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Crítica | Entre Realidades

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O passado nem sempre é um lugar que queremos acessar, principalmente se ele guarda uma experiência traumática familiar. Há muitas formas tentar seguir a vida normalmente e esconder para baixo do tapete todos esses problemas. Entre elas, torna-se comum a busca por um isolamento social e por uma rotina tão protocolar que praticamente ligamos o piloto automático. Assim, a alienação parece ser o jeito mais fácil de achar um escapismo imediato. Este é o caso de Sarah (Alison Brie), que divide seu tempo em trabalhar como artesã e visitas a um estábulo, além de, nas horas vagas, assistir ao seriado fictício Purgatório (que lembra vagamente uma sátira de Supernatural) e visitar o túmulo de sua mãe.

Aliás, essa poderia ser muito bem a vida de qualquer cidadão médio: ir para seu trabalho e chegar em casa para assistir um seriado que, apesar de sua qualidade duvidosa, aliena e prende sua atenção. Todavia, há algo que diferencia Sarah das outras pessoas. Não só possui um sonambulismo que assusta sua colega de apartamento (Debby Ryan) e faz com que acorde em lugares inusitados, mas a protagonista passa a sonhar com pessoas que ela ainda irá conhecer na vida real e isso faz com que seja tomada por pensamento paranoico envolvendo clonagem e alienígenas, muito influenciado pelo programa de TV que assiste.

Obviamente, não é preciso dizer que Entre Realidades segue uma narrativa na qual ficamos tão desnorteados e confusos quanto Sarah, alternando entre a realidade e sonhos surrealistas. Seguindo o ponto de vista da protagonista, o filme tenta colocar nossa crença à prova. Estaria ela realmente sofrendo uma conspiração ou é tudo um surto psicótico por conta de sua depressão não assumida? O roteiro de Baena e da própria Brie deixa espaço para as duas interpretações, o que acaba sendo uma armadilha, já que nenhuma delas é desenvolvida bem o suficiente. Nem a metáfora para a depressão ganha mais do que uma cena de conversa com um psicólogo e nem o suspense se sustenta apenas por si só, apoiando-se constantemente em sua trilha sonora futurista que induz a ansiedade, quanto na encantadora atuação de Brie.

Falando em Alison Brie, é um mistério para mim como a atriz ainda não tenha conseguido um papel de maior destaque na carreira cinematográfica. Sua atuação em Entre Realidades é como um aperfeiçoamento de tudo que ela fez em séries como Community e GLOW até aqui, sendo principalmente uma pessoa que esbanja pureza e inocência, algo que acaba trazendo muita credibilidade para algumas situações um tanto quanto ridículas que sua personagem passa. Logo, Brie torna possível a existência de uma adulta que acredita estar vivendo dentro de um universo paralelo, o que ainda não é suficiente para impedir que várias cenas provoquem vergonha alheia, como a do cemitério ou a do banho de incenso na casa. 

Dentro desta lógica, penso até que no terço final o longa propositalmente vá perdendo sua conexão com a realidade conforme a protagonista embarca em sua loucura, mas Baena confia demais no poder imagético de seus sonhos acordados e negligencia uma maior exploração de da cabeça de Sarah ou das próprias informações que ele vai soltando casualmente. No fim, Entre Realidades parece ser um filme que fica no meio termo entre um episódio mal explorado de Arquivo X, uma sátira aos conspiracionistas norte-americanos e uma visão do mundo sob a ótica de alguém com problemas mentais. Uma pena que este último subtexto apenas pareça uma desculpa para que Baena brinque de tentar criar uma narrativa lyncheana, o que acaba sendo apenas genérico e sem foco definido. 

Entre Realidades (Horse Girl) – USA, 2020
Direção: Jeff Baena
Roteiro: Jeff Baena, Alison Brie
Elenco: Alison Brie, John Reynolds, Debby Ryan, Molly Shannon, John Ortiz, Jay Duplass, Robin Tunney, Paul Reiser
Duração: 104 min.

Crítica | Modo Avião (2020)

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Não é uma má ideia se apropriar da pauta do avanço tecnológico como antagonista das ações humanas. Principalmente quando o tema é facilmente suportado apenas pelo roteiro, ou seja, não precisa desenvolver grandes efeitos cinematográficos que inevitavelmente exigiriam grandes verbas. Modo Avião compra o argumento e até consegue engajar uma boa crítica contra o excesso de tecnologia, mas peca na sobreposição indesejável de figuras estereotipadas, com personalidade supérfluas que nunca existiriam na vida real. Além disso, deixa transparecer a tentativa desesperada de agradar o público-alvo, construindo momentos que a trama de imediato não suporta. Na história, Ana (Larissa Manoela) é uma influencer dependente da tecnologia. Quando seu vício no celular ocasiona um grave acidente de trânsito, a garota precisa cumprir uma pena na fazenda do seu avô Germano (Erasmo Carlos). O problema, no entanto, é que o local não possui acesso à internet.

As primeiras cenas do longa são interessantes. Modo Avião não demora a apresentar seu rumo principal, colocando a protagonista em momentos de perigo já na primeira cena. Também não enrolam a apresentar os personagens, tais como os papéis de cada um dentro da trama. Assim, pulamos todo aquele primeiro ato desgastante que normalmente os longas (especialmente os brasileiros) costumam ter. E isso seria um elogio se desconsiderássemos o restante da obra. Com a necessidade notável de apressar o andar da carruagem, o projeto perigosamente salta em direção ao estereótipo acentuado: os personagens agem da forma mais óbvia possível para que supram a falta de explicação aprofundada que poderia estar no primeiro ato. Por exemplo, o desejo desenfreado de Ana por tecnologia é algo citado nos primeiros minutos do longa. E isso inevitavelmente voltaria a aparecer, já que de certa forma é o ponto central do filme.

No entanto, relembrar esse aspecto por meio de ações furtivas da personagem é diferente de citar a todo momento esse elemento. A protagonista age a todo momento como a garota agonizada por não ter um aparelho telefônico, chegando a brigar com uma garota para que a deixe usar o celular (e isso acontece duas vezes!). Isso torna as ações da personagem repetitivas, de modo que parece mais um deboche com o público. Ora, já percebemos esse desejo compulsivo de Ana, então vamos continuar a história? construir novas ações para a personagem que, pelas entrelinhas, relembrem essa dependência? Em outras palavras, acelerar a história para que ela não fique desgastante é um grande feito, entretanto se for para tratar o telespectador como alguém que não é capaz de entender a narrativa apenas com um comentário ou ação nas primeiras cenas, seria melhor que tivesse um primeiro ato tradicional.

De mais, a crítica principal é ofuscada pela presença desnecessária de um romance que rouba a cena e da transição repentina da personalidade de Ana. Quando a protagonista chega no sítio, por exemplo, ela está completamente irritada. Dois dias depois ela é demonstrada sorridente e alegre, aproximando cada vez mais suas relações com o avô que até umas horas atras era representado como um sentimento de repulsa. Detalhe que isso fica ainda pior quando lembramos do estereótipo citado: sequências anteriores de Ana aparecer feliz no novo ambiente, ela estava brigando desesperadamente com o avô para que conseguisse ir à cidade e acessar a internet. Ora, se Ana era literalmente uma dependente da tecnologia, e as cenas queriam ressaltar isso, não faz sentido nenhum essa transição abrupta de personalidades. Mas é claro que isso tem um propósito: o marketing (que, destaco, é uma das artimanhas  mais podres que o cinema pode oferecer).

