Alberto Lattuada

Crítica | O Amor na Cidade

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estrelas 3

O Amor na Cidade é uma antologia de seis curtas-metragens entre 15 e 30 minutos cada um, organizada pelo roteirista e escritor Cesare Zavattini com o objetivo de mostrar o autêntico amor em Roma sob as lentes neo-realistas de cineastas italianos de proeminência na época. Federico Fellini foi um dos seis e, considerando que a presente crítica foi feita dentro do contexto de nosso especial dedicado ao diretor, começarei exatamente pelo curta dele, mas não deixarei de comentar os demais.

As avaliações abaixo são por episódio e a que abre essa crítica é da obra como um todo (não é uma média).

Agência Matrimonial
(dir: Federico Fellini)

estrelas 4

O trabalho de Fellini é o quarto na sequência de O Amor na Cidade e o mais transgressor considerando as regras estabelecidas por Zavattini. Afinal de contas, o objetivo era mostrar o amor de pessoas comuns, não atores, na Cidade Eterna.

Mas Fellini logo empresta seu viés mais crítico e perverte o objetivo da obra como um todo e cria literalmente uma obra de ficção, ainda que, em termos de locações e de atores, seja galgada na escola neo-realista que ajudou a sedimentar. Assim, diferente dos outros segmentos, que têm quase tom de documentário, Fellini conta a história de um repórter investigativo que, sem maiores explicações, tenta entender como funciona uma agência matrimonial.

Para isso, o jovem vai até uma dessas agências, localizada em um prédio labiríntico em Roma e, com a ajuda de um hilário grupo de criancinhas, acaba achando o que procura. Só que, claro, como bom repórter investigativo, ele não diz a que veio e inventa uma história absurda, para ver se a dona da negócio segue adiante com o trabalho. Ele afirma que está atuando por conta de um amigo milionário que vive no interior e que sofre de licantropia (sim, a doença fictícia que faria com que as pessoas se transformassem em lobisomens). Os médicos teriam receitado que seu amigo se casasse como último recurso para curá-lo.

Sem reagir, a matrona pega seu livro de candidatas a casamento e logo acha uma disponível e marca um encontro com o repórter, que se afunda ainda mais na enrascada em que se meteu. O segmento tem momentos engraçados, como todo o início nos corredores do prédio onde se localiza a agência e a relação negocial absurda que se estabelece entre o repórter e os donos da agência. No entanto, Fellini também imprime amargura, pobreza e solidão, ao permitir que a candidata conte sua triste história de vida ao repórter. É um momento bonito, singelo e de cortar o coração.

Fellini, ao brincar com as regras estabelecidas por Zavattini, acaba criando o melhor episódio de O Amor na Cidade. Nada como um diretor desse naipe para perverter expectativas!

O Amor Que Se Paga
(dir: Carlo Lizzani)

estrelas 1

O primeiro segmento de O Amor na Cidade é também o mais estranho.

Um narrador em off começa a falar sobre a dura vida das prostitutas em Roma e a câmera acaba seguindo algumas, em tom jornalístico. No entanto, a tentativa de se fazer algo mais tocante e sério cai por terra completamente quando notamos que as perguntas, as respostas, a filmagem mesmo é completamente ensaiada, ainda que com prostitutas de verdade.

Fica um misto de documentário, segmento de “Jornal Nacional” e filme que acaba não resultando em nada muito uniforme e realmente interessante, com alguma lição que se possa tirar do que vemos diante das telas.

Tentativa de Suicídio
(dir: Michelangelo Antonioni)

estrelas 4

O mais angustiante dos segmentos de O Amor na Cidade é dirigido por Antonioni.

Como o título deixa claro, ele trata de tentativas de suicídios por parte de mulheres que foram, de uma maneira ou de outra, abandonadas por seus namorados ou maridos. Elas são todas reunidas em um cenário e, depois, as histórias de quatro delas é semi-reencenada por elas mesmas. Diferente de O Amor Que Se Paga, o tom jornalístico, aqui, funciona muito bem, já que as reencenações são reveladas pelo narrador, não deixando dúvidas do que estamos assistindo.

E é duro, mesmo que por vinte minutos, ver essas histórias serem contadas com bastante realismo e, pasmem, naturalidade por parte das suicidas. Uma delas tem dois filhos pequenos e foi abandonada pelo marido. Depois de reencenar como tentou se matar, nós a vemos entristecida chegando perigosa e tentadoramente chegando perto de uma janela escancarada. É estranho e dilacerante como só Antonioni consegue fazer.

