Basil Radford

Crítica | A Dama Oculta (1938)

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A história da produção de A Dama Oculta foi bastante agitada. Em 1937, o diretor Roy William Neill foi contratado para guiar uma obra chamada The Lost Lady. Ele e uma parte da equipe viajaram para a (antiga) Iugoslávia para dirigir as cenas de ligação e ambientação da obra (que cobrem o primeiro ato do longa), mas foram expulsos do país assim que as autoridades locais descobriram que a nação não era representada positivamente pelo enredo. A dificuldade de continuar com o projeto a partir dali fez com que a primeira fase de produção fosse engavetada. E assim morreu The Lost Lady.

Um ano depois, o roteiro foi cair no colo de Alfred Hitchcock, que com um orçamento menor, começou a trabalhar com os roteiristas Sidney Gilliat (A Estalagem Maldita) e Frank Launder para alterar detalhes estruturais do início e fim do texto original, mudando também muita coisa do que se tinha adaptado da obra The Wheel Spins, escrita por Ethel Lina White (Silêncio nas Trevas), especialmente em relação à Srta. Froy. No todo, o filme traz para a ficção o complexo e incômodo cenário político pelo qual a Europa passava naquele final de anos 1930, pouco mais de um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha sido filmado em diversos estúdios, linhas férreas e campos militares do Reino Unido, o filme manteve uma identidade visual “exótica” muitíssimo interessante graças ao olhar acurado do diretor para o que deveria ou não colocar na tela, e principalmente à maravilhosa direção de arte e aos figurinos nas dependências do hotel — que fica “em algum lugar da Europa Central”, onde praticamente todo o primeiro ato se passa (o restante é na estação da pequena cidade). Nesses primeiros minutos de projeção, temos a impressão que estamos assistindo a uma comédia despreocupada, com toques culturais e um pouquinho de crítica aos costumes da sociedade da época, com destaque para o papel da mulher. É um início lento (em termos de impacto causado pelas coisas que vemos), mas bem divertido e com pistas que são retomadas com muita inteligência na parte final da película.

O texto cria uma situação leve e incômoda (abrindo as portas para a comédia) colocando passageiros de diferentes nacionalidades esperando o desbloqueio dos trilhos após uma forte nevasca. Parece um filme dos irmãos Marx, para falar a verdade. E é aí que conhecemos a Srta. Froy (May Whitty), Iris (Margaret Lockwood) e o musicólogo Gilbert (Michael Redgrave), personagens que protagonizariam isoladamente o segundo ato do filme. Eu acho a sequência de ligação entre o “acidente” de Iris, ainda na plataforma, e tudo o que acontece depois, dentro do tem, uma excelente sacada do roteiro. Hitchcock, já um Mestre em distrair a atenção do público e fazer joguinhos de suspense em camadas diferentes, brinca com ideias de conspiração e dubiedade em relação à percepção e memórias da jovem protagonista, que é o que verdadeiramente chama a atenção no enredo, muito mais do que a revelação de todo o plano e do que o lado político, ainda bom, mas um tantinho destoante no final.

Um mistério com uma mescla de humor, distração do público e personagens que enfrentam um interessante teste (como se fosse um processo de amadurecimento que afeta até a vida amorosa dos mais jovens), A Dama Oculta é um dos trabalhos da fase britânica de Hitchcock que mais demonstram a essência da filmografia do diretor. E ainda tem o benefício de poder ser lido por um outro viés, como um filme de espionagem bastante peculiar, não só pela escolha do espião da vez, mas pelo drama intricado (e devo ressaltar mais uma vez, divertido) que o envolve. Embora haja algum exagero no tratamento das cenas dos passageiros isentões que só estavam preocupados com críquete e do advogado com sua querela matrimonial, o filme se mantem solidamente no alto e garante uma baita sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de março de 2014. Revisada para republicação em 20/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Dama Oculta (The Lady Vanishes) — Reino Unido, 1938
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder (baseado na obra de Ethel Lina White)
Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Emile Boreo, Googie Withers, Sally Stewart, Philip Leaver, Selma Vaz Dias, Catherine Lacey
Duração: 96 min.

