Panini Comics

Crítica | Mulher-Maravilha, Batman e Superman: Trindade

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Muita gente morre de amores por esta minissérie escrita e desenhada por Matt Wagner em 2003, mostrando os primeiros encontros de Batman, Mulher-Maravilha e Superman na DC da Era Moderna; mas para mim, a saga não tem assim tantas gloriosas passagens não, apesar de ser divertida de se ler — que me desculpem os que a amam muito.

É claro que não dá para ignorar essa premissa que traz algo que sempre chama a atenção de qualquer um que gosta de quadrinhos: personagens importantes vistos num ponto inicial de suas carreiras ou, nesse caso, no ponto inicial da convivência entre eles mesmos. Este, na verdade, é um trampolim capaz de vender qualquer plot para leitores de quadrinhos e que promete um bom divertimento durante a leitura, o que de fato acontece aqui. Cronologicamente estamos após Ano Um (para o Morcego), Deuses e Mortais (para a Amazona) e Homem de Aço (para… o Homem de Aço), de modo que o roteiro não precisa, por coerência, alçar voos absurdos, apenas focar no relacionamento entre os protagonistas e colocá-los para enfrentar juntos, pela primeira vez, um grande inimigo. E eis aí o meu problema com essa Trindade.

Não, não me refiro ao encontro dos medalhões, isso é fantástico (como fantástico também é o cameo do Aquaman). Estou falando do tal inimigo. E vejam, mesmo que eu tenha pequenos problemas com a forma como Matt Wagner reforçou as picuinhas entre Bruce e Diana,  o que não desce de verdade nessa história é o fato de precisar dos três para vencer Ra’s Al Ghul, que consegue descongelar Bizarro e colocá-lo na jogada também. E com isso não quero subestimar o vilão. Mas é que o tempo inteiro a aventura me soa como algo mais ligado ao Batman, depois mais ligado ao Superman e daí tem a Mulher-Maravilha. Apesar da ação direta e importante dela na trama, não há de fato uma boa conexão com esse elemento vilanesco. Nem Ártemis ou a Ilha Paraíso (que é apenas uma consequência do plano e que aparece só na terceira edição) funcionam como ponte, de modo que a Amazona sobra em alguns momentos. Daí vocês já tiram a minha visão geral da obra. Apesar de gostar do todo, sempre tenho um pé atrás porque não gosto do vilão envolvido e nem do plano que une a Trindade em sua primeira luta.

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Já sobre a arte, devo dizer que gosto do trabalho de Matt Wagner e principalmente das cores de Dave Stewart para toda a aventura. O estilo do artista combina bastante com esse olhar para o passado, o que nos ajuda a comprar melhor o que está sendo narrado. E existem momentos muito bons aqui, especialmente os do Superman — tanto agindo em cenas de exercício de força, quanto de babá para Diana e Bruce não se pegarem (e não de um jeito legal). Dos três, inclusive, o que o roteiro melhor captura a essência de início de carreira é o Superman, seguido pelo Batman. Já a visão de Wagner para a MM não me agradou muito, com exceção de alguns poucos quadros e das cenas em Themyscira.

Trindade é uma história gostosa de se ler e uma forma interessante de se olhar para a relação dos três grandes da DC Comics num encontro onde ainda não sabiam muito bem o que esperar um do outro. Traz à memória um tempo diferente da editora e dos próprios personagens. Mas não é uma aventura perfeita. Se você ainda não leu, que fique preparado, então.

Batman/Superman/Wonder Woman: Trinity (EUA, agosto a outubro de 2003)
No Brasil:
Panini (2004), Eaglemoss (2016)
Roteiro: Matt Wagner
Arte: Matt Wagner
Cores: Dave Stewart
Letras: Sean Konot
Capas: Matt Wagner, Dave Stewart
Editoria: Bob Schreck, Michael Wright
228 páginas (encadernado Eaglemoss)