É notável a vontade dos roteiristas em banalizar a história de modo que se tornasse mais um romance adolescente, que certamente atrairia um público maior que uma narrativa onde o tema central é uma crítica. Assim, encontramos o amor sem sentido e mal construído de Ana e João (André Luiz Frambach), que claramente é só uma ação de marketing a fim de atrair o público infanto-juvenil. O maior problema, entretanto, é que isso destrói completamente a ideia inicial do longa, e tudo a partir de então passa a rodar em torno desse núcleo. Até o desfecho é fruto desse romance forçado, de modo que a dependência tecnológica da protagonista não é resolvida e, enfim, termina sem resposta. 

Ao menos todos os personagens tem boas atuações, e os cenários também não deixam a desejar. As caracterizações estão perfeitas (talvez impecáveis) e encontramos uma boa direção de fotografia. Mesmo com algumas dificuldades em visualizar o que estava escrito nas telas dos celulares, é inevitável que o ponto forte desse filme está na produção. Infelizmente, a boa escolha da parte técnica é atrapalhada por roteiristas que forçam estereótipos pois acham que o espectador é burro; além de se renderem a momentos toscos a fim de atrair mais público para a obra.

Modo Avião – Brasil, 2020
Direção: César Rodrigues
Roteiro: Alice Name, Bomtempo, Alberto Bremer, Jonathan Davis, Renato Fagundes
Elenco: Larissa Manoela, Erasmo Carlos, André luiz Frambach, Edu D’Azevedo, Nayobe Nzainab, Katiuscia Canoro, Dani Ornellas, Adriano Fanti
Duração: 96 minutos.

Crítica | Doctor Who – 12X08: The Haunting of Villa Diodati

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  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Whoclique aqui.

Eu vou começar dizendo que ainda não ouvi Mary’s Story, áudio da Big Finish que faz parte de um combo de 4 aventuras em sua Série Mensal de Doctor Who, sob o título guarda-chuva de The Company of Friends (BF #123). Esta história se passa exatamente no mesmo dia que The Haunting of Villa Diodati, e tem gerado certo desconforto ente os espectadores da BF, o que entendo perfeitamente. Eu gostaria que pelo menos houvesse a indicação de que a Doutora apagou a mente dessa trupe toda, o que pode ter acontecido em elipse, claro, mas a gente não sabe ao certo. De todo modo, é sempre possível encontrar um caminho sólido para adequar paradoxos e contradições desnecessárias (e para ser franco, bem desrespeitosas, já que a BF é um baú de ouro oficialmente licenciado pela BBC para trabalhar com Doctor Who) entre os áudios e a série. Uma coisa é certa: não será a primeira e nem a última vez que isso acontece. Uma lástima, é verdade. Mas é aquele ditado: “tudo, não terás“.

Quando eu descobri o título desse episódio, algumas semanas antes dele ser exibido, eu vibrei de emoção. Trata-se de um momento precioso na História da Literatura Universal, quando Percy Bysshe Shelley, Mary Shelley, Lord Byron e John William Polidori (acompanhados da irmã adotiva de Mary, Claire Clairmont) se reuniram na Villa Diodati, próximo ao Lago Léman (aqui, Lake Geneva), na Suíça, em junho de 1816. Do “concurso literário” proposto entre os amigos nesta ocasião, saíram diversas produções assustadoras, das quais entraram para a história O Vampiro, de Polidori (inspirado em O Fragmento, de Byron, rascunhado na ocasião) e principalmente Frankenstein, de Mary Shelley. Para amantes da literatura gótica, especialmente em suas raízes, esse é o tipo de episódio que a gente vê com um brilho macabro nos olhos. E que bom que a roteirista Maxine Alderton acertou a maior parte do tempo naquilo que ela se propôs contar.

O Time-TARDIS chega à Villa Diodati com um propósito que o texto explica mal e parece que não sabe bem como fazer valer no início. Para nossa sorte, o desconforto passa rápido e de maneira até que bastante orgânica eles começam a experimentar (juntamente com os residentes) coisas sobrenaturais. Há uma vibe interessante de Ghost Light aqui e toda a história de terror tem solidez o bastante para se sustentar, tanto que até a aparição do Cyberman solitário, eu estava achando a obra um interessantíssimo e divertido filler. A surpresa, porém, foi muito boa. Ver um dos plots do ano ligado ao que parecia ser apenas uma viagem solta da Doutora foi uma das coisas mais legais em termos de encadeamento narrativo nesta temporada, sem contar que o episódio em si tem uma direção muito competente na criação dos espaços de terror, misturando fantasmas ao imaginário total de “casa assombrada“, algo que tem uma explicação ainda mais interessante e um mistério a tiracolo (tadinho do Graham, todo chocado porque viu fantasmas).

A movimentação dos personagens na mansão, a belíssima direção de fotografia e o progressivo elemento de medo nos leva para um ótimo final, que traz a Doutora fazendo um baita discurso enraivecido, plenamente coerente com sua personalidade (dá vontade, não é, Chibnall e Charlene James? Vê se aprendem a não descaracterizar e desrespeitar a personagem, can you hear me?) e apostando alto para salvar uma vida e em seguida, desfazer as consequências de seus atos. Meu impasse com esse episódio está no tratamento final desse plano. A Doutora mostra um pouco a Percy como ele iria morrer (de fato, ele morreu afogado) e engana o dispositivo vivo dentro do poeta, que sai do corpo na mesma hora. A questão é que não há nenhum indício de que a Doutora apagou a memória de Percy, e isso é problemático em tantos níveis que não vou nem começar a escrever. Eu falei no começo da crítica que a gente pode encontrar caminhos para justificar algumas coisas da série, mas por favor, isso não é um “simples” problema de resolução harmoniosa para paradoxos, contradições e outras escolhas difíceis de se explicar à primeira vista. A Doutora mostra e reafirma (pedindo desculpas ao poeta pela espiada trágica do futuro!) algo que ele não deveria ver de jeito nenhum e parece que as coisas ficam por isso mesmo. É complicado… quando não é uma coisa, é outra.

Está claro agora que abrimos a porta de entrada para um Finale de temporada que tomará os dois episódios restantes deste 12º ano do show. Estou curioso e ao mesmo tempo apreensivo pelo que Chimbs nos trará adiante. Já vou colocar minha barba de molho. A coisa vai esquentar.

Doctor Who – 12X08: The Haunting of Villa Diodati (Reino Unido, 16 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Maxine Alderton
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Lili Miller, Jacob Collins-Levy, Nadia Parkes, Maxim Baldry, Patrick O’Kane, Lewis Rainer, Stefan Bednarczyk, Sarah Perles
Duração: 45 min.

