John Costanza

Crítica | Monstro do Pântano: Irmãos em Armas

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A ideia de Rick Veitch para este arco veio como consequência da obrigação que ele teve em Triângulos Infernais, de escrever uma edição crossover para a saga Invasão!. Para poder fazer seu trabalho sem interrupção, os Dominadores dispersaram o Elemental do Verde pelo fluxo do tempo, abrindo as portas para mais uma rodada de viagem do Monstro do Pântano, mas uma bem diferente daquela espacial que ele havia feito na Era de Alan Moore no título. Agora o Musguento estava viajando por diferentes tempos do planeta Terra, saindo da atualidade dele (anos 1980) e inicialmente ancorando na Segunda Guerra Mundial (mais precisamente em 1945), na edição Brothers in Arms (Part II).

A participação da Companhia Moleza (Easy Company) e do Sargento Rock torna a história ainda mais intensa e interessante, mesmo que a missão dos militares nesse caso seja algo especial e não uma diretamente ligada ao grande conflito. No texto, eles precisam reaver os itens místicos — a saber: Garra de Aelkhünd [ou Elk Hound em sua primeira aparição nos quadrinhos], Lança do Destino, um crânio da Noite dos Cristais [Kristallnacht], Cetro Obsidiano de César, caixa de joias da Imperatriz Josefina de Beauharnais, uma pele fresca de Yeti e o prepúcio de Napoleão [pois é…] — que estavam nas mãos de um soldado nazista e cujo objetivo era usar a magia desses objetos para tornar possível o Terceiro Reich. E é claro que esse drama nos leva diretamente para Anton Arcane.

A ideia de colocar o Pantanoso viajando no tempo cada vez mais para os primórdios da Terra começa realmente interessante, embora a história não tenha o personagem como centro e isso funcionou como um estranho pêndulo de recepção e julgamento de qualidade da história ao longo de toda a leitura. Se por um lado eu gostei imensamente das edições #82 e 83 (as outras são boas, mas inferiores a estas duas), por outro, me vi lendo sobre eventos que completam os buracos do Universo do protagonista da revista, mas há bem pouco sobre ele nas páginas dessas histórias todas. E sim, quando mais lemos, mais difícil fica o julgamento dessa questão, porque as ligações, os artefatos e os encontros que o autor vai fazendo de forma decrescente são isoladamente muito bons. Já numa visão geral, acabam tendo o problema de nos tirar o Monstro do Pântano de sua própria revista, para falar de coisas em torno dele. Não é ruim, não é incoerente, mas é menos interessante quando paramos para ver a trama por completo.

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Primeira parada do Pantanoso perdido: o corpo de um soldado moribundo na 2ª Guerra.

Brothers in Arms (Part I) se passa durante a Primeira Guerra Mundial (mais precisamente em 1914), onde mais uma vez o Monstro do Pântano se encontra com Arcane, agora bem mais novo e fazendo os seus experimentos pela primeira vez. Aqui temos a origem dos Não-Homens (numa abordagem diferente daquela explorada em American Freak: A Tale of the Un-Men) e praticamente a construção definitiva dos horrores que fariam de Arcane a grande desgraça viva que ele se tornaria. Evidente que o roteiro de Rick Veitch alude a outras infâmias praticadas pelo personagem (estupro da irmã, abuso psicológico e físico do irmão mais novo, assédio moral da mãe, etc.), mas essa edição é aquela que abre definitivamente as portas do Inferno o que de fato marcaria os primeiros passo do diabólico Arcane. Em paralelo, desenvolve-se o pequeno drama de Abby grávida, sendo visitada e consolada por alguns indivíduos (Homem Florônico, Adam Strange, Constantine) para consolá-la por sua “perda”.

A partir de Final Payment, o dilema de Abby se torna o centro das atenções ao lado de dramas bastante isoladas e com participação ainda menor do Pantanoso. E claro, meus maiores problemas com essa jornada do personagem começam a aparecer, pelos motivos citados no começo da crítica. A jornada, no entanto, nos deixa curiosos para saber qual será a próxima parada e a próxima ligação que veremos do personagem, indo da Alemanha em 1945 e avançando por Alemanha e Romênia, 1914; Reino dos Sonhos, tempo indeterminado; Califórnia, 1872; Gotham Town, 1799 e 1800 (virada do ano) até chegar em Camelot, aproximadamente no ano 530. A arte em todas as edições faz um excelente trabalho de contexto do lugar e dos personagens e só tive problemas com a diagramação na edição western intitulada My Name Is Nobody, com direito a aparição de Jonah Hex e tudo. A partir da terceira revista do arco, a passagem entre os momentos do presente e passado ficam bem mais demarcadas e passamos rapidamente de cenários e roupas de época para citação de filmes de Federico Fellini, contas absurdas de hospital e até por uma visitinha do Pantanoso ao Reino dos Sonhos, chegando a bater um papo com Sandman.

