

Importante também é perceber a importância da compreensão do subtexto que permeia um filme clássico, conferido anos após a sua realização e estabelecimento no imaginário. A Loja da Esquina não faz referências apenas à solidão e melancolia de indivíduos isolados, mas também é uma alegoria da desesperança coletiva oriunda do pós-guerra (Primeira Guerra Mundial), Crise de 1929 e manifestações políticas e sociais que previam o estabelecimento dos conflitos bélicos da Segunda Grande Guerra Mundial. Lançado em 1940, a produção traz tudo isso embalado metaforicamente em seu arco dramático sobre linear, sem grandes surpresas e reviravoltas.

Ao longo de seus 99 minutos, a trama busca descortinar a história de Alfred (James Stewart), um dos mais antigos e dedicados funcionários da tal loja de confecções e outros itens de casa, situada na esquina da rua. Exposto dentro das dinâmicas de seu perfil social, sem traços que nos permita mergulhar psicologicamente em outras dimensões, Alfred é contido, mas não disfarça para o espectador o seu interesse amoroso por Klara (Margareth Sullivan). Ela é a garota com quem ele troca correspondências, mas ambos sequer desconfiam que os destinatários do amor mútuo fazem parte do mesmo ambiente de trabalho e, cotidianamente, trocam desaforos e constantes desentendimentos.

As farpas são diárias, trocadas por “balões de corações” apaixonados quando a trama se desenrola e o nó da narrativa é desatado. Diante dos conflitos, a produção nos conta uma história sobre resiliência, perdão, amor ao próximo e volta por cima de personagens que para a exaltação, precisaram amargar a humilhação. Tendo como proprietário da loja o Sr. Matuschek (Frank Morgan), os protagonistas e coadjuvantes sofrem diariamente com o homem que pensa apenas nas finanças e no lucro, sem deixar espaço na sua vida para outros sentimentos nobres, afinal, não sejamos hipócritas, sem dinheiro para as questões básicas no bojo do capitalismo, como um ser humano pode registrar a sua existência de maneira digna?

Alfred vai passar por esses questionamentos quando é demitido de maneira injusta e aleatória pelo seu chefe, após uma breve discussão por conta de opiniões adversas. E é justamente quando o personagem descobre quem é de fato a mulher que ele idealiza para ser o seu amor. As coisas inicialmente são difíceis, mas tal como a sua versão contemporânea, Mensagem Para Você, lançada em 1999, o clima natalino não é prejudicado pela maldade dos humanos que acabam se regenerando e exercem “aquilo” que o Natal pede, isto é, o arrependimento, o perdão, o pedido de desculpas, etc.

Em seu processo narrativo, A Loja da Esquina conta com a direção de fotografia de William M. Daniels, responsável por cenas que de maneira geral, situam-se no ambiente interno da loja, com brevíssimas tomadas externas para representar a rua, espaço que em suas aparições, é composta de diversos figurantes a representar a busca pelo consumo na semana de festejos natalinos, pessoas que caminham pela neve providenciada pela equipe de Cedric Gibbons e Edwin. B. Willis, diretor de arte e cenógrafo, respectivamente. Eles são cuidadosos com a gestão dos espaços e adereços que adornam a narrativa conduzida musicalmente por Werner R. Hymann.

Simples e com uma mensagem edificante, a produção é a típica estrutura de filme natalino, retomado pelos produtores de cinema e televisão desde então, ao lançar as suas narrativas anuais sobre o tema que é um subgênero da comédia e do drama. É uma data que tais realizações já tentaram reforçar o significado, isto é, período de comunhão e solidariedade entre os seres humanos diante de um mundo repleto de situações desiguais. Com a força midiática do consumismo e do materialismo, então, a data muitas vezes é esquecida, em prol da conjugação do verbo “comprar”, muitas vezes responsável por sublimar o “amar”.

A Loja da Esquina (The Shop Around The Corner/Estados Unidos, 1940)
Direção: Ernst Lubitsch
Roteiro: Ben Hecht, Miklós László, Samson Raphaelson
Elenco: James Stewart, Margaret Sullavan, Frank Morgan, Joseph Schildkraut, Sara Haden, Felix Bressart, William Tracy, Inez Courtney, Sarah Edwards, Edwin Maxwell, Charles Halton
Duração:  91 min