Crítica | Mother – A Busca Pela Verdade

Mother – A Busca Pela Verdade é um filme que caminha por um trajeto longo de angústias e autoavaliação. Ao longo dos 128 minutos de projeção, adentramos na vida de personagens com existências sofridas, tomados por sentimentos nada nobres, ocasionados por conta dos choques diários entre pessoas com desejos e vontades discrepantes, cada uma em busca de preenchimento e satisfação. O que podia ser uma trama policial repleta de mecanismos investigativos torna-se um imbricado jogo de espelhos onde a verdade parece refletida a todo instante, mas as surpresas insistem em nos sacolejar constantemente.

Nada é exatamente o que parece e a sensação ao sair da sessão é uma mescla de piedade, perplexidade e agonia. Dirigido por Bong Joon Ho, cineasta que teve como guia o próprio roteiro, escrito em parceria com Park Eun-Kyo,  Mother – A Busca Pela Verdade demonstra uma relação maternal de total entrega, haja vista a condição do filho da protagonista do título, uma mulher que sabe só ter ao filho, e o garoto, mesmo diante de suas dificuldades cognitivas, sabe que tem apenas a mãe num mundo cruel e segregacionista em relação aos que fazem parte de grupos desfavorecidos da famigerada regra padronizada da “normalidade”.

O ponto de partida para a história investe num clima tenebroso. A “mãe” precisa sair em busca de resolução para um caso que envolve o seu filho, jovem acusado de ter assassinado uma garota. Por meio de conflitos coesos diante de uma história bem amarrada dramaticamente, acompanhamos a saga de uma mãe dedicada rumo ao “inferno” para tentar compreender os acontecimentos trágicos que a colocou, juntamente com o seu filho, numa situação tão desoladora.

Levado a assinar a sua culpa diante de algo que talvez não tenha cometido, o jovem acusado de cometer um crime abominável permite que a sua mãe desfile pela narrativa sem se tornar um estereótipo. Enquanto personagem de um filme que aborda, dentre tantos temas, as relações dentro de uma família composta apenas por dois membros, num dos exemplos de maternidade e dedicação total, Mother – A Busca Pela Verdade toca em feridas que não queremos saber que existem, protegidas pelos bálsamos que forçamos na vida. Diante da situação exposta.

Narrada por uma direção de fotografia eficiente, assinada por Hong Kyung-Pyo, a produção constantemente nos apresenta ao personagem de Kim Hye-Ja  num quadro aberto, solitária e pequena diante de uma situação grandiosamente sufocante. Ao longo de sua caminhada em busca de respostas para o obscuro fato criminoso que envolve seu filho, a personagem ganha contornos ainda mais profundos com a condução musical de Byeong-Woo Lee. A produção acerta também ao trazer a chuva como elemento narrativo, responsável por preencher os enquadramentos de melancolia, sem soar clichê ou forçosamente lacrimejante.

Lançado em 2009, Mother – A Busca Pela Verdade é um drama que retrata a maternidade sem dialogar com os padrões narrativos comuns ao cinema hollywoodiano, ambos interessantes, mas apontados aqui numa comparação inevitável por conta da quantidade de acessos que temos entre um modelo de indústria e outro. Sem aderir aos esquemas massivos, o filme apresenta detalhes além do sofrimento e das lágrimas, articulando outros momentos da vida de duas pessoas que sabem ter apenas um ao outro. Triste, profundo e reflexivo.

  • Crítica originalmente publicada em 10 de maio de 2019.

Mother – A Busca Pela Verdade — (Madeo) Coreia do Sul, 2009.
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Park Eun-kyo
Elenco:  Jin Ku, Kim Hye-ja, Won Bin, Joon-ho Bong, Park Eun-kyo, Park Wun-kyo, Jae-Won Choi, Park Tae-joon, Woo-sik Seo
Duração: 128 min.

Crítica | Homeland – 8X02: Catch and Release

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Homeland é uma obra de ficção, claro, mas a série sempre primou pelo realismo, especialmente no que se refere à intrincada geopolítica que procura abordar. E a derradeira temporada, talvez a primeira a mergulhar de cabeça na desejada paz no Oriente Médio, vem para primeiro discutir exatamente que paz é essa que todos dizem que almejam, usando isso como pano de fundo para momentos de tensão que explodem precisamente logo nesse segundo episódio e que efetivamente arma o que está por vir.

Sempre abracei um conceito que meu pai me ensinou, de que o Homem é, fundamentalmente, um ser beligerante. Somos formados e moldados por conflitos tanto em escala global quanto em escala pessoal e a paz é algo que mais se parece com utopia, com algo que precisamos dizer que queremos sob pena de enlouquecermos, mas que, lá no fundo, sabemos ser impossível. Uma visão pessimista, sem dúvidas, mas olhando apenas para o presente e ao nosso redor, diria que é uma visão realista, especialmente no que se refere ao Oriente Médio. E Catch and Release deixa isso dolorosamente evidente quando afirma que mesmo os americanos só querem a paz como veículo para a retirada estratégica de suas tropas e não como algo verdadeiramente duradouro. Talvez Saul Berenson mantenha acesa a chama da esperança e Mandy Patinkin está incrível em passar esse sentimento quando ouve a gravação da conversa telefônica de Haqqani com seu filho que Max obteve, mas tudo ao redor dele conspira contra, desde seu próprio governo, passando pelos afegãos, pelos paquistaneses, pelos russos e, claro, pelos próprios talibãs.

A teia que esse episódio joga nesse panorama impossível é muito bem trabalhada, com cada elemento sendo uma decorrência lógica do que vimos em Deception Indicated e do que efetivamente vemos no mundo real. Carrie precisa recorrer à chantagem para fazer com que o vice-presidente afegão volte atrás em sua declaração de que não soltará os prisioneiros talibãs, condição fundamental para as conversas de paz continuarem, a filha do presidente afegão conspira para derrubar de vez as tratativas com um atentado à Haqqani que coloca Saul em maus lençóis e, por trás disso tudo, os russos, representados pelo ardiloso Yevgeny Gromov, manipula tudo por trás, inclusive – e especialmente – a própria Carrie. É um labirinto complexo que, muito propriamente, nos impede de ver qualquer saída minimamente razoável, já apontando para um final que não consigo imaginar que seja sequer próximo do feliz.

E é disso que Homeland é feito, essencialmente: cenários impossíveis que até ganham resoluções “cinematográficas” para agradar seu público, mas que nunca são fáceis ou mesmo agradáveis. O maior exemplo disso é o final da temporada anterior que forçou Carrie a abrir mão de sua filha e a entregar-se ao cativeiro russo, retornando completamente destruída psicologicamente, com efeitos que, felizmente, foram carregados para a última temporada como parte de seus pilares. Duvidar do que a agente enregou ou não aos russo é um brilhante retorno à Trilogia Brody, mas ter Yevgeny de volta como personagem ativo é esfregar sal da ferida, algo que fica ainda mais terrível quando as imagens e sons do passado que até agora nos deixaram ver parecem indicar que o russo e Carrie tiveram uma relação mais próximo ainda do que só carrasco e prisioneira, mas como resultado da privação de Carrie de seus medicamentos, não como algo genuíno.