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Enfim, o arco de Matt Cable é encerrado.

O ponto menos interessante da trama inteira, para mim, está em Heroes of the Revolution, na passagem do século 18 para o 19. Novamente, as ligações com a Garra de Elk Hound e Gotham são as melhores coisas que temos, com o roteiro focado mais no mito em torno desse objeto mágico (na origem, na verdade) do que no próprio herói protagonista. O arco chega ao fim na curtinha (apenas 17 páginas) Fall of the House of Pendragon, que se passa em Camelot, no início do século 6. Na verdade, essa trama acontece numa elipse da primeira edição do Etrigan de Jack Kirby, que mostra justamente a batalha contra Morgana Le Fay. Por incrível que pareça, o roteiro aqui coloca muito mais ordem no andamento da história toda, inclusive na ligação com Abby no presente, do que nas edições anteriores. E mesmo que não fosse a intenção de Veitch, esta também acabou sendo a sua última revista à frente do Monstro do Pântano. O motivo? A polêmico e jamais publicada edição #88 do título, escrita pelo autor.
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O Monstro do Pântano [Quase] Encontra Jesus Cristo

A rejeição inicial veio do nada, pois entreguei um plot detalhado da história e me disseram pra seguir em frente. Passei algumas semanas por toda a hierarquia da DC e acabei falando diretamente com Jennette Kahn [presidente da DC], mas não consegui convencê-la. As páginas desenhadas pelo Michael Zulli foram vendidas ao Kevin Eastman [criador das Tartarugas Ninja], que as doou ao Comic Art Museum.

Rick Veitch

plano crítico capa monstro do pantano 88

Capa de Rick Veitch para a não publicada Swamp Thing #88.

Em diversos momentos de Fall of the House of Pendragon, vemos um enlouquecido Rei Arthur procurar pelo Santo Graal, segundo ele, a única coisa que poderia tirar-lhe as “alucinações e vozes da cabeça”, em suma, vencer aquela guerra que ele acreditava que era pura fantasia. Ali estava claro que a próxima parada do Pantanoso seria no tempo de Jesus e Rick Veitch de fato escreveu o roteiro dessa edição para a DC, uma história que ele chamou de Morning of the Magician.

Um ponto curioso sobre essa história toda é que quando planejou os dois arcos de viagem do Monstro do Pântano, Veitch já havia também planejado a sua saída do título. Ele deveria escrever até a edição #92, onde finalizaria a sua saga e passaria a tocha para Jamie Delano, que deveria alternar algumas edições com Neil Gaiman… mas nada disso aconteceu. Vale dizer que depois de toda a polêmica e pedido de demissão de Rick Veitch, a editora da revista, Karen Berger, tentou negociar com Delano e Gaiman para assumirem o título de imediato, mas ambos recusaram qualquer ligação com a série regular do Pantanoso em solidariedade ao colega.

1º Editorial de Karen Berger explicando a saída de Rick Veitch.

Bem antes de chegar a esse ponto, Veitch havia entregue uma versão detalhada da história para Karen Berger e Dick Giordano, que deixaram claro a possível necessidade de mudar coisas do roteiro, mas aprovaram a ideia, algo que Veitch já esperava e que aceitou. Quando a arte de Michael Zulli ficou pronta e a capa do próprio Veitch chegou à chefia da DC, a edição foi de pronto cancelada, sem a possibilidade de mudança alguma. A regra era clara: mesmo sendo apenas chamado de “Nazareno” no texto, a figura de Jesus (ou similar a ele) não poderia interagir com o Monstro do Pântano.

Tendo já parcialmente preparado as edições seguintes (que dependiam desse encontro) e após uma pré-aprovação de seu roteiro, o autor sentiu que era insustentável sua presença na editora, então se demitiu. A revista do Monstro do Pântano ficou dois meses sem publicação, então em setembro de 1989, a edição #88 chegou às bancas, com o título Survival of the Fittest, e com roteio de Doug Wheeler, arte de Tom Yeates e capa de John Totleben. Começava uma nova fase para o Musguento.

2º Editorial explicando a saída de Rick Veitch.