Crítica | Monstro do Pântano: Triângulos Infernais

Triângulos Infernais foi originalmente publicado aqui no Brasil pela Panini (2016), num encadernado chamado Regênese Vol.3. As revistas que de fato formam esse arco são as #77 a 81 da Monstro do Pântano Vol.2, e como adendo, tivemos no mesmo encadernado a inclusão do Anual #3 da mesma revista, uma história chamada Primos Distantes. Minha presente crítica e avaliação acima falam apenas das edições correntes do arco. O anual incluso é bem… peculiar, para não dizer bizarro (no sentido negativo), trazendo um roteiro vergonhoso de Rick Veitch, chamando toda a atenção para Grodd e diversos gorilas/aliados que são atraídos pelo primata mentalmente poderoso para destruir a cidade de Solovar. Não me pergunte o que uma história como essas está fazendo num Anual da revista do Monstro do Pântano, em vez da revista do Homem Animal. Isoladamente há alguns bons momentos e as cores de Adrienne Roy são lindas nessa edição, mas de resto, ela nada traz de realmente importante ou coerente para o Pantanoso.

Já o verdadeiro arco começa com a revista que lhe dá título, e nela existe uma DR entre o Monstro do Pântano e Abby, dias após o rito de concepção com a presença de Constantine. Sei que alguns leitores não curtem esse aspecto do enredo, mas vamos lá pessoal, já se passaram 77 edições dessa relação, é hora de se acostumar com o tipo de laço que o Elemental criou com Abby. É verdade que muitas vezes (nesse arco mesmo!) isso acaba saindo dos trilhos, tornando-se um melodrama proto-romântico besta, mas não é sempre não. E considerando que agora conseguiram implantar o Broto no útero de Abby, faz ainda mais sentido o teatrinho de casal que eles encenam. Quando bem trabalhado, como nesse roteiro de Jamie Delano, é algo interessante. E a briga aqui é legal porque afasta os pombinhos e coloca a Sra. Pântano dando um rolê com Constantine, numa noitada amigável e muito respeitosa por parte do personagem. Daí surge o link para a edição seguinte, Semeadura ao Vento (To Sow One’s Seed in the Wind) uma loucura sem limites escrita por Steve Bissette.

Eu não sei o que me impressiona mais aqui, se o fato de termos um cara que trabalhou com Martin Pasko e com Alan Moore à frente do Pantanoso escrevendo um troço desses ou a real ausência de propósito dessa edição. O curioso (e ainda mais bizarro) é que não é uma revista ruim. Tom Mandrake e Alfredo Alcala mandam muito bem na arte e a história tem a “cara das loucuras do pântano”, mas… para quê? Quando Moore resolvia chutar o balde e fazer uma coisa bem maluca, tinha um propósito ou, quando não, era uma incrível aventura autocontida que se sustentava perfeitamente pela alta qualidade. Bem… não é o caso aqui. A história só consegue não ser ruim, mas não acho um real motivo para ela existir. Será que o Pantanoso estava fazendo um exame de rotina (um pré-Natal-Elemental) para ver se o bebê estava bem? Mas precisava de tudo isso? De toda forma, a arte me garantiu estrondosas gargalhadas ao ver o Monstro refeito com forma de mulher, numa reação empática de sua natureza após sair do útero de Abby. Hummm… pensando bem, a proposta é bem bonita não é não?

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Vênus do Charco, São Columba, Fantasma Oculto nos Juncos e Demônio do Palude.

Já a edição seguinte, Esperando Deus (Waiting For God (Oh!)) com Rick Veitch de volta aos roteiros e à arte, não me interessou muito. Por mais que eu goste da ideia de elementos do passado serem retomados — como o ataque e morte do Monstro em Gotham, no arco De Terra a Terra, um ano antes — fiquei novamente pensando sobre o real propósito disso. O Pantanoso do nada resolver ir se vingar dos homens que o alvejaram e querer matar Lex Luthor é uma ação retardatária e estúpida. A trama vale mesmo pelos embates entre o protagonista e o Superman, além de mostrar o primeiro sequestro de um Ancião desprendido do Parlamento das Árvores, a Vênus do Charco, preparando-nos para as duas edições finais do volume, estas sim realmente muito boas: O Mais Longo dos Dias (The Longest Day) e Enlutada (Widowsweed), uma excelente forma de se fazer um crossover sem atrapalhar a história central e utilizando dessa necessidade editorial para tentar coisas novas.