Saindo do eixo central de personagens da série, devo dizer que tenho gostado muito da forma como a agente Jenna (Andrea Deck) vem sendo usada na temporada. Apresentada como alguém ainda verde, o que automaticamente manteve Carry distante, aqui ela tem seu papel expandido e percebemos que ela realmente ainda tem muito a aprender, logo estragando a entrevista falsa com Samira Noori (Sitara Attaie), nome tão gentilmente cedido por Yevgny. Tomara que Jenna (e possivelmente até Samira) ganhe crescente destaque na temporada. No lado paquistanês, a traiçoeira Tasneem (Nimrat Kaur), personagem que foi apresentada na série lá na 4ª temporada e que fez gigantescos estragos, continua com um papel pequeno, mas essencial que também espero ver expandido em razão de seus laços com Haqqani e com o talibã.

Mesmo que eu mantenha minha posição inicial de que eu gostaria de ter visto mais de Carrie Matheson no hospital militar antes de ir para campo, é inegável que não teríamos um episódio dessa categoria para armar a temporada sem a agente bipolar em Cabul. E o melhor é que, aqui, tivemos Saul também em ação, resultando em seu sequestro (de novo!) por Haqqani e uma simpática coronhada de AR-15. Se é verdade que, se queremos paz, devemos nos preparar para a guerra, Catch and Release fez isso muito bem!

Homeland – 8X02: Catch and Release (EUA, 16 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie
Duração: 42 min.

Crítica | A Estrada da Vida

estrelas 5

A Estrada da Vida marca o primeiro grande sucesso de Fellini e, também, o começo de uma trilogia existencialista do diretor que seria seguida de A Trapaça, terminando em Noites de Cabíria. Os três filmes contam com Giulietta Masina, esposa de Fellini por toda a vida, em papel de grande destaque e usam personagens como símbolos da luta para a recomposição moral da humanidade.

Masina vive a humilde e inocente Gelsomina, que é vendida por sua mãe para o brutamontes Zampanò (Anthony Quinn), um artista de circo que vive em sua carroça fazendo pequenos shows em vilarejos, normalmente envolvendo força bruta, como quebrar correntes e coisas do gênero. O contraste é evidente: fragilidade x força bruta, inocência x malícia, sonhos x realidade. Os dois passam a viajar e viver juntos, sempre com Zampanò desdenhando cruelmente Gelsomina e Gelsomina seguindo Zampanò como um cordeiro.

No meio dessa relação, surge Il Matto (“o bobo”), vivido por Richard Basehart. Ele é o artista galante que Zampanò odeia sem nenhuma razão específica além do evidente contraste entre os dois. O espectador logo percebe que uma tragédia se avizinha e que a maior vítima, provavelmente, será a frágil Gelsomina.

Mais do que uma história linear, A Estrada da Vida é um estudo da alma humana e da necessidade que temos de salvação. Gelsomina acha que Zampanò pode ser sua salvação e nós sabemos que isso jamais poderia acontecer. O coração tolo da inocente mulher não pode ver como Zampanò é cruel e despido de qualquer forma de amor. Ele é a força bruta, o ser humano em sua pior forma. Ela, ao contrário, é o ser humano puro, despido de maldade, completamente à mercê de gente como Zampanò. E o bobo, com suas atitudes brincalhonas, mas não inocentes, também traz um aspecto do ser humano: a sabedoria. Mas é uma sabedoria trágica.

Masina, saindo de seu curto papel da prostituta Cabíria em Abismo de um Sonho de Fellini, papel esse que viria a maravilhosamente expandir em 1957, tem uma atuação absolutamente irretocável. Ela transparece delicadeza, inocência, tristeza e compreensão (e perdão) como ninguém jamais conseguiu repetir. Sua Gelsomina é uma espécie de versão feminina de Carlitos, de Charlie Chaplin, mas sem a fisicalidade do papel. Sabemos que ela é o que representa sem que seja necessária uma só palavra.

Da sua maneira, o mexicano Anthony Quinn, que dez anos depois viria alcançar seu mais inesquecível papel em Zorba, o Grego, faz uma espécie de Hércules de filmes B. Grandalhão e forte, ele arrebenta correntes inflando o peito e corações com suas palavras. Ele é uma força da natureza completamente sem controle. Uma locomotiva sem freios que só pausa para pensar e refletir quando já é tarde demais, quando sua única chance de salvação vai embora. E, mesmo assim, Fellini consegue um feito extraordinário no tocante final de A Estrada da Vida, ao usar a câmera para dar ambiguidade a esse personagem tão terreno, tão maltratado pela vida. Zampanò ama ou não ama Gelsomina? Ele está mesmo arrependido do que fez? Entende o que ele é? Essas perguntas ficam para o espectador pensar.

Aliás, a beleza desse filme é nos despir completamente como seres humanos e brincar com nossos sentimentos mais escondidos. E a música de Nino Rota, solidificando sua profícua e longa parceria com Fellini, é um elemento importante para ajudar na contemplação do ser humano. Forte ao representar Zampanò, Rota não nos deixa esquecer de sua contrapartida mais frágil e flutua entre leitmotifs sem nunca perde o rumo, arrancando lágrimas sem muito esforço.

O filme foi justamente laureado com diversos prêmios, entre eles o Leão de Prata de Veneza, sendo o primeiro dos quatro Oscars do diretor na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Mas nenhum prêmio é capaz de eficientemente refletir a importância de A Estrada da Vida para o cinema moderno.

A Estrada da Vida (La Strada, 1954)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano
Elenco: Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart, Aldo Slivani, Marcella Rovere, Livia Venturini
Duração: 108 min.

Crítica | Imagens do Além

Os espíritos orientais são vingativos e as tantas refilmagens produzidas pelos estúdios hollywoodianos desde O Chamado comprovaram a eficácia e o desastre deste tipo de releitura cinematográfica. Alguns filmes foram bem concebidos e conseguiram ganhar a sua formatação ocidental, tornando-se independente do ponto de partida. Outros, como Imagens do Além, falham por não conseguir tornar a sua existência um exercício de linguagem que consiga ir além dos elementos estéticos. No que tange aos seus atributos dramáticos, a produção peca bastante na organização estrutural do argumento, texto base que por sinal, já veio pronto para os realizadores. Refilmagem de Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado, a narrativa em questão traz, como já apontado, bons momentos visuais, mas pouco magnetismo dramático.

Diante do exposto, sustos provenientes de truques com a profundidade de campo ou saltos mediante os tantos ferrões musicais não permitiram que Imagens do Além se tornasse um filme além do entretenimento ligeiro. Lançado em 2008, sob a direção de Masayuki Ochiai, cineasta guiado pelo roteiro adaptado por Luke Dawson a trama basicamente nos apresenta todos os traços vistos na versão “original, isto é, um fotógrafo, desta vez, profissional, é perseguido por um fantasma que faz parte de seu passado. A entidade, em busca de retaliação, clama por justiça e não vai sossegar até cumprir a sua missão destrutiva, tal como tudo que lhe foi feito enquanto ainda era viva. Subjugada, a assombração vaga em busca de vingança.