Monstro do Pântano: Irmãos de Armas (Swamp Thing #82 a 87: Brothers in Arms) —  EUA, janeiro a junho de 1989
Roteiro: Rick Veitch
Arte: Rick Veitch, Tom Mandrake, Tom Yeates
Arte-final: Alfredo Alcala, Tom Yeates
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: John Totleben, Rick Veitch, Tom Yeates, Steve Bissette
Editoria: Karen Berger, Art Young
144 páginas

Crítica | O Incrível Hulk #179: Volta o Elo Perdido

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Esta edição da Incrível Hulk Vol.1 traz de volta um antigo inimigo, já referenciado no título e que conheceu o Hulk nas edições #105 e 106 dessa mesma revista. Nos bastidores, não um retorno, mais uma estreia. A partir daqui, Len Wein comandaria os roteiros da série mensal até o número 222, um período de quatro anos com muitas histórias e uma nova cara para as sagas do Golias Verde.

No presente enredo, temos essencialmente uma continuação para a edição anterior, curiosamente chamada de Triunfo na Terra-Dois, uma história com Adam Warlock, cujas consequências se veem aqui: o Recorder 211 (Analyzer) coloca o Hulk em um foguete e direciona o Monstro para a sua Terra original, tendo aí o gancho que dará início a mais uma história, com a já conhecida realidade de troca de corpos + não adequação e surpresas de transformação que o Hulk originalmente apresenta, ganhando, nas mãos de Wein, uma toada mais sentimental  — e no presente caso, familiar.

O bom dessa edição — e é interessante notar que este é um dos temas recorrentes na obra de Len Wein — é que vemos um tratamento diferente dado aos monstros, bem como uma problematização da própria condição, vindo basicamente de uma premissa de relacionamentos fraternos, por incrível que pareça. Primeiro, o Elo Perdido (Lincoln) é integrado à família Brickford, o que já mostra um caráter de máxima humanidade desses indivíduos, colocando em casa alguém com uma estranha (para dizer o mínimo) aparência e completamente perdido. O texto brinca um pouco com o nome do lugar e com a apresentação da família central. Imaginamos brevemente se o povo de Lucifer Falls não está ligado a algum tipo de ação maligna, um culto ou seita… mas não. O texto permanece focando na humanidade e, dela, passa para a esperada e explosiva relação entre os brutamontes.

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O miolo da história, na base do Exército e em torno do General Thaddeus “Thunderbolt” Ross, somado às questões militares, estão aqui apenas para contextualizar o entorno e criar âncoras para o retorno de Bruce Banner ao seu meio social, por assim dizer. Todavia, esse lado não apresenta nada de interessante para a saga, muito pelo contrário, é uma das partes chatas da revista que a gente não vê a hora que passe rápido, para voltarmos ao lugar que realmente interessa aqui.

Infelizmente, a finalização adota uma certa facilidade ao mostrar o “histórico futuro” do envenenamento por radiação causado por Lincoln, contudo não é exatamente uma decisão ruim do roteirista. Ela apenas é rápida demais e aparece em um contexto de cosias muito mais trabalhadas, por isso que destoa e causa estranheza (negativa), minimizando um pouco a qualidade da trama. Mas a estreia de Len Wein à frente da Incrível Hulk se mantém muito acima da média, com um trabalho de “encontro de gigantes” que não prioriza a força e sim os sentimentos. Um baita começo.

Incredible Hulk Vol.1 #179 (EUA, setembro de 1974)
No Brasil:
O Incrível Hulk #21 (RGE, 1980)
Roteiro: Len Wein
Arte: Herb Trimpe
Arte-final: Jack Abel
Cores: Glynis Wein
Letras: John Costanza
Capa: Herb Trimpe
Editoria: Roy Thomas
24 páginas

Crítica | Monstro do Pântano: Triângulos Infernais

Triângulos Infernais foi originalmente publicado aqui no Brasil pela Panini (2016), num encadernado chamado Regênese Vol.3. As revistas que de fato formam esse arco são as #77 a 81 da Monstro do Pântano Vol.2, e como adendo, tivemos no mesmo encadernado a inclusão do Anual #3 da mesma revista, uma história chamada Primos Distantes. Minha presente crítica e avaliação acima falam apenas das edições correntes do arco. O anual incluso é bem… peculiar, para não dizer bizarro (no sentido negativo), trazendo um roteiro vergonhoso de Rick Veitch, chamando toda a atenção para Grodd e diversos gorilas/aliados que são atraídos pelo primata mentalmente poderoso para destruir a cidade de Solovar. Não me pergunte o que uma história como essas está fazendo num Anual da revista do Monstro do Pântano, em vez da revista do Homem Animal. Isoladamente há alguns bons momentos e as cores de Adrienne Roy são lindas nessa edição, mas de resto, ela nada traz de realmente importante ou coerente para o Pantanoso.