À época, a DC Comics estava publicando a saga Invasão!, e a maneira como Veitch traz isso para as mensais do Pantanoso é admirável. Basicamente surge uma boa desculpa para tirar o Monstro do planeta Terra e ‘matá-lo’ mais uma vez, sendo que a preparação para isso é muito boa, mostrando quatro lendários Elementais transportados para planetas que os confunde e, pelo que entendi, neutraliza — tudo isso antes da chegada efetiva dos Dominadores, com o ataque ao Monstro acontecendo por último. Em Enlutada, vemos o fechamento de um ciclo aberto muitos anos antes, na maravilhosa O Visitante do Espaço. Infelizmente a presença de Guy “Lixo” Gardner na história estraga qualquer humor e beleza possível — principalmente depois do que ele faz –, mas há sentido para tudo isso dentro da história, completando de maneira muito triste o ciclo aberto no passado, além de fechar o arco com uma promessa e a dúvida sobre onde (e como) estaria o Monstro do Pântano agora.

Swamp Thing Vol.2 #77 a 81 + Annual #3: Infernal Triangles + Distant Cousins (EUA, outubro a dezembro de 1988 / Anual 1987)
No Brasil:
 Monstro do Pântano: Regênese n°3 (Panini, 2016)
Roteiro: Jamie Delano, Steve Bissette, Rick Veitch (mensais); Rick Veitch (anual)
Arte: Tom Mandrake, Rick Veitch (mensais); Rick Veitch, Shawn McManus, Jim Fern, Stan Woch (anual)
Arte-final: Alfredo Alcala, Rick Veitch (mensais); Tom Yeates (anual)
Cores: Tatjana Wood (mensais); Adrienne Roy (anual)
Letras: John Costanza (mensais); Augustin Mas (anual)
Capas: Dave McKean, Rick Veitch, Tom Yeates, John Totleben (mensais); Brian Bolland (anual)
Editoria: Karen Berger, Art Young
180 páginas

Crítica | Y: O Último Homem – Vol.1, Extinção (Sem Homens)

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Extinção ou Sem Homens, como também é conhecido, é o primeiro arco da série Y: O Último Homem, criação de Brian K. Vaughan (roteiro), Pia Guerra (arte) e José Marzan Jr. (arte-final), que estreou em setembro de 2002 nos Estados Unidos, sendo uma das publicações mais celebradas e lembradas da Vertigo; uma série que durou 60 edições, chegando ao seu fim apenas em 2008.

O roteiro aborda de maneira bastante peculiar o que poderia ser um cenário apocalíptico na Terra, estabelecendo a seguinte premissa: sem nenhuma explicação, num dia qualquer, todos os mamíferos com o cromossomo Y morreram ao redor do mundo (incluindo aí os embriões e espermatozoides desses mamíferos também). Com esse núcleo central somado a diversos conceitos de bioética, a discussões rápidas e práticas sobre clonagem humana, a um drama apocalíptico bem estruturado e abordagens sociológicas que trazem à tona ideias feministas, femistas e misândricas, o roteiro realiza um excelente trabalho ao colocar em cena a extinção de um gênero e tentar responder de diversas formas à pergunta: “como seria um mundo sem homens?“.

A primeira parte da trama recebe uma espécie de contagem regressiva, em diferentes momentos do dia e espaços geográficos, colocando mulheres trabalhando, divertindo-se ou conversando com homens, como acontece todos os dias. Essa preparação não serve para fazer um contraste teórico com o que viria depois, mas tem um excelente papel na criação do choque dramático, quando da constatação de que existem apenas mulheres no planeta. Para complicar a situação, símbolos e ideologias começam a despertar a imaginação de vários grupos de mulheres. Algumas integram a facção das Amazonas, outras adotam um culto a um certo monumento fálico em Washington (o obelisco), outras republicanas querem assumir a todo custo a cadeira de seus maridos  o Congresso, outras estão apenas lutando para conseguir um pouco de comida…

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A chegada da praga: o extermínio do cromossomo Y.

