Alfred Hitchcock

Crítica | Suspeita

estrelas 4

Quando Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos em 1939, ele começou uma impressionante carreira de muitos acertos. Com Rebecca, seu primeiro filme em solo ianque, ele foi indicado a “meros” 11 Oscars, levando os de filme e fotografia. Em seguida, com Correspondente Estrangeiro, ele foi indicado a mais seis Oscars, mas não amealhou nenhum. Seu terceiro filme, sua única comédia de verdade, Um Casal do Barulho (esse título “sessão da tarde” é ruim demais…), foi um grande sucesso de bilheteria em 1941 e passou a década de 40 sendo adaptado algumas vezes para o rádio e uma vez para o teatro, tamanha sua fama.

Assim, o diretor já tinha uma enorme bagagem de sucessos em território americano e podia se dar ao luxo de escolher seus roteiros e foi o que ele fez com Suspeita, baseado em romance de Anthony Berkeley, escrito a seis mãos, duas delas de sua esposa, Alma Reville, e companheira por toda a vida e peça fundamental para seu sucesso. Assim como no caso de Rebecca, apesar da produção ser americana, Suspeita é tipicamente um suspense britânico, carregado da tensão e das reviravoltas que marcariam a carreira do (ainda em formação) Mestre do Suspense, passado na Inglaterra e contando até com a presença de uma dama e um cavaleiro da Ordem Britânica no elenco (Sir Cedric Hardwicke e Dame May Whitty). A fita também marca a volta de Joan Fontaine a um filme do diretor e a primeira parceria dele com Cary Grant, que geraria outras três grandes obras até 1959.

A narrativa começa bruscamente, sem nenhum tipo de explicação ou tempo para respirar, com o mulherengo Johnnie (Grant) dividindo um vagão da 1ª classe de um trem com a solteirona Lina (Fontaine), mas entregando ao conferente um tíquete de 3ª classe. Ele tanto faz que acaba conseguindo ficar no vagão e olhares são trocados. Sem perder tempo, um romance primeiro platônico se inicia e, depois, vem algo mais sério, resultando no casamento dos dois. Acontece que Johnnie é um salafrário mentiroso, o típico “171”, algo que fica claro desde a sequência no trem, mas Lina, perdidamente apaixonada, acaba tendo que lidar com os vícios de seu marido, o mais importante deles sendo uma certa ojeriza a qualquer coisa que se relacione a “trabalho”.

Os imbróglios em que Johnnie se mete vão se aprofundando e nós, espectadores, vendo o que está acontecendo por intermédio unicamente dos olhos de Lina, ficamos desesperados e torcemos pela heroína, ainda que entendamos que ela não pode simplesmente largá-lo, pois há amor no meio. Resta saber se ele no mínimo é correspondido.

Hitchcock usa todos os truques que conhece para despistar o espectador, fazendo como um mágico faz ao subir no palco. Poucos personagens coadjuvantes são introduzidos: apenas o pai e a mãe de Lina (o cavaleiro e a dama da Ordem Britânica), Beaky (Nigel Bruce), um amigo/cúmplice de Johnny e Isobel (Auriol Lee), uma amiga de Lina e escritora de romances policiais. Com isso, ele tem tempo de trabalhar a excelente química existente entre Grant e Fontaine, unindo e separando o casal com as mais diversas situações suspeitas. Quando Beaky finalmente entra na trama no segundo ato e funciona como peça-chave para o terceiro, Hitchcock consegue usar a narrativa de forma que ele seja um elemento importante para o andamento da obra e não alguém que está lá para preencher a tela. Com Beaky, por exemplo, Hitchcock usa jogos de tabuleiro para criar pistas visuais (nada discretas, aliás) e para contrastar a esperteza de Johnny com a aparente inocência de Beaky.

A trilha sonora também é fundamental para a criação do suspense, como Hitchcock mesmo faria de maneira quase que insuperável em Psicose.  Usando Wiener Blut, valsa de Strauss, como tema constante para o casal, ele manobra a composição, alterando seu tempo e seu arranjo para passar sentimentos completamente diferentes, como alegria, tensão e tristeza. Franz Waxman (que viria a trabalhar em Janela Indiscreta) compõe o resto da premiada trilha original, com notas fortes e eletrizantes quando a narrativa exige, mas sem uma qualidade marcante, que realmente deixe uma impressão duradoura.

Hitchcock, porém, mesmo com um material fonte interessante para trabalhar e que ele torna ainda mais interessante em filme, acaba errando com a utilização de Isobel. Apesar da personagem ser introduzida razoavelmente cedo na estrutura da obra, ela ganha uma desproporcional atenção no terço final, algo que não é nem esperado e muito menos orgânico para o desfecho, ainda que importante. Parece até que algo foi “perdido” na mesa de montagem, assim como acontece com a brusquidão do início da fita, que nos joga os personagens no colo de forma pouco ortodoxa.

Mas Suspeita funciona muito bem apesar de seus problemas aqui e ali. A manutenção do suspense por Hitchcock literalmente até os segundos finais do filme e as excelentes atuações do atores principais fazem da quarta empreitada do diretor em solo americano uma delícia de diversão, com um charme irresistível. Não à toa, ele concorreu a três Oscars, de melhor filme (a terceira indicação consecutiva de um filme de Hitchcock nessa categoria), trilha sonora e melhor atriz, levando o de atriz (Fontaine), a única vez em que um ator em obra do Mestre do Suspense ganharia esse prêmio. Nada mal para um britânico perdido no Novo Mundo, não é mesmo?