Já o verdadeiro arco começa com a revista que lhe dá título, e nela existe uma DR entre o Monstro do Pântano e Abby, dias após o rito de concepção com a presença de Constantine. Sei que alguns leitores não curtem esse aspecto do enredo, mas vamos lá pessoal, já se passaram 77 edições dessa relação, é hora de se acostumar com o tipo de laço que o Elemental criou com Abby. É verdade que muitas vezes (nesse arco mesmo!) isso acaba saindo dos trilhos, tornando-se um melodrama proto-romântico besta, mas não é sempre não. E considerando que agora conseguiram implantar o Broto no útero de Abby, faz ainda mais sentido o teatrinho de casal que eles encenam. Quando bem trabalhado, como nesse roteiro de Jamie Delano, é algo interessante. E a briga aqui é legal porque afasta os pombinhos e coloca a Sra. Pântano dando um rolê com Constantine, numa noitada amigável e muito respeitosa por parte do personagem. Daí surge o link para a edição seguinte, Semeadura ao Vento (To Sow One’s Seed in the Wind) uma loucura sem limites escrita por Steve Bissette.

Eu não sei o que me impressiona mais aqui, se o fato de termos um cara que trabalhou com Martin Pasko e com Alan Moore à frente do Pantanoso escrevendo um troço desses ou a real ausência de propósito dessa edição. O curioso (e ainda mais bizarro) é que não é uma revista ruim. Tom Mandrake e Alfredo Alcala mandam muito bem na arte e a história tem a “cara das loucuras do pântano”, mas… para quê? Quando Moore resolvia chutar o balde e fazer uma coisa bem maluca, tinha um propósito ou, quando não, era uma incrível aventura autocontida que se sustentava perfeitamente pela alta qualidade. Bem… não é o caso aqui. A história só consegue não ser ruim, mas não acho um real motivo para ela existir. Será que o Pantanoso estava fazendo um exame de rotina (um pré-Natal-Elemental) para ver se o bebê estava bem? Mas precisava de tudo isso? De toda forma, a arte me garantiu estrondosas gargalhadas ao ver o Monstro refeito com forma de mulher, numa reação empática de sua natureza após sair do útero de Abby. Hummm… pensando bem, a proposta é bem bonita não é não?

plano crítico os avatares do verde sequestrado monstro do pantano

Vênus do Charco, São Columba, Fantasma Oculto nos Juncos e Demônio do Palude.

Já a edição seguinte, Esperando Deus (Waiting For God (Oh!)) com Rick Veitch de volta aos roteiros e à arte, não me interessou muito. Por mais que eu goste da ideia de elementos do passado serem retomados — como o ataque e morte do Monstro em Gotham, no arco De Terra a Terra, um ano antes — fiquei novamente pensando sobre o real propósito disso. O Pantanoso do nada resolver ir se vingar dos homens que o alvejaram e querer matar Lex Luthor é uma ação retardatária e estúpida. A trama vale mesmo pelos embates entre o protagonista e o Superman, além de mostrar o primeiro sequestro de um Ancião desprendido do Parlamento das Árvores, a Vênus do Charco, preparando-nos para as duas edições finais do volume, estas sim realmente muito boas: O Mais Longo dos Dias (The Longest Day) e Enlutada (Widowsweed), uma excelente forma de se fazer um crossover sem atrapalhar a história central e utilizando dessa necessidade editorial para tentar coisas novas.

À época, a DC Comics estava publicando a saga Invasão!, e a maneira como Veitch traz isso para as mensais do Pantanoso é admirável. Basicamente surge uma boa desculpa para tirar o Monstro do planeta Terra e ‘matá-lo’ mais uma vez, sendo que a preparação para isso é muito boa, mostrando quatro lendários Elementais transportados para planetas que os confunde e, pelo que entendi, neutraliza — tudo isso antes da chegada efetiva dos Dominadores, com o ataque ao Monstro acontecendo por último. Em Enlutada, vemos o fechamento de um ciclo aberto muitos anos antes, na maravilhosa O Visitante do Espaço. Infelizmente a presença de Guy “Lixo” Gardner na história estraga qualquer humor e beleza possível — principalmente depois do que ele faz –, mas há sentido para tudo isso dentro da história, completando de maneira muito triste o ciclo aberto no passado, além de fechar o arco com uma promessa e a dúvida sobre onde (e como) estaria o Monstro do Pântano agora.