O presente cenário de caos e sobrevivência são, em tese, menos agressivos em comparação a outros dramas apocalípticos que conhecemos (como os nuclear, zumbi ou de desastres naturais), mas com certeza é mais complexo. Afinal, o mundo permanece o mesmo, à parte os acidentes gerados no momento em que os homens morreram (como incêndios, batidas de carro, explosões…), mas fica a constatação de que todos os mamíferos que vivem agora são fêmeas. Ou quase isso. O roteiro de Brian K. Vaughan prepara uma intrigante e inteligente colocação de Yorick Brown e seu macaco-prego Ampersand (&) — ou seja, dois machos — nessa nova realidade e a aventura passa a se desenvolver numa linha aparentemente simples de ação: Yorick e o símio possuem uma imensa responsabilidade para com o mundo agora. Mas de novo, quando se trata de humanos, absolutamente nada é tão simples. E esse cenário só de mulheres mostra claramente que nenhum gênero tem o monopólio da babaquice.

Gosto bem mais da forma como o ritmo e os eventos se desenvolvem nas duas primeiras edições do arco. A partir da terceira, o enredo precisa se abrir para dar oportunidade a novos personagens, além de sentido à jornada de Y e & para encontrarem a Doutora Allison Mann, que insere de maneira mais orgânica o papo de bioengenharia na trama. O núcleo das Amazonas acaba funcionando mais quando colocado como uma ameaça forte, temida, mas distante dos holofotes. Quando entram em cena, parece que algo não está muito certo. O bom é que o roteiro sabe alternar cenas passando-se em diferentes espaços (cada um deles com boas particularidades visuais graças à arte e à aplicação de cores), de modo que na reta final as Amazonas são novamente distancias e o leitor está mais uma vez focado no suspense em torno da fuga e busca por respostas dos dois únicos machos (até que se prove o contrário) do planeta.

Uma história que já começa engajando pelos mais diversos motivos, além de ter uma interessantíssima linha dramática para seguir. E só pelo que temos aqui na ficção, nossos rogos é que nunca, nenhuma das situações de fato aconteçam, porque um mundo só de mulheres ou só de homens não seria nada divertido…

Y: The Last Man #1 a 5 – Unmanned — EUA, 2002 – 2003
No Brasil:
Panini, 2009 e 2015
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Pia Guerra
Arte-final: José Marzan Jr.
Cores: Pamela Rambo, Digital Chameleon
Letras: Clem Robins
Capas: J.G. Jones
Editoria: Zachary Rau, Heidi MacDonald, Steve Bunche
132 páginas

Crítica | Lobo Solitário – Vol.2: Uma Barreira Sem Portões

Existem narrativas que amadurecem com uma rapidez absolutamente impressionante. Lobo Solitário foi uma delas. Nos nove capítulos que formaram o arco O Caminho do Assassino, tivemos uma apresentação-base do personagem Itto Ogami, de seu filho Daigoro e acompanhamos crônicas que nos mostravam valores pessoais, métodos de ação e estilo de vida desse homem vítima de uma intriga organizada pela poderosa família Yagyu, perdendo sua posição como Executor oficial do xogum. Uma sólida e cativante apresentação.

Já nos quatro capítulos que compõem este Uma Barreira Sem Portões, percebemos que Kazuo Koike traz com gosto uma pesquisa histórica sobre os costumes japoneses do século XVII, expondo, por exemplo, a enorme quantidade de cargos e encargos do poder nos clãs e, principalmente, como o pensamento de um personagem como o Lobo poderia ser enriquecido por novas práticas e contato com novas ideias. Neste segundo volume da saga, vemos na prática como tudo isso é aplicado à história em geral, tanto para o protagonista quanto para Daigoro, e muitas vezes a força de tudo o que é mostrado está totalmente entregue à habilidade de um lápis…