O casal da vez é Ben (Joshua Jackson), fotógrafo de moda, jovem atraente e muito simpático, cuidadoso com a sua noiva, Jane (Rachael Taylor), mulher dedicada que tenta se desenvolver diante do desafio proposto logo após a sua festa de casamento. A partida, junto ao noivo, para Tóquio, pois ele não pode negar uma excelente proposta de trabalho em sua área, ofertada graças aos seus contatos. No caminho para um chalé que tem o Monte Fuji como plano de fundo, os recém-casados supostamente atropelam uma mulher. Acidentados, desmaiam e quando acordam, a vítima sumiu. Terá sido ilusão ou ela foi socorrida por alguém?

Interessante como a questão cultural se estabelece neste trecho. Na versão tailandesa, não há muitos diálogos preocupados com respostas. A entidade aparece, há o acidente, mas as perspectivas não são muito didáticas, digamos, com respostas que ficam por conta da própria participação do espectador, ativo, diferente da versão estadunidense, mais organizada para não deixar qualquer traço sem explicação. Atordoada com o acontecimento, Jane não consegue viver um dia sequer em paz. Ela rememora constantemente o acidente e a culpa por supostamente ter ceifado a vida de alguém. Junto a isso, presenças sobrenaturais insistem em deixar o seu cotidiano mais assombroso, sempre a aparecer nas fotos, reflexos do espelho, etc.

Inicialmente os envolvidos enxergam como um problema tecnológico, mas não demora para o espírito deixar recados mais incisivos. Jane, desconfiada de que há algo muito errado, inicia a sua investigação me torno da presença e descobre se tratar de Megumi (Megumi Okina), uma das mulheres do passado de seu marido no Japão. Depois de muita insistência, ela descobre que eles tiveram um problema no relacionamento, pois a jovem apresentava comportamento semelhante ao que o campo da psicologia chama de transtorno borderline. Eles se juntam, conseguem contato com a mãe da jovem, descobrem que o cadáver ainda habita o lar da senhora que não aceita o suicídio inexplicado da filha, etc.

Após convencer, o funeral é agendado e as respostas parecem suficientes. Mas os problemas estão longe de acabar, como contemplaremos, haja vista a morte de Adam (John Hensley) e Bruno (David Denmon), dois dos maiores amigos de Ben em Tóquio, personagens que descobriremos, também fazem parte da história que envolve Megumi. Assim, não é apenas o marido de Jane que está na lista, mas outras pessoas por detrás de uma história macabra, explanada pelo espírito que se comunica com a jovem por meio de movimentos em fotografias. Ela leva Jane até o esconderijo secreto de imagens de Ben.

É quando ela e nós, espectadores, somos informados que os planos de Ben para afastar a namorada persecutória nipônica incluía um ritual de sedução, isca para a moça ser abusada por seus dois amigos. Fotografada, ela é ameaçada pelo trio e perturbada, some, tornando-se mais uma das tantas vítimas diárias de suicídio. A diferença é que na dinâmica narrativa de Imagens do Além, ela não descansa até cobrar a sua dívida, o que envolve a morte dos amigos de Ben e a presença constante em seus ombros, o que justifica as dores no pescoço do rapaz ao longo do filme. Sem boas perspectivas para quem participou das atrocidades, a única que escapa da tragédia vingativa é Jane. Ademais, os amigos morrem e o ex-marido da jovem é condenado a ficar internado numa instituição psiquiátrica com o encosto colado em suas costas para o resto da vida.

Como apontado na abertura, esteticamente, Imagens do Além cumpre bem o seu papel. A direção de Katsumi Yanagijima funciona bem, preocupada com os contrastes, adequada nas cenas noturnas, um grande defeito em muitos filmes de terror, excessivamente escuros, além de empregar o ponto de vista de forma eficiente, sempre a nos promover um espetáculo de sustos. Os efeitos sonoros de Scott Jennings fornecem os ruídos necessários para a sensação de horror nas cenas de impacto, num trabalho “musical” paralelo ao que Nathan Barr faz em sua condução na trilha sonora, bastante intrusiva. Os efeitos visuais da equipe de Hajime Matsumoto cumprem o trabalho de criação fantasmagórico, em simbiose com o design de produção cuidadoso de Nofirumi Ataka, em especial, o setor de maquiagem, responsáveis por não deixar a assombração subserviente aos processos criativos em computadores.

Imagens do Além (Shutter) — Estados Unidos/Japão, 2008
Direção: Masayuki Ochiai
Roteiro: Luke Dawson
Elenco: David Denman, John Hensley, Joshua Jackson, Megumi Okina, Rachael Taylor
Duração: 85 min.

Crítica | Convenção das Bruxas

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Marco dos anos 1990, Convenção das Bruxas é responsável por deixar uma geração inteira de crianças traumatizadas, ao contar a história de um grupo de feiosas, carecas e malvadas que tinham como plano final — apresentado durante o filme — transformar todas as crianças do Reino Unido em… ratos.

O time responsável pela obra tinha a chave do sucesso, a começar pela fonte original: o livro homônimo do grande Roald Dahl, escritor de uma série de obras que geraram filmes de destaque como Gremlins, James e o Pêssego Gigante, Charlie e a Fábrica de Chocolate, Fantástico Sr. Raposo, O Bom Gigante Amigo e Matilda. Na direção, o escalado foi o experiente britânico Nicolas Roeg, que tinha no currículo destaques como Inverno de Sangue em Veneza (1973) e O Homem Que Caiu na Terra (1976). E na produção, a mão criativa de ninguém menos que Jim Henson, o que deu ao filme o seu teste de resistência ao tempo, ao menos no que diz respeito ao fator medo.

A adaptação de Allan Scott é inicialmente didática ao limite do absurdo, muito mais lenta do que deveria e sem nenhum tipo de esforço para fazer com que o público se aproxime da avó Helga (Mai Zetterling) e do neto Luke (Jasen Fisher), um problema que domina o primeiro ato inteiro do filme, enquanto a anciã conta ao menino histórias de bruxas da maneira menos interessante possível. O que mantém a atenção do público ativa é a representação disso na tela, com takes fantásticos dentro da casa de uma das bruxas na época de Helga e uma das primeiras coisas que me apavorou quando vi esse filme ainda criança: o aprisionamento de uma menina num quadro pintado pelo próprio pai. O bom disso é que passada a desnecessária confusão sobre o destino da avó e do neto + sua chegada ao Excelsior Hotel, constatamos que a pior parte do filme está “apenas” em seus primeiros 30 minutos. Sobra, portanto, uma hora inteira para nos encantar, assustar e provar o por quê do longa ser tão memorável.

SPOILERS!