  • Crítica originalmente publicada em 28 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 11/02/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e da elaboração de uma versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

Suspeita (Suspicion, EUA – 1941)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison, Alma Reville (baseado em romance de Anthony Berkeley)
Elenco: Cary Grant, Joan Fontaine, Cedric Hardwicke, Nigel Bruce, Dame May Whitty, Isabel Jeans, Heather Angel, Auriol Lee, Reginald Sheffield, Leo G. Carroll
Duração: 99 min.

Crítica | Um Casal do Barulho (Sr. e Sra. Smith)

estrelas 3,5

Hitchcock lançou dois filmes em 1941. O primeiro, Um Casal do Barulho, no final do mês de janeiro, e o segundo, Suspeita, no início de novembro. Filmes completamente diferentes. O segundo, um ótimo suspense. O primeiro, uma comédia clássica com todos os ingredientes e toda a graça comum a esse tipo de obra.

Segundo o próprio diretor, nas entrevistas que deu a François Truffaut, Um Casal do Barulho (que título nacional mais Sessão da Tarde esse, hein!) nasceu de sua amizade com Carole Lombard. A atriz perguntou ao cineasta se ele aceitaria juntar-se a ela para realizar um filme e, sem saber exatamente por quê, ele acabou aceitando. O resultado foi uma obra completamente diferente de tudo quanto o cineasta já havia feito e faria, sendo, portanto a única comédia (pura) de sua carreira.

A história é basicamente a relação de Ann e David Smith (Carole Lombard e Robert Montgomery) após descobrirem que seu casamento no civil não era mais válido. Partindo de uma premissa bem construída no início do filme, o roteiro de Norman Krasna brinca com o ego do casal, passando de um para outro a força do discurso de raiva e a recusa de assinar novamente os papéis do casamento. É um exemplar das comédias de “gato-e-rato”, onde o homem ou a mulher perseguem seus parceiros disfarçadamente, recusando-se a se assumirem apaixonados mas querendo que a paixão logo se concretize.

Se há alguma coisa que nos faça pensar em Hitchcock (como estilo) durante a projeção, são as indicações estéticas aprimoradas, especialmente no início da obra. O filme é fotografado de uma forma muito bela por Harry Stradling Sr., que também trabalharia em Suspeita; mas da sua primeira metade para frente se torna pouco ousado, sem as famosas indicações metafóricas na imagem, ponto recorrente nos filmes de Hitchcock. Um melhor uso dos símbolos e angulação voltam a aparecer na reta final, durante a estadia dos Smith e da família Custer no chalé de inverno.

Há um ritmo constante de amor e fuga que sustenta o filme de maneira bastante eficiente. O que aparece para quebrar um pouco essa satisfatória linha é a concepção do roteiro para o final. Depois da via crucis até chegar a um acordo entre os orgulhosos pombinhos, era de se esperar um ponto final de maior peso, mesmo que também seguisse o modelo de sugestão sexual. A rapidez com que a sequência final acontece talvez tenha contribuído para isso, e o filme termina um pouco vago para o público, não necessariamente ruim, mas insatisfatório.

Todavia, é possível se divertir bastante durante a sessão. Aliás, essa impressão de diversão é a que temos quando vemos a atuação da dupla Lombard e Montgomery e depois do amigo que vai apimentar a relação entre o casal “separado”, personagem interpretado com muita competência por Gene Raymond. Hitchcock disse várias vezes que as filmagens transcorreram de modo bastante tranquilo e agradável, o único problema é que ele se sentia perdido na direção porque “não conhecia aquele tipo de personagem“, então seguiu à risca o que estava decupado no roteiro, sem intervir de outras maneiras.

Essa relação de amizade nos sets culminou com a anedota contada pelo próprio Hitchcock a Truffaut, dizendo que no primeiro dia das filmagens teve uma grande surpresa vinda de Carole Lombard, uma brincadeira tirada da famosa frase do cineasta de que os atores eram gado — ou deveriam ser tratados como gado. Faço questão de citar o trecho da entrevista:

_ […] Carole Lombard tinha mandado construir uma jaula com 3 compartimentos, e dentro havia três vacas vivas, de tenra idade, cada uma exibindo, em volta do pescoço, uma grande rodela branca pendurada, com um nome: Carole Lombard, Robert Montgomery e Gene Raymond. […] Minha observação era apenas uma generalização, mas Carole Lombard me deu essa resposta espetacular, a fim de fazer uma brincadeira. Acho que ela concordava bastante comigo nesse assunto.

Mesmo não sendo uma obra-prima, Um Casal do Barulho é daqueles filmes dos anos 40 simplesmente deliciosos de se assistir. E ainda tem o bônus de ser um adorável elefante branco na filmografia do Mestre do Suspense.

  • Crítica originalmente publicada em 1º de abril de 2014. Revisada para republicação em 04/02/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Um Casal do Barulho / Sr. e Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith) – EUA, 1941
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Norman Krasna
Elenco: Carole Lombard, Robert Montgomery, Gene Raymond, Jack Carson, Philip Merivale, Lucile Watson, William Tracy, Charles Halton, Esther Dale, Emma Dunn, Betty Compson
Duração: 95 min.