Swamp Thing Vol.2 #77 a 81 + Annual #3: Infernal Triangles + Distant Cousins (EUA, outubro a dezembro de 1988 / Anual 1987)
No Brasil:
 Monstro do Pântano: Regênese n°3 (Panini, 2016)
Roteiro: Jamie Delano, Steve Bissette, Rick Veitch (mensais); Rick Veitch (anual)
Arte: Tom Mandrake, Rick Veitch (mensais); Rick Veitch, Shawn McManus, Jim Fern, Stan Woch (anual)
Arte-final: Alfredo Alcala, Rick Veitch (mensais); Tom Yeates (anual)
Cores: Tatjana Wood (mensais); Adrienne Roy (anual)
Letras: John Costanza (mensais); Augustin Mas (anual)
Capas: Dave McKean, Rick Veitch, Tom Yeates, John Totleben (mensais); Brian Bolland (anual)
Editoria: Karen Berger, Art Young
180 páginas

Crítica | Star Wars #24 a 30 (Marvel – 1979)

Espaço: Espaço profundo, Yavin IV (superfície), Yavin IV (órbita), Centares, Junction, Orleon, Metalorn
Tempo: A Rebelião – Eventos imediatamente posteriores à Batalha de Yavin (0 d.BY)

Retornar ao começo do Universo Expandido de Star Wars é refrescante e fascinante, especialmente considerando a completa falta de material que existia à época sobre a saga além do primeiro filme. E, como se isso não bastasse, diferentemente de abordagens mais modernas, o material dessa era não era sempre dividido em arcos bem definidos de cinco ou seis edições, com histórias ocupando, na grande parte das vezes, no máximo duas edições, mas sempre contando uma história macro maior com edições que conversam umas com as outras.

Depois de separar Han Solo e Chewbacca de Luke Skywalker e Leia Organa no final da edição #24, Archie Goodwin dá um intervalo na saga maior e foca o número seguinte em Obi-Wan Kenobi, em uma história contada em forma de flashback por Leia, conforme ela ouvira de seu pai. Esse one-shot, batizado de Deriva Silenciosa, conta como um Kenobi já experiente, em uma viagem em um cruzeiro espacial até Alderaan, salva todo mundo de piratas espaciais usando sutilmente a Força para manobrar a nave e descobrir como eles foram descobertos em zona perigosa. É como um respiro entre as aventuras mais frenéticas dos heróis usuais da linha narrativa principal.

E é a ela que voltamos nas duas edições seguintes – #25 e 26 – que retorna a ação para Yavin-4, a base rebelde que quase foi salva por Luke ao final de Uma Nova Esperança. Na dobradinha O Cerco de Yavin e Missão Condenada, descobrimos que a base vem sofrendo uma série de ataques de tie-fighters que surgem do nada em sucessão, com os rebeldes cada vez mais perdendo homens e naves e sem saber revidar com eficiência. Cabe então a Luke e Leia, que estavam retornando de Centares, descobrir uma complexa trama que envolve o Barão Tagge, que conta com olhos cibernéticos depois que foi cegado por Darth Vader, desejoso de cair nas graças do Império, tentando derrotar os rebeldes de uma vez por todas lançando as naves inimigas a partir de sua nave mineradora e com o uso de uma gigantesca turbina para “fabricar” tempestades que camuflam os ataques. Há um certo exagero criativo, por assim dizer, em toda a progressão narrativa desse micro-arco, assim como pouquíssimo desenvolvimento de Tagge, que mais parece um daqueles vilões genéricos e extravagantes e que se diferencia por usar óculos que poderiam muito bem sair da coleção de Elton John.

A edição seguinte, #27, com o título O Retorno do Caçador, tem melhor sorte ao reintroduzir um dos melhores vilões desse começo de Universo Estendido e que seria reutilizado no novo cânone: Beilert Valnace, o caçador de recompensas cibernético que odeia androides introduzido um pouco antes, em Star Wars #16. Assim como Vader, ele procura o jovem “sem nome” que destruíra a Estrela da Morte, obtendo sucesso não só em descobrir o sobrenome de Luke, como também enfrentá-lo pela primeira vez em Junction, um entreposto muito parecido com Mos Eisley. A história é simples e tem C3P0 como parceiro de Luke, já que os dois procuram peças para reconstruir R2-D2, avariado no mini-arco anterior, algo que atiça a raiva de Valance por robôs em geral, mas que ao mesmo tempo mostra que o que ele sente é injustificado.