Quando Luke sai para brincar com seus ratinhos e convenientemente acaba no auditório onde as bruxas farão a sua convenção, tanto o roteiro quanto a atmosfera do filme mudam bastante. A imposição da trilha sonora (esta, muito boa desde o início) crava o destino do menino e nos prepara para que ele seja descoberto a qualquer momento. Enquanto isso, dá-se algumas das cenas mais inesquecíveis de obras do gênero nos anos 90: a revelação da verdadeira aparência das bruxas (principalmente a da Rainha, interpretada por Anjelica Huston, com sua excelente e horrenda maquiagem que demorou 8 horas para ser feita), a exposição do plano e a transformação de Bruno (Charlie Potter) em rato. Tudo bem que Luke também terá a sua vez e é angustiante ver o ponto de vista dele diminuindo enquanto a Rainha Bruxa acena para ele, mas nada supera a transformação de Bruno. A montagem, os efeitos práticos, os bonecos utilizados na cena, a maquiagem no início da transformação, tudo é assustador e, pelo menos para mim, foi motivo de muitos pesadelos durante a infância — além do fato de eu genuinamente acreditar, depois de ver este filme, que uma das minhas tias era uma bruxa.

A base de fantasia da obra é desenvolvida com o suspense pelo que pode acontecer com Luke, enquanto procura colocar fim ao diabólico plano das bruxas, fazendo-as provar de seu próprio veneno. Analisando pontualmente a proposta e sua exibição, ainda no auditório, não estamos diante de nada genial ou mesmo verdadeiramente interessante. Seria mais assustador e de fato incrível se a proposta estivesse ligada ao aprisionamento das crianças em pinturas, por exemplo, mas mesmo sendo bobinha, a ideia é perfeita para gerar a trajetória heroica do ratinho-Luke (ainda mais tendo um hotel como cenário principal), onde vemos o toque de Midas de Jim Henson na animação dos ratinhos transformados, com destaque para Luke e para o rato demoníaco no qual se transforma a Rainha Bruxa, após comer a sopa com a fórmula fatal.

De uma referência bem filmada e bem colocada ao carrinho de bebê visto em O Encouraçado Potemkin (1925) até um final que divide bastante gente — foram filmados dois, um fiel ao livro, onde Luke continua ratinho até o fim da vida (o que eu prefiro) e o oficial, onde aparece a bruxa boa que o transforma novamente em criança — Convenção das Bruxas é o tipo de obra que causa imensa nostalgia e nos faz mudar de opinião sobre muita coisa a respeito da qualidade de seu enredo, mas mantém inalterada a noção de medo e ameaça que porventura tenha traumatizado o espectador em tenra idade. Um filme assustadoramente memorável.

Convenção das Bruxas (The Witches) — Reino Unido, EUA, 1990
Direção: Nicolas Roeg
Roteiro: Allan Scott (baseado no livro de Roald Dahl)
Elenco: Anjelica Huston, Mai Zetterling, Jasen Fisher, Rowan Atkinson, Bill Paterson, Brenda Blethyn, Charlie Potter,  Anne Lambton, Jane Horrocks, Sukie Smith, Rose English, Jenny Runacre, Annabel Brooks, Emma Relph, Nora Connolly
Duração: 91 min.

Crítica | Sonic – O Filme

A chegada do espinhoso Sonic em sua versão cinematográfica foi esperada por muitos fãs desde que os rumores ganharam forma e se transformaram em projeto sólido com agendamento para 2020. Os anéis e seus sons peculiares, os passeios velozes do nosso herói azulado por Green Hill, os embates com Robotinik e outros momentos das aventuras que algumas gerações acompanharam desde a década de 1990, nos jogos da SEGA, agora já podem ser conferidos em sua tradução intersemiótica assinada por Jeff Fowler. Nada contra os efeitos visuais, a construção live-action de Sonic, tampouco ao filme em si, adequado para a proposta na qual está inserido. O grande problema é a nossa expectativa, nostálgica demais, pois se você espera ver uma “adaptação” do videogame que esteja focada em detalhes vivenciados pela nossa relação passada com o joystick nas mãos, adianto que você, caro leitor, vai se arrepender profundamente.  E se arrepender por culpa exclusivamente sua.

Ao longo dos 99 minutos da aventura, acompanhamos os personagens criados por Naoto Ohshima, Hirokazu Yasuhara e Yuji Naka, adaptados dos games para a linguagem cinematográfica pelo roteiro da dupla formada por Patrick Casey e Josh Miller. Eles nos mostram a chegada de Sonic (voz de bem Schwartz), o porco-espinho veloz que chegou ao nosso mundo através do anel que lhe serve como portal. Aqui na Terra, habita a interiorana cidade de Green Hill, um local pacato que logo mais será o cenário para as loucas ações do Dr. Ivo Robotinik (Jim Carrey), personagem envolto numa roupagem do seu ator no modo anos 1990, isto é, muitas caras e bocas, histrionismo que chega na linha de ultrapassagem dos limites do que é engraçado. Sonic, com hábitos e visões diferentes do mundo ao seu redor, torna-se amigo de Tom Wachowski (James Marsden), carismático policial da região que está prestes a mudar de vida.

Com projeto para sair de Green Hill e comandar situações em que as pessoas de fato necessitem de sua ajuda, o personagem possui como necessidade dramática o interesse de imprimir mais significados na ficha de sua vida. Ele é casado com a doce e gentil Maddie Wachowski (Tika Sumpter), veterinária que lhe apoia nos projetos delineados para logo mais, planos que se modificam quando conhece o porco-espinho e decide se aliar em prol da defesa do mundo contra os planos maléficos do cientista louco que em alguns momentos, nos remete a Hitler, até mesmo numa breve referência musical. Assim, a dupla entrará num combate de tirar o fôlego, com direito aos já esperados diálogos cheios de piadas, cenas de ação frenéticas e efeitos visuais para deixar a plateia animada com a produção. Isso se você não for exigente demais.

Foi preciso menos de 30 minutos para me convencer de que Sonic – O Filme não é uma tradução digna do legado do game. Sabemos que o ponto de partida é apenas o personagem, pois um filme desse segmento não pode e nem deve ser uma cópia fiel do que lhe serve de material de base. No entanto, a música tema famosa é tocada num momento muito breve próximo ao final, os anéis, acredito, tornam-se a única referência direta dos games e apesar do carisma dos protagonistas, a narrativa carece de uma história que seja algo além do entretenimento para o público infantil ou experiência saudosista para marmanjos como eu, à beira dos 40 anos, nostálgicos em busca de memórias do passado onde os problemas reais eram transformados em alegorias para as nossas brincadeiras.

Ficamos à espera de um ritmo que não avança tão vertiginosamente como o próprio Sonic. E convenhamos, Jim Carrey está tão exagerado que em alguns trechos senti vergonha alheia de seu personagem farsesco demais. Para quem jogou Sonic, sabe que o vilão sempre foi a representação cabal da cultura do excesso. Exagerado, nada sutil, cheio de apetrechos para encher o caminho do porco-espinho de obstáculos. No filme, por sua vez, a caracterização beira ao excesso, numa busca por transformar o antagonista numa figura excessivamente idiota. De tão idiota, torna-se banal. Não fosse o já citado carisma dos protagonistas e os diálogos afiados de Sonic, cheio de referências aos ícones da cultura pop musical e cinematográfica, a narrativa iria naufragar vertiginosamente.