Crítica | Correspondente Estrangeiro

estrelas 4

Quando filmou Correspondente Estrangeiro, seu segundo filme em Hollywood, Hitchcock já tinha experiência em dirigir dramas de espionagem e de cunho político das mais diversas motivações, como podemos comprovar em algumas de suas películas britânicas como O Homem Que Sabia Demais (1934), Sabotagem (1936), Agente Secreto (1936) e A Dama Oculta (1938).

Depois de tentar contratar Gary Cooper para o papel principal e receber um “não” do ator (que se arrependeria disso anos depois), Hitchcock precisou se conformar com um elenco que não o conquistara totalmente, mas do qual conseguiu boas atuações e com o qual conseguiu fazer um filme ágil e instigante, dentro de um contexto dramático do século XX: o início da II Guerra Mundial.

Além do tema, prendem o espectador as locações do filme e o modo como o diretor usou do espaço para tornar a caçada e a descoberta um tanto exóticas. Incluímos aí também o público que geralmente se incomoda com questões de verossimilhança, mesmo que levemos em consideração que Hitchcock tinha como meta desprezar esse tipo de recurso toda vez que fosse possível, a fim de dar maior voz à fantasia. Eu já abordei esse tema outras vezes em críticas dos filmes britânicos do cineasta e volto a dizer que, em sua fase americana, o diretor foi mais criterioso em “desprezar a verossimilhança“, fazendo isso de modo bastante aceitável dentro de sua proposta e dentro de um determinado contexto fílmico, uma atitude que infelizmente não podemos dizer exatamente de todas as suas obras anteriores a Rebecca.

A ação do roteiro se passa no início de 1939, quando um jornalista americano é enviado para a Europa a fim de fazer a cobertura dos eventos que poderiam ou não causar uma guerra. A escolha de Jones (Joel McCrea), o jornalista em questão, é posta no roteiro com um forte tom de cinismo, onde vemos claramente a mão de Hitchcock no texto, mesmo que ele não receba os créditos por isso. Sem nenhuma motivação política e total ignorância em relação aos acontecimentos do Velho Continente, Jones era a “pessoa ideal” para farejar notícias que venderiam jornais e que seriam diferentes de tudo o que o editor geral recebia naquele momento. E… bem, por mais irônico que seja, Jones acaba encontrando uma grande reportagem. Simplesmente por acaso.

Perceba que o engajamento do personagem principal se dá por motivos bem diferentes de uma causa política. Se precisasse classificar, diria que é a intenção de um furo jornalístico instigante e a paixão por uma garota que o faz entrar num covil de nazistas disfarçados e que tem no renomado presidente da associação pacifista um de seus líderes.

O jogo de intenções pessoais, patrióticas e ético-morais dá ao roteiro algo além da descoberta de um espião nazista ou de um grupo que quer matar um político holandês para desencadear a guerra. Talvez pelo disfarce dramático do texto, cujo foco principal é a ação de Jones, a atenção de grande parte dos espectadores centre-se nessa linha de eventos mas há também posições ideológicas nas entrelinhas que, de maneira muito sutil, vêm à tona no embate entre os personagens, cujo comportamento e o que fazem para defender seu país ou a paz mundial diz mais do que suas palavras, discursos, títulos e funções oficiais.

Correspondente Estrangeiro é um dos mais esteticamente virtuosos filmes em preto e branco de Hitchcock. Desde as tomadas ainda nos Estados Unidos, dentro da redação do jornal, até as belíssimas cenas no moinho de vento ou no centro de Amsterdã, temos o cerco de um ambiente quase idílico, um lugar onde não concebemos haver pessoas que querem iniciar um conflito bélico de grandes proporções. Porém, mais uma vez, o diretor nos faz entender que as aparências enganam e que nem a História nem o crime perdoam ou poupam inocentes, alienados, politicamente engajados e isentos. Em algum momento, todos se tornarão vítimas.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de março de 2014. Revisada para republicação em 28/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Joan Harrison, James Hilton, Robert Benchley
Elenco: Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders, Albert Bassermann, Robert Benchley, Edmund Gwenn, Eduardo Ciannelli, Harry Davenport, Martin Kosleck, Frances Carson
Duração: 120 min.

Crítica | Rebecca, A Mulher Inesquecível

estrelas 4,5

François Truffaut: Está satisfeito com Rebecca?

Alfred Hitchcock: Não é um filme de Hitchcock. É uma espécie de conto e a própria história data do fim do século XIX. Era uma história bem velhinha, bem fora de moda. Naquela época havia muitas escritoras: não tenho nada contra, mas Rebecca é uma história sem nenhum humor.

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Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos no final de 1939, a convite do badalado produtor David O. Selznick, que tinha acabado de lançar …E O Vento Levou. A princípio, o diretor britânico estrearia em Hollywood com uma adaptação de Titanic, mas Selznick mudou de ideia sobre o projeto e, aproveitando a simpatia de Hitchcock para com a obra de Daphne Du Maurier (de quem já adaptara para o cinema A Estalagem Maldita e futuramente viria adaptar Os Pássaros), comprou os diretos do romance Rebecca e se propôs a produzir o filme, com Hitchcock na direção.

Apesar de Rebecca marcar a estreia do Mestre do Suspense nos Estados Unidos, trata-se na verdade de um filme tipicamente britânico, com a maior parte do elenco principal composto por britânicos. Assim, Hitchcock se sentiu em casa no quesito “equipe de trabalho” e, mesmo que tivesse Selznick dando ordens e interferindo nas filmagens com frequência, a produção não foi difícil, apenas não foi prazerosa para o diretor, que além do produtor rigoroso, tinha que lidar com um romance de época num momento de sua carreira em que o suspense já se alvorava no topo de suas ambições de filmagem.