…o lápis do fenomenal Goseki Kojima. Em todos os capítulos deste arco há um momento de pausa nos diálogos e o que temos são diversos quadros e páginas apenas com uma narrativa visual sendo apresentada. A maturidade rápida que citei no início de minha argumentação tem aqui um dos pontos mais fortes. E os autores ainda conseguem sustentar a beleza, o significado e a importância de elementos básicos das narrativas japonesas em poesia, prosa, kabuki ou artes plásticas em contos tão distintos como Atraindo o Gato Vermelho (do qual não gosto totalmente da maneira como termina, mas penso que tem um dos inícios mais brilhantes do volume), Kantourai – A Chegada do Inverno (acho este brilhante, exceto pela imensa improbabilidade da cena da avalanche, no final), Osue – O Drama de uma Criada (meu conto favorito do arco, de uma lindeza fraterna que dá grande destaque a Daigoro), Mumonzeki – Uma Barreira sem Portões (o mais poético, belo, teórico e religioso — ou místico — do volume) e por fim Tsuwabuki – A Flor do Inverno (uma história de vingança, perfeita para terminar o livro).

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Estrutura e ritmo de cenas criados com maestria.

Dando lugar à ação da natureza, com grande destaque para o inverno, os autores resgatam um item essencial das histórias de maturidade dos indivíduos na poesia japonesa. O inverno é o momento de reclusão, o que leva ao pensamento e à busca por novidades nesse espaço mais fechado em que se vive fugindo do frio, algo que fica muito claro no conto que dá título ao arco. E essas ideias são desenvolvidas aos poucos, sempre com algum valor cultural, físico ou espiritual que podemos atribuir ao protagonista ou a Daigoro, que como já disse, tem grande destaque aqui — inclusive lutando e resistindo a provações físicas! –, provando que filho de Lobo… Lobinho é.

Por mais que eu tenha tido pequenos problemas com a forma como Kazuo Koike finalizou dois capítulos aqui, não me é possível avaliar esse arco com uma nota menor que a máxima. O conceito geral apresentado, a travessia aliada a um aprendizado e histórias densas de infiltração em território inimigo, de confusão e de busca por fazer o certo segundo o código dos samurais acabam por engrandecer também o leitor. Eu já tinha ficado embasbacado com o primeiro volume dessa série e termino o segundo com um sentimento ainda mais profundo. O que Koike e Kojima fazem aqui é nos transportar para um tempo de adversidades, regras e misérias humanas que entendemos bem, mas que não imaginamos em um contexto de enfrentamento tão moralmente duro. Sem meias-palavras. Sem rodeios. Com a resolução dos casos na manutenção da honra ou na ponta da espada… E tudo isso numa estética de significados capazes de nos deixar existenciais. Um trabalho digno da fama e adoração que tem.

Lobo Solitário – Vol.2: Uma Barreira Sem Portões (Japão — série completa publicada entre setembro de 1970 e abril de 1976)
Capítulos:
10 a 14
No Brasil:
 Lobo Solitário – Edição 2 (Panini, abril, 2017)
Roteiro: Kazuo Koike
Arte: Goseki Kojima
308 páginas

Crítica | Star Wars: Cidadela dos Gritos

Espaço: Horox III (base rebelde provisória), Cidadela de Ktath’atn (Cidadela dos Gritos)
Tempo: A Rebelião – Poucos meses após a Batalha de Yavin

Cidadela dos Gritos é o segundo crossover do universo em quadrinhos de Star Wars a partir do completo reboot feito pela Marvel Comics quando readquiriu a propriedade em 2015. Ao passo que A Queda de Vader, era composto por seis edições, este é composto por apenas cinco, uma dedicada que leva o nome do arco e que dá o pontapé inicial para a história e quatro outras edições dos títulos mensais, aqui no caso Star Wars (logo em seguida ao arco A Guerra Secreta de Yoda) e Doutora Aphra (logo em seguida ao arco Aphra). Em outras palavras, a editora segue seu interessante padrão (na linha editorial Star Wars, que fique claro!) de arcos específicos por vezes intercalados de crossovers bem estabelecidos e fáceis de acompanhar.