Ademais, o que encontramos em Sonic – O Filme é uma história genérica sobre um vilão destrutivo sendo combatido por uma dupla do bem. Parece a mesma produção de sempre no gênero aventura estadunidense, focado na salvação da humanidade e destruição do que é mal e vil. No desfecho, os créditos emulam inteligentemente algumas passagens das primeiras fases da versão em game, diurnas, com paisagens naturais como destaque. Como pesquisador e interessado nos tratados da tradução intersemiótica, sei que não devemos questionar qualquer filme pelo viés da “fidelidade”, pois nenhuma produção cinematográfica deve ou tem que ser a cópia da influência literária, musical, histórica, biográfica, etc. No entanto, esperamos alguma correspondência, algo que acontece de maneira tão diluída que não nos satisfaz enquanto pessoas em busca das memórias de uma era mágica, onde munidos do Mega Drive e do nosso desejo em jogar, adentrávamos no mundo de Sonic e viajávamos em sua trajetória lúdica.

Aos interessados apenas numa animação divertida sobre a luta entre o bem e o mal, o filme pode até funcionar, ou não, depende muito, principalmente do grau de exigência. Os efeitos visuais coordenados pela dupla Lindsay Adams e Caroline Adams, da Future Associate, não deixam a desejar em nenhum momento. A condução musical de Junkie XL também é eficiente, assim como a edição de Stacey Schroeder e Debra Neil-Fisher, um segmento importante para um filme repleto de cenas que pedem um ritmo mais frenético. Tudo isso, no entanto, pode não ser suficiente quando o espectador não tem a referência do personagem e acha tudo muito genérico, ou então, por conhecer a trajetória de Sonic, desejava maior relação com o universo de onde o porco-espinho foi adaptado. Não dá para saber. O que sei é que esperava ver alguma passagem pelo Cassino, um breve trecho ou referência ao âmbito das plataformas de petróleo, os obstáculos com magma, a metrópole ao estilo Fritz Lang das fases finais de Sonic 2, minha maior referência. Não teve, no entanto, não é o que diminui a qualidade do filme. É apenas o que não alimenta a minha faminta expectativa.

Sonic – O Filme (Sonic the Hedgehog) — Estados Unidos, 2020
Direção: Jeff Fowler
Roteiro: Patrick Casey e Josh Miller, Naoto Ohshima, Hirokazu Yasuhara, Yuji Naka
Elenco: Adam Pally, Bailey Skodje, Ben Schwartz, Breanna Watkins, Dean Petriw, Debs Howard, Elfina Luk, Frank C. Turner, James Marsden, Jeanie Cloutier, Jeff Sanca, Jim Carrey, Leanne Lapp, Lee Majdoub, Melody Nosipho Niemann, Natasha Rothwell, Neal McDonough, Nicholas Dohy, Shannon Chan-Kent, Tika Sumpter
Duração: 99 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | O Hospedeiro

Quero dizer, ela morreu, mas ainda está viva.

Depois do sucesso de Memórias de um Assassino, um drama policial atmosférico e assombroso, Bong Joon Ho partiu para co-escrever e dirigir nada menos do que um filme de monstro na melhor tradição de seus vizinhos japoneses, mas com assinatura mais do que própria. Nascia, então, O Hospedeiro, que se tornou a maior bilheteria da época na Coréia do Sul e, de quebra, revelou o diretor de vez para o ocidente.

Há primeiro que se aplaudir um cineasta que não descansa em berço esplêndido e mantem-se apegado a um tema ou a um tipo de filme. O salto que Bong Joon Ho dá de sua obra anterior angustiante e intimista para sua abordagem no que essencialmente é a premissa de Spectreman – um monstro criado pelos efeitos da poluição! -, mas sem os elementos “espaciais” e com muita crítica social e ambiental, além de estocadas nada discretas nos EUA, foi obviamente muito arriscada, mas novamente muito bem-sucedida.

O maior risco de todos era a oposição do orçamento razoavelmente apertado (algo como 11 milhões de dólares) com a escolha deliberada do diretor de despudoradamente mostrar seu “peixe gigante terrestre carnívoro mutante acrobata” em extensas e explícitas tomadas em plena luz do dia logo de cara, sem fazer o menor suspense, algo que imediatamente já separa O Hospedeiro de praticamente todos os filmes do gênero. Convocando os trabalhos da WETA e da The Orphanage, porém, Bong Jooh Ho fez o máximo com o dinheiro que tinha e o CGI do peixão acabou impressionando mesmo os mais cínicos, especialmente considerando o tempo de exposição do bicharoco diante das câmeras e da interação com humanos, algo sempre difícil. Pode ser que muitos achem que ele não envelheceu bem e isso pode ser verdade, mas é mais verdade ainda que isso pouco importa para a apreciação da obra.

Assim como em todos os filmes de Bong Joon Ho, a premissa da superfície é apenas o estopim para comentários sociais ferinos que, aqui, claro, ganham uma embalagem ambiental poderosa e óbvia como por vezes precisa ser. O roteiro, que se inspirou em um artigo de jornal falando sobre um peixe mutante encontrado no rio Han e também em um incidente real – retratado na sequência de abertura da fita – em que um médico legista militar americano lotado na Coréia do Sul mandou derramar centenas de frascos de formaldeído no esgoto, é repleto de críticas fortes à incompetência e descaso do governo coreano e carrega ecos do processo democrático pelo qual o país passara 20 anos antes, incluindo ao próprio ativismo político quando o texto transforma Park Nam-il (Park Hae-il), irmão do protagonista, em um anacrônico “protestante profissional” sem eira nem beira. E é claro que os Estados Unidos, a “potência maléfica” preferida de todos, é alvo de toda sorte de espancamento audiovisual, notadamente o tal médico legista da abertura, depois o outro que adora uma lobotomia e chegando no nada discreto “agente laranja” e à surreal tentativa de enganar o mundo com a fake news do vírus. No entanto, engana-se quem interpreta o filme apenas como anti-americano, já que isso seria um reducionismo de primário e o diretor pode ser tudo, menos bobo desse jeito. A crítica, ao contrário, é geral, ampla e irrestrita.

Claro que o destaque da obra – além da quimera – fica mesmo com Park Gang-du (Song Kang-ho estrelando o segundo longa seguido do diretor), um vendedor simplório de cabelo pintado que tem sua filha Park Hyun-seo (Ko Asung) capturada pelo monstro. É essa conexão entre os dois, estabelecida de maneira muito eficiente em apenas poucos minutos de projeção, que sustenta o lado dramático do filme mesmo quando Gang-du é retratado de maneira comicamente exagerada e teatral pelo ator seguindo um roteiro que exige exatamente isso do personagem, com Hyun-seo sempre corajosa e inteligente em seu imundo cativeiro subterrâneo. Diria, da mesma forma, que toda a relação familiar dos Parks, que evolui muito claramente ao longo dos 120 minutos com os três irmãos, ao final, formando uma equipe heroica lindamente clichê, é um prazer de se acompanhar.