A história é dividida em duas partes dramáticas. Na primeira, temos Maxim de Winter (Laurence Olivier) e a futura segunda Sra. de Winter (Joan Fontaine), personagem que nunca é chamada pelo nome… um mistério que o diretor segura até o fim da obra, sem nos revelar. Essa primeira observação é interessante porque mostra muita coisa da personalidade dependente e subserviente dessa jovem senhora que se casa com um homem cuja esposa falecida é adorada e lembrada por todos à sua volta.

Já a segunda parte do filme acompanha o longo caminho percorrido pela personagem de Joan Fontaine para se adaptar à casa e conquistar o seu lugar num mundo que parece só haver espaço para Rebecca, a mulher inesquecível.

A despeito da indiferença de Hitchcock para com o filme, trata-se de uma obra verdadeiramente notável, um início esplêndido do cineasta em Hollywood. O suspense não é o verdadeiro gênero da película, mas o drama psicológico que se desenrola na tela tem uma forte presença de elementos caros ao diretor, algo que foi ressaltado a contento no roteiro e também na concepção estética, partindo da música marcante de Franz Waxman e da excelente direção de arte de Lyle R. Wheeler, que tinha acabado de receber um Oscar por seu trabalho em …E O Vento Levou.

Hitchcock guia a história por um caminho que não só engana e prende o espectador como também o faz perceber a mudança visual de um ponto a outro da fita. Enquanto o casal protagonista está em Monte Carlo, percebemos um maior número de cenas em externas, fotografia mais clara e ambientes menores e bastante preenchidos, deixando claro uma aparência de verão feliz e amor nascente. Todavia, quando a jovem Sra. de Winter chega à nova casa, vemos aumentar drasticamente o número de cenas em internas, presença de cenas noturnas, prenúncio de tempestade, névoa e cômodos sempre muito grandes, deixando a personagem de Joan Fontaine pequena e perdida em meio a tanta pompa e na overdose de objetos e hábitos da falecida Rebecca. E quando a verdade vem à tona, de uma maneira orgânica e num acertado ritmo dramático, o espectador fica sem chão.

Durante o filme, tem-se a oportunidade de presenciar todo tipo de comportamento, desde ameaças e medo até demonstrações de amor, uma avalanche de sentimentos que desembocam no final com a medonha Sra. Danvers defendendo o santuário de sua amada e antiga patroa e a teia que a todos prendia se desfazendo, mesmo que o ambiente que lhe sustentara ainda pairasse na cena final.

Rebecca, a Mulher Inesquecível é um grande filme de Alfred Hitchcock, um drama de característica misteriosa com direito a dominação psicológica, tormentos e acusações a uma jovem frágil e sem grande poder de ação para mudar um mundo que parece querer afastá-la a todo custo. Poucos diretores conseguiram trabalhar tão bem pela primeira vez fora de casa, realizando um filme que não tinha lá muito appeal e um produtor ao estilo da personagem da Sra. Danvers. Isso só mostra o quão afiado Hitchcock estava a essa altura de sua carreira, depois de passar anos treinando e aprendendo em sua terra natal. Agora, com maior orçamento, mais experiência e melhor equipe de produção, ele estava pronto para mostrar que sabia fazer grandes filmes e Rebecca é o primeiro passo desse notável momento.

  • Crítica originalmente publicada em 18 de março de 2014. Revisada para republicação em 25/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, Philip MacDonald, Michael Hogan (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Gladys Cooper, Florence Bates, Melville Cooper.
Duração: 130 min.

Crítica | A Estalagem Maldita

estrelas 3

A Estalagem Maldita foi o último filme de Alfred Hitchcock no Reino Unido, de onde partiria para morar e trabalhar nos Estados Unidos, a convite de David O. Selznick, já no ano seguinte.

O diretor britânico recebeu o convite quando ainda filmava A Dama Oculta, e chegou a fazer uma “visita de reconhecimento” à terra do Tio Sam em agosto de 1938, onde acertou com Selznick a proposta de filmar Titanic, acordo que foi modificado posteriormente. Em vez da famosa tragédia do transatlântico, o cineasta ficou encarregado de filmar Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940), sua estreia em Hollywood que seria a sensação do Oscar, vencendo nas categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia em Preto e Branco, além de receber outras 9 indicações, incluindo a de Melhor Diretor.

Talvez seja em comparação a essa grande diferença de qualidade e recepção das obras que os cinéfilos normalmente tendem a desprezar por completo A Estalagem Maldita. É verdade que se trata de um filme menor de Hitchcock, mas é uma história até certo ponto divertida, mesmo que sua produção não tenha sido de completo agrado do diretor e ele não gostasse do filme de modo algum, a despeito do inesperado sucesso de bilheteria que a obra acabou fazendo.

O drama se passa na Cornualha, no início do século XIX (ou final do século XVIII). Uma jovem irlandesa chega à estalagem maldita do título à procura de sua tia, dona do local. Ela pretende fixar residência ali, já que acabara de se tornar órfã e, sozinha, não podia permanecer na Irlanda. O que a jovem não sabe é que a estalagem é uma faxada para reunião de piratas.