A Doutora Aphra, depois de furtar um cristal contendo a consciência de um Jedi milenar chamado Rur, conforme visto em seu primeiro arco, procura a ajuda de Luke Skywalker para destravar seu conteúdo. O objetivo é oferecer Luke como uma curiosidade biológica para uma misteriosa rainha que, uma vez por ano, recebe candidatos de toda a galáxia, escolhendo apenas um e, em troca, oferecendo literalmente qualquer desejo. É, convenhamos, uma premissa um tanto quanto exagerada e mística demais por parte de Kieron Gillen e Jason Aaron, fazendo da tal rainha um ser deveras superpoderoso, capaz de atender desejos e realizar sonhos dos mais aleatórios. Mas, se o leitor aceitar esse pulo de lógica, a história que segue sem dúvida diverte, já que, claro, a tal rainha e todos os seus súditos não são o que parece, escondendo um terrível e mortal segredo na Cidadela dos Gritos.

(1) Krrsantan sendo Krrsantan e (2) Luke “dançando” com a rainha.

O crossover funciona como uma fusão de Drácula, de Bram Stoker, com Alien, o Oitavo Passageiro, salpicada de pitadas de Indiana Jones (notadamente de O Templo da Perdição) graças à presença da sempre ótima – e mais do que trapaceira – Aphra e seus adoráveis androides assassinos, além do delicado Wookie de pelagem preta Krrsantan. Correndo atrás do que é percebido como o sequestro de Luke, Han Solo, Leia Organa e Sana Starros partem para Ktath’atn para salvar o ex-fazendeiro e aspirante a Jedi e acabam envolvendo-se profundamente nos terrores escondidos pela rainha maléfica e sua entourage de soldados de elite com design belíssimo. Em muitos aspectos, a história é uma grande correria repleta de reviravoltas que acaba trazendo a mente a estrutura dos clássicos desenhos do Scooby-Doo, mas, claro, sem a pegada franca de humor, ainda que o texto seja bem leve mesmo diante dos acontecimentos que se desenrolam em deixar a narrativa perder ritmo ou tornar-se morosa.

A arte varia bastante. A melhor delas fica logo no one-shot dedicado que abre o arco, já que o desenho ficou por conta de Marco Checcheto, que, depois, não retorna para a história a não ser nas capas. Seus traços são muito bonitos e fluidos, com todos os personagens muito bem recriados, além de ele ter um enorme cuidado com os panos de fundo e com a tecnologia empregada. Salvador Larroca, que desenha as duas edições de Star Wars, também é um destaque em seu trabalho, com traços talvez menos imponentes e um pouco mais joviais, mas que acrescentam energia à ação. Finalmente, Andrea Broccardo, que ficou responsável pelos dois números de Doutora Aphra, peca por forçar um fotorrealismo feio e completamente desnecessário aos rostos dos personagens e que ele, ainda por cima, faz questão de destacar com uma série de close-ups que assustam mais do que as ações da rainha maléfica.

Muito sinceramente, Cidadela dos Gritos não exatamente justifica a formalidade de crossover desse tipo que, mal ou bem, é sempre um evento de razoável importância ou, pelo menos, deveria ser. Enquanto A Queda de Vader trouxe uma história realmente relevante, aqui o que temos é, apenas, uma aventura divertida que, apesar de acabar em aberto, prometendo um segundo round, não empolga tanto quanto deveria.

Star Wars: Cidadela dos Gritos (Star Wars: Screaming Citadel – EUA, 2017)
Contendo (na ordem de leitura):
 Screaming Citadel #1, Star Wars #31, Doctor Aphra #7, Star Wars #32, Doctor Aphra #8
História: Kieron Gillen, Jason Aaron
Roteiro: Kieron Gillen (Screaming Citadel #1, Doctor Aphra #7 e 8), Jason Aaron (Star Wars #31 e 32)
Arte: Marco Checcheto (Screaming Citadel #1), Salvador Larroca (Star Wars #31 e 32), Andrea Broccardo (Doctor Aphra #7 e 8)
Cores: Andres Mossa (Screaming Citadel #1), Edgar Delgado (Star Wars #31 e 32), Antonio Fabela (Doctor Aphra #7 e 8)
Letras: Joe Caramagna (Screaming Citdadel #1 e Doctor Aphra #7 e 8), Clayton Cowles (Star Wars #31 e 32)
Editoria: Heather Antos, Jordan D. White
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: julho a agosto de 2017
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: agosto de 2019 (encadernado)
Páginas: 112