Muitos comparam O Hospedeiro com Tubarão, mas a única comparação que eu considero que realmente procede é a antitética: enquanto o filme de Steven Spielberg é de queima lenta, esconde seu monstro e o usa homeopaticamente, o de Bong Joon ho é o exato oposto. De similaridade fica mesmo só o ótimo uso das críticas sociais, ainda que de ordens bem diferentes e o sucesso de bilheteria que as obras tiveram. Seja como for, os dois filmes marcaram época e é possível que O Hospedeiro torne-se tão duradouro no imaginário popular quanto Tubarão, ainda que nem de longe tão revolucionário.

Sem contentar-se com mais do mesmo, Bong Joon Ho, em sua terceira produção, pegou o gênero de nicho de “filme de monstro” e o virou de cabeça para baixo, mostrando que é sempre possível renovar abordagens. Basta criatividade e esforço, algo que o cineasta parece ter para dar e vender.

O Hospedeiro (Gwoemul – Coréia do Sul, 2006)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Won-jun Ha, Chul-hyun Baek
Elenco: Kang-ho Song, Hee-Bong Byun, Hae-il Park, Doona Bae, Ko Asung, Dal-su Oh, Jae-eung Lee, Dong-ho Lee, Je-mun Yun, David Anselmo, Martin Lord Cayce, Scott Wilson, Brian Rhee
Duração: 120 min.

Crítica | O Castelo no Céu

castelo no céu plano crítico animação

Após o grande sucesso de Nausicaä do Vale do Vento (1984), os realizadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, ao lado dos parceiros Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma formalizaram a parceria artística e fundaram o Estúdio Ghibli, em 15 de junho de 1985. O primeiro produto vindo dessa união apareceu já em 1986 e foi chamado de O Castelo no Céu, longa escrito e dirigido por Miyazaki que não apenas nos deixa bem claro os caminhos filosóficos do artista, como também lança as muitas sementes que se tornariam a tônica do Ghibli no decorrer dos anos — e aqui eu estou falando do belíssimo uso e composição da trilha sonora até a paixão pela aviação e a abordagem de temas que relacionam a humanidade, seu meio social e o mundo natural que o cerca.

A chave para o grande mistério da obra está nos seus gloriosos créditos de abertura. Há uma imediata indicação de que uma lenda está para ser contada, e o cineasta nos apresenta, em animação ao estilo de entalhe em madeira, a versão de “História da Civilização” para este Universo. Notem que a primeira coisa que aparece quando esse conto se inicia é uma força da natureza: o vento. Nos planos seguintes, vemos a humanidade fazer uso desse elemento, criar máquinas voadoras, desenvolver-se de modo grandioso e então conquistar os céus não apenas pelo voo, mas também colocando castelos, cidades inteiras na atmosfera. Uma catástrofe, porém, acontece (ao que tudo indica, uma grande guerra) e toda essa Era da Civilização cai por terra, abrindo as portas para uma outra, que com o tempo passa igualmente a dominar o céu. A ideia de ciclo, mesmo na condução da História e formação das sociedades está dada. E este conceito é uma das muitas recorrências não só nos longas do Ghibli, mas em obras reflexivas do cinema oriental como todo, gerando um tipo de abordagem temática (e filosófica) que conhecemos como cinema de fluxo.

O flerte do diretor com o steampunk nesse filme não é apenas estético. Ele propositalmente se baseou nas duas primeiras Revoluções Industriais, fez pesquisa geográfica, fotográfica e arquitetônica no Vale de Rhondda, no País de Gales (por influência de Takahata) e procurou ao máximo entrelaçar as reais conquistas humanas de um período de grandes transformações na Europa e depois no mundo, a um conceito maior, do homem com a natureza e das invenções do homem com todos os aspectos do espaço que ele ocupa + aquilo que ele constrói ou escolhe como essencial em suas relações interpessoais. O resultado? Um drama de busca por algo perdido e por uma identidade ancestral que o anime estrutura em bases fantasiosas ou místicas de um lado, e em uma base realista e crítica de outro.

Talvez por isso que o roteiro (infelizmente) não se preocupa tanto com detalhes contextualizadores para Sheeta (Keiko Yokozawa) e seu sequestro no início do filme. A colocação da família da garota naquela terra e o seu misterioso sequestro aparecem como um fato consumado, e o espectador precisa acompanhar a história a partir dali, o que pode gerar alguma confusão inicial pela ausência de informações. O mesmo impasse observamos no final, mas agora em relação à preciosa pedra, seus poderes e sua interação com Sheeta e com aquela civilização perdida. Entendemos que o Castelo no Céu que dá título ao filme é o mais antigo — por ser o único que restou — de um passado brilhante da humanidade nesse Universo, mas as interpretações ligadas ao sobrenatural ficam a cargo do espectador. Como o próprio roteiro brinca com narrativa bíblica, hindu (Ramayana) e faz ligações com As Viagens de Gulliver (1726), o espectador mergulha nessa missão e observa valores de diversas fontes se aglutinarem e darem sentido aos personagens, às suas ações e ao destino do mundo em que vivem.

Contrastando exteriores mais simples com interiores vitorianos muitíssimo bem detalhados (não só nos desenhos, mas também nas cores), o diretor faz em  O Castelo no Céu uma viagem de amadurecimento de dois jovens de origens distintas, mas com uma visão de mundo que abarca paz, amor e felicidade, cabendo aí o respeito àquilo que lhes garante a vida. Eles descobrem o gostam e o que querem para si, mas não sem presenciar uma grande destruição, aprendendo que reinar verdadeiramente sobre algo é deixar que este algo viva, mesmo que isso signifique libertá-lo, afastar-se dele para sempre e talvez nunca mais vê-lo.

“O castelo no céu” do filme é também aquela beleza ou riqueza que acende em muitos a ideia de possessão e exploração. O que define grupos ou pessoas é o que eles pretendem fazer (e como querem fazer) com esse precioso bem. Vejam que Pazu, o governo, os piratas e os soldados queriam chegar a Laputa, cada um com agendas diferentes, a maioria de linha predatória. Ter experiências, para alguns, não é o bastante: é preciso possuir, é preciso enriquecer explorando, é preciso exibir aos demais e justificar qualquer horror posterior apenas com a mentira civilizacional daqueles que matam a memória ou extinguem aquilo que lhes dá vida: “eu sou superior…”. No filme, aprendemos com Sheeta e Pazu que ter não necessariamente é a melhor coisa. Em algum momento será preciso separar-se dos amigos piratas e ser honesto consigo mesmo, dando sentido para o que foi aprendido na traumática jornada da vida, e ser feliz sem precisar destruir nada, nem ninguém.

O Castelo no Céu (Tenkû no shiro Rapyuta) — Japão, 1986
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Mayumi Tanaka, James Van Der Beek, Keiko Yokozawa, Kotoe Hatsui, Minori Terada, Fujio Tokita, Ichirô Nagai, Hiroshi Ito, Machiko Washio, Takuzô Kamiyama, Yoshito Yasuhara, Sukekiyo Kameyama, Ryûji Saikachi, Tarako, Eken Mine, Hôchû Ôtsuka, Toshihiko Seki, Megumi Hayashibara, Masashi Sugawara
Duração: 125 min.