As primeiras sequências do filme marcam muito melhor o ritmo e o tom da obra do que o seu próprio desenvolvimento. Um clima de horror e medo se instala, não só pela bestialidade dos piratas que pilham os navios naufragados nos arrecifes próximos, atraídos por uma falsa luz de farol; mas também pela sinistra chegada de Mary (Maureen O’Hara, em início de carreira) à estalagem, um local de quem todo mundo tem medo, basta vermos as feições horrorizadas das pessoas na carruagem que levava Mary até o lugar.

Esse tom de medo será mantido em quase todo o filme, mas de maneira decrescente, uma vez que a personagem de Charles Laughton, o Juiz de Paz da cidade e pedra angular da história, aparece por tempo demais, fala demais e tem importância dramática demais numa trama que só funcionaria verdadeiramente bem se ele, o mestre por trás das pilhagens, aparecesse apenas no desfecho da fita. Sua personagem, de certo modo, estraga a surpresa e diminui um pouco o poder da revelação que porventura teríamos bem mais para frente.

De alguma forma, o roteiro guia o suspense para outras personagens e ações, como as fugas de Mary e do Oficial de Justiça disfarçado, o destino de sua tia e seu tio, o que acontecerá com os piratas e, principalmente, o que será do Juiz Humphrey Pengallan. Esses pontos de interrogação conjugados acabam por criar uma atmosfera excitante no decorrer da obra, o que prende melhor a atenção do público, mas como o tema do filme não é assim tão interessante ou esses mesmos pontos não sejam de caráter tão inquietantes, é possível que num momento ou outro a gente se distraia ou perca um pouco de interesse pela história. É um paradoxo, mas ele está no filme, não há o que se fazer.

A Estalagem Maldita fecha de forma mediana a fase britânica de Hitchcock. Talvez se Charles Laughton, que também era um dos produtores da obra, aquietasse mais o seu ego e não exigisse diálogos adicionais para seu personagem, Hitchcock conseguisse criar um outro tipo de tensão e fazer desse filme algo mais próximo de uma característica bem sua. De qualquer forma, este não é um filme ruim e certamente deve ser visto por ser um marco importante na carreira de Hitchcock. A partir desse ponto, na fase americana do Mestre, os espectadores poderiam ver de forma mais intensa tudo aquilo que ele acreditava ser cinema e entretenimento, aplicando e aprimorando suas ideias estéticas e narrativas estruturadas em sua terra natal. A Estalagem Maldita é apenas o último capítulo antes desse novo momento e, mesmo que não conste entre os melhores já realizados pelo diretor, tem um quê de especial que só quem o viu saberá definir bem.

  • Crítica originalmente publicada em 11 de março de 2014. Revisada para republicação em 22/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Estalagem Maldita (Jamaica Inn) – Reino Unido, 1939
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Joan Harrison, Alma Reville, J.B. Priestley (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Charles Laughton, Horace Hodges, Maureen O’Hara, Hay Petrie, Frederick Piper, Emlyn Williams, Herbert Lomas, Leslie Banks, Clare Greet, William Devlin, Jeanne De Casalis, Mabel Terry-Lewis, A. Bromley Davenport
Duração: 108 min.

Crítica | A Dama Oculta (1938)

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A história da produção de A Dama Oculta foi bastante agitada. Em 1937, o diretor Roy William Neill foi contratado para guiar uma obra chamada The Lost Lady. Ele e uma parte da equipe viajaram para a (antiga) Iugoslávia para dirigir as cenas de ligação e ambientação da obra (que cobrem o primeiro ato do longa), mas foram expulsos do país assim que as autoridades locais descobriram que a nação não era representada positivamente pelo enredo. A dificuldade de continuar com o projeto a partir dali fez com que a primeira fase de produção fosse engavetada. E assim morreu The Lost Lady.

Um ano depois, o roteiro foi cair no colo de Alfred Hitchcock, que com um orçamento menor, começou a trabalhar com os roteiristas Sidney Gilliat (A Estalagem Maldita) e Frank Launder para alterar detalhes estruturais do início e fim do texto original, mudando também muita coisa do que se tinha adaptado da obra The Wheel Spins, escrita por Ethel Lina White (Silêncio nas Trevas), especialmente em relação à Srta. Froy. No todo, o filme traz para a ficção o complexo e incômodo cenário político pelo qual a Europa passava naquele final de anos 1930, pouco mais de um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha sido filmado em diversos estúdios, linhas férreas e campos militares do Reino Unido, o filme manteve uma identidade visual “exótica” muitíssimo interessante graças ao olhar acurado do diretor para o que deveria ou não colocar na tela, e principalmente à maravilhosa direção de arte e aos figurinos nas dependências do hotel — que fica “em algum lugar da Europa Central”, onde praticamente todo o primeiro ato se passa (o restante é na estação da pequena cidade). Nesses primeiros minutos de projeção, temos a impressão que estamos assistindo a uma comédia despreocupada, com toques culturais e um pouquinho de crítica aos costumes da sociedade da época, com destaque para o papel da mulher. É um início lento (em termos de impacto causado pelas coisas que vemos), mas bem divertido e com pistas que são retomadas com muita inteligência na parte final da película.