Paraíso Por Quatro Horas
(dir: Dino Risi)

estrelas 2,5

Esse é o primeiro dos dois episódios engraçados dessa antologia. Dino Rossi simplesmente filma um baile noturno em que homens e mulheres desconhecidos vão dançar. Nada mais, nada menos.

As sequências provavelmente foram encenadas, mas, aqui, isso não transparece muito facilmente e é fácil aceitar a câmera como um observador escondido (ainda que não seja, claro). Vemos o gostosão dançarino e a gostosona dançarina se aproximando. Paqueras na frente de namorados. Uma mãe literalmente escolhendo com quem sua filha pode dançar. Um casal que, apesar de junto, não dança. O tom cômico está natural e agradavelmente presente, o que é um alívio depois dos episódios anteriores mais pesados (mesmo o de Fellini, que começa em tom cômico acaba em tom trágico).

A História de Caterina
(dir: Francesco Maselli e Cesare Zavattini)

estrelas 4

Assim como no segmento de Antonioni, vemos uma reencenação com as pessoas que passaram a situação. E que situação triste vemos em A História de Caterina.

A moça do título tem um filho que tem que deixar com uma babá, pois precisa procurar emprego. Ela não tem onde morar e, por também não ter identificação, pois havia sido presa na Sicília, de onde veio, não consegue absolutamente nada. Logo ela tem que passar a cuidar de seu filho e morar na rua. Em desespero, ela decide abandonar o menininho em um parque em uma cena angustiante, desesperadora mesmo. Maselli e Zavattini conseguem tirar uma natural e excelente atuação de Caterina, fazendo seu próprio papel e nós sabemos que ela consegue fazer o que faz diante das câmeras, pois está pensando na barbaridade de decidira cometer.

Mas ela logo se arrepende e tenta reaver seu filho, somente para ser presa por abandono de menor. O final? Bem, só vendo o curta, mas basta dizer que o menino é mesmo o filho dela no segmento.

Os Italianos Se Viram
(dir: Alberto Lattuada)

estrelas 3,5

Lattuada, um dos grandes impulsionadores da carreira de Fellini, faz, aqui, um episódio muito divertido e que vem completamente ao encontro da percepção estrangeira dos italianos.

O filme é integralmente composto de mulheres bonitas e bem vestidas andando pela cidade somente para os homens ao redor virarem o rosto para seguir seus respectivos rebolados. Daí o “se viram” do título.

Com uma trilha sonora de pastiche, o resultado que vemos em tela é leve e alvissareiro de um futuro promissor para a Itália ainda muito empobrecida na década de 50. É o estereótipo do homem italiano (e do brasileiro também, oras), que é visto como “tarado” e da mulher italiana (e da brasileira também, claro), que é sempre percebida como linda e maravilhosa.

Os dois minutos finais, com um homem seguindo uma mulher pela cidade e no ônibus até o ponto onde ela salta é desconcertante e estranho, mas ainda sim interessante e leve o suficiente para não nos preocuparmos muito. Um bom encerramento para uma peculiar antologia.

  • Crítica originalmente publicada em 15 de outubro de. Revisada para republicação em 10/02/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

O Amor na Cidade (L’Amore in Città, Itália, 1953)
Direção: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Alberto Lattuada, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Dino Risi, Cesare Zavattini
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Aldo Buzzi, Luigi Charini, Federico Fellini, Marco Ferreri, Alberto Lattuada, Luigi Malerba, Tullio Pinelli, Dino Risi, Vittorio Veltroni, Cesare Zavattini
Elenco: Rita Rosa, Rosanna Carta, Enrico Pelliccia, Donatella Marrosu, Paolo Pancetti, Nella Bertuccioni, Lilia Nardi, Lena Rossi, Maia Nobili, Antonio Cifariello, Livia Venturini, Maresa Gallo Angela Pierro, Rita Andreana, Lia Natali, Cristina Grado, Ilario Malaschini, Sue Ellen Blake, Silvio Lillo, Caterina Rigoglioso, Mara Berni, Valeria Moriconi, Giovanna Ralli, Ugo Tognazzi, Patrizia Lari, Raimondo Vianello, Edda Evangelista, Liana Poggiali, Marisa Valenti, Maria Pia Trepaoli, Marco Ferreri, Mario Bonotti
Duração (total): 105 min.

