Kieron Gillen

Crítica | Star Wars: Cidadela dos Gritos

Espaço: Horox III (base rebelde provisória), Cidadela de Ktath’atn (Cidadela dos Gritos)
Tempo: A Rebelião – Poucos meses após a Batalha de Yavin

Cidadela dos Gritos é o segundo crossover do universo em quadrinhos de Star Wars a partir do completo reboot feito pela Marvel Comics quando readquiriu a propriedade em 2015. Ao passo que A Queda de Vader, era composto por seis edições, este é composto por apenas cinco, uma dedicada que leva o nome do arco e que dá o pontapé inicial para a história e quatro outras edições dos títulos mensais, aqui no caso Star Wars (logo em seguida ao arco A Guerra Secreta de Yoda) e Doutora Aphra (logo em seguida ao arco Aphra). Em outras palavras, a editora segue seu interessante padrão (na linha editorial Star Wars, que fique claro!) de arcos específicos por vezes intercalados de crossovers bem estabelecidos e fáceis de acompanhar.

A Doutora Aphra, depois de furtar um cristal contendo a consciência de um Jedi milenar chamado Rur, conforme visto em seu primeiro arco, procura a ajuda de Luke Skywalker para destravar seu conteúdo. O objetivo é oferecer Luke como uma curiosidade biológica para uma misteriosa rainha que, uma vez por ano, recebe candidatos de toda a galáxia, escolhendo apenas um e, em troca, oferecendo literalmente qualquer desejo. É, convenhamos, uma premissa um tanto quanto exagerada e mística demais por parte de Kieron Gillen e Jason Aaron, fazendo da tal rainha um ser deveras superpoderoso, capaz de atender desejos e realizar sonhos dos mais aleatórios. Mas, se o leitor aceitar esse pulo de lógica, a história que segue sem dúvida diverte, já que, claro, a tal rainha e todos os seus súditos não são o que parece, escondendo um terrível e mortal segredo na Cidadela dos Gritos.

(1) Krrsantan sendo Krrsantan e (2) Luke “dançando” com a rainha.

O crossover funciona como uma fusão de Drácula, de Bram Stoker, com Alien, o Oitavo Passageiro, salpicada de pitadas de Indiana Jones (notadamente de O Templo da Perdição) graças à presença da sempre ótima – e mais do que trapaceira – Aphra e seus adoráveis androides assassinos, além do delicado Wookie de pelagem preta Krrsantan. Correndo atrás do que é percebido como o sequestro de Luke, Han Solo, Leia Organa e Sana Starros partem para Ktath’atn para salvar o ex-fazendeiro e aspirante a Jedi e acabam envolvendo-se profundamente nos terrores escondidos pela rainha maléfica e sua entourage de soldados de elite com design belíssimo. Em muitos aspectos, a história é uma grande correria repleta de reviravoltas que acaba trazendo a mente a estrutura dos clássicos desenhos do Scooby-Doo, mas, claro, sem a pegada franca de humor, ainda que o texto seja bem leve mesmo diante dos acontecimentos que se desenrolam em deixar a narrativa perder ritmo ou tornar-se morosa.

A arte varia bastante. A melhor delas fica logo no one-shot dedicado que abre o arco, já que o desenho ficou por conta de Marco Checcheto, que, depois, não retorna para a história a não ser nas capas. Seus traços são muito bonitos e fluidos, com todos os personagens muito bem recriados, além de ele ter um enorme cuidado com os panos de fundo e com a tecnologia empregada. Salvador Larroca, que desenha as duas edições de Star Wars, também é um destaque em seu trabalho, com traços talvez menos imponentes e um pouco mais joviais, mas que acrescentam energia à ação. Finalmente, Andrea Broccardo, que ficou responsável pelos dois números de Doutora Aphra, peca por forçar um fotorrealismo feio e completamente desnecessário aos rostos dos personagens e que ele, ainda por cima, faz questão de destacar com uma série de close-ups que assustam mais do que as ações da rainha maléfica.

Muito sinceramente, Cidadela dos Gritos não exatamente justifica a formalidade de crossover desse tipo que, mal ou bem, é sempre um evento de razoável importância ou, pelo menos, deveria ser. Enquanto A Queda de Vader trouxe uma história realmente relevante, aqui o que temos é, apenas, uma aventura divertida que, apesar de acabar em aberto, prometendo um segundo round, não empolga tanto quanto deveria.

Star Wars: Cidadela dos Gritos (Star Wars: Screaming Citadel – EUA, 2017)
Contendo (na ordem de leitura):
 Screaming Citadel #1, Star Wars #31, Doctor Aphra #7, Star Wars #32, Doctor Aphra #8
História: Kieron Gillen, Jason Aaron
Roteiro: Kieron Gillen (Screaming Citadel #1, Doctor Aphra #7 e 8), Jason Aaron (Star Wars #31 e 32)
Arte: Marco Checcheto (Screaming Citadel #1), Salvador Larroca (Star Wars #31 e 32), Andrea Broccardo (Doctor Aphra #7 e 8)
Cores: Andres Mossa (Screaming Citadel #1), Edgar Delgado (Star Wars #31 e 32), Antonio Fabela (Doctor Aphra #7 e 8)
Letras: Joe Caramagna (Screaming Citdadel #1 e Doctor Aphra #7 e 8), Clayton Cowles (Star Wars #31 e 32)
Editoria: Heather Antos, Jordan D. White
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: julho a agosto de 2017
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: agosto de 2019 (encadernado)
Páginas: 112