O texto cria uma situação leve e incômoda (abrindo as portas para a comédia) colocando passageiros de diferentes nacionalidades esperando o desbloqueio dos trilhos após uma forte nevasca. Parece um filme dos irmãos Marx, para falar a verdade. E é aí que conhecemos a Srta. Froy (May Whitty), Iris (Margaret Lockwood) e o musicólogo Gilbert (Michael Redgrave), personagens que protagonizariam isoladamente o segundo ato do filme. Eu acho a sequência de ligação entre o “acidente” de Iris, ainda na plataforma, e tudo o que acontece depois, dentro do tem, uma excelente sacada do roteiro. Hitchcock, já um Mestre em distrair a atenção do público e fazer joguinhos de suspense em camadas diferentes, brinca com ideias de conspiração e dubiedade em relação à percepção e memórias da jovem protagonista, que é o que verdadeiramente chama a atenção no enredo, muito mais do que a revelação de todo o plano e do que o lado político, ainda bom, mas um tantinho destoante no final.

Um mistério com uma mescla de humor, distração do público e personagens que enfrentam um interessante teste (como se fosse um processo de amadurecimento que afeta até a vida amorosa dos mais jovens), A Dama Oculta é um dos trabalhos da fase britânica de Hitchcock que mais demonstram a essência da filmografia do diretor. E ainda tem o benefício de poder ser lido por um outro viés, como um filme de espionagem bastante peculiar, não só pela escolha do espião da vez, mas pelo drama intricado (e devo ressaltar mais uma vez, divertido) que o envolve. Embora haja algum exagero no tratamento das cenas dos passageiros isentões que só estavam preocupados com críquete e do advogado com sua querela matrimonial, o filme se mantem solidamente no alto e garante uma baita sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de março de 2014. Revisada para republicação em 20/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Dama Oculta (The Lady Vanishes) — Reino Unido, 1938
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder (baseado na obra de Ethel Lina White)
Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Emile Boreo, Googie Withers, Sally Stewart, Philip Leaver, Selma Vaz Dias, Catherine Lacey
Duração: 96 min.

Crítica | Jovem e Inocente

estrelas 4

Dos filmes de Alfred Hitchcock, Jovem e Inocente talvez seja aquele que tem o elenco mais jovem de todos. Não só os protagonistas são muito jovens como também aparecem algumas crianças e adolescentes com participações de certa importância no filme, não apenas como figurantes. E é interessante ver um suspense do Mestre com personagens de pouca idade. A atmosfera da história é outra, pautada pela pouca experiência de vida dos envolvidos e por atitudes mais impulsivas. Nada muito complexo, nenhuma questão pessoal de grande mota, apenas jovens envolvidos numa trama de assassinato e que acabam se apaixonando um pelo outro, um contexto final que às vezes pode atingir negativamente a história, mas no caso de Jovem e Inocente, funciona muito bem.

A construção inicial do filme é muito mais eficiente que a observada em Sabotagem. Aqui, temos uma discussão inicial entre marido e mulher, cortando para o dia seguinte, onde vemos um corpo morto na praia e em seguida descoberto duas vezes, uma por Robert, que será injustamente acusado de ter cometido o crime e outra por duas jovens banhistas que interpretam errado a correria de Robert do local do crime. Os 15 minutos iniciais da fita são marcados por uma cadência episódica de eventos muito bem interligados, algo que tem um impacto bastante positivo no espectador. Mais do que em qualquer outro filme que dirigira até então, Hitchcock conseguiu um resultado maduro e livre de problemas de concepção, seja no fato gerador de determinadas cenas, seja em sua execução. Tomemos por exemplo a criação do suspense através de cenas de ação e perseguição.

Ora, o exercício do diretor em O Mistério do Número 17 ou Os 39 Degraus é interessante, mas se comparado ao que ele fez em Jovem em Inocente, perde força. A partir desse ponto, Hitchcock passou a aplicar os elementos de linguagem cinematográfica que experimentara nos longas anteriores, diminuindo a sua carga de testes e ampliando o seu fazer artístico, uma postura que melhorará a cada nova obra e já poderá ser vista em plena forma no seu filme seguinte, A Dama Oculta (1938).

A famosa cena do travelling através do salão de dança do Grande Hotel é um dos exemplos mais instigantes dessa criação de uma linguagem própria de suspense. Partindo de um grande campo (a câmera está no teto do salão), onde vemos pessoas dançando e uma banda ao fundo da tela, a câmera faz o seu trajeto, diminuindo o campo de visão e detalhando melhor os rostos dos dançantes. Em seguida, a lente foca nos músicos, e por fim, no baterista, que em um primeiro plano, quase como uma confissão para o espectador, revela o seu tique, o mesmo que havia apresentado desde a primeiríssima cena.

O que me incomoda em Jovem e Inocente é o colapso nervoso do qual o verdeiro criminoso padece, quando se descobre cercado. Não vejo uma justificativa psicológica ou motivacional para que alguém que tivesse cometido o crime que cometeu se revelasse tão fraco diante de algo do qual poderia escapar com relativa facilidade. E isso também vale para a pista deixada gratuitamente por ele, o que acaba colocando Roger em seu encalço. Vale também citar a estranha e improvável postura da polícia, tão sem utilidade quanto as de outros filmes do diretor, mas que, devido a complexidade da história aqui narrada, parece ter sério déficit de inteligência.

Diante dessas falhas de concepção em alguns pontos, é de se perguntar: Jovem e Inocente é mesmo um filme tão bom? A resposta é simples: sim, é! As tais falhas se destacam principalmente porque todo o restante é muitíssimo bem realizado e, justamente por isso, consegue encobrir as consequências dessas fases menores, resultando em um produto final instigante e divertido, fazendo de Jovem e Inocente um dos filmes memoráveis da fase britânica de Alfred Hitchcock.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 07/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Jovem e Inocente (Young and Innocent) – UK, 1937
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong, Gerald Savory, Alma Reville (baseado na obra A Shilling For Candles, de Josephine Tey).
Elenco: Nova Pilbeam, Derrick De Marney, Percy Marmont, Edward Rigby, Mary Clare, John Longden, George Curzon, Basil Radford, Pamela Carme, George Merritt, J.H. Roberts
Duração: 80min.