Saindo do núcleo Leia-Luke, a edição #28, O que Aconteceu a Jabba, o Hutt?, é peculiar por mais uma vez abordar o criminoso mencionado por Han Solo em Uma Nova Esperança e que, como sabemos hoje em dia, apareceria no filme original. Mas o Jabba dessa história não é aquela coisa nojenta que é relevada em O Retorno de Jedi, mas sim um bípede substancialmente humanoide, com apenas um rosto alienígena, com direito até a uma espécie de bigode, certamente bem menos ameaçador do que se esperaria, exatamente como visto em Star Wars #2. Novamente, o mote é simplicidade, com Han Solo e seu fiel escudeiro Chewbacca presos no planeta Orleon depois que Millenium Falcon é danificada. Lá, eles são cercados por Jabba e seus minions, mas os grandes vilões mesmo são cupins-de-pedra que destroçam todos e tudo que tocam e que infestam o local.

Encontro Negro, história da edição #29, coloca ninguém menos do que Darth Vader contra Beilert Valance – ciborgue contra ciborgue! – em uma luta para achar Tyler Lucian, um soldado rebelde que deserdara antes da Batalha de Yavin e que, agora, enfrenta o peso da culpa por sua covardia. Seu valor para Vader é que ele sabe o nome de Luke Skywalker. Trata-se de uma história surpreendentemente emocionante e até pesada sob o ponto de vista dramático, com uma bela pancadaria entre os vilões e um final que dificilmente seria repetido em uma HQ moderna voltada para o público infantil. É Archie Goodwin mostrando maestria na condução de uma história auto-contida.

Finalmente, encerrando 1979, a edição #30, Uma Princesa Sozinha!, conta uma missão de Leia ao planeta-fábrica do Império Metalorn, em que a população vive ignorante da existência da Rebelião. O Barão Tagge é novamente o vilão principal, mas a beleza dessa outra narrativa auto-contida é a missão da princesa, que é basicamente plantar a semente do descontentamento pelo jugo vilanesco do Império e não obter planos ou sequestrar pessoas como seria de se esperar. Mais uma história que surpreende por sua originalidade, mesmo que exagere no texto expositivo.

A arte de Carmine Infantino, muito provavelmente, causará estranhamento para o público moderno de Star Wars pela forma “livre” com que ele recria os adorados personagens. Chewbacca particularmente ganha um revisionismo enorme na forma como seu rosto é trabalhado e os demais personagens ganham feições levemente orientalizadas. Mas o mestre Infantino, exatamente por não ficar escravo às feições originais e por ter absoluta liberdade para trabalhar naves e novos personagens – lembrem-se: o Universo Estendido estava ainda em sua tenra infância aqui – entrega um trabalho intenso e belíssimo, com completo controle da fluência narrativa.

Mesmo considerando que todo esse passado remoto da franquia Star Wars foi “apagado” do cânone depois que a Disney comprou a Lucasfilm, em uma decisão polêmica, mas que eu considero acertada para fins comerciais e organizacionais, é interessante lembrar como esse universo já era rico em seu começo e como muita coisa que lemos aqui influenciou obras posteriores. A Força realmente estava com Archie Goodwin!

Star Wars #24 a 30 (Idem, EUA)
Roteiro: Mary Jo Duffy, Archie Goodwin
Arte: Carmine Infantino
Arte final: Bob Wiacek, Gene Day
Letras: Rick Parker, John Costanza, Joe Rosen
Cores: Petra Goldberg, Glynis Wein
Consultoria editorial: Jim Shooter
Editoria: Archie Goodwin
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: junho a dezembro de 1979
Editoras (no Brasil): Editora DeAgostini
Data de publicação no Brasil: julho e agosto de 2014 (encardenados Comics Star Wars Clássicos #3 e #4)
Páginas: 18 (por edição)

Crítica | Monstro do Pântano: E os Mansos Herdarão…

plano critico mosntro do pantano o homem que não iria morrer

Este bloco de histórias (edições #14 a 19 de Swamp Thing Vol.2) traz o encerramento da jornada de Martin Pasko à frente do Monstro do Pântano, abrindo uma série de possibilidades para o que viria ser a fase seguinte, guiada por Alan Moore e inicialmente mais integrada ao terror.