Crítica | Tina – Respeito

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Neste 24º álbum do projeto Graphic MSP, o leitor percebe um retorno de temáticas  mais sérias e densas ao selo, com Fefê Torquato à frente de uma das personagens mais diferentonas criadas por Mauricio de Sousa. Tina apareceu formalmente com sua turma pela primeira vez na Folhinha de S. Paulo #337, em fevereiro de 1970 (tendo sido criada em 1964, nas tirinhas), e seu núcleo nos quadrinhos passou a encarnar de maneira cada vez mais frequente, simples e simpática os ideais hippies da década anterior.

Nesta releitura da personagem lançada em setembro de 2019, Fefê Torquato escreve, desenha e colore uma história que está em par com as abordagens críticas sobre o papel e colocação da mulher na sociedade em nossos tempos, revisando conceitos, denunciando crimes e todo tipo de abuso sofrido nas mais diversas áreas. Todavia, mais do que isso, Respeito captura a essência da personagem principal, colocando-a no lugar de milhares de jovens que recém saíram de casa, que buscam por sua independência, procuram uma boa colocação no mercado, experiência na profissão e condições financeiras para levar uma vida de “adulto normal pagador de boleto”.

A questão é que a dinâmica mais clichê possível de nossa sociedade (o trabalho, o salário, as conquistas e os apertos financeiros) depende de inúmeros fatores externos a cada indivíduo, especialmente quando falamos de primeiro emprego formal e das relações sociais em geral. E é aí que o núcleo da história se desenvolve, pois nesse recorte, Tina está começando em uma redação de jornal e junto com os desafios normais de qualquer nova funcionária (ou “foca“, nesse caso), ela precisa enfrentar algo que faz parte do cotidiano das mulheres, nos mais diversos espaços. O assédio sexual.

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Tina conversando com a mãe.

Como disse antes, a HQ trabalha com questões Universais, mas particulariza situações que, embora não sejam únicas, são imensamente críticas em torno do público feminino, com jovens sendo assediadas e tendo como condição para prosseguir na carreira a “obrigatoriedade” de “ceder ao charme” de um chefe assediador. A situação é explorada aqui com a naturalidade e maturidade necessárias para esse tipo de tema. Mas o roteiro não tem apenas esse foco. Ele trabalha diversas relações saudáveis da protagonista ao lado de colegas de trabalho (homens e mulheres, de diferentes orientações sexuais), traz uma participação fantástica — e necessária, convenhamos — de Pipa e Rolo na história e trata de maneira bastante humana e inteligente os problemas de Tina na redação, ao passo que ela faz novas amizades, tem suas matérias elogiadas e sua capacidade como jornalista posta à prova, numa decisão que lhe colocará em difícil jornada, mas necessária e não alheia ao que inúmeras mulheres vem trilhando nos últimos anos, com todas as denúncias legítimas de abuso sexual, estupro e assédio que acompanhamos na mídia.

O trabalho artístico de Fefê Torquato tem uma interessante particularidade. As aquarelas dão uma enorme leveza à história e colaboram muitíssimo para a fluidez da narrativa visual, assim como orientação dos quadros e distribuição dos diálogos, que muitas vezes não estão postos de forma óbvia. A autora adota uma boa dinâmica de passagem do tempo na reta final (com 4 páginas de Tina preparando uma matéria importante), mas ainda assim há uma resolução em elipse e outros pequenos saltos dos quais não sou muito fã, mas que não impediram que a história crescesse para mim. O final tem uma abertura lógica para o futuro da personagem e traz uma finalização ao mesmo tempo realista, amarga e prazerosa. Um flash da vida como ela é. E acenando para as mudanças que esperamos que ela possa ter.

Tina – Respeito (Brasil, setembro de 2019)
Graphic MSP #24
Roteiro: Fefê Torquato
Arte: Fefê Torquato
Cores: Fefê Torquato
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Sousa Editora
Páginas: 98