Crítica | Sabotagem (O Marido Era o Culpado)

estrelas 3

SPOILERS!

Sabotagem, filme de Alfred Hitchcock que foi lançado originalmente no Brasil com o título estúpido e mega spoiler de O Marido Era o Culpado, tem uma fama em geral tão boa, que o espectador se aventura em sua sessão achando que vai estar diante de uma película grandiosa do Mestre do Suspense. Mas não é exatamente isso que acontece.

Chamado de “cambaleante” pelo próprio diretor nas entrevistas que deu a François Truffaut, Sabotagem apresenta uma história de suspense centrada na expectativa do público sobre o que vai acontecer ao sabotador (Sr. Verloc, interpretado por Oskar Homolka) e qual é a motivação de seu ato. Já nas primeiras cenas, descobrimos que o Sr. Verloc colocou areia em uma das máquinas da central de eletricidade em Londres, causando um blecaute. Essa abertura apresenta de forma competente o motivo dramático da obra, com direito a uma série de pequenas indicações humorísticas do diretor, como os “fósforos Lúcifer” do vendedor ambulante, as freiras que passam na rua, uma risada maléfica, e por fim, a chegada do Sr. Verloc em casa, indo lavar as mãos sujas de areia numa pia.

Partindo de um início cercado de referências metafóricas ao sabotador, caminhamos para uma apresentação mais detalhada de seu meio cotidiano. O Sr. Verloc é, na verdade, dono do Cinema Bijou, que administra juntamente com sua jovem esposa e é ajudado pelo pequeno cunhado, um garotinho que se tornará peça importante do filme, naquela que é a sua melhor parte.

O roteiro procura mostrar o engajamento canhestro do Sr. Verloc, mas a explicação para o seu envolvimento com o grupo de sabotadores (estrangeiros, é claro), não serve de muita coisa porque é vago demais. Mas a essa altura o público já comprou a história, que também mostra um outro lado, a visão dos fatos a partir da jovem Sra. Verloc e do detetive disfarçado da Scotland Yard. O flerte do detetive e o progressivo envolvimento entre ele e a Sra. Verloc constituem um desvio nocivo para o longa e é em torno disso que as coisas cambaleiam, um passo em falso que acaba tendo consequências em toda a película, já que a “relação” entre esses dois personagens é apresentada falha desde o início.

Hitchcock pode não ter conseguido o tal “grande filme” a que muitos críticos e espectadores intitulam Sabotagem, mas certamente conseguiu uma obra interessante e um bom resultado na esfera técnica. Já foi citado aqui o uso dramático e metafórico de elementos do espaço geográfico (a rua, a cidade) que o diretor explorou no início, algo que pode ser visto em todo o restante do filme e provar a nossa visão de apuro na composição de imagem feita pelo Mestre.

Tendo isso como base, podemos destacar facilmente a cena do zoológico, onde o Sr. Verloc tem uma alucinação através de um grande aquário, onde imagina ver uma parte da cidade de Londres, e, no momento seguinte, a cidade indo abaixo, como se estivesse derretendo ou caindo devido a uma grande explosão, o que era o caso; ou a cena do almoço após o que acontece com Stevie, onde o Sr. Verloc se dá conta do que a esposa queria fazer com a faca e acaba se entregando facilmente para que ela fizesse o que estava pensando (François Truffaut chegou a dizer que via nessa cena mais um suicídio que um assassinato, opinião da qual também compartilho). O próprio Verloc faz de tudo para ser odioso e odiado depois da morte de Stevie, provocando a esposa com falas que incomodam bastante o espectador.

Hitchcock nunca fez segredo de que não gostava da cena da bomba no ônibus, algo que ele sempre chamava de “um erro terrível”. É claro que a cena é bastante forte e chacoalha o espectador na cadeira, mas não há dúvidas de que ela faz parte da melhor sequência de eventos do filme, por mais trágica que seja. Desde a saída de Stevie do Cinema Bijou até a explosão da bomba-relógio no ônibus, há uma criação de tensão sem igual no filme e, de certa forma, toda a obra só faz sentido porque existe esse sacrifício, algo a que o diretor chega em seu raciocínio final e é prontamente compreendido pelo público. É uma pena que o romance e a conveniente explosão do cinema ao final de Sabotagem manchem a sua qualidade geral – afinal, não há quem segure romance desnecessário e Deus ex Machina como ingredientes marcantes de um filme.

Não se trata, todavia, de uma obra ruim. Há muitos elementos tipicamente hitchcockianos na fita que lhe dão um charme e uma atmosfera toda especial, contando até com uma contrastante cena do desenho A Flecha do Amor (1935), de David Hand, produzido pelos estúdios Walt Disney. Essa cena, apesar de aparentemente alegre, dá um significado ainda mais pesado à morte de Stevie e deixa claro o estado de choque em que a Sra. Verloc se encontrava após receber da notícia. Num primeiro momento, ela tenta “fugir” ou esquecer a situação através do cinema, mas o que está na tela remete não só ao personagem mas também o público à tragédia que acabara de acontecer… Sabotagem é uma daquelas produções em que temos as melhores características de um diretor em um filme cuja história se auto-boicota.