O arco na verdade divide-se em duas partes com tramas distintas. A primeira, composta pelas edições #14 e 15, conta a história de Nathaniel Broder, um gênio da eletrônica especializado em tecnologia de silício que, por acidente, acaba transformando seu corpo em uma massa de cristal vivo, também transformando em cristal tudo aquilo que toca. A trama é na verdade escrita pelo roteirista convidado Dan Mishkin, tendo também dois aristas convidados para ilustrar as edições, Bo Hampton (arte) e Scott Hampton (arte-final). No todo, não se trata de uma história ruim. A ideia se assemelha àquelas conhecidas aventuras de cientistas malucos que sofrem um acidente e acabam colocando para fora tudo o que de ruim havia neles, agora com o poder em mãos. Sempre o poder. O verdadeiro medidor do caráter humano.

O estranho é que nesta aventura há uma pausa na sequência dos eventos vistos em Prelúdio Para o Holocausto, apenas com o Pantanoso em cena e com Liz Tremayne, Dennis Barclay e Helmut Kripptman colocados temporariamente de lado. Não é uma continuação incoerente, mas acaba sendo estranha pela abrupta mudança de ares e temas. No desenvolvimento da história, o roteiro coloca do Vingador Fantasma como guia e por mais que o personagem seja interessante e tenha alguns bons momentos falando em enigmas e sugerindo ações para quem está perdido, sua participação parece deslocada aqui, funcionando de verdade somente no início e no final do arco.

plano critico monstro do pantano o homem que não iria morrer

As coisas mudam de verdade a partir da edição #16, mas não necessariamente porque Pasko volta aos roteiros (é maldade, eu sei, mas não deixa de ser verdade). A grande alteração que temos aí é o estabelecimento da imbatível dupla Steve Bissette na arte e John Totleben na finalização. Eles já haviam trabalhado juntos no título, no arco anterior, mas não guiando uma aventura inteira como aqui. E é a justamente a dupla que dá uma alavancada na qualidade geral da obra e não à toa que tenham sido mantidos no título para a fase seguinte.

Nessa segunda história temos basicamente o retorno de Anton Arcane, o grande inimigo do Monstro do Pântano. No frigir dos ovos, Pasko faz aqui uma faxina na casa. Ele reúne os principais personagens em um único espaço, dá a possibilidade de expansão dos planos de Sunderland (algo que Moore saberia aproveitar com perfeição já no início de A Saga) e cria elementos de puro horror que reaproxima o protagonista de sua gênese, desde a House of Secrets #92, mesclando linhas românticas, o conflito entre o humano e o monstro + o clima macabro que estaria no centro das atenções dos primeiros arcos de Moore no título.

Em alguns momentos o roteiro corre para explicar certas relações entre personagens, insere um número grande de elipses e ainda nos traz a vergonhosa edição #18, que basicamente reimprime quase toda a Swamp Thing #10, rememorando o último encontro do Musguento com Arcane e os Un-Men. Mesmo assim, o arco termina de maneira coerente. Os personagens principais são colocados em seus caminhos, o Monstro está em busca de algo — uma busca que o levaria e encontrar muito mais do que ele jamais imaginara — e o cenário, ao mesmo que finaliza uma fase do personagem, dá os primeiros acenos para a fase seguinte.

Swamp Thing Vol.2 #14 a 19: The Man Who Would Not Die (EUA, junho a dezembro de 1983)
Roteiro: Dan Mishkin, Martin Pasko
Arte: Bo Hampton, Steve Bissette
Arte-final: Scott Hampton, John Totleben
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza, Ben Oda
Capas: Tom Yeates, Steve Bissette
Editoria: Len Wein
144 páginas

Crítica | Star Wars #31 a 38 (Marvel – 1980)

Espaço: Tatooine, Junction
Tempo: A Rebelião – Eventos a Batalha de Yavin e O Império Contra-Ataca

Depois de três anos bem sucedidos na expansão do Universo Star Wars em quadrinhos, a Marvel Comics aproximava-se de um momento importante, o lançamento de O Império Contra-Ataca nos cinemas em meados de 1980. No lugar de parar suas mensais da franquia e criar edições dedicadas ao vindouro grande evento, a editora simplesmente continuou normalmente a publicar suas histórias ao longo do ano, brilhantemente costurando os eventos de Império dentro das edições #39 a 44, algo que seria impensável nos dias de hoje. Com isso, os leitores da época não sofreram qualquer solução de continuidade e puderam muito facilmente continuar acompanhando as publicações mês a mês normalmente. A crítica abaixo, portanto, aborda as edições #31 a 38 de Star Wars, que são todos os números do ano de 1980 que antecederam a adaptação de Império.