Crítica | Mulheres e Luzes

Quando foi para trás das câmeras para fazer Mulheres e Luzes, seu primeiro filme, Federico Fellini não era um iniciante na arte do Cinema. Já havia trabalhado como roteirista de programas de rádio e de gags para filmes, envolveu-se com o neorrealista Roberto Rossellini, chegando a ser indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1947, juntamente com Sergio Amidei e outros, por seu trabalho em Roma, Cidade Aberta.

Seu trabalho com Rossellini acabou levando-o a forjar laços de amizade com Alberto Lattuada, com quem escreveu Sem Piedade, dirigido por este último, e esses laços levaram os dois a co-dirigirem Mulheres e Luzes. Apesar do fracasso comercial que foi o filme, ele é um ótimo começo de carreira e já delinearia muito bem o trabalho de Fellini nas décadas seguintes.

Como o título original (Luci del Varietà) deixa claro , a fita versa sobre o teatro de variedades, algo muito próximo, assim como o circo, ao coração do diretor italiano. E seu carinho por esses artistas mambembes que reflete, de certa forma, a vida na Itália não muito depois da Segunda Guerra Mundial, com muita pobreza e tentativas de reconstrução, fica evidente a cada fotograma de Mulheres e Luzes, uma pequena grande obra desse inesquecível diretor.

A história é enganosamente simples: um grupo de artistas vai de cidade em cidade fazendo seu pequeno show de variedades. Em uma dessas viagens, a estonteante Liliana “Lily” Antonelli (Carla Del Poggio) acaba se juntando ao grupo ao enfeitiçar o diretor Checco Dal Monte (Peppino De Filippo). Ela mal sabe atuar e dançar, mas sua forma física acaba atraindo clientela e, claro, gerando rusgas internas no grupo, com muitos dos artistas sentindo ciúmes da moça, especialmente Melina, namorada de Checco, vivida pela esposa de Fellini, Giulietta Masina.

A tentativa desenfreada de Lily de subir na carreira pode ser vista de duas maneiras: um ato feito de caso pensado, sem que ela se importe em que calos pisa ou como algo que ocorre em virtude sim de sua vontade em crescer, mas aliado à sua inocência. As duas interpretações são plenamente possíveis, ainda que a primeira seja a mais fácil e direta. No entanto, a atuação de Del Poggio carrega um ar de dubiedade, de deslumbramento, que dá uma cor especial ao filme e gera a dubiedade que apontei.

Checco é que é o incorrigível e unidimensional nessa história toda. Ele corre atrás do “rabo de saia” disponível e, quando Lily entra no circuito, ele só tem olhos para ela, esquecendo-se completamente de Melina, que, como fica claro, é absolutamente devotada a Checco. E tanto Peppino De Fillipo quanto Giulietta Masina estão excelentes na película, com especial destaque para Masina que, em seu primeiro papel, de certa maneira já cria o molde segundo o qual forjaria seus futuros personagens.

A narrativa é objetiva, mas carrega muitas nuances e a fotografia de Otello Martelli (que viria a se tornar um parceiro de Fellini) em preto-e-branco, trabalhando com muita luz natural nos locais abertos para transparecer aridez, abandono e luzes mais mudas e discretas para filmagens em locais fechados, passando a impressão de pobreza, umidade e desleixo completo, que acaba contrastando com a genuína alegria da trupe de atores em atuar sob quaisquer condições. Eles vivem para aquilo e o ambiente basicamente não interessa desde que eles tenham uns aos outros. E esse senso de união, de amizade é o que é quebrado pela luminosa presença de Lily, apesar dos esforços de Melina em fazer de tudo para manter o grupo coeso, mesmo que para isso ela tenha que sacrificar sua própria felicidade.

Fellini voltaria um sem número de vezes ao meio artístico para tirar inspiração para seus filmes. Mulheres e Luzes foi a obra que abriu o magnífico e prolífico caminho do diretor que influenciaria diversos outros.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de maio de 2013. Revisada para republicação em 20/01/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Mulheres e Luzes (Luci del Varietà, Itália – 1950)
Direção: Federico Fellini, Alberto Lattuada
Roteiro: Federico Fellini, Alberto Lattuada, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano (não creditado)
Elenco: Peppino De Filippo, Carla Del Poggio, Giulietta Masina, John Kitzmiller, Dante Maggio, Checco Durante, Gina Mascetti, Giulio Calì, Silvio Bagolini, Giacomo Furia, Mario De Angelis, Vanja Orico, Enrico Piergentili, Renato Malavasi, Joseph Falletta, Folco Lulli
Duração: 97 min.