Crítica | Jovem e Inocente

estrelas 4

Dos filmes de Alfred Hitchcock, Jovem e Inocente talvez seja aquele que tem o elenco mais jovem de todos. Não só os protagonistas são muito jovens como também aparecem algumas crianças e adolescentes com participações de certa importância no filme, não apenas como figurantes. E é interessante ver um suspense do Mestre com personagens de pouca idade. A atmosfera da história é outra, pautada pela pouca experiência de vida dos envolvidos e por atitudes mais impulsivas. Nada muito complexo, nenhuma questão pessoal de grande mota, apenas jovens envolvidos numa trama de assassinato e que acabam se apaixonando um pelo outro, um contexto final que às vezes pode atingir negativamente a história, mas no caso de Jovem e Inocente, funciona muito bem.

A construção inicial do filme é muito mais eficiente que a observada em Sabotagem. Aqui, temos uma discussão inicial entre marido e mulher, cortando para o dia seguinte, onde vemos um corpo morto na praia e em seguida descoberto duas vezes, uma por Robert, que será injustamente acusado de ter cometido o crime e outra por duas jovens banhistas que interpretam errado a correria de Robert do local do crime. Os 15 minutos iniciais da fita são marcados por uma cadência episódica de eventos muito bem interligados, algo que tem um impacto bastante positivo no espectador. Mais do que em qualquer outro filme que dirigira até então, Hitchcock conseguiu um resultado maduro e livre de problemas de concepção, seja no fato gerador de determinadas cenas, seja em sua execução. Tomemos por exemplo a criação do suspense através de cenas de ação e perseguição.

Ora, o exercício do diretor em O Mistério do Número 17 ou Os 39 Degraus é interessante, mas se comparado ao que ele fez em Jovem em Inocente, perde força. A partir desse ponto, Hitchcock passou a aplicar os elementos de linguagem cinematográfica que experimentara nos longas anteriores, diminuindo a sua carga de testes e ampliando o seu fazer artístico, uma postura que melhorará a cada nova obra e já poderá ser vista em plena forma no seu filme seguinte, A Dama Oculta (1938).

A famosa cena do travelling através do salão de dança do Grande Hotel é um dos exemplos mais instigantes dessa criação de uma linguagem própria de suspense. Partindo de um grande campo (a câmera está no teto do salão), onde vemos pessoas dançando e uma banda ao fundo da tela, a câmera faz o seu trajeto, diminuindo o campo de visão e detalhando melhor os rostos dos dançantes. Em seguida, a lente foca nos músicos, e por fim, no baterista, que em um primeiro plano, quase como uma confissão para o espectador, revela o seu tique, o mesmo que havia apresentado desde a primeiríssima cena.

O que me incomoda em Jovem e Inocente é o colapso nervoso do qual o verdeiro criminoso padece, quando se descobre cercado. Não vejo uma justificativa psicológica ou motivacional para que alguém que tivesse cometido o crime que cometeu se revelasse tão fraco diante de algo do qual poderia escapar com relativa facilidade. E isso também vale para a pista deixada gratuitamente por ele, o que acaba colocando Roger em seu encalço. Vale também citar a estranha e improvável postura da polícia, tão sem utilidade quanto as de outros filmes do diretor, mas que, devido a complexidade da história aqui narrada, parece ter sério déficit de inteligência.

Diante dessas falhas de concepção em alguns pontos, é de se perguntar: Jovem e Inocente é mesmo um filme tão bom? A resposta é simples: sim, é! As tais falhas se destacam principalmente porque todo o restante é muitíssimo bem realizado e, justamente por isso, consegue encobrir as consequências dessas fases menores, resultando em um produto final instigante e divertido, fazendo de Jovem e Inocente um dos filmes memoráveis da fase britânica de Alfred Hitchcock.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 07/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Jovem e Inocente (Young and Innocent) – UK, 1937
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong, Gerald Savory, Alma Reville (baseado na obra A Shilling For Candles, de Josephine Tey).
Elenco: Nova Pilbeam, Derrick De Marney, Percy Marmont, Edward Rigby, Mary Clare, John Longden, George Curzon, Basil Radford, Pamela Carme, George Merritt, J.H. Roberts
Duração: 80min.