  • Crítica originalmente publicada em 17 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 03/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Sabotagem / O Marido Era o Culpado (Sabotage) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Helen Simpson, Alma Reville, E.V.H. Emmett (baseado na obra de Joseph Conrad).
Elenco: Sylvia Sidney, Oskar Homolka, Desmond Tester, John Loder, Joyce Barbour, Matthew Boulton, S.J. Warmington, William Dewhurst
Duração: 76 min.

Crítica | Agente Secreto

estrelas 2,5

Em um resumo de leitura simples: Agente Secreto (1936) é um filme vago de motivação dramática e absurdamente insistente em situações que não ajudam a desenvolver a história, apenas desviam o espectador para coisas que o vão chateando cada vez mais, resultando em um produto final que tem momentos isolados de brilhantismo técnico de Alfred Hitchcock na direção e muita coisa que deveria ter sido cortada durante a edição.

A história que vemos na tela é adaptada de duas fontes literárias; a primeira, dos romances muito populares escritos por W. Somerset Maugham, tendo o personagem Ashenden como protagonista. A segunda, da peça escrita por Campbell Dixon, de onde saiu o ponto romântico da película. A junção entre literatura, teatro e cinema não poderia passar incólume a estranhezas narrativas, e este é o ponto que temos de sobra em Agente Secreto.

Um soldado tem a sua morte forjada e é enviado à Suíça pelo alto escalão do Exército para matar um espião alemão. Já em seu destino, ele se encontra com uma esposa arranjada — também espiã — e um parceiro, o curioso General Pompellio Montezuma De La Vilia De Conde De La Rue (que nome fantástico, não?), um alívio cômico interpretado maravilhosamente por Peter Lorre. A trama se passa durante a I Guerra Mundial e ressalta a forte inimizade entre britânicos e germânicos neste momento da História, uma situação que voltaria a se repetir em pouco mais de duas décadas, e de forma bem mais bruta.

Já no início do filme, ficamos às voltas com os motivos escolhidos pelos roteiristas para a criação do pseudo-suspense. Temos uma introdução que nos dá a atender uma rede notadamente intricada de espionagem militar, todavia, o restante da trama é conduzido como sendo o trabalho de um homem só — ou de um homem com dois parceiros — voltando à conexão com o QG apenas no desfecho da obra, cenário que reafirma a questionável ligação amorosa entre os “Ashenden”, piorando ainda mais o problema de foco e sentido do filme.

Depois, não entendemos muito bem o critério de escolha do Exército e que planos tão importantes eram esses. Uma pequena sequência de sobreposições geográficas e jornalísticas é usada por Hitchcock para contornar o problema e adicionar um pouco de contexto à Guerra e ao plano em si, mas isso se perde completamente se levarmos em consideração todo o restante da película. O mais curioso é que no caso da espiã Elsa Carrington (numa interpretação bipolar de Madeleine Carroll), temos uma pessoa completamente desequilibrada, que dá espetáculos sentimentais e surtos nervosos quando se vê próxima a uma situação que envolve assassinato. Que tipo de espiã é essa?

As coisas pioram, quando vemos que um personagem tão duro e apático como Richard Ashenden (um John Gielgud bastante sério e com cara de quem não se importa, mas mesmo assim, ótimo) se enamorar dessa espiã sem preparo psicológico e levar adiante o romance, pondo em riso o próprio objeto de sua missão. O próprio Ashenden tem dúvidas sobre seu papel em toda a história e não quer cometer o tal assassinato, mostrando ele mesmo um grande despreparo. O único relativamente convincente, em especial porque nunca se leva a sério, é o Genal Pompellio. Peter Lorre não deixa escapar o momento de seus olhares sérios, olhos esbugalhados ou revirados, mas também deixa espaço para falas e atitudes bastante irônicas e cínicas, o que gera uma ótima construção geral de sua persona no filme.

A linha de investigação, a rigor, nunca é deixada de lado, mas é interrompida ou pouco trabalhada em detrimento de pequenos caprichos inúteis para o enredo, como o já citado romance, as cenas do cachorro que sente a morte do dono, a festa folclórica suíça, a fábrica de chocolates e por aí vai. Fica claro para o espectador que Hitchcock quis trazer o máximo de elementos tipicamente suíços para o filme, mas acabou exagerando na dose e se perdendo nas entrelinhas que todos esses elementos criaram, numa sequência de ações contendo começo, meio e fim errôneos.

Em meio a tudo isso, salvam-se as pontuais e fantásticas experimentações imagéticas do diretor, com direito a efeitos Kuleshov, contrapontos sonoros e metáforas entre paisagens, objetos, animais e pessoas, uma admirável concepção dramática e estética para um filme com tantos problemas de concepção de enredo.

Agente Secreto não é uma obra memorável de Hitchcock, apesar de já trazer características muito próprias de sua fase maestra dos anos posteriores. Trata-se de uma obra menor, mediana, mas que num momento ou outro garante uma animada erguida de sobrancelha para closes e cenas realmente muito boas, os únicos momentos que irão garantir a validade da sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 10 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 29/12/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Agente Secreto (Secret Agent) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Alma Reville, Jesse Lasky Jr. (baseado na peça de Campbell Dixon e no romance de W. Somerset Maugham).
Elenco: John Gielgud, Peter Lorre, Madeleine Carroll, Robert Young, Percy Marmont, Florence Kahn, Charles Carson, Lilli Palmer
Duração: 86 min.