Diferente das edições anteriores, normalmente compostas de arcos curtos e diversos one-shots, os números 31 a 37 contam uma história única dividida envolvendo a família Tagge que é dividida em duas partes bem definidas, mas completamente conectadas. Apenas a edição #38 é solta, mas chegarei nela no devido tempo.

Com a introdução do Barão Tagge no arco anterior sobre o cerco a Yavin IV, o vilão de visão cibernética cortesia do sabre de luz de Darth Vader volta para uma vingança dupla contra o Lorde Sith e Luke Skywalker que frustrara seus planos.  Com ajuda de Silas, seu irmão cientista, e de Ulric, seu irmão comandante de um cruzador imperial, o barão (cujo primeiro nome é Orman) faz um experimento em Tatooine com o objetivo de criar uma arma capaz de colocá-lo em boa luz perante o Imperador ao mesmo tempo que espera que Luke apareça por ali por ser sua terra natal.

O leitor precisa aceitar o estilo de vilão de James Bond que Orman inegavelmente é, com tudo o que decorre daí: armas mirabolantes (no caso uma que congela tudo) e planos mais ainda que dependem de uma boa quantidade de coincidências e conveniências. Se aceitar, a história funcionará. Caso contrário, tudo não passará de um exercício em exageros e bravatas. Feita a ressalva, claro que Luke acaba em Tatooine e, coincidentemente, ainda esbarra em Han Solo e Chewbacca na boa e velha cantina de Mos Eisley, com o grupo não demorando e acabando no meio do deserto, sendo ajudados por Jawas. E, também sem demora, eles testemunham a arma de Tagge em pleno funcionamento e enfrentam o vilão no planeta.

Há espaço, também, para Luke reconectar-se com Fixer e Camie, seus amigos de juventude junto com Biggs, que foram cortados de Uma Nova Esperança, mas cujos trechos filmados podem ser encontrados por aí. É, nessa primeira parte, uma aventura simples, mas fluída e simpática, além de sempre dinâmica ao revisitar o primeiro planeta da saga. Na segunda parte do arco, Luke é atraído para uma complexa armadilha armada pela bela Domina Tagge e por ninguém menos do que Darth Vader no planeta Monastery. Novamente, o jogo de vingança é o que movimenta a trama, além de finalmente Vader descobrir a identidade do rebelde responsável pela destruição de Estrela da Morte. 

Há muitas idas e vindas e traições duplas, além de surpresas, mas Archie Goodwin consegue costurar uma narrativa que nunca perde o fôlego e prende a atenção do leitor constantemente. Além disso, ele conseguem colocar Luke e Vader em confronto, mas sem ferir a lógica do filme que estrearia naquele ano, ainda que não haja exatamente um gancho narrativo completo que leve até Império. Toda essa história lidando com a família Tagge foi desenhado por Carmine Infantino, com seu estilo muito característico e quase “deformado” para os Stormtroopers, Vader e com rostos humanos “de boneca”. É uma arte que exige costume e gosto adquirido, mas que funciona muito bem a partir do momento em que o leitor se acostuma. 

A edição #38, como já disse, conta uma história fechada e sem conexão com o que veio antes e o que viria depois. Trata-se de um filler que foi fruto de um problema de planejamento editorial, já que a edição anterior já mencionava que a seguinte seria o começo de Império. Aqui, Luke e Leia enfrentam uma nave voo-mecânica depois que sua fuga de um cruzador imperial. A história de Goodwin é quase lisérgica, bebendo de sci-fi “viajante” que, confesso, não funciona muito bem no contexto de Star Wars. Mesmo assim, a leitura é boa e fácil, por vezes até emocionante. 

Preparando o leitor para o melhor filme da saga sem realmente adiantar nada ou dar sequer pistas do que aconteceria – até porque duvido que a Lucasfilm tenha informado algo para a Marvel Comics — as edições de 1980 da clássica publicação de Star Wars que ainda teria vida longa e próspera são um deleite. A Força realmente estava com Archie Goodwin!

Star Wars #31 a 38 (Idem, EUA)
Roteiro: Archie Goodwin
Arte: Carmine Infantino, Michael Golden
Arte final: Bob Wiacek, Gene Day, Terry Austin
Letras: Jim Novak, John Costanza, Joe Rosen
Cores: Carl Gafford, Petra Goldberg, Nelson Yomtov, Michael Golden
Consultoria editorial: Jim Shooter
Editoria: Archie Goodwin, Danny Fingeroth
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: janeiro a agosto de 1980
Páginas: 18 (por edição)